A memória do horror e o voto civilizatório

Nas eleições, apresenta-se um candidato que aposta no esquecimento da barbárie vivida na pandemia da covid-19 sob o tacão de Bolsonaro. A opção dos movimentos sociais pela defesa radical da vida exige combatê-lo – e votar em Lula, pelo SUS e pela democracia

Por Túlio Batista Franco, Outra Saúde

Assistimos a uma disputa presidencial na qual há contra a candidatura Lula uma guerra híbrida, com intimidações, mentiras, manipulação algorítmica de dados, posicionamento oposicionista da mídia corporativa, e uma inegável ingerência estadunidense nas eleições. A memória do que as pessoas viveram neste país no período do governo Bolsonaro tem sido pouco enfática naquilo que ela tem de dramático: o extremo sofrimento a que o povo foi submetido. Seu legítimo herdeiro agora, o candidato oposicionista, traz a bagagem nefasta do cinismo, apoiado em mentiras e apostando no esquecimento. É um verdadeiro deboche à memória das centenas de mortes evitáveis na Pandemia de Covid-19. 

Voltamos ao tempo, este senhor magnânimo que carrega a tessitura da vida, onde ela é dinâmica e está sempre se movendo. É no tempo e espaço onde se conspira para a construção de futuros. E é o futuro que está em jogo nestas eleições: não só o meu e o seu, mas do país e de todo seu povo. E, novamente, o espectro do fascismo e da barbárie nos assombra, ameaçando esta e as futuras gerações. 

Diz o dito popular que “o tempo é senhor da razão”. O povo, na sua infinita sabedoria, quer dizer com isto que a verdade, e a justiça dos fatos, acabam aparecendo com o passar do tempo, independentemente de mentiras ou pressões do momento. É o que acontece com a experiência de triste memória do governo Bolsonaro, de 2019 a 2022. É difícil e sofrido lembrar dos ataques contra as universidades públicas e a ciência e tecnologia, o armamento de milícias, o medo e a morte a que submeteram as pessoas. Na saúde se viu também uma grande tragédia, com desfinanciamento, campanha antivacina, negacionismo da ciência. 

Numa tentativa vã de se fingir de “bom moço” na busca por votos, o candidato bolsonarista, que a tudo isto aprovou, age com o máximo cinismo, se valendo de mídias e redes de manipulação da opinião. Nos valemos da memória histórica, atualizando um fragmento daquele período: no amanhecer do dia 14 de janeiro de 2021, o país acordou com a notícia de que pacientes de Covid-19 morriam asfixiados por falta de oxigênio em hospitais de Manaus (AM). O cenário era de famílias desesperadas, a busca mortal por cilindros de oxigênio que não havia, cemitérios abarrotados, mortes diárias nos quartos, corredores, nas ruas. 

“O horror, o horror”, é o que me ocorre neste momento. A notória frase é do personagem Coronel Kurtz (Marlon Brando), ao final do filme Apocalypse Now (1979) do diretor Francis Ford Coppola. É só o que se consegue expressar diante de extrema crueldade como a que se via na Guerra do Vietnã à época – nos anos 1960 e 1970 –, e aqui da mesma forma. Com a diferença que, no Brasil recente, a crueldade era perpetrada por um projeto biopolítico de exposição massiva da população, incluindo crianças e idosos, a um vírus letal e à doença de Covid-19.  

O verdadeiro horror não é apenas a morte ou a violência física, mas a ausência de moral e a total falta de limites da mente humana. É este o ponto: o Brasil viveu uma guerra contra um vírus agressivo e letal com um governo negacionista, que se tornou sócio do vírus e se voltou contra a própria população que deveria proteger. O horror podia ser visto nos olhares aterrorizados, rostos desesperados, vozes embargadas, corpos violentados, na orfandade. 

Atualizar a memória restaura o tempo como senhor da razão, e serve como antídoto aos facínoras, que estão novamente à espreita, personificados na candidatura de oposição. Cinicamente, ao pedir votos, escondem o projeto de entrega do país, das suas riquezas e do seu povo aos interesses coloniais estadunidenses, em benefício de uma pequena elite brasileira. O campo do movimento sanitário nacional tem sido enfático na luta contra tudo isto, reafirmando sua defesa radical da vida.

Um compromisso com a vida

No último 28 de agosto, a Frente pela Vida realizou a 2ª. Conferência Livre, Democrática e Popular de Saúde, na sede da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), no Rio de Janeiro. 1.375 pessoas se reuniram anteriormente em encontros preparatórios da 2ª. Conferência Livre, em torno de 450 estiveram presentes na ABI, 1.500 a viram pelo Youtube e mais de 22 matérias foram publicadas na imprensa e sites das entidades nacionais de saúde discutindo a Conferência. 

Os debates e decisões da plenária da 2ª. Conferência se referiram a propostas para a política de saúde do Brasil, a serem implementadas pelo governo entre 2027-2030. Uma ampla participação de entidades, movimentos e pessoas, que aprovou diretrizes no seguinte sentido: a defesa radical da vida, o fortalecimento da democracia social, soberania digital popular, aumento do financiamento da saúde, orçamento participativo na saúde, aprovação da carreira interfederativa para os trabalhadores do SUS, fortalecimento do controle social do SUS, a questão climática e ambiental, políticas antirracistas, contra discriminação de gênero e outra qualquer discriminação. Estas propostas significam mais cidadania, mais direitos e participação popular na política de saúde. 

Sabemos bem que o presidente Lula, se reeleito, será o único entre os candidatos a abraçar a Carta Compromisso da Frente pela Vida e trabalhar com este poderoso movimento social para construir uma política de saúde que signifique a continuidade de construção e fortalecimento do Sistema Único de Saúde. 

O voto em Lula no dia 4 de outubro de 2026 é um voto civilizatório.

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