Uma luta anti-imperialista como nunca antes na história recente deste país exige explorar o medo para impedir a instalação do horror.
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“A eleição não é entre Lula e Flávio Bolsonaro. É entre Lula e Trump”.
Com esta singela frase, publicada no início da semana em sua página no Facebook, o professor Gilberto Maringoni resumiu o que está em jogo neste pleito: uma luta anti-imperialista como nunca antes na história recente deste país.
Os indícios já estavam claros desde pelo menos o primeiro tarifaço anunciado por Trump, no ano passado, e os apelos de Flávio Bolsonaro a que o presidente norte-americano agisse no Brasil contra o “crime organizado” da mesma forma como vinha fazendo no Caribe, atacando embarcações venezuelanas a pretexto de combate ao narcotráfico, até finalmente sequestrarem o presidente Nicolás Maduro e tomarem posse do petróleo do país.
Outros indícios, embora praticamente ignorados pela imprensa hegemônica, foram expostos na última terça-feira, 15 de setembro, quando o STF se reuniu para decidir se abriria processo contra o ministro Alexandre de Moraes. No dia seguinte, no programa Três Pontos, apresentado por Mário Kertész na Rádio Metrópole, o jornalista Bob Fernandes destacou a crítica do ministro Flávio Dino sobre a ameaça dos EUA de aplicar a Lei Magnistky contra três membros da Corte, mas ressaltou especialmente um detalhe que passou despercebido: o trecho da intervenção de Moraes que contestava a acusação contra si, afirmando que os metadados do relatório da Polícia Federal demonstravam que o documento não havia sido produzido pela instituição, “mas por agentes externos, pela forma de produção provavelmente estrangeiros, comprovando a tentativa de interferência estrangeira nas eleições brasileiras (…). O relatório foi aberto e finalizado no mesmo dia no computador da PF, ou seja, simplesmente inserido”.
No mesmo programa, Jânio de Freitas lembrou que, contemporaneamente, “a presença estrangeira no dia a dia da política eleitoral brasileira vem no mínimo do tempo da Lava Jato”, e que o ex-juiz Sérgio Moro precisaria ter sido investigado por suas relações com os EUA, diante das evidências das conexões entre ele e o grupo de procuradores chefiados por Deltan Dallagnol com representantes de entidades oficiais norte-americanas. “Foram 16 servidores americanos que vieram ao Brasil trabalhar com a Lava Jato no decorrer daquele processo. Dezesseis!”.
Tivéssemos uma imprensa digna desse nome – essa que se diz defensora do interesse público e da democracia, essa que afirma o jornalismo profissional como antídoto a fake news e desinformação –, estaríamos em melhores condições de enfrentar o golpe em curso e denunciar a flagrante intervenção da potência imperialista em nosso processo eleitoral. Mas esta imprensa é o que sempre foi: circunstancialmente acolhe o contraditório, mas nos momentos cruciais aciona o rolo compressor, porque é porta-voz do capital. E o capital, como já disse um certo alguém há mais de um século, não tem pátria.
Por isso, ainda que o exercício de crítica de mídia seja sempre necessário, é ocioso espernear contra os abusos, distorções e omissões dessa imprensa, mesmo porque a principal disputa se dá nas redes. Por isso é necessário agir pelas beiras, buscando informação com jornalistas que honram a profissão.
A manobra do ministro André Mendonça – o “pixuleco”, o “boneco eleitoral”, no dizer do ministro Gilmar Mendes –, que atropelou os procedimentos regulares de investigação e expôs relatórios inconclusivos da PF que indicavam o envolvimento de Alexandre de Moraes com o caso do Banco Master, jogou para o STF o centro das atenções desde o dia 1º de setembro, a pouco mais de um mês das eleições presidenciais. Não foi casual, como afirma Bob Fernandes: foi “de caso pensado, aquela articulação, o prazo, tudo, o vitimismo, o coitadismo, o estar orando às vésperas do 7 de Setembro, os pixulecos com o rosto dele na Avenida Paulista, isso é uma operação claríssima que tem óbvia repercussão aos milhões e milhões, no jogo de granjas e fazendas de celulares. Esse é o jogo. Isso é o pós: o que nós estamos vendo e que vamos ver daqui por diante. Essa disputa está se dando, como sempre, nas redes. É isso”.
O estrago promovido pela manobra de Mendonça já está feito, independentemente da ilegalidade de sua atuação e da decisão do presidente do Tribunal, que poderia ter protelado a apreciação do caso para reduzir seu impacto no processo eleitoral.
O STF está podre? Está, e não é de hoje, como está o Congresso, como estão as instituições, como está o “sistema”. Muito já se discutiu sobre esse problema da esquerda, de tentar sustentar a ruína das instituições que historicamente combateu porque sem elas, hoje, o combate é impossível, porque escancara as portas ao fascismo. Então, é preciso um mínimo de prudência nessa hora.
Com o pedido de vista que, afinal, produz esse efeito providencialmente protelatório, é urgente retirar o foco indevidamente posto no STF e redirecioná-lo para o que realmente importa neste momento crucial da vida política brasileira: o debate sobre a história passada e presente da vida dos candidatos, que é o que pode informar sobre a seriedade de seus projetos para o país. Quando existem.
No seu canal no Youtube, depois de traçar o histórico das negociações entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro para o suposto financiamento do filme Dark Horse, sobre o ex-presidente hoje preso, Bob Fernandes mostra por que toda a discussão em torno das denúncias de corrupção contra ministros do STF – não só Moraes, mas outros quatro, incluindo Mendonça – é fundamental, mas, neste momento, periférica: porque o que importa é discutir quem se propõe a governar o país.
Caso vencesse – caso vença… –, Flávio Bolsonaro já chegaria ao poder como refém dos EUA. Basicamente porque “as agências de inteligência de regulação dos Estados Unidos já sabem dos trajetos e destinos dos 12,3 milhões de dólares” recebidos para supostamente financiarem o tal filme. Mas essa avenida de subserviência foi aberta bem antes, com os pedidos de sanções contra o governo brasileiro, que não se limitam aos tarifaços ou à Lei Magnitsky, mas permitem ação militar no caso de combate a “organizações terroristas”, como foram classificados o PCC e o Comando Vermelho. Na carta enviada em 2 de junho deste ano ao secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, Flávio Bolsonaro elogia a medida e lhe põe à disposição sua equipe de transição, na hipótese de vitória.
Maior evidência de submissão aos interesses norte-americanos não poderia haver.
Mas isso já estava explícito quando Bolsonaro pai bateu continência para a bandeira dos Estados Unidos, durante sua campanha, em 2018. E foi eleito.
Ninguém se esquece da gigantesca bandeira norte-americana exibida na Av. Paulista, no nosso Dia da Independência do ano passado. E não é raro ver pessoas envolvidas por essas cores nas manifestações bolsonaristas.
“O que angustia é a inconsciência do eleitor brasileiro, a desinformação. O despreparo”, disse Jânio de Freitas no programa da Rádio Metrópole. “Não há instrumentos no Brasil para que a grande multidão dos eleitores saiba em quem está votando, seja capaz de fazer o chamado voto consciente. Nem as grandes questões chegam a esse eleitorado. Agora mesmo estamos vendo a dedicação do Lula na campanha ao tema soberania. Trump, ele fala no Trump a toda hora, que vai enfrentar o Trump, que tem enfrentado, o que é verdade… mas essa grande massa de eleitores está voando nesse assunto, não tem a menor ideia do que é soberania e como ela pode ser atingida, o que vai produzir de negativo no país. É uma inconsciência política… os sociólogos, os intelectuais chamam de falta de cultura política. Não é falta de cultura de política, é falta do mais simples conhecimento”.
Os adeptos de Bolsonaro não vão mudar, sabemos disso (e precisaríamos saber como surgiram e se consolidaram, mas esta é uma grande discussão). Porém há uma parcela, decisiva nesta eleição tão acirrada, que pode ser sensibilizada.
Será preciso traduzir popularmente o que significa soberania. Por exemplo, trabalhando as analogias banais com a invasão da própria casa, porque é mesmo disso que se trata. Inclusive para desfazer as ilusões que circulam pelas redes quanto à “inclusão” ao american way (como se ele fosse bom mesmo para os norte-americanos), quando se trata de submissão e exploração.
A campanha de Lula investiu equivocadamente na exaltação do legado do presidente, que indiscutivelmente existe, mas não está sendo reconhecido como em outros tempos. Porque os tempos mudaram, mas não só por isso – e essa é outra longa discussão que precisa ser travada, mas que precisa ficar para depois. Diante das urgências do momento, é fundamental explorar o medo. Exatamente como “eles” fizeram desde sempre, e não é de hoje: como Collor, em 89, dizendo que a classe média teria de compartilhar seus apartamentos com sem-tetos e que Lula confiscaria a poupança. Com a diferença de que, no nosso caso, não seria nada fake: o risco é desgraçadamente real.
Então, é preciso expor o terror que seria um governo B-01: o fim do pix, exigência de Trump, que afeta uma massa incalculável; a anunciada adoção da política motosserra de Milei, com a tragédia social decorrente e os protestos crescentes e violentamente reprimidos; a usurpação das riquezas nacionais – petróleo, terras raras etc –, que nos reconduz aos tempos de colônia de exploração; a anistia aos golpistas do 8 de Janeiro; a nomeação ao STF de pelo menos quatro ministros obedientes ao governo, que a essa altura já não teria freios jurídicos para fazer o que bem entendesse.
A pouco mais de duas semanas do primeiro turno, explorar o medo real que significaria o retorno de um Bolsonaro ao poder é a forma possível de evitar uma catástrofe que se estenderia por décadas.




