Umas caras terrivelmente de pau. Por Hugo Souza

Há uma cena do filme Ausência de malícia, de 1981, que algum ministro antimáfia do STF deveria exibir no plenário do tribunal, numa próxima “sessão do fim do mundo”.

No Come Ananás

“Por que ele quer que eu vaze isso?” pergunta-se em voz alta a repórter Megan Carter, do Miami Standard, mas só quando o editor-chefe do jornal já trabalha na matéria toda ela estribada no vazamento — um vazamento ostensivamente facilitado por um promotor com rabo e couro de predador oportunista. A cena é do filme Ausência de malícia, de 1981. Enquanto decide se escreve “fontes informadas” ou “fontes confiáveis”, se tasca “principal suspeito”, “suspeito-chave” ou só “suspeito” para referir o alvo da informação passada às escondidas, o editor dá de ombros para o ceticismo tardio da repórter. “Por que ele quer que eu vaze isso?” preocupa-se Carter. O chefe responde: “não dá tempo de tentar entender”.

Após a matéria ser publicada, a informação vazada seria desmentida, refutada, revelou-se improcedente, convinha apenas aos métodos heterodoxos, por assim dizer, de um promotor em busca de prestígio.

Em outro momento do filme de Sydney Pollack, Megan Carter, interpretada por Sally Field, diz assim a Michael Gallagher, personagem de Paul Newman: “Tenho 34 anos, não preciso ser cortejada”. Nada obstante, a repórter que já não é nenhuma jovenzinha é usada não uma, mas duas vezes para servir a interesses particulares, cruzados e inconfessáveis: logo de cara por promotores arrivistas, depois pelo alvo do vazamento ardiloso, Gallagher, que dedica-se à vingança depois que a matéria desastrosamente incorreta do Miami Standard arrasa seu negócio e leva sua amiga de infância ao suicídio.

É terrível a cena em que Teresa Perrone (Melinda Dillon) corre descalça pelos jardins da vizinhança, de manhãzinha, recolhendo de porta em porta a edição do Miami Standard com a notícia do aborto que fizera em segredo meses antes, em Atlanta, a mil quilômetros do sul da Flórida. Ela, católica devota e funcionária de uma escola paroquial. Hoje, Teresa Perrone teria de contratar um super hacker de Araraquara para derrubar uma miríade de blogs, portais e contas no Discord, antes de cortar os pulsos com uma lâmina de barbear.

Falar em línguas

Paul Newman, Sydney Pollack e Melinda Dillon já morreram. Sally Field tem 79 anos e acaba de ganhar um Emmy por Criaturas extraordinariamente brilhantes. Sua Megan Carter, pela qual recebeu uma indicação ao Globo de Ouro de 1982, pode até lembrar um pouco uma repórter brasileira, mas não muito, porque do mal de Carter — ausência de malícia — a criatura extraordinariamente ardilosa não morre, não. A quem serve este ou aquele vazamento, ou melhor, este (providencial) e não aquele (inconveniente): desse metiê, desse “jogo de omertà”, ela entende muito bem.

Mas há uma cena de Ausência de malícia que algum ministro antimáfia do STF deveria exibir no plenário do tribunal, numa próxima “sessão-bomba” ou “sessão do fim do mundo”. É uma cena do fim do filme na qual o procurador-geral assistente dos EUA chega a Miami enquadrando geral. Ele olha duro para o promotor-vazador do Departamento de Justiça, que de resto incumbira um agente de espionar o promotor público local, e pergunta: “como é que você investiga o promotor sem avisar o departamento?”. O promotor federal responde que “era só preliminar. Não tinha um caso concreto”. Lembra alguém?

Seria mesmo magnitski exibir no plenário Victor Nunes Leal, num telão, o procurador-geral assistente dos EUA dando 30 dias para o terrivelmente descarado promotor do DoJ apresentar sua carta de demissão. Era capaz de o “pixuleco eleitoral” arrancar os folículos pilosos e citar algum parágrafo, inciso ou alínea das Tábuas da Lei — as de Moisés — na língua estranha dos anjos.

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