Enquanto Kinshasa, capital do Congo, na África Central, registrou uma média de pior qualidade do ar do mundo com índice de 172,6 µg/m³, na plataforma IQAir, Manaus atingiu um pico extremo de 324,1 µg/m³, segundo o Selva. Esse nível deixou o ar da capital amazonense 20% acima do limite de segurança recomendado pela OMS para 24 horas (15 µg/m³). A origem da fumaça na capital amazonense vem de queimadas florestais descontroladas e de pastos. O Inpe contabilizou 3.240 focos de calor entre 1º e 23 de setembro de 2026 no estado. As autoridades ambientais estão inertes. Enquanto crianças e idosos estão entre os grupos mais vulneráveis à poluição de gases tóxicos, como o carbono
Por Nicoly Ambrosio, da Amazônia Real
Manaus (AM) – A fumaça tóxica das queimadas que encobre a região metropolitana de Manaus, nesta quarta-feira (23), colocou a capital amazonense como cidade com a qualidade do ar pior do mundo, ultrapassando o índice até então de Kinshasa, capital da República Democrática do Congo, na região da África Central, de acordo com o registro diário da plataforma IQAir, que classifica a poluição da atmosfera como muito insalubre à saúde humana.
O Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental (Selva), da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), registrou em tempo real a qualidade do ar, em Manaus, como péssima para a saúde às 6h da manhã com índice 324,1 µg/m³ (microgramas por metro cúbico).
Em Kinshasa o índice foi 172.6 µg/m³, segundo a plataforma IQAir que registrou a média da pior qualidade do ar hoje. Na capital do Congo, a poluição é resultado da queima residencial de carvão vegetal e de lixo, que liberam imensas quantidades de material particulado nocivo (PM2.5) na atmosfera.
A Organização Mundial de Saúde (OMS) estabelece que a concentração anual média de material particulado não deva ultrapassar o limite de 5 µg/m³ (microgramas por metro cúbico) para minimizar riscos à saúde. A média de 24 horas para este poluente é de 15 µg/m³.
Portanto, com um índice de 324,1 µg/m³, Manaus está com a poluição atmosférica 20% a mais do limite estabelecido pela OMS.

Conforme a Amazônia Real publicou, a pesquisadora Karla Longo, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o Amazonas, que está na estação seca, enfrenta um aumento das queimadas nas regiões leste e nordeste da cidade, incluindo municípios. A fumaça também vem do estado do Pará.
“O cheiro de fumaça mais intenso durante a noite e nas primeiras horas da manhã pode ser explicado pela combinação entre o horário predominante de ocorrência das queimadas, o transporte da fumaça e as condições da atmosfera. As observações de satélite indicam que as queimadas na região Norte ocorrem principalmente durante a tarde, quando as temperaturas são mais elevadas e a vegetação está mais seca. Essas condições favorecem a propagação do fogo e podem facilitar a colocação do fogo, muitas vezes em áreas de difícil acesso dentro da floresta”, disse a especialista em entrevista exclusiva à agência.
“Além disso, durante o dia, o aquecimento da superfície aumenta a turbulência e faz a camada limite atmosférica, a porção mais baixa da atmosfera diretamente influenciada pela superfície, se expandir. Isso favorece a mistura e a dispersão da fumaça. À noite, ocorre o processo inverso. Com o resfriamento da superfície, a camada limite atmosférica fica mais baixa e estável, reduzindo a mistura vertical do ar. Como consequência, a fumaça e os compostos responsáveis pelo odor podem permanecer mais concentrados próximos à superfície”, explica a pesquisadora.
O aumento da poluição do ar na região metropolitana de Manaus e no interior do estado acompanha a alta ocorrência de focos de queimadas no estado. Dados atualizados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) apontam 3.240 focos de calor no Amazonas entre 1º e 23 de setembro.
No acumulado de 2026, já são 5,7 mil focos, número 85% superior aos 3.113 registrados durante todo o ano de 2025. De acordo com o Inpe, os municípios que registram os maiores índices de queimadas no Amazonas neste período são Autazes e Manacapuru (que são da região metropolitana de Manaus), Apuí, Lábrea, Apuí, Manicoré e Novo Aripuanã.
À fumaça se somam também as temperaturas extremas. Na terça-feira (22), Manaus registrou a maior temperatura do ano, com 38,6°C, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), com sensação térmica que ultrapassa 40°.
Fogo no parque
A plataforma Selva vem registrando índices péssimos na qualidade do ar da capital do Amazonas desde o início do mês de setembro: dia 8 com 48,5 µg/m³; 9 com 118 µg/m³; 13 com 182,7 µg/m³; e dia 17 com 129,5 µg/m³.
Contribuiu para a fumaça que encobriu Manaus hoje um incêndio florestal, que iniciou no sábado (19) e só foi amenizado na terça-feira (22), no bairro indígena Parque das Tribos, território de contexto urbano, que fica na região do Tarumã-Açu, na zona oeste da cidade. Lá, o Selva registrou hoje a qualidade do ar péssima com um índice 209,6 µg/m³, às 6h36 da manhã.
Segundo relatos de moradores, o fogo avançou pela reserva florestal que fica no entorno das residências, deixando a população apavorada. Nas redes sociais, uma das lideranças, a professora Claudia Baré denunciou o avanço das chamas e a falta de apoio do poder público para controlar o fogo. “Eles [Corpo de Bombeiros] chegaram pela madrugada para amenizar o fogo. E ficou só aquela fumaça cinzenta. Incomoda muito essa fumaça que ficou com a cinza. Ficou muito mais quente do que já está. A preocupação é o fogo chegar, porque a fumaça já chegou”, relatou Cláudia Baré à Amazônia Real.
A professora disse que a fumaça impactou a saúde das crianças, idosos e moradores com diferentes comorbidades com doenças respiratórias. Outras pessoas sentiram mal-estar e estresse. O Parque das Tribos tem uma população estimada em 5 mil pessoas ou 860 famílias – sendo cerca de 120 idosos e 400 crianças.
“No Parque das Tribos tem pessoas que já vêm com sequelas da Covid e, quando chega um momento desse, com bastante fumaça, incomoda bastante. As pessoas chegam a passar mal com tanta fumaça”, disse Cláudia Baré.
Para Yassí Baré, que mora na segunda etapa do Parque das Tribos, próxima à área de floresta atingida pelo incêndio, os moradores mais vulneráveis à fumaça estão entre as principais preocupações da comunidade, principalmente gestantes, idosos, pessoas acamadas ou com deficiência e crianças.
“A preocupação maior são com as gestantes, idosos e acamados que moram nessa região próxima do fogo. Pessoas que não têm como se defender, crianças, recém-nascidos. É preocupante demais. O fogo está se alastrando e o Tarumã-Açu pede socorro”, alertou Yassí.
Ela conta que presenciou animais mortos pelo fogo. “Hoje nos deparamos com alguns animais mortos, como preguiças, jacurarus, cobras, infelizmente todos sem vida. Nossa fauna está indo embora, nosso verde está sendo consumido. É muita fumaça”.
Crianças e idosos em risco
De acordo com o pneumologista Mário Sérgio Fonseca, do Hospital Universitário Getúlio Vargas (HUGV), a exposição à fumaça pode intensificar os sintomas de pacientes com asma e doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), e levar à necessidade de atendimento de urgência.
“Nessa situação pode ocorrer intensificação dos sintomas e exacerbação, caracterizado por piora da falta de ar, tosse e desconforto respiratório. Se esses sintomas não melhoram com as condutas medicamentosas já habituais dos pacientes, devem procurar o serviço de urgência para avaliação”, explicou
A fumaça também pode agravar sintomas em pessoas com doenças cardiovasculares, segundo Fonseca. “Os cardiopatas também podem ter intensificação de seus sintomas, inclusive os coronariopatas, podem evoluir com quadro de angina devido a presença de monóxido de carbono na fumaça”.
O epidemiologista Jesem Orellana, da Fiocruz Amazônia, reforçou que crianças e idosos estão entre os grupos mais impactados pela exposição contínua à fumaça tóxica, associada a sintomas de inflamação pulmonar, tuberculose, rinite, sinusite alérgica, bronquite e exacerbação de doenças cardiovasculares, como insuficiência cardíaca.
No entanto, segundo o pesquisador, é importante destacar que outras pessoas, independente da idade, também podem ser negativamente afetadas e sofrer com coceira e vermelhidão nos olhos, além de tosse e sensação de desconforto respiratório.
“Também não podemos ignorar que esse tipo de exposição pode afetar de forma desproporcional outros subgrupos, como populações vulneráveis residentes em municípios ou territórios com precária rede de atenção à saúde, quase todos do interior do Amazonas, incluindo indígenas e ribeirinhos, os quais, muitas vezes, sequer têm acesso oportuno e de qualidade aos serviços de saúde”, disse.
Dina Galvão Baré, também moradora do Parque das Tribos, enfrenta os efeitos da fumaça dentro de casa com a família. Ela vive próxima à área atingida pelo incêndio desde o fim de semana e tem uma filha que sofre de asma, além de outras duas crianças com sintomas de falta de ar e coriza.
“Estamos há quatro dias inalando a fumaça. Nós temos crianças, temos pessoas acamadas. Inclusive, eu tenho uma filha asmática dentro de casa, são duas crianças e estamos muito próximos do fogo. Ficamos chocados e sensibilizados com a situação da nossa comunidade”, relatou.
O que dizem as autoridades
Apesar das informações de pesquisadores do Inpe sobre os altos índices de queimadas no Amazonas e dos registros de péssima qualidade do ar em Manaus, não há uma reação por parte das autoridades públicas para combater os incêndios ou punir os responsáveis em atear fogo em pastos ou florestas.
A rede estadual de saúde do Amazonas registrou 132 atendimentos por queixas respiratórias relacionadas à inalação de fumaça entre 1º de julho e 22 de setembro, segundo a Secretaria de Estado de Saúde (SES-AM). O dado foi divulgado nesta quarta-feira (23), durante coletiva de imprensa no Centro Integrado de Comando e Controle (CICC). Os atendimentos ocorreram principalmente na rede de urgência e emergência, incluindo os Serviços de Pronto Atendimento (SPAs).
Durante a coletiva, o secretário-executivo de Assistência, Homero de Miranda Leão, alertou para a maior vulnerabilidade de crianças, idosos e pessoas com doenças respiratórias crônicas durante os períodos de concentração de fumaça, já que esses são os grupos considerados mais suscetíveis a complicações decorrentes da exposição aos poluentes.
Questionada pela reportagem sobre um eventual aumento na procura por atendimento por sintomas respiratórios relacionados à fumaça e dados atualizados de atendimentos em setembro, a Secretaria Municipal de Saúde (Semsa) não informou se houve aumento nos atendimentos nem apresentou dados sobre o cenário atual na rede municipal de saúde.
Em nota publicada nesta quarta-feira (23), a Prefeitura de Manaus divulgou que monitora a qualidade do ar e mantém ações de prevenção, fiscalização e monitoramento por meio do Comitê de Prevenção às Queimadas.
Entre as ações da Semmas estão campanhas educativas, fiscalização e monitoramento com drones. Ainda de acordo com a prefeitura, a Guarda Municipal de Manaus (GMM) atende denúncias de focos de incêndio 24 horas pelo telefone 153 ou pelo site.
Na mesma nota, a Semsa orientou a população a reduzir a exposição à fumaça, especialmente crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças respiratórias ou cardíacas. Outras recomendações incluem hidratação, proteção dos olhos e nariz e uso de máscaras adequadas, como a N95. “Nos períodos de pior qualidade do ar, devem ser evitados exercícios ao ar livre, principalmente caminhada, corrida e ciclismo”, disse a pasta.
Em casos relacionados a tosse, irritação ou dor de garganta, ardência e lacrimejamento dos olhos, coriza, dor de cabeça, chiado no peito, falta de ar e piora de crises, a orientação da Semsa é procurar uma unidade básica de saúde. Para sintomas mais graves, deve-se buscar um serviço de pronto atendimento e, em emergências, acionar o Samu pelo 192.
Mesmo com o ar atingindo altos níveis de poluição e a presença intensa da fumaça na capital neste mês, a Prefeitura de Manaus não suspendeu as aulas nas unidades da rede municipal de ensino durante os dias mais críticos. Em Manaus, a rede municipal de educação possui 519 unidades de ensino e atende mais de 244 mil estudantes, segundo informações da Secretaria Municipal de Educação (Semed).
Em nota enviada à reportagem no dia 17 de setembro, a Semed informou que as escolas estão orientadas a adotar medidas preventivas para proteger os estudantes e profissionais, especialmente durante os períodos de maior concentração de fumaça. “Entre as recomendações estão evitar atividades físicas e outras atividades ao ar livre, manter portas e janelas fechadas sempre que possível, reforçar a hidratação e observar sinais de desconforto respiratório”, diz um trecho da nota.
A Secretaria disse ainda que acompanha as condições ambientais e mantém as orientações às unidades escolares de acordo com as recomendações dos órgãos competentes. (Colaborou Kátia Brasil)




