Kayapó e Panará se mobilizam na BR-163 para cobrar cumprimento de medidas de compensação pelos impactos da rodovia

Manifestação em Novo Progresso (PA) reúne três organizações indígenas diante do risco de interrupção das medidas emergenciais. Povos cobram providências da concessionária Via Brasil e conclusão do PBA-CI definitivo

Equipe ISA

Lideranças dos povos Kayapó e Panará, representadas pelo Instituto Kabu, pela Associação Iakiô e pela Associação Indígena Mantinó, realizam nesta sexta-feira (25) uma manifestação às margens da BR-163, em Novo Progresso, no Pará. O ato pacifico cobra da concessionária Via Brasil BR-163 a renovação imediata das medidas emergenciais destinadas a mitigar os impactos da rodovia sobre os territórios indígenas.

“Estamos nos manifestando contra a demora na aprovação do Plano Emergencial, que é uma medida antecipatória do PBA da BR-163. Na época, firmamos um acordo com a Via Brasil para garantir essas medidas emergenciais enquanto os estudos dos impactos da rodovia fossem concluídos e aprovados pela Funai e demais órgãos responsáveis. Até agora, a concessionária não se manifestou sobre a devolução dos estudos e sobre a continuidade desse acordo. Queremos deixar nosso recado: o Ministério Público Federal, em Altamira, já foi informado da nossa mobilização, para que nossas reivindicações sejam encaminhadas à Justiça.” Doto Takak-Ire, presidente do Instituto Kabu.

O terceiro ciclo de medidas emergenciais do Componente Indígena do Plano Básico Ambiental (PBA-CI) termina em 30 de setembro. Sem a formalização do quarto ciclo, as organizações alertam para o risco de interrupção das equipes, da infraestrutura e das ações de proteção territorial desenvolvidas nas Terras Indígenas Panará, Baú e Menkragnoti.

As organizações encaminharam suas propostas à concessionária e à Justiça Federal em agosto de 2026, após um minucioso processo de escuta das comunidades. Segundo as associações, a resposta apresentada pela Via Brasil em 4 de setembro foi insuficiente. A concessionária solicitou mais prazo para análise técnica e questionou os valores apresentados, sem contestar individualmente as medidas propostas.

Atrasos no plano definitivo

O impasse ocorre em meio aos sucessivos atrasos na elaboração e na implementação do PBA-CI definitivo, que deveria substituir as medidas emergenciais. Em manifestação apresentada à Justiça Federal em 31 de agosto de 2026, a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) registrou que o cronograma pactuado para a entrega do plano não foi cumprido. Previsto para janeiro, o documento foi protocolado em 29 de maio, após sucessivos pedidos de prorrogação.

A Funai também informou que não havia comprovação de consulta às organizações indígenas sobre as alterações no cronograma. Entre as pendências apontadas estão projetos arquitetônicos e de engenharia e o plano de trabalho para manutenção e recuperação dos ramais de acesso às aldeias.

Para as organizações indígenas, a manutenção de sucessivos ciclos emergenciais, com recursos insuficientes para atender às necessidades das comunidades, não pode substituir a implementação do plano definitivo.

Proteção territorial sob ameaça

A demora na implementação das medidas ocorre em um contexto de crescente pressão sobre os territórios indígenas. Segundo dados da Rede Xingu+ citados pelas organizações, o garimpo ilegal e outras atividades ilícitas avançam sobre os limites das terras indígenas. Há indícios de utilização da própria BR-163 e de ramais próximos às aldeias como rotas logísticas destas atividades. Nesse contexto, as medidas de vigilância e proteção territorial previstas no PBA-CI são consideradas essenciais pelas lideranças para enfrentar os riscos associados à pressão crescente sobre seus territórios.

Em despacho de 2 de setembro, o Juiz da Vara Federal Cível e Criminal de Altamira determinou que a Funai, o Ministério Público Federal e a Via Brasil se manifestassem sobre o pagamento imediato de valores mínimos para garantir a continuidade das medidas emergenciais enquanto as propostas integrais são analisadas.

“Já estamos mobilizados para mandar nosso recado à Via Brasil e à Funai, diante da demora na análise e aprovação do PBA da BR-163. Articulamos nossos guerreiros, caciques e lideranças, junto às organizações indígenas, para realizar esta manifestação na rodovia. Estamos fazendo a nossa parte e não queremos esperar mais. Queremos um posicionamento imediato da concessionária.”  Be-i Kayapó, presidente da Associação Indígena Mantinó.

As três organizações reivindicam a formalização imediata do quarto ciclo, a análise técnica individualizada de suas propostas, a continuidade dos recursos emergenciais e a conclusão da análise do PBA-CI definitivo pela Funai, com consulta livre, prévia e informada às comunidades sobre eventuais alterações de cronograma.

A manifestação conjunta pretende dar visibilidade às reivindicações dos povos atingidos e cobrar respostas antes do encerramento do ciclo vigente, que se encerra no próximo dia 30 de setembro.

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