Pesquisadores comentam dados iniciais do pleito e tendências para o 2º turno
O resultado do primeiro turno das eleições “é muito significativo para compreender as metamorfoses do eleitorado brasileiro contemporâneo”, avalia a historiadora e cientista política Tatiana Vargas-Maia. Para ela, a chegada de Flávio Bolsonaro ao segundo turno das eleições com 47,03% dos votos e a ampliação da presença do PL no Senado revelam “a coexistência de leituras diferentes e antagônicas do país”. “Uma parcela significativa do eleitorado”, enfatiza, “reconhece avanços econômicos e sociais do atual governo, mas há outra parcela para a qual esses avanços não necessariamente se traduziram em uma percepção positiva da própria vida”.
Na avaliação da pesquisadora, a interpretação dos resultados do primeiro turno exige uma reflexão sobre “uma combinação de fatores ideológicos, mas também materiais”. Um deles “é a consolidação de uma identidade política de direita e extrema-direita”. Outro é a “insatisfação com as condições concretas de vida, especialmente preocupações com custo de vida e segurança pública”, sublinha.
Para o sociólogo Ricardo Costa de Oliveira, o resultado eleitoral explica-se pela existência de “uma espécie de ‘tecnonepotismo’” no país. Trata-se, explica, da “velha fórmula política do nepotismo aliada às novas tecnologias de comunicação e informação das big techs, com apoio de redes sociais e políticas de vários agentes”. Foi com essa fórmula, menciona, que “a direita elegeu muitos governadores e parlamentares”, “sem programas sociais definidos, mas à base de oposição ao governo Lula, um governo com muitos indicadores sociais e econômicos de melhoria”.
Na entrevista a seguir, concedida por e-mail ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU, Ricardo Costa de Oliveira e Tatiana Vargas-Maia comentam os primeiros resultados e tendências das eleições e destacam a maior abstenção desde 1998. “É um dado que merece atenção porque não podemos simplesmente interpretá-lo como desinteresse político. A abstenção pode combinar desmobilização, dificuldades de deslocamento, percepção de que o voto não produz mudança, insatisfação com as alternativas disponíveis e fatores conjunturais. Esse dado, portanto, fala também sobre a relação entre parte do eleitorado e o sistema político”, destaca a pesquisadora.
Tatiana Vargas-Maia é doutora em Ciência Política pela Southern Illinois University – Carbondale (2016), mestra em Relações Internacionais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) (2006), bacharela em História pela mesma instituição (2006) e bacharela em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) (2004). Leciona no Departamento de Economia e Relações Internacionais e no Programa de Pós-graduação em Estudos Estratégicos Internacionais (PPGEEI) da UFRGS. É autora de Uma Introdução às Relações Internacionais (Blucher, 2025) e, com Rosana Pinheiro-Machado, organizou The Rise of the Radical Right in the Global South (Routledge, 2023).
Ricardo Costa de Oliveira é professor titular e decano do Departamento de Sociologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Possui graduação em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mestrado em Planejamento Urbano pela University College of London e doutorado em Ciências Sociais pela Unicamp. Autor de 11 livros, atualmente pesquisa a genealogia genética brasileira em um projeto internacional e atua como coordenador do Núcleo de Estudos Paranaenses (NEP-UFPR).
Confira a entrevista.
IHU – Como avalia o resultado das eleições deste domingo? Quais os três pontos que chamaram sua atenção?
Ricardo Costa de Oliveira – Perplexo como cidadão, mas reivindicado como cientista social e sociólogo, ao explicarmos e até prevermos o que aconteceria com a “teoria do nepotismo”. A política é negócio de famílias políticas, com nepotes: um “nepo-baby” poderia disputar o poder como “o filho de” sua família política, sem méritos pessoais e com graves defeitos políticos, tendo votações elevadas.
Existe hoje uma espécie de “tecnonepotismo” no Brasil, a velha fórmula política do nepotismo aliada às novas tecnologias de comunicação e informação das big techs, com apoio de redes sociais e políticas de vários agentes, políticos, pastores de igrejas evangélicas e outras formas de influenciadores digitais de direita, ao lado de ricos setores da classe dominante, o grande empresariado e a grande mídia.
Tatiana Vargas-Maia – O primeiro turno das eleições de 2026 é muito significativo para compreender as metamorfoses do eleitorado brasileiro contemporâneo. Eu destacaria três aspectos.
O primeiro é a força eleitoral da direita e, particularmente, do bolsonarismo. Isso aparece não apenas na disputa presidencial, com Flávio Bolsonaro chegando ao segundo turno com 47% dos votos válidos, mas também na eleição para o Congresso e nos governos estaduais. O PL ampliou sua presença no Senado e elegeu 19 dos 54 senadores em disputa, passando a ter a maior bancada da casa, com 28 senadores a partir de 2027. Também tivemos uma presença muito expressiva da direita nos governos estaduais.
O segundo ponto é a centralidade que o PL passa a ocupar no sistema político brasileiro. O partido não se demonstrou competitivo apenas na eleição presidencial, ele conseguiu transformar essa força eleitoral em representação legislativa, especialmente no Senado. Isso é importante porque significa que a direita chega a 2027 não apenas como uma força eleitoral, mas como uma força parlamentar capaz de influenciar a agenda política nacional.
O terceiro ponto é a abstenção. Tivemos 33,4 milhões de eleitores ausentes, aproximadamente 21% do eleitorado, a maior taxa desde 1998. É um dado que merece atenção porque não podemos simplesmente interpretá-lo como desinteresse político. A abstenção pode combinar desmobilização, dificuldades de deslocamento, percepção de que o voto não produz mudança, insatisfação com as alternativas disponíveis e fatores conjunturais. Esse dado, portanto, fala também sobre a relação entre parte do eleitorado e o sistema político.
IHU – O que explica o resultado e qual é o seu significado político?
Ricardo Costa de Oliveira – A onda de direita é um constructo político e ideológico do grande investimento em dinheiro e recursos do tecnonepotismo de responsabilizarem só o governo Lula pelos problemas sociais históricos e não os bilionários, os super-ricos, o capitalismo e o próprio nepotismo dessas famílias políticas produtoras da desigualdade histórica – relações que só piorariam em um governo deles com seus nepotes.
A direita elegeu muitos governadores e parlamentares com este discurso ideológico, sem programas sociais definidos, mas à base de oposição ao governo Lula, um governo com muitos indicadores sociais e econômicos de melhoria. A direita desenvolveu um imaginário próprio de oposição anti-identitário, uma forma de disputa cultural, sem entrar na agenda trabalhista, previdenciária ou econômica, que os prejudicaria.
Tatiana Vargas-Maia – Interpretar o significado político dos resultados do primeiro turno exige refletir sobre uma combinação de fatores ideológicos, mas também materiais. Um deles é a consolidação de uma identidade política de direita e extrema-direita que se consolidou no Brasil desde 2018 e que continua tendo capacidade de mobilização eleitoral, mesmo depois da derrota de Jair Bolsonaro em 2022 e dos acontecimentos que marcaram seu governo e o período posterior, como o 8 de janeiro de 2023.
Mas a eleição também expressa insatisfação com as condições concretas de vida, especialmente preocupações com custo de vida e segurança pública. A própria campanha presidencial foi marcada por esses temas. Há, portanto, uma combinação entre identidade ideológica, avaliação do governo e percepção das condições econômicas e sociais. Politicamente, o resultado mostra que a polarização entre lulismo e bolsonarismo continua estruturando a política brasileira, com uma novidade importante: o bolsonarismo demonstrou capacidade de reprodução política para além da figura de Jair Bolsonaro. Não apenas a passagem de liderança para Flávio Bolsonaro, mas também as eleições de Michelle, Carlos e Jair Renan Bolsonaro são, nesse sentido, um dado importante para compreender a eleição.
IHU – O que o resultado diz sobre a leitura que os brasileiros fazem da realidade social, política e econômica do país?
Ricardo Costa de Oliveira – O resultado revela uma insatisfação com as condições sociais, manipulado pela enganação social dos seus maiores responsáveis: a burguesia, a mídia, as famílias políticas associadas, em alguns estados, ainda mais com formas de privatizações, corrupção, criminalidade, milicianos e empresários, como um modelo de rede política do capital financeiro presente em todos os poderes – o paradigma de um Daniel Vorcaro, do Banco Master, um tema da eleição.
A direita produziu uma narrativa e um imaginário com as novas tecnologias para organizar a dominação do tecnonepotismo com seus novos influenciadores, até onde conseguiram controlar e falsificar realidades sociais e políticas com finalidades eleitorais.
Tatiana Vargas-Maia – O resultado parece revelar a coexistência de leituras diferentes e antagônicas do país. Uma parcela significativa do eleitorado reconhece avanços econômicos e sociais do atual governo, mas há outra parcela para a qual esses avanços não necessariamente se traduziram em uma percepção positiva da própria vida. É possível ter indicadores macroeconômicos relativamente favoráveis e, ao mesmo tempo, uma população preocupada com segurança e perspectivas futuras. Isso ajuda a entender uma característica importante desta eleição: o voto não está sendo determinado apenas pela situação objetiva do país, mas pela maneira como diferentes grupos sociais interpretam e narram essa situação. Esta eleição aponta para o fato de que a direita conseguiu transformar insatisfações bastante diferentes (questões de segurança, corrupção, governo, impostos, instituições) em uma linguagem política relativamente unificada e coesa, que mobiliza um eleitorado significativo.
IHU – Quais são as perspectivas para o Brasil diante da nova composição da Câmara e do Senado?
Ricardo Costa de Oliveira – É uma composição ainda mais ideológica e de direita. A disputa política será intensa, mas a direita também pode se dividir em diferentes interesses e partidos políticos. O bolsonarismo, como movimento político, apresenta contradições, não consegue superar a forma família, não se organiza como partido político. A família é mais importante para eles.
Muitas novas lideranças de esquerda também surgem: alguns jovens foram eleitos nos estados e poderão renovar a esquerda. O PL cresceu, o PT continua como um importante partido político; reelegeu governadores em importantes estados, como Bahia, Ceará Piauí. A direita fez os governadores no Centro-Sul. Haverá forte resistência contra quem ganhar a presidência.
Tatiana Vargas-Maia – Essa talvez seja uma das consequências mais importantes do primeiro turno, porque o próximo presidente terá que governar diante de um Congresso cuja composição será significativamente marcada pela direita e pela extrema-direita. O caso mais evidente é o Senado: o PL elegeu 19 dos 54 senadores em disputa e deverá iniciar a próxima legislatura com 28 das 81 cadeiras, constituindo a maior bancada do Senado. Mesmo que Lula obtenha sucesso no segundo turno, sua governabilidade estará comprometida.
Por outro lado, no caso de uma vitória de Flávio Bolsonaro, podemos antecipar um alinhamento maior entre Executivo e Legislativo federais, o que pode facilitar o avanço de pautas delicadas para a vitalidade da democracia brasileira, como o equilíbrio e a independência dos Três Poderes, pontualmente a atuação do Supremo Tribunal Federal (STF), que foi intensamente mobilizada nas últimas semanas da campanha eleitoral. Aqui, é importante destacar: o Senado é particularmente relevante nas disputas institucionais envolvendo o STF, porque compete a ele processar pedidos de impeachment de ministros.
IHU – Durante as campanhas, alguns analistas apontaram para o risco de intervenção dos Estados Unidos nas eleições brasileiras. Essa especulação se confirma com o fim do primeiro turno? Os resultados indicam interferência norte-americana?
Ricardo Costa de Oliveira – De certa maneira as relações políticas entre a família Bolsonaro e Trump são conhecidas. Muitas grandes empresas, como as big techs, também são conhecidas por favorecerem candidaturas de direita, inclusive nos Estados Unidos e Europa. Grupos políticos internacionais de direita, como um Netanyahu e Milei, também foram citados como apoiadores das campanhas bolsonaristas.
Tatiana Vargas-Maia – Houve, efetivamente, uma elevação da pressão e da participação política dos Estados Unidos no debate eleitoral brasileiro. A própria Agência Brasileira de Inteligência (ABIN) alertou para risco de influência ou interferência externa, classificando o cenário atual como de alta criticidade.
Todavia, documentar pressão ou tentativa de influência é diferente de demonstrar que essa atuação alterou o resultado eleitoral. Até o momento, não há evidência apresentada pelas autoridades eleitorais brasileiras de que tenha ocorrido uma interferência estrangeira capaz de comprometer ou determinar o resultado das eleições. Portanto, eu não diria que o resultado do primeiro turno “confirma” uma interferência americana. O que é possível afirmar é que houve uma disputa internacional em torno do processo eleitoral brasileiro e que o governo Trump exerceu pressão política e econômica sobre o Brasil. O que não é possível afirmar, com as evidências disponíveis hoje, é que essa pressão tenha produzido o resultado eleitoral.
IHU – O que se pode esperar para o segundo turno?
Ricardo Costa de Oliveira – O segundo turno será difícil para o incumbente Lula, mas Flávio Bolsonaro também apresenta grande rejeição e muitas vulnerabilidades para uma eleição. Se houver debates entre os dois, Flávio pode ter mais dificuldades, como já aconteceu em outras eleições. O segundo turno é uma continuidade e uma nova eleição ao mesmo tempo. O jogo é difícil e ainda está aberto. Houve uma grande abstenção no primeiro turno, cerca de 20% ou mais de trinta milhões de ausentes.
Tatiana Vargas-Maia – O segundo turno muda bastante a natureza da eleição. No primeiro turno, os candidatos disputam um eleitorado fragmentado; agora, a disputa será essencialmente binária. Isso significa que os dois candidatos terão que tentar ampliar suas coalizões para além de suas bases mais fiéis.
Um primeiro elemento importante será o comportamento dos eleitores dos candidatos que ficaram fora do segundo turno. Augusto Cury, Renan Santos, Ronaldo Caiado somaram uma parcela relevante dos votos e suas bases não necessariamente migrarão de maneira homogênea para Lula ou Flávio Bolsonaro. Um segundo elemento será a abstenção. Com 33 milhões de eleitores ausentes no primeiro turno, a capacidade de mobilizar eleitores que não votaram vira um diferencial importante. O terceiro elemento será a capacidade de cada campanha de ampliar sua coalizão sem perder sua base.
A eleição deixa de ser apenas uma disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro e passa a ser também uma disputa pela definição de qual narrativa sobre o futuro do Brasil conseguirá incorporar os eleitores que não estavam representados pelos dois candidatos no primeiro turno. Por fim, a campanha deverá ser ainda mais centrada em temas como economia, segurança pública, corrupção, instituições democráticas e a relação do Brasil com os Estados Unidos, ou seja, uma campanha bastante polarizada e com forte disputa pela interpretação do resultado do primeiro turno.
IHU – Deseja acrescentar algo?
Ricardo Costa de Oliveira – Um aviso aos mais jovens de quem já viveu muitas conjunturas políticas, vitórias e derrotas: daqui a alguns anos a roda da fortuna política gira de novo. A direita não atende aos interesses populares, não haverá ganhos para a maioria da população e para os jovens com o tecnonepotismo. Não desanimem. Afirmo o clássico ditado: a luta sempre continua!




