Lutar até o fim. Por Valerio Arcary

É verdade que somente após o segundo turno, será possível retirar caracterizações mais conclusivas. Mas é bom saber que estamos na iminência do perigo de um inverno “siberiano”

Por Valerio Arcary, em A Terra é Redonda

“Dobrado é o perigo de quem foge ao inimigo”. “A corrente silenciosa é a mais perigosa” (Provérbios populares portugueses).

1.

A vitória eleitoral de Flávio Bolsonaro foi uma calamidade política de proporções catastróficas. O mercado financeiro recebeu-a com júbilo indisfarçável. No dia seguinte do primeiro turno, a Bolsa de Valores bateu seu recorde histórico. Já o povo de esquerda está triste e amargurado. Mas nada é mais decisivo agora do que o sentido de máxima urgência. Não é hora de fazer os balanços. Não temos tempo. Aprender com os erros, e eles não foram poucos, será indispensável.

Mas agora é hora de ação. O que é vital é lutar até o fim para reverter o resultado do primeiro turno. São muitos milhares que já compreenderam a ameaça da catástrofe iminente, e estão improvisando auto-organização através de grupos de Whatsapp. O impulso da ampla vanguarda de esquerda está certo. Plenárias presenciais e virtuais estão sendo convocadas em todo o país. O desafio é fazer uma campanha do movimento, nas redes e nas ruas, a mais unificada possível.

Qual foi o significado do desfecho das eleições gerais? O que está em debate não é somente quem será presidente. O que está em disputa é muito mais grave do que alternância de governo. Flávio Bolsonaro ambiciona ir muito mais longe do que fez seu pai. O bolsonarismo é o fascismo do século XXI. Quer a subversão do regime: o poder total. A extrema direita quer usar as posições de força que conquistou para desfigurar o regime democrático.

Sua estratégia é uma ofensiva gradual e permanente, como Bukele fez em El Salvador, e está sendo feito no Peru e na Colômbia, de afirmação de um regime cada vez mais autoritário e fechado. Só falta a presidência para a extrema-direita ter controle de todas as instituições. Já têm maioria absoluta no Cãmara de Deputados (287 dos 513), no Senado (50 dos 81) e já declararam que vão tomar o STF (pelo impeachment dos desafetos e nomeação de quatro vagas até 2030).

Ninguém deve ignorar o peso dos fascistas nas Forças Armadas. Não menos importante, o bolsonarismo é um movimento político-social de choque que expressa a “massa” da burguesia, apoiado numa implantação real na pequena-burguesia e seus círculos de socialização, e elevou sua capacidade de organização, mesmo com a prisão dos golpistas. Está em mobilização ininterrupta nas redes sociais, mas, também, nas comunidades evangélicas e meios policiais, entre outras esferas. Devem ser levados a sério.

2.

As eleições são uma forma de luta de classes. Ainda que com distorções – porque as condições são desiguais – são uma aferição da correlação política de forças. Mas há diferentes tipos de derrotas e de vitórias. Há vitórias eleitorais que explicitaram uma derrota política (como foi em 2014 o giro da linha Dilma Rousseff “nem que a vaca tussa” para a indicação de Joaquim Levy para a Fazenda) e o inverso, também, derrotas eleitorais que foram, paradoxalmente, vitórias políticas (como em 1989 contra Fernando Collor quando, apesar de Lula perder, o PT conquistou a posição de principal partido de oposição).

Análise de resultados eleitorais exigem uma calibragem. Em 4 de outubro tivemos uma derrota eleitoral e política severa. Ainda que não seja correto que sejam “duas eleições”, porque são dois momentos da mesma disputa, é verdade que somente após o segundo turno, será possível retirar caracterizações mais conclusivas. Mas é bom saber que estamos na iminência do perigo de um inverno “siberiano”.

Nenhum destes cuidados na análise invalida reconhecer que sofremos uma derrota terrível no primeiro turno e observar que: (i) um tsunami invisível e silencioso, nos últimos dois dias, garantiu a vitória de Bolsonaro, tal como tinha acontecido na Colômbia, mas com o impacto subjetivo da surpresa muito forte; (ii) ocorreu, comparativamente, uma inversão em relação ao primeiro turno de 2022, quando Lula ficou na frente por +5,2 %  passando ao 2º turno com vantagem e agora, em 2026, Flávio à frente por +1,9%, desmentindo a tese liberal da vantagem do incumbente, e confirmando que o teto de aprovação de Lula era insuficiente para vencer.

(iii) as pesquisas mais uma vez erraram, embora tenham identificado uma tendência, porque sinalizaram o crescimento fora da margem de erro entre a população masculina, evangélica, e no sudeste, ainda que a “avalanche” bolsonarista tenha sido devastadora, sobretudo nos interiores, especialmente nas regiões onde o peso do agronegócio é maior; (iv) a vantagem no Nordeste (11,1 milhões) não compensou a desvantagem no Sul (5 milhões) e Sudeste (5,7 milhões) porque perdemos no Centro-Oeste (56,51% a 32,52%) e no Norte (49,15% a 44, 65%).

(e) A linha do comando da campanha Lula fez uma aposta, até duas semanas e meia atrás, na exaltação do legado e na celebração da biografia, subestimando a implantação social e força ideológica do bolsonarismo, que repousava no cálculo de que seria possível vencer no primeiro turno, que se revelou dramaticamente errada e, embora o giro de linha de campanha tenha sido justo – proibição de Bets, aumento do Bolsa-família, canetas emagrecedoras, e Desenrola 3 – foi muito tardio.

3.

Não é possível avaliar o desfecho das presidenciais sem sublinhar que se trataram de eleições gerais. A avalanche de governadores de extrema direita eleitos no primeiro turno foi devastadora: os bolsonaristas Tarcísio de Freitas e Douglas Ruas venceram em São Paulo e no Rio de Janeiro, e o “extravagante” Cleitinho, também de extrema direita, em Minas Gerais, fechando o domínio do triângulo estratégico. A extrema direita venceu também em primeiro turno nos três estados do Sul, com Sérgio Moro no Paraná, Jorginho Mello em Santa Catarina e Luciano Zucco no Rio Grande do Sul.

Nos 27 estados, foram eleitos 20 governadores, em primeiro turno, e somente três são do PT: na Bahia, Piauí e Ceará. O PT ainda disputa o segundo turno do Rio Grande do Norte. O bloco liderado pelo PL bolsonarista arrasta os Republicanos, União Brasil, Podemos, Progressistas, o MDB de Ronaldo Caiado em Goiás, PSDB em Alagoas, e tem domínio em todas as regiões, com excepção do Nordeste. Ficou confirmado que a hegemonia político-social hoje no Brasil é, irremediavelmente, do bloco liderado pelos neofascistas.

Já era esperado que o desfecho da eleição para o Congresso seria adversa, mas para o Senado foi, dramaticamente, ruim. O PL bolsonarista conquistou 19 das 54 vagas em disputa que somadas às 9 cadeiras que o partido já possuía (com mandatos até 2031), somam 28 senadores. Não é exagero caracterizar como assustadora a presença de, pelo menos, 50 senadores alinhados com a pauta de indulto para Jair Bolsonaro e demais golpistas, e impeachment de ministros do STF.

Serão necessários 54 votos, mas parece muito provável que, se Flávio Bolsonaro vencer o segundo turno, consiga arrastar outros cinco votos. O ministro Nunes Marques do STF anunciou, no dia seguinte das eleições, com a maior desfaçatez, a intenção de publicar uma liminar monocrática de libertação de Jair Bolsonaro, antes até do prometido indulto do pai pelo filho. O PT elegeu seis senadores, e manteve a bancada de nove.

Uma maioria de extrema direita muito próxima dos dois terços necessários para a revisão da Constituição prenuncia, também, a aprovação de PECs de retirada de direitos sociais, como a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos, e muito mais.

A eleição da Câmara de Deputados foi outro circo de horrores. Nikolas Ferreira de Minas e Lucas Pavanato de São Paulo, dois jovens fascistas que se destacaram nas redes sociais defendendo as odiosidades mais infames, foram os mais bem votados em escala nacional superando os três milhões de votos. Estima-se que o bloco liderado pela extrema-direita – o PL elegeu 122 deputados – poderá ir muito além da maioria absoluta com algo entre 276 e 287 deputados, associado aos 87 das bancadas da União Progressista, 41 dos Republicanos (o partido da Igreja Universal), 27 do Podemos, uma maioria dos 43 do PSD, 10 do Novo, 1 do Missão e até uma parte dos 36 do MDB. Todos os partidos de esquerda somados são 24 cadeiras.

4.

O PSol obteve uma vitória eleitoral, mas está ameaçado de perder sua legalidade em função de uma imposição da cláusula de barreira. Na verdade, sofreu o que se pode definir como um acidente “jurídico-eleitoral”. Faltaram apenas 185 votos ou 0,01% no Espírito Santo, para que o PSol atingisse o patamar mínimo de 1,5% dos votos válidos em nove estados diferentes.

A injustiça do processo é tão grotesca, porque os partidos de direita cometeram ilegalidades absurdas e atrozes, que a luta pela anulação de uma das candidaturas poderá ser vitoriosa. Mas a resposta terá que ser rápida. O mais importante é que o PSol conquistou quase 5% (4,91%), ou impressionantes 5.426.592 votos para a Câmara dos Deputados, em escala nacional, e elegeu 14 deputados.

O PT teve uma votação um pouco inferior a 15%. Portanto a votação do PSol correspondeu a um terço da votação do PT, o que oferece um sentido de proporção da relação de forças na esquerda. Mais significativo, em São Paulo, a Federação do PSol com a Rede recebeu quase três milhões de votos, superando pela primeira vez até a votação do PT. No Rio de Janeiro o PSol somou 636.148 votos elegendo quatro deputados federais. Ficou demonstrado, para além de qualquer margem de dúvida, que o PSol podia ir além da cláusula de barreira que estabelece a necessidade superar 2,5% da votação nacional.

Na perspectiva do segundo turno o mais importante será denunciar de forma impiedosa que o plano de governo bolsonarista é uma contrarrevolução em toda a linha. Todas as valiosas conquistas econômico-sociais e democráticas desde o fim da ditadura, ainda que parciais, estão em perigo. Todas as liberdades estão em perigo. O balanço já foi confessado: a democracia ficou cara demais. O SUS, a Previdência, a assistência social, Bolsa-família e BPC, a educação pública, as Universidades, todas as conquistas sociais seriam caras demais.

A extrema direita defende, despudoradamente, que a vantagem relativa do capitalismo periférico brasileiro não são as dimensões do seu mercado interno, mas a superexploração dos trabalhadores. E já anunciaram um pacote de choque de capitalismo selvagem “à la Milei” com a busca de um superavit fiscal de 2% a 3% do PIB. A pretexto de reduzir a inflação e tranquilizar os credores da dívida pública, defendem a necessidade de uma recessão que mergulhe milhões no desemprego para reduzir os salários.

O plano passa por acabar com a vinculação obrigatória dos gastos do Estado para a educação e saúde pública: 18% e 15% das receitas federais, 25% das estaduais, e, respectivamente 12% e 15% das municipais. Querem que o salário mínimo – que só teve reposição da inflação durante quatro anos de governo Bolsonaro, sem valorização real – deixe de ser o piso da remuneração dos benefícios da previdência. Querem o congelamento de salários, por prazo indefinido, do funcionalismo público.

Querem a desnacionalização da economia brasileira a pretexto de atrair capital norte-americano. Querem a privatização da Petrobrás e dos bancos públicos. Mas é ainda mais grave. Os fascistas querem destruir as regras de proteção ambiental, são negacionistas do aquecimento global, inimigos dos movimentos de mulheres, aplaudem um racismo repulsivo, incitam a LGBTfobia mais desprezível e, não fosse o bastante, suas lideranças são corruptos profissionais e estão associados ao crime organizado. Será uma luta em defesa da civilização contra a barbárie.

Avaliando em perspectiva, a eleição presidencial caminhava para a derrota de Lula, já no primeiro turno, com a manobra de André Mendonça no STF tentando garantir a suspenção de Alexandre de Moraes. A operação foi o “apito de cachorro”, aquele que só alguns ouvidos escutam, para a deflagração da campanha “Fora Xandão, Fora Lula”, que pretendia envenenar a eleição com o “mar de lama” da corrupção. Felizmente, foi interrompida pela lucidez de Flávio Dino.

Na sequência, o giro à esquerda da campanha Lula, com o pacote de medidas de emergência, permitiu ganhar tempo, e o segundo turno foi conquistado. A vitória no segundo turno será muito mais difícil, e repousa na conquista de votos entre os que se abstiveram. Dois milhões de votos podem ser superados. Uma parcela dos votos dos outros candidatos de direita já foi para o voto útil no primeiro turno.

Mas será inescapável dizer as coisas como são. A chave da vitória é conquistar uma maioria político-social que entenda o perigo apocalíptico que nos ameaça. A mão não pode tremer. Cerrar fileiras e lutar até o fim.

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*Valerio Arcary é professor de história aposentado do Instituto Federal de São Paulo (IFSP). Autor, entre outros livros, de Ninguém disse que seria fácil (Boitempo). [https://link.amazon/B03qSrpaX]

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