Incêndio atinge Reserva Extrativista Riozinho do Anfrísio, no Pará, e avança sobre a floresta e casas

Fogo começou na quarta-feira (07/10) e saiu do controle, atingindo ao menos seis casas e indicando possível impacto do El Niño na região. As associações da Terra do Meio, a Rede Terra do Meio e parceiros, como o ISA, mobilizam campanha de apoio

Por Ana Amélia Hamdan – Jornalista do ISA

A professora e beiradeira Rosiane Bezerra de Castro, que nasceu e vive na Reserva Extrativista (Resex) Riozinho do Anfrísio, na Terra do Meio, Pará, tem 31 anos e passa por algo que nunca tinha visto em seu território: o fogo se alastrando na reserva, atingindo casas, destruindo roças, locais de coleta, a floresta, com muita fumaça e impacto para o rio, que fica com os resíduos da queimada.

“A Resex inteira está em chamas e nunca vimos uma coisa dessa acontecendo. As casas das famílias foram atingidas. O fogo já destruiu lugares que plantamos. Muitos já perderam roças e lugares de caça. E a gente teme que possa aumentar essa fumaça. As crianças, os mais jovens, as mulheres e idosos já não conseguem dormir à noite, nem com ventilador”, diz Rosiane, que está na comunidade Bom Lugar. A situação compromete a segurança alimentar das famílias.

Esses impactos já são atribuídos ao fenômeno El Niño. Segundo Rosiane Bezerra, que integra o Grupo de Pesquisa de Monitoramento Socioambiental – projeto desenvolvido pelo Instituto Socioambiental (ISA) – a prática tradicional da roça envolve o manejo do fogo, mas a situação não saía do controle. “Conversamos muito entre nós e observamos a floresta. É o impacto da mudança do clima”, diz. 

Organizações como o Observatório do Clima (OC) e Conservação Internacional informam que, na Amazônia brasileira, o El Niño costuma estar associado a períodos mais secos e temperaturas mais elevadas. Isso pode reduzir a umidade do solo, baixar os níveis dos rios e aumentar o estresse hídrico da vegetação, ou seja, cria um ambiente propício aos incêndios.

Francinaldo Lima, membro da secretaria-executiva e assessor das associações da Rede Terra do Meio – organização que reúne associações indígenas, beiradeiras e agroextrativistas da região – informa que, até o sábado (10/10), o monitoramento indicava pelo menos seis casas queimadas, com o fogo avançando pela floresta. No domingo (11/10, a situação se agravou, com muitas pessoas deixando suas casas para tentar ajudar a conter o fogo em comunidades próximas.

Famílias relataram às assessorias das associações e à Rede Terra do Meio que os focos de incêndio atingiram principalmente a comunidade Boa Saúde, onde pelo menos cinco moradias foram queimadas. Na comunidade Novo Paraíso, o fogo estava mais controlado, com a comunidade conseguindo proteger as moradias. Na comunidade Morro Verde, também houve registro de destruição de uma moradia.  

A Resex do Riozinho do Anfrísio tem cerca de 737 mil hectares de floresta onde vivem aproximadamente 150 famílias. “Estamos muito angustiados porque o fogo está avançando e, além do fogo destruir casas e todos os bens materiais, a fumaça também está prejudicando a saúde de muita gente”, disse Francinaldo Lima.

Campanha de arrecadação

As associações da Terra do Meio, principalmente a Associação de Moradores da Reserva Extrativista Riozinho do Anfrísio (Amora), a Rede Terra do Meio e parceiros, entre eles o ISA, estão mobilizando uma campanha para angariar recursos para a compra de cestas básicas. Instituições como ICMBio, Defesa Civil e Corpo de Bombeiros já foram acionadas. O ICMBio sobrevoou a região e levou brigadistas para a região.  

As famílias desalojadas estão sendo acolhidas pela própria comunidade. Rosiane Castro relata a preocupação principalmente com as mulheres. “Na sexta-feira de manhã recebemos a ligação de uma mãe que teve a casa destruída, ela estava chorando. A gente se desespera junto, mas temos que ficar calmos para ajudar. Os pais de família estão saindo de suas casas para ajudar a apagar o fogo. E além de nós seres humanos, tem os animais, que não conseguem pedir socorro. A floresta é a casa deles e está queimando”, diz. 

“É muito triste ver as famílias perdendo suas casas. A gente mora longe e, com muita dificuldade, consegue construir nossas casas. Muitas pessoas vivem do extrativismo, então terão dificuldade para reconstruir suas moradias, não vai dar conta de reconstruir de um dia para o outro. São casas simples, mas construídas com carinho”, completa. 

Rosiane relata ainda que o rio está muito seco, o que prejudica o deslocamento das famílias, principalmente as que vivem em áreas mais isoladas. “Para transitar, já estamos precisando arrastar as canoas pelos bancos de areia”, diz. 

A água do rio também é usada para beber e tomar banho. Com os resíduos dos incêndios, a poluição leva ainda mais prejuízo às famílias. “A gente teme, acho que todo mundo teme, que daqui a alguns anos a gente não vai ter mais caça ou lugar para tirar palha pra casa”, reflete.

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