A entrega de bens naturais ao governo Trump terá impacto negativo direto nos territórios indígenas. A lógica entreguista da candidatura de Flávio Bolsonaro precisa ser barrada nas urnas
Por Luís Ventura, secretário-executivo do Cimi
O atual governo dos Estados Unidos, presidido por Donald Trump, está conduzindo a geopolítica mundial para uma confrontação permanente, com gravíssimas consequências para muitos povos e países do mundo. Essa confrontação tem uma profunda e evidente motivação econômica.
A ideia do governo estadunidense seria compensar a clara diminuição de sua hegemonia política e econômica no mundo por meio de conflitos armados, da interferência em processos eleitorais de Estados independentes, da fragilização das instâncias internacionais e de decisões econômicas orientadas a criar caos, desassossego, insegurança e subordinação. Entre essas decisões estão as sanções econômicas e o aumento de taxas como instrumentos de terror financeiro.
Uma das principais preocupações da administração Trump é retomar os velhos princípios coloniais da chamada Doutrina Monroe e considerar todo o continente americano como sua propriedade: subordinado politicamente e tratado como seu quintal, onde possa assegurar o controle e o domínio sobre bens de alto valor comercial, como petróleo, gás, minerais, terras raras e água. É com esse objetivo que, nos últimos meses, os Estados Unidos intervieram militarmente na Venezuela — com motivações econômicas, e não democráticas —, interferiram em processos eleitorais no Chile, no Paraguai, na Bolívia, no Peru, no Equador e na Colômbia e mantiveram o assédio e as sanções cruéis contra países como Cuba.
O Brasil não está fora dos interesses dos Estados Unidos, que encontraram na família Bolsonaro e no Partido Liberal (PL) seus aliados incondicionais. O candidato Flávio Bolsonaro, antes e durante a campanha eleitoral, afirmou em diversas ocasiões que o Brasil entregaria seus bens naturais aos interesses econômicos dos Estados Unidos e garantiu ao governo norte-americano, inclusive, participação no processo de transição, caso vença as eleições no Brasil.
Enquanto o Brasil cresceu economicamente nos últimos quatro anos e conseguiu tirar o país do chamado Mapa da Fome, a experiência na Argentina com Javier Milei é absolutamente oposta
A entrega desses bens naturais terá impacto negativo direto nos territórios indígenas, na proteção ambiental no Brasil, nas políticas de acesso à tecnologia de ponta, na política industrial nacional e na vida de todas e todos os brasileiros. Esse é o preço que o candidato está se propondo a fazer o Brasil pagar para obter o apoio ilícito do governo estadunidense, com a possibilidade de formas difusas de intervenção nas eleições e nas redes sociais. Milhares de brasileiros foram induzidos e iludidos a portar bandeiras dos Estados Unidos em manifestações no dia 7 de setembro, mesmo sem entender por que deveriam fazer isso, cavando a fossa do futuro do país. Essas imagens ficaram registradas na História e muitos terão dificuldade de explicá-las a seus filhos e netos daqui a alguns anos.
Nessa lógica entreguista da candidatura de Flávio Bolsonaro aos interesses externos, um elemento que ganhou muita força na equipe econômica do candidato foi a afinidade com as medidas adotadas na Argentina pelo atual governo, presidido pelo ultraliberal Javier Milei. De fato, se o projeto de Jair Bolsonaro tinha como motor os fundamentalismos de caráter religioso e militar, a proposta agora apresentada por seu filho acrescenta um fundamentalismo liberal que poderá acabar com a economia do Brasil em poucos meses.
Enquanto o Brasil cresceu economicamente nos últimos quatro anos e conseguiu tirar o país do chamado Mapa da Fome, a experiência na Argentina com Javier Milei é absolutamente oposta.
Em nome da estabilidade fiscal, a Argentina caiu em um abismo de redução do crescimento, aumento da taxa de desemprego para 7,9%, elevação da taxa de pobreza para 32,3%, retomada dos empréstimos do Fundo Monetário Internacional (FMI) e fechamento de mais de 31 mil empresas, com a perda de centenas de milhares de empregos formais.
A subordinação e a interferência de governos estrangeiros não cabem em uma democracia
Além disso, o governo Milei liberou a aquisição de terras por particulares estrangeiros no país e assinou um acordo com os Estados Unidos, entregando ao governo Trump o controle sobre jazidas de lítio, cobre e terras raras. Esse é o resultado do governo Milei que o candidato Flávio Bolsonaro toma como referência para o que pretende fazer no Brasil. Significa conduzir o país ao abismo e à subordinação política e econômica aos Estados Unidos.
Essas consequências terão impactos diretos na vida de cada brasileira e de cada brasileiro. Quem tem emprego formal poderá perdê-lo, e quem está procurando se inserir no mercado de trabalho terá muito mais dificuldades. Com salários menores e menos poder aquisitivo, o acesso a bens de primeira necessidade — como alimentação e moradia — será severamente limitado. Os sistemas públicos de saúde e de educação serão sucateados, deixando à iniciativa privada o controle de serviços fundamentais para a vida das pessoas, como já acontece nos Estados Unidos. Atendimentos médicos que no Brasil são realizados pelo Sistema Único de Saúde (SUS), nos Estados Unidos exigem que as famílias desembolsem milhares de reais.
Na Argentina, Milei já enfrenta forte oposição no Congresso Nacional e nas ruas e provavelmente não conseguirá ser reeleito. Entretanto, quando sair, deixará um país arrasado por décadas. Não podemos deixar que isso aconteça no Brasil.
A subordinação e a interferência de governos estrangeiros não cabem em uma democracia.
E o Brasil também não cabe no quintal de ninguém.




