Ainda somos os mesmos? Por Estéfany Rocha Monteiro

Quem nasceu depois de uma ditadura pode reconhecer a violência daquele período, mas dificilmente sentirá a mesma coisa que alguém que esperou por um familiar desaparecido ou aprendeu a medir as próprias palavras por medo de ser denunciado

No Le Monde Diplomatique

Republiquei Como Nossos Pais, de Belchior, na voz de Elis Regina, no Instagram depois do primeiro turno das eleições presidenciais. Não fui a única. A canção, gravada há cinquenta anos, voltou a circular entre pessoas que procuravam expressar o espanto diante de um resultado que, para muitas delas, parecia difícil de imaginar. Flávio Bolsonaro havia recebido mais de 56 milhões de votos e terminado à frente de Luiz Inácio Lula da Silva. Enquanto acompanhava as reações, percebi que também havia recorrido à música para formular uma pergunta que não conseguia responder. O que exatamente esperávamos que o Brasil tivesse aprendido com sua própria história?

Em 1976, quando Elis Regina lançou Falso Brilhante, o país vivia sob uma ditadura militar que já atravessara mais de uma década. A repressão havia alcançado universidades, jornais, sindicatos, organizações políticas e a vida de milhares de famílias. Prisões arbitrárias, torturas e desaparecimentos faziam parte de uma realidade que o regime procurava ocultar ou justificar. Foi nesse ambiente que a composição de Belchior encontrou, na interpretação de Elis, uma das expressões mais reconhecíveis do desencanto de uma geração que havia acreditado na possibilidade de transformar o mundo e começava a reconhecer a persistência daquilo que desejara superar.

No espetáculo Falso Brilhante, concebido com elementos do circo e do teatro, havia bonecos de pano acomodados numa arquibancada, formando uma plateia dentro da própria encenação. Ao terminar Como Nossos Pais, Elis permanecia diante daqueles espectadores imóveis. A imagem é perturbadora: uma cantora que acabara de dar voz à desilusão de sua geração observava figuras incapazes de responder. Belchior escrevera sobre a distância entre as promessas da juventude e a vida que se construíra depois delas. Elis transformava essa descoberta em uma experiência quase física, como se a pergunta alcançasse também quem estivesse sentado do outro lado do palco.

Cinquenta anos depois, já conhecemos o desfecho histórico daquele regime. A ditadura terminou, a Constituição de 1988 reorganizou a vida institucional brasileira, testemunhos foram reunidos e arquivos foram abertos. A Comissão Nacional da Verdade documentou graves violações de direitos humanos e identificou estruturas de repressão que haviam atravessado sucessivos governos militares. Sabemos mais sobre aquele período do que sabiam muitos dos brasileiros que o viveram, quando a censura, o medo e a ausência de informações impediam até mesmo que as famílias conhecessem o destino de seus desaparecidos.

Ainda assim, conhecer a história e reconhecer suas consequências são operações diferentes. Uma sociedade pode reunir documentos sobre a violência de Estado e continuar dividida sobre o significado político daquela violência. Pode ensinar a existência da tortura nas escolas enquanto parte de seus cidadãos considera aceitável que autoridades públicas a defendam. Pode preservar as instituições democráticas e conviver com discursos que relativizam o autoritarismo. O conhecimento histórico permanece disponível, mas a maneira como é recebido depende também das disputas políticas e das experiências de quem o encontra.

Penso nisso porque pertenço a uma geração que não viveu a ditadura brasileira. Conheci aquele período pelos livros, pelos depoimentos de sobreviventes, pelas decisões judiciais e pelo trabalho de pessoas que dedicaram suas vidas a impedir que determinados acontecimentos desaparecessem da memória pública. Estudar a história da repressão me permitiu compreender experiências que jamais vivi. Também me fez reconhecer a dimensão da responsabilidade envolvida em transmitir acontecimentos cuja lembrança, para muitas famílias, permanece inseparável da perda de alguém.

Há uma reflexão de José Mujica, registrada em sua entrevista para o documentário Human, de Yann Arthus-Bertrand, que me acompanha quando penso nessa transmissão. O ex-presidente uruguaio, que passou anos preso durante a ditadura de seu país, recorda as expectativas políticas de sua juventude e as derrotas que obrigaram sua geração a reconsiderar a maneira como imaginava transformar a sociedade. Entre as descobertas que descreve está a dificuldade de modificar uma cultura, mesmo quando se consegue alterar suas condições materiais. Sua própria vida havia sido atravessada por acontecimentos históricos cuja compreensão dificilmente poderia ser separada da experiência de tê-los vivido.

A lembrança dessa entrevista me leva a pensar na distância entre a história que recebemos e aquela que experimentamos pessoalmente. Quem nasceu depois de uma ditadura pode reconhecer a violência daquele período, mas dificilmente sentirá a mesma coisa que alguém que esperou por um familiar desaparecido ou aprendeu a medir as próprias palavras por medo de ser denunciado. A transmissão da memória exige que experiências individuais adquiram significado para pessoas que não estavam presentes. É um trabalho necessariamente incompleto, porque cada geração encontra o passado a partir das perguntas, dos conflitos e das preocupações do seu próprio tempo.

Seria possível, então, compreender a permanência de certas disposições autoritárias no Brasil como resultado dessa distância entre gerações. Muitos dos que votam hoje nasceram depois de 1985. Outros eram crianças quando a ditadura terminou. Para eles, o regime militar pertence a uma história recebida, reconstruída por narrativas familiares, registros públicos, disputas ideológicas e instituições de ensino. A passagem do tempo altera a relação afetiva com os acontecimentos, e a memória daqueles que sofreram diretamente a repressão não alcança necessariamente seus descendentes com a mesma intensidade.

Mas essa explicação encontra um obstáculo: nós vivemos a pandemia.

Há apenas alguns anos, acompanhávamos diariamente a divulgação do número de mortos pela Covid-19. Hospitais ficaram sobrecarregados, famílias perderam pessoas sem conseguir se despedir, profissionais de saúde trabalharam sob condições extremas e milhões de brasileiros reorganizaram suas vidas em torno do medo de adoecer ou transmitir o vírus a alguém próximo. O país ultrapassou a marca de 700 mil mortes oficialmente registradas pela doença. Aquela experiência ocorreu diante de nós, acompanhada por boletins epidemiológicos, imagens de hospitais, debates públicos e investigações parlamentares.

Também acompanhamos a conduta de Jair Bolsonaro. Em abril de 2020, questionado sobre o número de mortes, o então presidente respondeu que não era coveiro. Ao longo da emergência sanitária, suas declarações sobre a gravidade da doença, as vacinas e os tratamentos contrariaram repetidamente orientações científicas. Em 2021, a Comissão Parlamentar de Inquérito da Pandemia investigou ações e omissões do governo federal e aprovou um relatório que recomendava, entre outras providências, seu indiciamento. Flávio Bolsonaro, então senador, esteve entre os defensores políticos do pai durante aqueles trabalhos e chegou a classificar a investigação como uma grande perda de tempo.

É evidente que Flávio e Jair Bolsonaro são pessoas distintas, com trajetórias e responsabilidades próprias. Sigo firme na minha posição de que não devemos culpar os filhos pelos erros dos seus pais. Mas a candidatura presidencial do filho também se apresenta como continuidade de um movimento político construído em torno da figura do pai. A associação envolve uma herança eleitoral, uma identidade pública e a defesa de parte de seu legado. Quando mais de 56 milhões de brasileiros escolheram Flávio Bolsonaro no primeiro turno de 2026, portanto, o resultado exigiu uma reflexão que alcança também a memória política dos anos da pandemia.

O que fazemos com uma experiência que todos atravessamos, mas da qual não guardamos a mesma lembrança?

Para algumas pessoas, aqueles anos estão associados à perda de familiares e ao sentimento de abandono diante das autoridades públicas. Para outras, permanecem ligados ao desemprego, ao fechamento de pequenos negócios, à interrupção da vida escolar ou às restrições impostas à circulação. Houve quem atribuísse ao governo federal responsabilidade pelas consequências da crise, quem concentrasse suas críticas nos governadores e prefeitos e quem interpretasse as medidas sanitárias como uma ameaça à liberdade individual. Estávamos expostos à mesma emergência, mas nossa percepção do que acontecia era atravessada por condições materiais, convicções políticas, fontes de informação e experiências pessoais muito diferentes.

A pandemia demonstra, assim, um limite particularmente difícil daquilo que esperamos da memória. Ter vivido um acontecimento não determina a interpretação que faremos dele. Duas pessoas podem recordar os mesmos meses e discordar profundamente sobre quem agiu corretamente, quais medidas foram necessárias e quem deve ser responsabilizado. A existência de provas documentais permite confrontar afirmações falsas e investigar responsabilidades, mas nem sempre dissolve os vínculos afetivos e políticos por meio dos quais cada pessoa organiza suas lembranças.

Talvez por isso seja insuficiente afirmar que os eleitores simplesmente esqueceram. O esquecimento existe, assim como a desinformação e a tentativa deliberada de reescrever acontecimentos recentes. Mas há também aqueles que se lembram e atribuem ao que viveram outro significado, ou que reconhecem determinados erros e, ainda assim, consideram outras preocupações mais urgentes. A rejeição ao Partido dos Trabalhadores, o descontentamento econômico, as expectativas sobre segurança pública, os valores religiosos e a identificação com o conservadorismo podem adquirir um peso maior do que a avaliação retrospectiva da pandemia. Reconhecer essa diversidade de motivações ajuda a compreender como se constitui uma escolha eleitoral, embora não encerre a discussão sobre suas consequências políticas.

A surpresa diante do primeiro turno merece, por isso, ser examinada com a mesma atenção que dedicamos ao resultado. Entre as pessoas que compartilharam Elis Regina, havia quem estivesse convencido de que Flávio Bolsonaro dificilmente chegaria tão longe. Também vi manifestações de artistas e eleitores que, diante da necessidade de um segundo turno, passaram a discutir o voto estratégico em Lula. A incredulidade parece nascer de uma expectativa bastante humana: imaginamos que certas experiências, por sua gravidade, deveriam produzir consequências morais suficientemente profundas para orientar as escolhas futuras.

Essa expectativa tem algo de compreensível. Se a história da ditadura não bastou para estabelecer um consenso sobre a violência autoritária, talvez a proximidade da pandemia devesse ter produzido uma consciência diferente sobre o exercício do poder. Entretanto, a convivência com uma catástrofe tampouco garante acordo sobre suas causas ou responsabilidades. A memória de uma sociedade é formada por lembranças que competem entre si, por acontecimentos que recebem interpretações divergentes e por pessoas que lutam para estabelecer quais versões do passado terão reconhecimento público.

É justamente por isso que a preservação da memória continua necessária. As investigações, os arquivos, os testemunhos e o trabalho de educação histórica permitem que uma sociedade confronte suas próprias justificativas e mantenha acessíveis fatos que interesses políticos procuram minimizar. A memória não oferece imunidade contra a repetição. Sua importância está também na possibilidade de contestar publicamente a maneira como o passado é narrado, identificar responsabilidades e transmitir experiências que, sem esse trabalho, poderiam ser perdidas ou deliberadamente apagadas.

Volto, então, à canção que compartilhei. Quando Belchior escreveu sobre a semelhança entre sua geração e a de seus pais, havia uma dor particular no reconhecimento de que a juventude também podia envelhecer dentro das estruturas que prometera transformar. A força da interpretação de Elis talvez esteja em conservar essa descoberta sem oferecer ao ouvinte o conforto de uma solução. Cinquenta anos depois, seguimos recorrendo àquela voz quando o presente parece desmentir o futuro que imaginávamos possível.

Mas, desde que republiquei a música, outra pergunta passou a me incomodar: quem está incluído naquele nós?

Pensei inicialmente nos brasileiros que votaram em Flávio Bolsonaro, nas continuidades políticas que reconheço em sua candidatura e na dificuldade de compreender por que os acontecimentos recentes não foram suficientes para afastar tantos eleitores desse projeto. Agora penso também em quem, como eu, acreditou que a história da ditadura e a experiência da pandemia teriam tornado esse resultado menos provável. Talvez a pergunta de Belchior permaneça tão desconfortável porque alcança também a nossa maneira de compreender o país. Compartilhamos Elis Regina para lamentar que tantas coisas pareçam continuar iguais. Ainda precisamos compreender por que esperávamos que fossem diferentes.

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Estéfany Rocha Monteiro é advogada e pesquisadora nas áreas de direitos humanos, justiça transicional e memória, com formação recente pela Geneva Academy of International Humanitarian Law and Human Rights.

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