Exclusivo: O mapa do expurgo de Flávio Bolsonaro já está pronto. Por Jamil Chade

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O bolsonarismo já tem pronta uma lista de postos diplomáticos que serão alvos de um expurgo. Nas últimas semanas, assessores dos representantes do PL iniciaram um levantamento sobre embaixadores e diplomatas que poderiam ser avaliados como ameaças para o projeto de Flávio Bolsonaro, caso ele vença a eleição neste domingo.

O mapeamento foi iniciado depois que houve uma constatação entre os aliados de Flávio Bolsonaro de que um dos desafios de seu pai no poder foi conseguir a adesão de parte do Estado brasileiro para promover um desmonte das instituições. No Itamaraty, de forma corajosa, dezenas de diplomatas se coordenaram para promover uma sabotagem ao projeto de Jair Bolsonaro e liderado por Ernesto Araújo.

Atrasaram informes, perderam prazos e, no exterior, simplesmente não cumpriram as ordens do então governo para atitudes que representariam a queima de canais de diálogo com governos estrangeiros.

A estratégia, desta vez, é a de retirar de cena pessoas que poderiam ser um obstáculo, mesmo que para isso a diplomacia tradicional brasileira tenha de ser desmontada. Uma das referências seria a implementação de uma espécie de cópia do que Marco Rubio fez no Departamento de Estado norte-americano. No poder, ele anulou o poder de embaixadores, esvaziou divisões inteiras e, em seus lugares, colocou aliados fiéis ao movimento MAGA – Make America Great Again.

Isso envolveu a nomeação de pessoas sem qualquer conhecimento de diplomacia, aliados e financiadores da campanha de Trump e radicais de extrema direita.

No caso brasileiro, a constatação de observadores em Brasília é de que haveria uma parcela dentro da própria chancelaria brasileira disposta a fazer parte do projeto bolsonarista, incluindo ultraconservadores e ultraliberais. Uma ala de monarquistas, por exemplo, foi vocal durante o governo de Jair Bolsonaro.

Na lista de expurgos, segundo a reportagem apurou, estariam diplomatas em postos como o da ONU. Um eventual governo de Flávio Bolsonaro representaria uma transformação profunda do posicionamento do Brasil na instituição, abandonando padrões tradicionais do Itamaraty em temas como meio ambiente, o reconhecimento da Palestina, a defesa do multilateralismo e a defesa dos tribunais internacionais.

Também estão no foco de aliados de Flávio as direções de embaixadas em Madri, Londres, Roma e Paris.

Em Washington, está dado como certa a remoção da embaixadora Maria Luiza Viotti, alvo inclusive de sanções por parte do Departamento de Estado.

O bolsonarismo quer, na capital americana, um interlocutor da ala mais radical do eventual novo governo.

Em Brasília, a reformulação terá um impacto importante na condução de secretarias, divisões e nas nomeações de novos embaixadores.

Outra iniciativa seria a retomada das relações com Israel. Por denunciar o genocídio em Gaza, Luiz Inácio Lula da Silva foi declarado como persona non grata por Benjamin Netanyahu e o Brasil retirou seu embaixador de Tel Aviv. O primeiro-ministro, porém, já sinalizou que quer a retomada das relações, caso a direita vença.

Circula ainda pelos corredores do Itamaraty a volta de Ernesto Araújo à carreira diplomática, eventualmente com um cargo de embaixador em Buenos Aires. Depois de criar uma crise com o Centrão por ameaçar a relação com a China, o diplomata foi substituído na direção do Itamaraty. Passou a morar nos EUA e é um dos membros do Conselho de uma entidade ligada ao partido Vox, herdeiros do franquismo na Espanha.

Num novo governo, ele poderia ser recuperado para ser um interlocutor com o governo de Javier Milei, aliado de Trump.

Além dos expurgos, o bolsonarismo também iniciou um mapeamento para entender quais diplomatas teriam usado suas redes sociais durante a campanha eleitoral para fazer postagens que possam remeter ao PT, Lula, MST, pautas feministas, movimento LGBT ou qualquer sinal de que atuem em agendas progressistas.

Resta saber, porém, quem seria o novo chanceler. Se dentro do Itamaraty o temor maior é de um controle por parte de Eduardo Bolsonaro, há quem defenda um nome que daria ao governo um ar de “moderado”. Neste caso, inclusive para atender aos desejos dos exportadores agrícolas, uma opção que aparece com força é de Roberto Azevedo.

O embaixador foi uma peça fundamental dos dois primeiros governos Lula, ao liderar as disputas comerciais na OMC. Com o apoio de Celso Amorim e até um avião da FAB, ele percorreu o mundo para conseguir votos para se eleger para a diretoria da OMC, em Genebra.

Mas causou um terremoto ao deixar a instituição, um ano antes do término de seu mandato, para ocupar o cargo de vice-presidente da PepsiCo. O gesto foi duramente criticado nos corredores da OMC e causou espanto entre diplomatas brasileiros.

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