Por que não votar em Flávio Bolsonaro? O futuro dos povos indígenas está em jogo

“O retrocesso não é apenas uma lembrança do passado. Ele é um risco quando as mesmas ideias voltam a ameaçar nossos direitos”, afirma Filipe Gabriel Mura, liderança do povo Mura

Por Filipe Gabriel Mura*, no Cimi

Para os povos indígenas, escolher quem governará o Brasil não é apenas uma decisão partidária. É decidir quais projetos de país queremos, quais direitos serão respeitados e que futuro deixaremos para nossos filhos. Por isso, diante da possibilidade de Flávio Bolsonaro chegar à Presidência da República, precisamos olhar com atenção para suas propostas, suas declarações e o projeto político que ele representa.

Durante o governo de Jair Bolsonaro, os povos indígenas enfrentaram ataques aos seus direitos, enfraquecimento das políticas de proteção territorial e discursos que colocavam a exploração econômica acima da preservação dos nossos modos de vida. Agora, seu filho apresenta propostas que despertam preocupações semelhantes. Não podemos ignorar essa continuidade.

Flávio Bolsonaro já defendeu o marco temporal, uma tese que restringe o reconhecimento de territórios indígenas com base na ocupação em 5 de outubro de 1988. Também prometeu não demarcar terras indígenas e defendeu a exploração econômica desses territórios por meio de atividades como mineração, agricultura e turismo. Essas posições não são detalhes de campanha: elas dizem respeito à possibilidade de nossos povos terem seus direitos territoriais reconhecidos e protegidos.

“Não estamos falando de uma disputa abstrata entre esquerda e direita”

Em abril de 2026, Flávio voltou a defender o marco temporal. Em agosto, afirmou que os indígenas deveriam ter autonomia para decidir sobre atividades econômicas em suas terras. Mas precisamos fazer uma pergunta fundamental: de que autonomia estamos falando quando tantos povos enfrentam pressões econômicas, disputas territoriais e interesses de grandes empresas? A liberdade de decidir só existe de verdade quando há informação, proteção dos direitos coletivos e condições para que as comunidades escolham sem pressão.

Em Autazes, no Amazonas, essa discussão tem nome e endereço: povo Mura, território e Potássio do Brasil.

Nós conhecemos os conflitos provocados pela perspectiva de um grande empreendimento de mineração em nossa região. Conhecemos os questionamentos sobre a consulta às comunidades afetadas, as disputas em torno do licenciamento e o medo de que os interesses econômicos se imponham sobre nossos direitos. O empreendimento começou a ser desenvolvido antes do governo Bolsonaro, mas seu avanço durante aquele período faz parte de uma história que precisamos analisar criticamente.

O que aconteceria com territórios como o nosso sob um governo comprometido com a flexibilização das regras ambientais e com a ampliação da exploração econômica? O próprio plano de governo de Flávio Bolsonaro propõe rever o papel de órgãos como Ibama, Funai e ICMBio e prevê mudanças no licenciamento ambiental. Para quem luta pela demarcação e pela proteção territorial, essas propostas exigem atenção e respostas concretas.

Não estamos falando de uma disputa abstrata entre esquerda e direita. Estamos falando de rios, florestas, nascentes, comunidades e pessoas que dependem desses ambientes para viver. Quando uma decisão política facilita empreendimentos sem a devida avaliação dos impactos, quem vive no território pode ser obrigado a suportar consequências que não escolheu.

“Não temos o direito de esquecer essas experiências, principalmente quando os mesmos temas voltam ao centro do debate”

Também não podemos aceitar que a palavra desenvolvimento seja usada para justificar qualquer projeto. Queremos oportunidades, trabalho, educação, saúde e dignidade para nossos povos. Mas não precisamos abrir mão de nossa identidade nem colocar nossos territórios em risco para conquistar esses direitos. Desenvolvimento que desconsidera os povos afetados não pode ser apresentado como solução para todos.

É por isso que não podemos tratar a candidatura de Flávio Bolsonaro como se fosse apenas uma renovação de nomes. Precisamos avaliar o projeto político que acompanha essa candidatura e as consequências de suas propostas. A história recente do Brasil já mostrou o quanto decisões de um governo podem afetar a vida dos povos indígenas. Não temos o direito de esquecer essas experiências, principalmente quando os mesmos temas voltam ao centro do debate.

Como indígena Mura, acredito que nosso voto precisa ser consciente, informado e comprometido com a defesa da vida. Não basta perguntar quem promete crescimento econômico; precisamos perguntar quem respeitará nossos direitos, protegerá nossos territórios e garantirá que sejamos ouvidos nas decisões que afetam nosso futuro.

“Não podemos chamar de progresso aquilo que ameaça nossa existência”

Não podemos aceitar que o Brasil avance economicamente enquanto os povos indígenas são empurrados para trás em seus direitos. Não podemos chamar de progresso aquilo que ameaça nossa existência.

Porque, para nós, defender o território é defender a vida, a memória dos nossos ancestrais e o direito de nossos filhos crescerem sabendo quem são e de onde vieram.

O retrocesso não é apenas uma lembrança do passado. Ele é um risco quando as mesmas ideias voltam a ameaçar nossos direitos. E o futuro dos povos indígenas não pode ser colocado em jogo.

*Tuxaua da aldeia Lago do Soares (AM), comunicador e artista plástico

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