A vitória que não encerra a disputa

Vitória é esplêndida. Mas o país que sai das urnas entrega um Congresso bem mais à direita. Os próximos quatro anos serão decididos também pela capacidade do governo em transformar a força de outubro em mobilização permanente

Por Edgar Silva dos Anjos, em Outras Palavras

Na véspera da votação, a última rodada do PoderData, feita em 23 e 24 de outubro, dava 51% a 49% para Flávio Bolsonaro. Quaest e Datafolha falavam em empate técnico, e um estudo do BTG havia examinado 27 cenários para o segundo turno sem encontrar um único em que Lula passasse à frente. No domingo, as urnas devolveram 64,3 milhões de votos a Lula, 51,79% dos válidos, contra 59,8 milhões de Flávio, 48,21%. Uma diferença de 4,4 milhões de votos que a maior parte das pesquisas não viu chegar.

Entre um turno e outro, Lula somou 10,4 milhões de votos, e Flávio, 3,7 milhões. O presidente venceu nos nove estados do Nordeste, em 13 unidades da federação ao todo, e virou Minas Gerais, onde terminou com 50,43% dos válidos depois de ter perdido o estado no primeiro turno. Flávio levou outros 13 estados e o Distrito Federal, entre eles São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo, e manteve o domínio no Sul e no Centro-Oeste.

O alívio é legítimo, e a vitória tem consequências concretas. Impede o retorno do bolsonarismo à Presidência, preserva direitos, mantém aberto o espaço institucional das políticas públicas e mostra que ainda existe força popular capaz de reagir quando a democracia é ameaçada. O risco está em transformar o alívio em explicação, e o resultado deixa sem resposta como chegamos, mais uma vez, à beira de uma derrota evitável.

No primeiro turno, Flávio teve 56,1 milhões de votos, 47,03% dos válidos, contra 53,9 milhões de Lula, 45,16%. Lula perdeu cerca de 3,38 milhões de votos em relação a 2022, viu Minas escapar e encontrou no Nordeste uma sustentação que já não bastava para compensar a força conservadora do resto do país. Sem Jair Bolsonaro na urna, o bolsonarismo continuava capaz de organizar uma maioria relativa.

A campanha de Flávio entendeu cedo algo que a do governo demorou a entender. Não precisava explicar o país, bastava reunir insatisfações dispersas numa narrativa que qualquer eleitor pudesse repetir no almoço de domingo: o salário não rende, a cidade dá medo, o pequeno negócio afunda em dívida, os filhos não veem saída. E oferecia um responsável identificável, Lula, o PT, o governo. O eleitor de Flávio tinha uma frase pronta. O de Lula, muitas vezes, precisava de um seminário.

Essa diferença tem nome na tradição que vem de Gramsci. Trata-se da disputa pelo senso comum, o conjunto de explicações que circula na família, no trabalho, na igreja, no ônibus, no balcão do comércio e na tela do celular, a linguagem com que a população interpreta a própria vida. O governo podia exibir números de emprego, renda e investimento. O trabalhador que segue enfrentando jornada exaustiva, transporte precário, aluguel alto e conta que não fecha precisava reconhecer nesses números alguma coisa da sua semana. Onde a melhora não chegava ou permanecia insuficiente, nenhuma síntese de campanha poderia substituí-la. Logo depois do primeiro turno, em “Lula, Flávio e a disputa pelo senso comum”, publicado no GGN, descrevi esse conflito como o de um projeto político contra uma senha de circulação popular.

Em março, em “2026: por que não basta apenas vencer eleições”, publicado em Outras Palavras, sustentei que vitórias eleitorais, sozinhas, não reorganizam a base social do país nem desfazem a presença material do adversário na vida cotidiana. A vitória de 2022 havia interrompido um projeto de poder sem desmontar as estruturas políticas, culturais e econômicas que o sustentavam. O primeiro turno de 2026 mostrou o tamanho dessa distância.

Mostrou também o ritual que a esquerda transformou em álibi. A cada derrota municipal, a cada avanço da extrema direita, reaparece o diagnóstico de que é preciso voltar às bases, aos bairros, aos trabalhadores, aos espaços de convivência, e a repetição do diagnóstico passa a ocupar o lugar de sua execução. As bases são relações construídas todos os dias, com presença, escuta, conflito e resposta. Um partido que só aparece no território para pedir voto encontra pessoas que aprenderam a organizar a vida sem ele.

O choque de outubro teve ainda um componente silencioso. Parte dos eleitores que as pesquisas associavam a outras candidaturas conservadoras terminou em Flávio, num voto útil que não precisou de ato, camiseta ou postagem para existir. Foi a soma desse voto discreto com a força social conservadora e a dificuldade de comunicação do governo que produziu a derrota no primeiro turno.

A reação veio depois, com uma intensidade que expôs o quanto havia sido desperdiçado antes. Os estudantes saíram na frente. Em 6 de outubro, dois dias depois do primeiro turno, a UNE lançou a campanha Estudantes com Lula, e no dia 8 houve atos em ao menos 13 estados e no Distrito Federal, Minas inclusive. As manifestações chegaram a 11 capitais, e na Avenida Paulista o ato ocupou 12 quarteirões, com bandeiras que cabiam numa faixa: ensino público, Pé-de-Meia, universidades e institutos federais, fim da escala 6×1. Militantes voltaram às ruas, setores da esquerda que mantinham críticas duras ao governo entraram na campanha, e a campanha institucional, fria e distante do primeiro turno, cedeu lugar à volta de Lula aos atos presenciais e a uma mobilização que tomou as ruas e as redes ao mesmo tempo.

A leitura que já circula atribui a virada ao fato de a esquerda ter, enfim, aprendido a usar as redes. Trata-se de uma leitura que confunde o instrumento com o problema. O que o segundo turno exigiu foi a capacidade de traduzir conteúdo político em síntese, numa disputa de narrativa que o algoritmo comprime em um minuto e meio, sob pena de perder a retenção de quem assiste. Essa compressão tem dois gumes. Favorece narrativas pobres, baratas e fáceis de falsificar, e ao mesmo tempo oferece ao eleitor comum a chance de se apropriar de um debate que a linguagem institucional mantinha à distância.

É precisamente aqui que a questão das redes reencontra a disputa pelo senso comum. A síntese exigida pela tela do celular é a mesma que o trabalhador exige na conversa do ônibus, no balcão do comércio, na fila do posto de saúde: explicar a política pela vida concreta, em palavras que o outro reconheça como suas. A volta às bases, tantas vezes anunciada e tão pouco executada, tem esse conteúdo material. Ela se mede pela capacidade de conversar com o pobre e com o cidadão comum sobre a jornada, a dívida, o aluguel e o medo, e pouco tem a ver com o volume de postagens.

A participação acompanhou a mobilização. A abstenção do segundo turno ficou em 19,22%, a menor num segundo turno presidencial desde 2006. Quase 3 milhões de eleitores a mais compareceram em relação ao primeiro turno, e brancos e nulos somaram 1,8 milhão de votos a menos.

A escolha dos temas seguiu a mesma gramática. O fim da escala 6×1 dispensa mediação, e quem trabalha seis dias para descansar um sabe o que significa ter tempo para os filhos, para estudar, para a família, para viver. Pressionado, Flávio mudou de posição e anunciou voto favorável quando o Senado votou o fim da escala, em 14 de outubro, e a direita teve de responder a uma agenda que não havia escolhido. O Prospera MEI, lançado em 13 de outubro, a 12 dias da votação, propôs perdoar R$ 12,6 bilhões em dívidas tributárias de cerca de 3,6 milhões de microempreendedores, comprar dívidas bancárias com descontos acima de 90%, criar um Pix MEI de até R$ 5 mil e elevar o teto de faturamento para R$ 140 mil até 2028. Eram medidas que o governo poderia ter tomado muito antes e que só chegaram quando a derrota se tornou possível.

A 6×1 fala ao assalariado esmagado pela jornada. A agenda dos MEIs fala a quem trabalha por conta própria sob a pressão permanente da dívida, um universo que a direita soube associar à autonomia individual e à desconfiança do Estado. As duas pautas se encontram no mesmo ponto, uma linguagem política organizada em torno da vida material.

Em maio, ao escrever sobre a guerra de imposição de custos a partir do áudio em que Flávio cobrava dinheiro de Daniel Vorcaro, sustentei que, numa eleição de bases consolidadas, o escândalo deixa de ser instrumento de queda e passa a ser instrumento de atrito, e que a vantagem seria do campo capaz de manter o adversário mais tempo na defensiva. O segundo turno confirmou essa tese. A Polícia Federal apura se Flávio solicitou e intermediou repasses de Vorcaro, dono do Banco Master, para financiar o filme biográfico do pai, e a investigação fala em R$ 61 milhões. Em outubro, em plena campanha, a PF apontou o senador como “usuário master”, com acesso e gerenciamento, da conta de uma offshore ligada ao banqueiro, preso ao tentar deixar o país sob acusação de um esquema que causou um rombo de R$ 47 bilhões no Fundo Garantidor de Créditos. O desgaste não derrubou a candidatura, nem precisava. Consumiu tempo, empurrou a campanha para a defesa e produziu hesitação justamente entre os eleitores menos comprometidos.

O medo entrou na mesma conta. Flávio falou em mudar a Constituição para “redemocratizar o país”, referindo-se ao Judiciário, à maioridade penal e ao fim da reeleição, e repetiu referências à soltura do pai, condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe. A campanha de Lula, do seu lado, falou da perda de benefícios e de políticas públicas que mexem na mesa de cada família. A redução da maioridade penal, prevista no plano de governo para 16 anos, ganhou vídeo de Flávio em 14 de outubro, no mesmo dia em que o Senado votava a 6×1, e foi esticada para 14 anos em crimes hediondos no debate da Band, em 18 de outubro. Era a tentativa de recuperar o terreno da segurança no momento em que cedia no terreno do trabalho, e seu efeito em votos ainda está por medir.

A virada não se explica só pelo acerto de um lado. O outro errou, e errou no centro da própria estratégia.

No primeiro turno, Flávio venceu oferecendo ao eleitor um responsável. No segundo, trocou o alvo pelo espelho. Passou a conduzir a campanha como se a eleição fosse sobre ele e a administrar os votos que julgava garantidos, como quem faz a manutenção de um patrimônio, enquanto os próprios aliados temiam que o resultado de 4 de outubro tivesse alimentado uma confiança excessiva. Só na última semana a campanha tentou sair da defensiva e intensificar os ataques a Lula. Em 18 de outubro, na Avenida Paulista, diante de cerca de 71 mil apoiadores, Flávio projetou a própria vitória e prometeu que o pai, condenado por tentativa de golpe e cumprindo pena, estaria na posse. Numa eleição decidida pela rejeição, quem passa a falar de si coloca um alvo nas próprias costas. A guerra de imposição de custos tem essa face pouco observada, em que o custo pode ser imposto pelo adversário ou autoimposto por quem se oferece como alvo.

O Nordeste expôs o mesmo erro em outra escala. Para disputar a principal base de Lula, a campanha apostou numa série de vídeos do deputado Nikolas Ferreira, entre eles “O Nordeste que foi esquecido”, questionada por encenação e pelo uso de estrutura profissional para retratar a pobreza da região, e aliados de Flávio admitiram depois que a aposta foi um erro. Lula somou cerca de 2,95 milhões de votos no Nordeste entre os turnos, e Flávio, 397 mil. Em Luís Eduardo Magalhães, na Bahia, onde um dos vídeos foi gravado, a votação de Lula cresceu 22%, e a de Flávio, 3%. Do outro lado, Lula havia entregado a articulação, a agenda e a comunicação da campanha a Camilo Santana, Rui Costa e Rafael Fonteles, três nomes da região. O Nordeste devolveu a encenação com voto.

O debate da TV Globo, em 23 de outubro, condensou o erro numa cena. Lula perguntou por que Flávio havia atuado na defesa do policial militar acusado pelo Ministério Público de matar Ana Clara, menina de 5 anos atingida por um tiro de fuzil quando brincava na porta de casa, em Niterói, em 2021. A mãe, Cristiane, estava na plateia. Flávio se dirigiu a ela chamando-a pelo nome da filha morta, ofereceu solidariedade e, na mesma fala, disse confiar que o tiro não partira do policial que ele próprio ajudara a defender. Cristiane gritou da plateia que a menina estava morta. Nenhuma propaganda adversária produziria aquele custo, imposto pelo próprio candidato, ao vivo, a dois dias da votação.

Enquanto a esquerda encontrava o tom, a direita errava a mão. A campanha que havia imposto sua narrativa no primeiro turno passou o segundo respondendo, e quando não respondia, falava de si.

Esse erro ilumina a tese que formulei em abril, em “O perigo não é a repetição de Bolsonaro, é sua adaptação”, também publicado em Outras Palavras. A hipótese era que a extrema direita poderia mudar a forma de apresentação sem abandonar o projeto de poder, e que Flávio seria a figura capaz de tornar esse projeto mais funcional, oferecendo ao sistema uma superfície menos ameaçadora que a do pai. Em agosto, em “Eleições e a ameaça do bolsonarismo adaptável”, observei que a imposição de custos explicava por que Flávio havia sobrevivido aos escândalos, e a adaptação explicava o que ele fez com a sobrevivência: reconstruiu a equipe econômica com quadros da era Guedes, trocou o marketing, afastou os parentes mais custosos e concentrou a campanha em segurança e custo de vida. A aproximação com o Centrão e a distribuição antecipada de ministérios, com a disputa ainda aberta, fizeram parte do mesmo movimento.

O segundo turno mostrou o limite dessa plasticidade. Quando a pressão subiu, a superfície rachou e o núcleo reapareceu, com o pai no centro do palanque, a Constituição na mira e a defesa do policial acusado diante da mãe da vítima. A tentativa de ampliar a aceitação da candidatura entrou em conflito com os compromissos que sustentavam sua base. Confrontada com a vida concreta da população, a campanha teve de escolher entre defender posições anteriores, assumir contradições ou incorporar a agenda adversária, e fez as três coisas ao mesmo tempo.

O texto de abril já apontava a dimensão internacional da adaptação, a passagem de um populismo doméstico para a integração em redes globais de poder, com os minerais críticos no centro. Em 28 de março, na CPAC, no Texas, Flávio havia dito que o Brasil era “a solução dos Estados Unidos para romper a dependência da China em relação a minerais críticos, especialmente terras raras”, e em maio se reuniu com Donald Trump para prometer uma parceria estratégica de longo prazo. O Brasil tem a segunda maior reserva mundial desses minerais, decisivos para a indústria tecnológica, a transição energética e a produção militar. Estava em jogo, além de quem governaria o país, quem decidiria o destino de recursos estratégicos e em benefício de quem.

Os jovens ajudam a entender o que as pesquisas não viram. Em junho, em “A eleição congelada e a juventude que ainda se move”, também em Outras Palavras, observei que a margem da eleição era jovem: com as bases consolidadas, o resultado se decidiria no eleitorado que menos havia se fixado, e esse eleitorado tinha idade. No segundo turno, o PoderData dava 53% a 42% para Lula entre os eleitores de 16 a 24 anos, mas era também a faixa com menor certeza de comparecer, 88%. No primeiro turno, a abstenção entre os eleitores de 16 e 17 anos já havia caído de 17,1%, em 2022, para 12,7%. Se os jovens compareceram acima do previsto no dia 25, ali está parte da onda que escapou aos institutos, e a confirmação depende dos dados por faixa etária que o TSE ainda não divulgou.

Os mais velhos também ampliaram sua presença. No primeiro turno, a abstenção entre quem tem mais de 70 anos, para quem o voto é facultativo, caiu de 58,86% em 2022 para 49,19%. As pesquisas, porém, davam vantagem a Flávio entre os eleitores de 60 anos ou mais, e o comparecimento dessa faixa não pode ser lido como voto em Lula sem os números do segundo turno. Os agregados mostram três fontes possíveis da virada, o comparecimento maior, a queda dos brancos e nulos e a migração de eleitores das candidaturas eliminadas, num cenário em que Caiado, Zema e Augusto Cury apoiaram Flávio. O peso de cada uma segue em aberto.

A juventude disputada nesta eleição cresceu num país já transformado pelos primeiros governos petistas e quer saber outra coisa. Quer saber por que estuda e não encontra emprego à altura da formação, por que trabalha e não sai da casa dos pais, por que o transporte come horas do dia e a cidade oferece tão pouca cultura, lazer e convivência. A memória das conquistas passadas não substitui uma perspectiva de futuro, e nenhuma geração nasce devendo fidelidade política a quem governou antes dela.

Nas periferias, essa juventude faz política fora dos partidos e sindicatos, no hip-hop, no funk, nos coletivos culturais, no esporte, nas igrejas, com destaque para as evangélicas, nas redes de amizade e nos modos de ocupar a cidade. São sujeitos que já produzem linguagem, organização e interpretação sobre o país, e onde a esquerda não está de forma continuada, outras forças disputam esses sentidos. A cultura entra aí como dimensão da organização política, e cabe mal no papel de decoração de comício ou de influenciador contratado para a reta final. É ali que o senso comum se forma, muito antes de chegar ao algoritmo.

A unidade do segundo turno também recolocou uma divergência que a urgência eleitoral não resolve. Setores comunistas e organizações da esquerda radical participaram da mobilização contra Flávio sem abandonar suas críticas ao lulismo. Parte dessa crítica atribui as dificuldades do governo à moderação e cobra maior disposição de enfrentamento. Há razões para essa cobrança. A acomodação pode frustrar expectativas, preservar interesses dominantes e enfraquecer a capacidade de mobilização. Mas a disposição de enfrentar, por si só, não explica como vencer a resistência nem como sustentar as mudanças depois dela.

Em “Como reformas acumulam futuro”, propus avaliar a profundidade de uma reforma também pelas capacidades que ela deixa para a transformação seguinte. Renda, educação, cultura, instituições e desenvolvimento produtivo ampliam possibilidades reais, mas não se convertem automaticamente em organização e poder político. Essas conquistas têm valor próprio, mesmo quando não produzem adesão ao governo. Sua continuidade e ampliação, porém, dependem de uma força que precisa ser construída. O confronto pode fazer parte dessa construção, formando sujeitos, revelando interesses e ampliando apoio. Também pode consumir uma força que não encontra meios de sustentar o que conquistou. A conciliação, por sua vez, precisa ser julgada pelo que permite acumular e pelos interesses que continua protegendo.

É nesse ponto que a insuficiência dos governos petistas precisa ser discutida. A correlação de forças limita a ação, mas também é modificada pelas escolhas realizadas durante o mandato. Cobrar mudanças mais profundas exige perguntar que organização social, capacidade estatal e sustentação parlamentar poderiam realizá-las. Defender as conquistas exige perguntar o que foi feito para ampliar essa força. A crítica alcança tanto o governo que administra seus limites sem trabalhar para alterá-los quanto as organizações que cobram ruptura sem construir os meios de sustentá-la. O governo pode ampliar condições de participação e abrir disputas; partidos, sindicatos e movimentos precisam construir organização e autonomia. Nenhuma dessas responsabilidades se resolve esperando que o outro faça sua parte.

Essa força também precisa alcançar os lugares onde as decisões se tornam leis, orçamento e capacidade de execução. O país que sai das urnas entrega a Lula um Congresso mais à direita. O PL elegeu 121 deputados, a maior bancada de um único partido desde 1988, e terá 28 senadores a partir de 2027, também um recorde. A direita ocupará 303 das 513 cadeiras da Câmara, e a esquerda, 124. Lula terá sete governadores aliados, e Minas Gerais, onde ele virou a disputa presidencial, entregou o governo do estado a Cleitinho, do Republicanos, com 55,40% dos votos. Flávio perdeu com 59,8 milhões de votos, e o movimento que ele representa segue no Congresso, nos estados, nos municípios, nas igrejas e nas plataformas, em estruturas que não dependem do calendário eleitoral.

A vitória de outubro devolve o campo progressista a um problema que não se resolveu em quatro anos. Depois de 2022, havia tempo para transformar a conquista do governo em presença social duradoura. O governo realizou políticas importantes, mas o bolsonarismo preservou suas redes, renovou suas alianças e preparou uma candidatura capaz de terminar o primeiro turno à frente de Lula. Governo, partidos e organizações populares não conseguiram converter o conjunto dessas conquistas numa força duradoura capaz de ampliar sua sustentação. A mobilização do segundo turno mostrou que havia capacidade de reação, mas ela só ganhou aquela escala quando a derrota já batia à porta.

Não basta apenas vencer eleições porque as condições de uma derrota futura continuam sendo produzidas entre uma eleição e outra. Estão no bairro onde o partido desaparece, no trabalhador que recebe uma política pública sem encontrar espaço para participar de sua construção, no jovem que ouve falar das conquistas do passado enquanto procura alguma perspectiva para a própria vida. É nesse cotidiano que a direita organiza pertencimento, oferece explicações e prepara seus próximos candidatos.

A urna decide quem governa. Não decide, sozinha, quem organiza a sociedade. Uma política pública pode melhorar a vida de milhões sem que seus beneficiários encontrem meios de participar, defender sua continuidade e disputar sua ampliação. A realização administrativa precisa deixar também capacidade coletiva: gente organizada, lideranças formadas, espaços de decisão e força para enfrentar os interesses que resistem à mudança. Sem isso, as conquistas ficam mais vulneráveis às mudanças de governo. Os próximos quatro anos serão avaliados também pela capacidade de transformar a força de outubro em participação, organização e poder de decisão depois da campanha.

O bolsonarismo não precisou vencer esta eleição para mostrar sua força, e a esquerda não precisou perdê-la para conhecer suas fraquezas. Em março, escrevi que não bastava vencer eleições. Outubro mostrou o custo de conquistar o governo sem construir a força social necessária para sustentar e ampliar suas mudanças.

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