A vitória de Lula vista por um urbanista italiano. O país como laboratório de pensamentos e práticas sociais. A verdadeira disputa pelo futuro da nação e da Amazônia, a partir dos territórios. E as experiências de comunicação popular para ampliar o poder de decisão cidadã
Por Romeo Farinella no Libertà e Giustizia | Tradução: Lucas Scatolini, em Outras Palavras
“Lula venceu as eleições, a Amazônia está salva.” Eu gostaria de poder começar com essa certeza. Mas uma vitória eleitoral, por si só, mesmo sendo a quarta de Lula, não basta para garanti-la. Sobre a maior floresta tropical do planeta concentram-se interesses econômicos e políticos que o presidente terá de enfrentar com um Parlamento no qual cada maioria precisa ser construída e negociada. No entanto, não lhe faltam instrumentos: ele pode dar prioridade à fiscalização, mobilizar a administração federal contra o desmatamento ilegal e fazer cumprir as proteções existentes. Também pode vetar leis que as enfraqueçam, mas o Congresso, que não lhe é favorável, pode derrubar o veto com a maioria absoluta dos deputados e senadores. Sua capacidade de defender a Amazônia dependerá, portanto, tanto do uso dos poderes de que dispõe quanto das alianças que conseguir construir.
Partir da Amazônia significa, então, refletir sobre o Brasil: sobre a distância entre conquistar o governo e ter força para mudar o país, dando uma contribuição decisiva para uma salvação que diz respeito ao planeta inteiro. O valor dessa vitória é, antes de tudo, simbólico, porque traça uma perspectiva diferente para todo o continente latino-americano. Lula e Sheinbaum, Brasil e México: os dois países mais importantes da América Latina têm a possibilidade de apontar um caminho para o continente, afastando-o das direitas e das prepotências norte-americanas, e de oferecer uma experiência da qual até uma esquerda europeia acomodada demais possa aprender. O sinal vai além das fronteiras do Brasil: a vitória de Lula prova que a onda de direita não é irreversível e que uma esquerda dada como derrotada ainda pode reverter o prognóstico. Uma esperança, porém, ainda não é um projeto. O Brasil continua atravessado por forças que o voto não apaga, como as igrejas evangélicas ligadas ao bolsonarismo, atuantes nas periferias e nas favelas, e os nacionalismos de certas comunidades de origem europeia que olham com desprezo para os compatriotas indígenas ou descendentes de pessoas escravizadas.
A Amazônia também é um símbolo que vai além de seu papel ecológico. É um bem do Brasil e dos demais territórios amazônicos, mas seu destino diz respeito à humanidade. Trata-se de uma questão delicada, porque a humanidade não é um sujeito uniforme, assim como tampouco o são as responsabilidades pela crise climática. Nós, ocidentais, estamos completamente imersos nas retóricas verdes, nas quais até uma especulação imobiliária pode se transformar em bosque ou floresta, e a sustentabilidade corre o risco de se tornar um privilégio de classe. Celebram-se fictícios bosques verticais e cidades verdes construídas no deserto, enquanto, em outros lugares, comunidades que vivem na floresta e nas áreas silvipastoris africanas são expulsas em razão da exploração dos recursos naturais, ou em nome da conservação ou dos créditos de carbono. Esse é o problema do “colonialismo verde”, investigado pelo historiador Guillaume Blanc. A Amazônia é menos “selvagem” do que se pensa: durante milênios, os povos ameríndios modelaram e cuidaram de vastas porções dela. Também podemos entendê-la como uma paisagem doméstica, construída por meio de práticas de uso, conhecimentos e relações. Compreender as civilizações dos “povos da floresta” teria significado reconhecê-los como interlocutores; em vez disso, na interpretação proposta pelo arqueólogo francês Stéphen Rostain, o olhar europeu foi dominado pelo interesse em tomar, mais do que em compreender.
Em torno do desmatamento, atuam hoje sujeitos com poderes e responsabilidades muito diferentes: de um lado, os interesses econômicos que promovem sua exploração; de outro, um exército de pessoas pobres que encontra sustento nas atividades de fronteira e nos serviços que as acompanham, entre eles, caminhoneiros, garimpeiros e pequenos comerciantes. A Rodovia Transamazônica — BR-230 — é uma ferida no coração da floresta e uma estrada que parece nunca chegar ao fim. Ainda não está totalmente asfaltada, e longos trechos conservam o vermelho da terra batida, colorida pelos óxidos de ferro. Quando chove, a lama pode interromper as ligações e imobilizar caminhões por semanas, dando origem a um comércio de sobrevivência em torno das paradas forçadas. Um mundo ligado à economia do desmatamento: para enfrentar suas contradições, são necessárias alternativas para quem hoje vive dessa condição e alianças políticas capazes de sustentá-las. A Amazônia, de todo modo, não esgota o Brasil. É um país-mundo: da floresta amazônica às savanas do Cerrado, das planícies alagáveis do Pantanal à Mata Atlântica, das pradarias do Pampa à Caatinga do Sertão. Um país de metrópoles e de antagonismos rurais como aqueles que Gilberto Freyre investigava em Sobrados e mucambos, entre residências senhoriais e moradias pobres, na passagem do mundo rural para a sociedade urbana.
Para quem o frequenta como urbanista, o Brasil foi e continua sendo um laboratório: certamente de urbanismo, com Curitiba e Brasília; de arquitetura, com São Paulo e Rio de Janeiro; mas também de pensamento e de práticas sociais. No Rio, a favela está por toda parte. Ela circunda o centro da cidade e se agarra aos morros que margeiam Ipanema e Copacabana. Todas as manhãs, muitas pessoas descem para fazer funcionar a cidade “baixa” e, à noite, sobem de volta. Entre a cidade dos ricos e a dos pobres existe uma relação de interdependência tão evidente quanto desigual. É a “modernização seletiva” de que fala o geógrafo afro-brasileiro Milton Santos: algumas áreas urbanas são integradas aos circuitos globais da riqueza, enquanto muitas outras permanecem à margem. Santos, cujo centenário de nascimento se comemora neste ano, mostrou como a urbanização pode redistribuir e concentrar a pobreza, em vez de eliminá-la. Em São Paulo, Ermínia Maricato, Raquel Rolnik e Valter Caldana interpretaram, de perspectivas diferentes, a informalidade e a financeirização do espaço como formas concretas de uma cidade desigual. Santos distinguia a globalização narrada daquela vivida: a “fábula” de um mundo conectado, capaz de oferecer oportunidades a todos, e a “perversidade” de um sistema que produz desigualdades e exclusão. Mas também apontava uma possibilidade: colocar os conhecimentos e as tecnologias disponíveis a serviço da solidariedade, da cidadania e da justiça social. Essa era sua ideia de “uma outra globalização”. Se as favelas se tornaram o símbolo da urbanização da pobreza, a precariedade habitacional assume formas mais variadas. Trata-se de uma geografia social que atravessa a cidade: das pessoas que dormem nas ruas ou sob os viadutos aos cortiços — edifícios divididos em quartos para alugar, com instalações compartilhadas —, das ocupações de imóveis às favelas. Mesmo nos bairros populares, as condições de moradia podem ser muito diferentes. A rua e os espaços sob os viadutos, onde vivem as pessoas em situação de rua, representam a condição mais extrema dessa precariedade. Ter um emprego nem sempre é suficiente para poder pagar uma moradia, e Carmen Silva luta há quase trinta anos pelo direito à moradia e por políticas públicas voltadas também para quem, apesar de trabalhar, continua pobre. Nós nos encontramos na Ocupação São João 588, em São Paulo, no edifício que abrigava o Hotel Columbia Palace. Vazio e abandonado por décadas, ele se tornou um dos lugares da luta pelo direito à moradia. Os ocupantes reivindicam a possibilidade de morar no centro, em uma cidade onde muitos edifícios permanecem sem uso.
A possibilidade de habitar a cidade também está ligada à de tomar a palavra, de narrá-la. Isso foi demonstrado pela TV Maxambomba, graças a Paulo Freire, Eduardo Coutinho e Claudius Ceccon, em 1986, por iniciativa do CECIP, na Baixada Fluminense, na região metropolitana do Rio de Janeiro. Uma Kombi equipada para projeções levava às praças vídeos realizados com os moradores: a periferia narrava suas próprias experiências e se reunia para discuti-las. Essa história me voltou à mente ao observar o papel do WhatsApp na mobilização por Lula. O canal “Exército do Lula”, conduzido por André Janones, envolveu milhões de apoiadores na divulgação das mensagens da campanha. A Maxambomba construía a narrativa junto com os moradores; o canal eleitoral organizava sobretudo sua circulação. O que importa agora é a passagem da mobilização ao envolvimento nas decisões: fazer com que as pessoas alcançadas pela campanha possam continuar a tomar a palavra depois da votação.
A defesa da floresta, as ocupações por moradia e as experiências de comunicação popular colocam, de perspectivas diferentes, uma pergunta comum: que poder têm as pessoas para decidir sobre o território em que vivem e sobre a maneira como ele é narrado? É nesse terreno que as decisões do novo governo poderão apoiar as experiências sociais existentes ou deixá-las entregues à própria sorte. O laboratório brasileiro também se nutre da capacidade de se apropriar de ideias e transformá-las. Oswald de Andrade fez disso uma provocação no Manifesto antropófago: alimentar-se das culturas alheias, inclusive da cultura dominante, para reinventá-las. Uma capacidade de reelaboração que também podemos reconhecer, de diferentes formas, nos sincretismos religiosos, no entrelaçamento entre catolicismo, divindades africanas, espiritualidades indígenas e racionalidade laica. Para as forças progressistas que comemoram Lula, o trabalho começa agora. Sua vitória abre um espaço político que vai além do Brasil, mas quem lhe dará conteúdo também serão as comunidades, os movimentos e as pessoas que há décadas experimentam outras maneiras de habitar e conviver. O laboratório permanente do Brasil vive nos territórios, entre as pessoas. É ali, na floresta como nas cidades, que será medida a distância entre a vitória eleitoral e a mudança.
*Arquiteto, urbanista e professor catedrático (Full Professor) italiano de Planejamento e Desenho Urbano no Departamento de Arquitetura da Università degli Studi di Ferrara (UniFE).




