Uma radiografia do endividamento no Brasil

Não basta medir quanto as famílias devem: é preciso entender quais são as agruras financeiras do brasileiro. Com Bolsonaro, explodiram as dívidas emergenciais, como o cheque especial. Lula 3 não reduziu sangria. E o drama é, agora, arcar com financiamentos de casa e carros

Por Marcelo Martins Fiorelli, Gilberto Tadeu Lima e Marina da Silva Sanches, no Made-USP, em Outras Palavras

O endi­vi­da­men­to das famí­li­as tem ocu­pa­do um lugar impor­tan­te no deba­te elei­to­ral, e os dois can­di­da­tos do segun­do tur­no apre­sen­ta­ram pro­pos­tas para enfren­tá-lo. Lula já colo­cou em vigor sua mais recen­te pro­pos­ta: a ter­cei­ra edi­ção do pro­gra­ma Desen­ro­la Bra­sil. A medi­da pro­vi­só­ria, edi­ta­da em 25 de setem­bro de 2026, des­ti­nou R$ 15 bilhões à com­pra de dívi­das em atra­so de até R$ 10 mil, com des­con­tos e pra­zos ampli­a­dos para os deve­do­res. Flá­vio Bol­so­na­ro, por sua vez, tem anun­ciava, com insu­fi­ci­en­te deta­lha­men­to, uma medi­da seme­lhan­te, caso fosse elei­to: o gover­no com­pra­ria dívi­das de ina­dim­plen­tes e as refi­nan­ci­a­ria jun­to à Cai­xa Econô­mi­ca Fede­ral, nos mol­des do Desen­ro­la 3.0, já em vigor no man­da­to atual.

Redu­zir o endi­vi­da­men­to das famí­li­as, no entan­to,  exi­ge mais do que polí­ti­cas foca­li­za­das. É pre­ci­so uma eco­no­mia cuja taxa de cres­ci­men­to seja ade­qua­da e pro­lon­ga­da. Dian­te da abran­gên­cia do pro­ble­ma, é de inte­res­se públi­co ava­li­ar como os gover­nos de Jair Bol­so­na­ro e de Luiz Iná­cio Lula da Sil­va con­tri­buí­ram para a alta do endi­vi­da­men­to fami­li­ar. Toda­via, não bas­ta ana­li­sar em qual gover­no a dívi­da cres­ceu mais, é neces­sá­rio ava­li­ar tam­bém qual tipo de dívi­da mais cres­ceu em cada gestão. 

Dívi­das no che­que espe­ci­al e no rota­ti­vo do car­tão de cré­di­to apre­sen­tam as taxas de juros mais altas do mer­ca­do – 136,41% e 444,89%, res­pec­ti­va­men­te, em agos­to de 20261. Os dados de taxa de juros média, pra­zos médi­os e ina­dim­plên­cia por moda­li­da­de de cré­di­to foram extraí­dos do Ban­co Cen­tral do Bra­sil pelo Sis­te­ma Geren­ci­a­dor de Séri­es Tem­po­rais. São moda­li­da­des de cré­di­to con­tra­ta­das auto­ma­ti­ca­men­te, uma quan­do não há sal­do na con­ta cor­ren­te, a outra quan­do a fatu­ra do car­tão não é paga. Essas duas moda­li­da­des, jun­to com o cré­di­to não con­sig­na­do para rene­go­ci­a­ção de dívi­das, apre­sen­tam as três mai­o­res taxas de ina­dim­plên­cia den­tre todas as demais. Em agos­to de 2026, a ina­dim­plên­cia do che­que espe­ci­al foi de 15,34%, a do rota­ti­vo foi de 66,15%, enquan­to a das rene­go­ci­a­ções de dívi­da foi de 18,42%. Assim, essas três moda­li­da­des de cré­di­to reve­lam a difi­cul­da­de de mui­tas famí­li­as em cum­prir seus com­pro­mis­sos finan­cei­ros básicos. 

Por outro lado, as dívi­das para aqui­si­ção de veí­cu­los, imó­veis e demais bens ten­dem a indi­car melho­ra na con­di­ção finan­cei­ra das famí­li­as e podem refle­tir bem-estar econô­mi­co. Em razão dis­so e devi­do à natu­re­za e ao valor dos bens adqui­ri­dos, essas cate­go­ri­as ten­dem a apre­sen­tar taxas de juros mais bai­xas, pra­zos mais lon­gos e ina­dim­plên­ci­as meno­res. Em par­ti­cu­lar, o cré­di­to habi­ta­ci­o­nal é a linha de cré­di­to com (1) o mai­or volu­me do mer­ca­do bra­si­lei­ro, repre­sen­tan­do, em agos­to de 2026, 42,34% do total da dívi­da das famí­li­as2Esse total não inclui a moda­li­da­de de car­tão de cré­di­to à vis­ta e par­ce­la­do com o lojis­ta. Se incluir­mos, a cifra cai para 36,36%, mas con­ti­nua sen­do a prin­ci­pal moda­li­da­de de cré­di­to. Expli­ca­mos na nota 9 o moti­vo des­sa exclu­são. A nota 4 tam­bém inclui infor­ma­ções rele­van­tes.; (2) as meno­res taxas de juros, com uma taxa média de 11,28%  ao ano em agos­to3Essa taxa de juros é menor que a taxa bási­ca de juros do país, que, no final de agos­to de 2026 era de 14% ao ano, e atu­al­men­te, em outu­bro de 2026, é de 13,75% ao ano. ; (3) e a menor ina­dim­plên­cia, com 1,24% do volu­me de cré­di­to inadimplente. 

O endi­vi­da­men­to não é neces­sa­ri­a­men­te nega­ti­vo. No caso do cré­di­to imo­bi­liá­rio, por exem­plo, ele per­mi­te que mui­tas famí­li­as rea­li­zem o legí­ti­mo sonho da casa pró­pria, sob con­di­ções mais van­ta­jo­sas. Além dis­so, a deman­da por imó­veis novos aque­ce o setor de cons­tru­ção civil, con­tri­buin­do para o cres­ci­men­to econô­mi­co, o que seria bas­tan­te difi­cul­ta­do sem essa fon­te de financiamento.

Em con­tra­par­ti­da, no caso do che­que espe­ci­al e rota­ti­vo do car­tão de cré­di­to, o endi­vi­da­men­to refle­te uma inca­pa­ci­da­de das famí­li­as em arcar com seu cus­to de vida, se dá com as taxas de juros mais caras do mer­ca­do, e, a par­tir da alta ina­dim­plên­cia, con­tri­bui para a ins­ta­bi­li­da­de do sis­te­ma financeiro. 

Deve­mos, por­tan­to, fazer uma dis­tin­ção entre linhas de cré­di­to de emer­gên­cia – como é o caso do che­que espe­ci­al, do rota­ti­vo do car­tão de cré­di­to e do cré­di­to para rene­go­ci­a­ção de dívi­das – e o cré­di­to para con­su­mo pla­ne­ja­do – como é o caso da aqui­si­ção e arren­da­men­to de veí­cu­los e, par­ti­cu­lar­men­te, o cré­di­to habitacional.

A Figu­ra 1 repro­duz a métri­ca publi­ca­da pelo Ban­co Cen­tral do Bra­sil para acom­pa­nhar o endi­vi­da­men­to das famí­li­as: a fra­ção do esto­que de dívi­da, excluin­do o cré­di­to para aqui­si­ção de imó­veis, sobre uma esti­ma­ti­va da ren­da dis­po­ní­vel das famí­li­as acu­mu­la­da em 12 meses4. “O endi­vi­da­men­to é apu­ra­do com base na rela­ção entre o sal­do das dívi­das das famí­li­as no SFN [Sis­te­ma Finan­cei­ro Naci­o­nal] e a RNDBF [Ren­da Naci­o­nal Dis­po­ní­vel Bru­ta das Famí­li­as] res­tri­ta acu­mu­la­da dos últi­mos doze meses. (…) Con­cei­tu­al­men­te, a Ren­da Naci­o­nal Dis­po­ní­vel Bru­ta das Famí­li­as cor­res­pon­de à ren­da total das famí­li­as, que inclui os ren­di­men­tos obti­dos pelo uso de fato­res de pro­du­ção (tra­ba­lho e capi­tal) e as trans­fe­rên­ci­as rece­bi­das des­con­ta­dos das trans­fe­rên­ci­as pagas, como impos­tos e con­tri­bui­ções soci­ais. Essa medi­da expres­sa a ren­da agre­ga­da das famí­li­as dis­po­ní­veis para con­su­mo final e pou­pan­ça. (…) [O endi­vi­da­men­to] Inclui todas as dívi­das con­traí­das por pes­so­as físi­cas com o SFN des­ti­na­das a con­su­mo e finan­ci­a­men­to imo­bi­liá­rio, exce­to des­con­to de che­ques, micro­cré­di­to, cré­di­to rural (Taxas regu­la­das e de mer­ca­do), cré­di­to com recur­sos do BNDES (Finan­ci­a­men­to agroin­dus­tri­al e Capi­tal de giro e Finan­ci­a­men­to a inves­ti­men­tos) e outros cré­di­tos dire­ci­o­na­dos. Assim, foram excluí­das ope­ra­ções des­ti­na­das a ati­vi­da­des pro­du­ti­vas exer­ci­das pelas famí­li­as, clas­si­fi­ca­das na moda­li­da­de ‘outros cré­di­tos livres’. Para inclu­são das com­pras com car­tão de cré­di­to par­ce­la­das sem juros (par­ce­la­do lojis­ta), foi neces­sá­rio desa­gre­gá-las do total do car­tão de cré­di­to à vis­ta, pos­to que ape­nas as com­pras par­ce­la­das impac­tam o orça­men­to das famí­li­as ao lon­go do tem­po. Com base nas esta­tís­ti­cas de paga­men­tos, esti­mou-se que as ope­ra­ções par­ce­la­das res­pon­dem por apro­xi­ma­da­men­te 70% dos sal­dos da moda­li­da­de “car­tão de cré­di­to à vis­ta”. As séri­es 20399 e 20400 tam­bém não inclu­em os finan­ci­a­men­tos imo­bi­liá­ri­os (…) Os sal­dos são apu­ra­dos de acor­do com regras con­tá­beis, pelo regi­me de com­pe­tên­cia, e cor­res­pon­dem ao valor nomi­nal da car­tei­ra.” (Meta­da­dos da série 29038 – SGS/BCB) “A RNDBF res­tri­ta exclui o exce­den­te ope­ra­ci­o­nal bru­to e as ren­das de pro­pri­e­da­des, que são par­ce­las de ren­da, em teo­ria, menos cor­re­la­ci­o­na­das com o ciclo econô­mi­co ou que não são tipi­ca­men­te des­ti­na­das ao con­su­mo ime­di­a­to.” (Meta­da­dos da série 29030)5Ambas as séri­es cor­res­pon­dem a agre­ga­dos macro­e­conô­mi­cos. O nume­ra­dor é a soma da dívi­da das famí­li­as, enquan­to o deno­mi­na­dor é a soma da ren­da das famí­li­as. . No iní­cio do gover­no Bol­so­na­ro, em 2018,  o esto­que de dívi­da era equi­va­len­te a 23,21% da ren­da das famí­li­as. Qua­tro anos depois, ele havia se ele­va­do para 31,16%. Esse aumen­to expres­si­vo ocor­reu, como mos­tra a figu­ra, com rela­ti­va rapi­dez. Em 2023, por­tan­to, Lula ini­cia seu ter­cei­ro man­da­to com um enor­me desa­fio her­da­do da ges­tão ante­ri­or. Des­de então, a dívi­da man­te­ve-se rela­ti­va­men­te está­vel, atin­gin­do 30,81% da ren­da em julho de 2026. 

Em mea­dos des­te ano, por­tan­to, o gover­no Lula se defron­ta­va com um endi­vi­da­men­to pra­ti­ca­men­te no mes­mo nível daque­le com o qual a ges­tão Bol­so­na­ro ter­mi­nou, o que refor­ça a hipó­te­se de heran­ça do gover­no ante­ri­or. O máxi­mo do atu­al gover­no, por vol­ta de 31,4% no iní­cio de 2026, ficou pra­ti­ca­men­te no nível do pico de 2022, ao fim da ges­tão Bol­so­na­ro. Ou seja, a série vol­tou a encos­tar no teto her­da­do sem supe­rá-lo de for­ma cla­ra. Em julho de 2026, o indi­ca­dor esta­va em cer­ca de 30,8%, bas­tan­te pró­xi­mo do pon­to de par­ti­da no iní­cio do governo.

Vale notar, porém, que essa métri­ca ana­li­sa con­jun­ta­men­te dois valo­res – o esto­que de dívi­da fami­li­ar e a ren­da das famí­li­as (Ren­da Naci­o­nal Dis­po­ní­vel Bru­ta das Famí­li­as ‑RNDBF). Assim, o indi­ca­dor é sen­sí­vel às mudan­ças em ambas as variá­veis, no nume­ra­dor e no deno­mi­na­dor. Ao obser­var o perío­do entre 2018 e 2022, a ele­va­ção do endi­vi­da­men­to como pro­por­ção da ren­da foi influ­en­ci­a­da não ape­nas por um aumen­to abso­lu­to do esto­que de dívi­da, mas tam­bém pelo seu cres­ci­men­to em rela­ção à ren­da, que expan­diu pou­co. Duran­te o gover­no Bol­so­na­ro, em média, o esto­que de dívi­da , sem excluir o cré­di­to habi­ta­ci­o­nal, cres­ceu, em média, 7,94% ao ano, enquan­to a ren­da das famí­li­as cres­ceu, em média, 1,9% ao ano, ambas des­con­ta­das pela infla­ção (IPCA)6. Os dados de cres­ci­men­to do esto­que da dívi­da foram cal­cu­la­dos a par­tir das séri­es “29038 – Endi­vi­da­men­to das famí­li­as com o Sis­te­ma Finan­cei­ro Naci­o­nal exce­to cré­di­to habi­ta­ci­o­nal em rela­ção à ren­da acu­mu­la­da dos últi­mos 12 meses (RNDBF)” e “29030 – Ren­da Naci­o­nal Dis­po­ní­vel Bru­ta das Famí­li­as res­tri­ta – em valo­res cor­ren­tes, acu­mu­la­da em doze meses”. O esto­que da dívi­da e a ren­da naci­o­nal dis­po­ní­vel bru­ta das famí­li­as res­tri­ta foram defla­ci­o­na­dos pelo IPCA. A par­tir des­se núme­ro, cal­cu­la­mos as taxas de cres­ci­men­to médio anu­al das variá­veis para cada man­da­to.. Esse resul­ta­do con­tras­ta com o perío­do pos­te­ri­or: entre 2023 e 2026, ter­cei­ro man­da­to de Lula,  a ren­da cres­ceu mais – em média, 5,49% ao ano – e a dívi­da fami­li­ar aumen­tou menos – em média, 5,92% ao ano.

A Figu­ra 2 mos­tra a evo­lu­ção do cré­di­to habi­ta­ci­o­nal como pro­por­ção da ren­da das famí­li­as para ambos os gover­nos7Esta série foi obti­da a par­tir da sub­tra­ção de duas séri­es do BCB: “29037 – Endi­vi­da­men­to das famí­li­as com o Sis­te­ma Finan­cei­ro Naci­o­nal em rela­ção à ren­da acu­mu­la­da dos últi­mos doze meses (RNDBF)” e “29038 – Endi­vi­da­men­to das famí­li­as com o Sis­te­ma Finan­cei­ro Naci­o­nal exce­to cré­di­to habi­ta­ci­o­nal em rela­ção à ren­da acu­mu­la­da dos últi­mos 12 meses (RNDBF)”. Os mes­mos valo­res podem ser obti­dos a par­tir da divi­são entre a série “20612 – Sal­do – Pes­so­as físi­cas – Finan­ci­a­men­to imo­bi­liá­rio total” e a série “29030 Ren­da Naci­o­nal Dis­po­ní­vel Bru­ta das Famí­li­as res­tri­ta – em valo­res cor­ren­tes, acu­mu­la­da em doze meses”.. Antes de ana­li­sar a figu­ra, é impor­tan­te reco­nhe­cer que  essa for­ma de endi­vi­da­men­to acom­pa­nhou de per­to as polí­ti­cas de mora­dia dos gover­nos Lula e Dil­ma, com des­ta­que para o Minha Casa Minha Vida, que ofe­re­ce sub­sí­di­os e taxas de juros abai­xo das pra­ti­ca­das pelo mer­ca­do na com­pra de imó­veis. Entre janei­ro de 2005 e agos­to de 2016, perío­do de pou­co mais de onze anos e meio que abran­ge os gover­nos Lula 1, Lula 2 e Dil­ma, o sal­do de cré­di­to imo­bi­liá­rio pas­sou de 2,67% para 16,02% da ren­da das famílias. 

Duran­te o gover­no Temer, de agos­to de 2016 até o fim de 2018,  o indi­ca­dor ficou pra­ti­ca­men­te está­vel, em tor­no de 15,81% da ren­da. No gover­no Bol­so­na­ro, esse endi­vi­da­men­to, medi­do pelo mes­mo indi­ca­dor, apre­sen­tou uma alta de apro­xi­ma­da­men­te 3 pon­tos per­cen­tu­ais. Essa vari­a­ção equi­va­le a cer­ca de um quar­to da expan­são regis­tra­da entre 2005 e 2016, em um inter­va­lo bem mais cur­to. Esse movi­men­to coin­ci­de com a vigên­cia do Casa Ver­de e Ama­re­la, lan­ça­do em 2020 como nova deno­mi­na­ção do Minha Casa Minha Vida e em vigor a par­tir de 2021.

No atu­al gover­no Lula, o indi­ca­dor ficou entre 17,5% e 18% da ren­da entre 2023 e 2024 e vol­tou a subir, che­gan­do a cer­ca de 19,05% em mea­dos de 2026, em boa medi­da como resul­ta­do da expan­são do Minha Casa Minha Vida. O cré­di­to habi­ta­ci­o­nal, por­tan­to, segue em expan­são, embo­ra em rit­mo mais gra­du­al do que no perío­do 2003–2016. 

Para as famí­li­as, a dívi­da é uma adver­si­da­de na medi­da em que com­pro­me­te par­te do orça­men­to com o paga­men­to das par­ce­las men­sais. O com­pro­me­ti­men­to da ren­da mede jus­ta­men­te essa fatia, isto é, o per­cen­tu­al da ren­da das famí­li­as des­ti­na­do ao ser­vi­ço da dívi­da, com­pos­to por juros e amor­ti­za­ção. A amor­ti­za­ção é a par­ce­la que aba­te o prin­ci­pal, ou seja, a quan­tia ori­gi­nal­men­te empres­ta­da. Quan­to mai­o­res os juros, man­ti­do tudo o mais cons­tan­te, mai­or será o com­pro­me­ti­men­to da ren­da. Por outro lado, quan­to mai­o­res forem os pra­zos e par­ce­las, tudo o mais cons­tan­te, menor será o com­pro­me­ti­men­to da ren­da8;“Com­pro­me­ti­men­to de ren­da – Rela­ção entre o valor cor­res­pon­den­te aos paga­men­tos espe­ra­dos para o ser­vi­ço da dívi­da com o Sis­te­ma Finan­cei­ro Naci­o­nal e a ren­da men­sal das famí­li­as, em média móvel tri­mes­tral, ajus­ta­do sazo­nal­men­te.” . 

A Figu­ra 3 mos­tra a evo­lu­ção des­se indi­ca­dor, em médi­as móveis tri­mes­trais e com ajus­te sazo­nal. Aqui, con­si­de­ra­mos no cál­cu­lo todas as moda­li­da­des de cré­di­to, inclu­si­ve a dívi­da com imó­veis. Segun­do dados do Ban­co Cen­tral do Bra­sil, no gover­no Bol­so­na­ro, o com­pro­me­ti­men­to da ren­da subiu de 22,58% para 27,57%, uma alta de cer­ca de 5 pon­tos per­cen­tu­ais. No ter­cei­ro man­da­to de Lula, a métri­ca che­gou a 28,72% em mea­dos des­te ano, com um aumen­to bem menor, de 1,15 pon­to percentual.

A tra­je­tó­ria sob Bol­so­na­ro não foi line­ar. O indi­ca­dor subiu até cer­ca de 25% em 2019, caiu em 2020, até pró­xi­mo de 20% em mea­dos daque­le ano, e vol­tou a cres­cer com for­ça a par­tir de 2021, ape­sar da taxa de juros mais bai­xa no perío­do. Entre o fim de 2020 e o fim de 2022, a alta foi de cer­ca de 8 pon­tos percentuais.

No gover­no Lula, o indi­ca­dor come­çou no pata­mar her­da­do, em tor­no de 27,5%, che­gou a cer­ca de 28% em mea­dos de 2023 e recu­ou para cer­ca de 25,5% no iní­cio de 2024. A par­tir daí, vol­tou a subir até cer­ca de 28,7% em mea­dos de 2026, repre­sen­tan­do, porém, um aumen­to de ape­nas 1,15 pon­to per­cen­tu­al em rela­ção ao iní­cio do governo.

Entre­tan­to, essa é ape­nas par­te da his­tó­ria. A métri­ca do Ban­co Cen­tral do Bra­sil expres­sa os paga­men­tos espe­ra­dos para o ser­vi­ço da dívi­da  em rela­ção à ren­da men­sal das famí­li­as, mas não dis­tin­gue o cré­di­to que finan­cia a casa pró­pria daque­le que paga as con­tas do mês. É nes­sa dis­tin­ção, mais do que no nível agre­ga­do, que é pos­sí­vel iden­ti­fi­car os con­tras­tes mais sig­ni­fi­ca­ti­vos entre os dois períodos.

Nem toda dívi­da é con­traí­da nas mes­mas con­di­ções. No finan­ci­a­men­to de um imó­vel, o toma­dor cos­tu­ma estar em situ­a­ção mais está­vel e pla­ne­ja-se finan­cei­ra­men­te para adqui­rí-lo. Já o che­que espe­ci­al e o rota­ti­vo do car­tão de cré­di­to tipi­ca­men­te refle­tem a difi­cul­da­de das famí­li­as em qui­tar todas as con­tas no mês. O mes­mo vale para a recom­po­si­ção de dívi­das, que con­sis­te na rene­go­ci­a­ção de débi­tos já ven­ci­dos: quem recor­re a essa moda­li­da­de já está ina­dim­plen­te e bus­ca sair do ver­me­lho. A Figu­ra 4 mos­tra o cres­ci­men­to médio anu­al do sal­do de cada moda­li­da­de no gover­no atu­al e no ante­ri­or. Os valo­res são médi­as sim­ples das vari­a­ções anu­ais, e não taxas com­pos­tas do período.

Duran­te o Gover­no Bol­so­na­ro, as moda­li­da­des emer­gen­ci­ais cres­ce­ram expres­si­va­men­te. A recom­po­si­ção de dívi­das avan­çou 16,70% ao ano, o che­que espe­ci­al e o rota­ti­vo, 9,01%, e o cré­di­to pes­so­al não con­sig­na­do, 15,04%. Sob Lula, o qua­dro se inver­teu: a recom­po­si­ção de dívi­das recu­ou 2,77% ao ano, e o che­que espe­ci­al e o rota­ti­vo subi­ram 4,82%. Esse últi­mo ficou abai­xo do cres­ci­men­to médio da dívi­da total no ter­cei­ro man­da­to (5,92% ao ano), o que aju­da a expli­car a que­da da par­ti­ci­pa­ção des­sa linha no endi­vi­da­men­to. O aumen­to do cré­di­to con­sig­na­do tam­bém desa­ce­le­rou entre os dois gover­nos: cres­ceu 8,37% ao ano sob Bol­so­na­ro e 3,70% sob Lula.

O con­tras­te apa­re­ce tam­bém nas moda­li­da­des com fina­li­da­de defi­ni­da, como a aqui­si­ção de bens e veí­cu­los e o cré­di­to imo­bi­liá­rio. Nelas, o cres­ci­men­to foi mais rápi­do sob Lula: 5,31% para 7,94% ao ano no caso dos veí­cu­los e 5,22% para 7,49% no caso do cré­di­to imo­bi­liá­rio. Já o par­ce­la­men­to no car­tão de cré­di­to foi a moda­li­da­de que mais cres­ceu sob Lula (11,35% ao ano), segui­do pelo cré­di­to pes­so­al não con­sig­na­do (8,47%).

Obser­va-se um con­tras­te na natu­re­za do cré­di­to toma­do em cada ges­tão. Sob Bol­so­na­ro, avan­ça­ram sobre­tu­do as dívi­das emer­gen­ci­ais, como o che­que espe­ci­al, o rota­ti­vo do car­tão e a recom­po­si­ção de débi­tos. Sob Lula, o cres­ci­men­to foi sus­ten­ta­do por linhas de fina­li­da­de defi­ni­da, como o cré­di­to imo­bi­liá­rio e o finan­ci­a­men­to de veí­cu­los, mas tam­bém pelo par­ce­la­men­to no car­tão e pelo cré­di­to pes­so­al não con­sig­na­do, que cres­ce­ram mais rapi­da­men­te que as demais moda­li­da­des, mas menos do que no gover­no Bolsonaro.

A tra­je­tó­ria das linhas de cré­di­to mais caras ilus­tra esse cená­rio. Excluin­do as moda­li­da­des de finan­ci­a­men­to habi­ta­ci­o­nal e car­tão de cré­di­to à vis­ta9A moda­li­da­de de car­tão de cré­di­to à vis­ta inclui não só com­pras no car­tão que são qui­ta­das no pró­prio mês, mas tam­bém com­pras par­ce­la­das com o lojis­ta, na qual o ban­co pro­ve­dor da linha não inter­me­dia. Ou seja, par­te des­sa dívi­da de car­tão de cré­di­to con­fi­gu­ra-se como dívi­da das famí­li­as, ape­sar de não ser pos­sí­vel men­su­rá-la. O Ban­co Cen­tral con­tor­na esse pro­ble­ma esti­man­do o per­cen­tu­al de gas­tos no car­tão de cré­di­to à vis­ta des­ti­na­dos a com­pras par­ce­la­das para com­pu­tar sua métri­ca de endi­vi­da­men­to, como foi expli­ca­do na nota de roda­pé 4. Como não temos aces­so a essas esti­ma­ti­vas, sim­ples­men­te exclui­re­mos do mon­tan­te essa moda­li­da­de de cré­di­to., o sal­do do che­que espe­ci­al, rota­ti­vo do car­tão de cré­di­to e rene­go­ci­a­ção de dívi­das repre­sen­ta­va 12,17% das dívi­das fami­li­a­res no iní­cio do gover­no Bol­so­na­ro e subiu para 13,34%  ao fim do man­da­to. Sob Lula, esse índi­ce recu­ou e foi para um nível infe­ri­or ao pata­mar ini­ci­al, com 11,61% em agos­to de 2026.

A aqui­si­ção de bens e veí­cu­los segue outra lógi­ca. Sob Bol­so­na­ro, sua par­ti­ci­pa­ção na dívi­da caiu de 24,53% no iní­cio do man­da­to para 20,95% ao final. Sob Lula, a par­ti­ci­pa­ção vol­tou a subir e che­gou a 22,71% em julho de 2026, fru­to de uma deman­da aquecida.

Os dados suge­rem que o alto endi­vi­da­men­to das famí­li­as é uma carac­te­rís­ti­ca estru­tu­ral da eco­no­mia bra­si­lei­ra con­tem­po­râ­nea, refle­xo de uma estru­tu­ra par­ti­cu­lar de deman­da e de ofer­ta de cré­di­to. Entre­tan­to, a aná­li­se tam­bém indi­ca que osci­la­ções nes­ta série his­tó­ri­ca têm efei­tos per­sis­ten­tes. Nes­se sen­ti­do, é impor­tan­te enten­der a ori­gem e a cau­sa dos movi­men­tos sub­ja­cen­tes. Como obser­va­do, o gover­no Bol­so­na­ro dei­xou para o gover­no Lula um lega­do de alto endi­vi­da­men­to das famí­li­as. Porém, esse endi­vi­da­men­to não foi refle­xo de uma melho­ria no padrão de con­su­mo da popu­la­ção, mas sim prin­ci­pal­men­te de uma inca­pa­ci­da­de de finan­ciá-lo. No atu­al man­da­to, o indi­ca­dor ana­li­sa­do man­te­ve-se rela­ti­va­men­te está­vel, em um con­tex­to de ati­vi­da­de econô­mi­ca aque­ci­da e de ren­da em cres­ci­men­to. Essa esta­bi­li­da­de decor­re da pro­xi­mi­da­de entre o rit­mo de expan­são da dívi­da (5,92% ao ano) e o da ren­da (5,49% ao ano). Quan­to à com­po­si­ção, hou­ve melho­ra em um aspec­to rele­van­te: redu­ziu-se o peso do che­que espe­ci­al e do rota­ti­vo, as cate­go­ri­as mais caras. Ao mes­mo tem­po, a aqui­si­ção de veí­cu­los, imó­veis e o par­ce­la­men­to no car­tão de cré­di­to ganha­ram espa­ço, o que qua­li­fi­ca essa lei­tu­ra na medi­da em que tais movi­men­tos têm alta pro­ba­bi­li­da­de de esta­rem rela­ci­o­na­dos com o aque­ci­men­to da eco­no­mia e o aumen­to de ren­da da popu­la­ção. Em sín­te­se, a alta do endi­vi­da­men­to no gover­no Bol­so­na­ro foi mar­ca­do sobre­tu­do por dívi­das emer­gen­ci­ais, sem neces­sa­ri­a­men­te refle­tir uma melho­ria nas con­di­ções econô­mi­cas da popu­la­ção. No gover­no Lula 3, as for­mas domi­nan­tes de endi­vi­da­men­to se alte­ra­ram: com­bi­nou-se cré­di­to para aqui­si­ção de bens, veí­cu­los e imó­veis com a expan­são do par­ce­la­men­to no car­tão, refle­tin­do um momen­to dis­tin­to da eco­no­mia brasileira.

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