Eleições e depois: onde estamos?

Diziam os clássicos que há dias que valem por anos, que mudam a história. Ao votar em massa, o eleitorado chamou Lula a governar mais próximo do povo. A alegria com a vitória indica o rechaço ao projeto das elites. Poucas vezes houve chance tão boa para ousar

Por Carlos Azevedo, em Outras Palavras

É justa a euforia com a vitória eleitoral de 25 de outubro. As forças populares perceberam o perigo que ameaçava a sociedade, foram às ruas e às redes digitais e promoveram uma virada que já está cravada na história política do país. Mas vamos observar com mais profundidade a nossa realidade. O que muda com isso?

Para entender é preciso responder: que sociedade somos?

Lula chegou pela quarta vez ao governo. Nas quatro vezes, mais as vezes de Dilma, o retrato da nossa sociedade passou por algumas mudanças, mas não se alterou no essencial. Nessas duas décadas a economia do Brasil cresceu consideravelmente. Porém o país continuou a ser campeão mundial de desigualdade. Nessas ocasiões a frente de partidos de esquerda e centro-esquerda assumiu o governo, mas foi incapaz de revolucionar a sociedade. Isto por vários motivos, a começar por não apresentar um programa de transformação definido que seja capaz de ser mobilizador das pessoas comuns, e por ter uma presença frágil nas bases da sociedade. Mesmo quando assumiu o governo continuou longe de conquistar o poder.

Quem controla o poder econômico é uma ínfima minoria detentora do capital financeiro com raiz internacional, bancos, gigantescos fundos de investimento, grandes empresas industriais e o latifúndio rural modernizado, apelidado de agronegócio. Esses setores são os donos dos meios de produção (fábricas, equipamentos, tecnologia etc). Eles contratam e dominam a vida da maior parte dos 104 milhões de trabalhadores e trabalhadoras que lhes vendem diariamente sua força de trabalho.

Os capitalistas são os proprietários da estrutura material. Mas seu poder vai além porque também inclui o que se pode chamar de superestrutura formada pelo Parlamento, o Judiciário e Cultura, além das forças armadas e a polícia. Financiam e elegem a esmagadora maioria do poder político (senadores, deputados federais, governadores, deputados estaduais, prefeitos e vereadores) e assim fazem as leis a seu critério e determinam a pauta do Parlamento.

Ao seu lado, o Judiciário, com centenas de tribunais federais e estaduais espalhados pelo país. Os juízes, com raras exceções, encastelados nos tribunais, recebendo salários milionários, com certa frequência corrompidos, aplicam as leis feitas à feição pelo Parlamento. Têm o poder de prender e soltar e manter a ordem pública a serviço da ordem dominante.

Outro setor da superestrutura é o Cultural, onde avultam as seitas religiosas com sua influência impositiva sobre a maior parte da população, com seus templos, emissoras de rádio e programas na televisão. O setor é também dominado por grandes capitais da área de comunicação que produzem uma indústria que inibe e deforma a criação artística popular. E resulta em manifestações pseudo-artísticas como o chamado sertanejo universitário, esse rebento mal-formado que reflete a pobreza intelectual e ideológica do seu inspirador e financiador, o agronegócio, e se tornou majoritário nos eventos musicais.

Essas aberrações, veiculadas maciçamente pelos meios de comunicação em shows milionários de artistas fabricados por escritórios de produção em massa, pagos por dinheiro de corrupção como as emendas parlamentares, tornam-se parte do cotidiano de setores da população, principalmente jovens privados de conhecer manifestações artísticas genuínas da cultura popular. E os mantém em permanente estado de alienação da realidade, passivos, distraídos por falsas pautas.

Portanto, onde estamos?

Estamos longe de uma sociedade de justiça e igualdade, de distribuição da riqueza produzida por milhões de trabalhadores e trabalhadoras, na grande maioria sujeitos a salários baixos que aviltam sua cidadania.

Os trabalhadores e trabalhadoras precisam adquirir consciência de classe. O que isso quer dizer? É necessário entender que sua condição de pobreza, de más condições de habitação, educação, saúde, transporte, alimentação, não são imperativos da natureza ou determinação divina. São fruto de uma sociedade de classes, em que uma classe dominante arrogante e violenta está de posse de instrumentos que lhes impõem um elevado teor de exploração e de coerção. E que, através dos meios de comunicação, da indústria cultural, da educação e da repressão policial, tem como projeto manter a população na ignorância e passividade.

Como educá-los? A educação do povo se dá basicamente pela experiência prática, pela vivência. Na recente eleição presidencial, a maior parte da população, os pobres, os velhos, os jovens, os explorados e humilhados, perceberam que havia dois lados, que havia o lado dos poderosos que planejavam liquidar com a nossa frágil democracia, mantê-los na pobreza e ignorância, e havia o lado dos que queriam salvar a democracia e promover melhorias em suas existências, contidas nas políticas sociais do governo que se reelegeu.

Foram momentos educativos. Diziam os clássicos que há dias que valem por anos, que mudam a história. Será que algo assim aconteceu? Ao votar como votou, indo em massa às urnas, o eleitorado sinalizou ao presidente que é urgente aprofundar as reformas sociais e o intimou a governar mais próximo, junto com o povo, que lhe deu uma lição ao mostrar nas ruas como se deve governar. A intensa alegria das pessoas com a vitória nas urnas é uma indicação de como foi profunda a compreensão da importância de derrotar a ameaça da autocracia presente no programa do adversário.

O resultado da eleição não foi uma revolução, não mudou o caráter da nossa sociedade de classes e extremamente desigual. Basta lembrar que o outro lado, por interesses de alguns e ignorância de outros, obteve quase a metade dos votos. Mesmo assim, foi como uma iluminação, um clarão que mostrou que a mudança é possível. Foi tão importante que está repercutindo entre os povos de muitos países, o L de Lula se tornando um mobilizador para a luta.

Falta muito para uma mudança de qualidade no Brasil em meio a esse mundo conturbado. Falta muito para o Brasil se tornar socialista. Mas poucas vezes houve uma hora tão boa para começar a buscar. Vejam os sorrisos das pessoas! Até parece que de repente estão se dando conta: “não estamos sozinhos. Já que somos milhões, podemos!”

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