O engajamento social observado no período eleitoral, diz o sociólogo, “reforça a importância de que as políticas de enfrentamento das desigualdades sejam construídas com participação social, escuta ativa e coprodução com as populações atendidas”
Por: Patricia Fachin, em IHU
As mobilizações sociais e a participação ativa dos cidadãos no ambiente digital e nas ruas são apontadas como as principais novidades da virada histórica do presidente Lula no segundo turno das eleições. Qual será o peso das manifestações no 4º mandato do presidente Lula, no entanto, ainda é um ponto em aberto. “Embora a composição do Congresso imponha constrangimentos à atuação do novo governo, o apoio das ruas poderá contribuir para sustentar sua agenda. Essa mobilização, contudo, também pode adquirir autonomia em relação às prioridades governamentais, uma vez que se organizou de forma espontânea em torno da defesa da democracia e, consequentemente, dos direitos já assegurados pela Constituição”, pontua Filipe Souza Corrêa na entrevista concedida ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU por e-mail.
Entre as questões sociais mais urgentes a serem enfrentadas no próximo governo, Corrêa destaca as políticas urbanas, a criação de novos postos de trabalhos e o enfrentamento da precarização nas relações trabalhistas. “A mobilidade precisa receber maior atenção no próximo governo. A agenda da Tarifa Zero tem destacado o peso dos custos de transporte no orçamento familiar, especialmente para as famílias de menor renda, além dos problemas de acessibilidade associados a um sistema organizado prioritariamente em torno da remuneração dos fluxos de passageiros”, diz.
Na avaliação do pesquisador, o governo não está desconectado da realidade e das demandas dos cidadãos. A “percepção de distanciamento” apontada em muitas análises, argumenta, “parece estar relacionada (…) a um problema de comunicação: há dificuldade em conectar as ações governamentais e seus resultados concretos à percepção que a população tem dessas entregas”. Ele explica: “Parte do eleitorado não se sente contemplada ou considera que determinados grupos recebem maior atenção do governo, ainda que também seja alcançada por políticas públicas. Esse sentimento de ressentimento político contribui para a narrativa de que o governo não responde às demandas sociais. Assim, mais do que uma ausência concreta de políticas, o que está em disputa é a interpretação sobre o que o governo realiza e sobre a forma como comunica seus resultados”, assegura.
Filipe Souza Corrêa é doutor em Ciência Política pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), mestre em Planejamento Urbano e Regional e graduado em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) É professor do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional e pesquisador do Centro de Estudos Legislativos (UFMG).
Confira a entrevista.
IHU – O que aprendemos com a eleição deste ano?
Filipe Souza Corrêa – Um aspecto que ficou evidente nesta eleição foi a possibilidade de mobilizar um eleitorado que, em parte, demonstra apatia em relação ao processo eleitoral e descrença nas instituições representativas e nos partidos políticos. Esses fatores contribuem para os elevados índices de abstenção e de alienação eleitoral, quando considerados também os votos brancos e nulos.
O segundo turno, sobretudo, demonstrou que a atenção dos eleitores pode ser mobilizada por meio das campanhas. A campanha do candidato do PT apresentou um repertório de comunicação e mobilização capaz de alcançar públicos para além de suas bases partidárias tradicionais. O resultado eleitoral dependeu, portanto, da capacidade de ampliar o apoio e o engajamento de eleitores que não se identificavam necessariamente com o partido ou com o candidato, mas que compreenderam as agendas políticas em disputa. Um dos aspectos centrais dessa eleição foi, assim, a conquista da atenção de uma parcela mais ampla do eleitorado para essas agendas.
IHU – Considerando suas pesquisas sobre a geografia do voto, que retrato do Brasil emergiu das urnas?
Filipe Souza Corrêa – Do ponto de vista da geografia do voto, é importante considerar diferentes escalas de análise. Na escala nacional, não houve grandes novidades. O resultado confirmou a presença eleitoral do Partido dos Trabalhadores (PT) no Nordeste e em alguns estados do Norte, onde o partido mantém, há algum tempo, votações expressivas. Ao mesmo tempo, a votação do candidato do Partido Liberal (PL) apresentou forte concentração em regiões marcadas pela presença de atividades relacionadas ao agronegócio, especialmente no Centro-Oeste e em áreas do Sul e do Sudeste.
Em uma segunda escala, é importante observar as variações estaduais e os resultados de algumas capitais. No segundo turno, São Paulo e Rio de Janeiro, por exemplo, registraram maioria de votos para o candidato do PT, o que revela particularidades que não aparecem na análise exclusivamente regional ou estadual.
Quando a análise se aproxima da escala intraurbana, especialmente nas regiões metropolitanas, observa-se um padrão de votação associado à segregação socioespacial. As áreas periféricas tendem a apresentar maior apoio ao candidato do PT, enquanto as regiões mais abastadas, com ocupações de maior prestígio e melhor atendimento por infraestrutura e serviços urbanos, registram apoio mais expressivo ao candidato do PL.
O Rio de Janeiro apresenta algumas particularidades: a votação do candidato do PT foi mais expressiva na Zona Sul e na Zona Norte do que na Barra da Tijuca e em áreas da Zona Oeste, configurando um padrão distinto daquele observado em outras metrópoles. Também há pesquisas que apontam uma possível relação entre o desempenho eleitoral do PL no Rio de Janeiro e a atuação de grupos milicianos. Essa hipótese demanda investigação mais aprofundada. São variações intraurbanas relevantes, que merecem análise específica.
IHU – Muitos atribuem a virada do presidente Lula no segundo turno às mobilizações das ruas. Qual é o potencial das manifestações para ampliar os direitos sociais durante o quarto mandato?
Filipe Souza Corrêa – A conquista da maioria dos votos válidos no segundo turno pelo candidato do PT, depois de ter ficado em segundo lugar no primeiro turno, esteve relacionada à mobilização expressiva de seus apoiadores, em uma combinação entre ações presenciais e meios digitais. A ascensão do bolsonarismo já havia demonstrado a centralidade da internet e das plataformas digitais nas campanhas eleitorais contemporâneas. Ao mesmo tempo, há críticas importantes ao impulsionamento pago e ao uso de bots para produzir artificialmente engajamento nas redes.
A campanha de Lula no segundo turno evidenciou que a mobilização nas ruas continua sendo indispensável para reforçar as estratégias digitais. Também mostrou que uma comunicação mais adequada ao ambiente digital – como a experiência do canal de WhatsApp denominado “Exército do Lula” – pode estimular a mobilização presencial. Essa combinação poderá ter efeitos sobre a sustentação da agenda governamental ao longo do quarto mandato.
Embora a composição do Congresso imponha constrangimentos à atuação do novo governo, o apoio das ruas poderá contribuir para sustentar sua agenda. Essa mobilização, contudo, também pode adquirir autonomia em relação às prioridades governamentais, uma vez que se organizou de forma espontânea em torno da defesa da democracia e, consequentemente, dos direitos já assegurados pela Constituição.
IHU – A partir das suas pesquisas sobre os impactos territoriais das políticas públicas, quais considera serem os principais bloqueios e avanços no bem-estar urbano do país neste primeiro quarto de século?
Filipe Souza Corrêa – Entre as políticas urbanas, a mobilidade precisa receber maior atenção no próximo governo. A agenda da Tarifa Zero tem destacado o peso dos custos de transporte no orçamento familiar, especialmente para as famílias de menor renda, além dos problemas de acessibilidade associados a um sistema organizado prioritariamente em torno da remuneração dos fluxos de passageiros. Essa lógica de concessão nem sempre favorece a organização de um sistema de transporte orientado pelas necessidades reais de deslocamento da população; em muitos casos, tende a priorizar a proteção da rentabilidade das concessionárias.
Nesse contexto, a implementação do Sistema Único de Mobilidade, com maior participação do governo federal na coordenação dessa política, pode produzir resultados importantes para o bem-estar urbano.
IHU – Como avançar a fim de enfrentar as desigualdades?
Filipe Souza Corrêa – O enfrentamento das desigualdades sociais exige políticas públicas capazes de ampliar a qualidade de vida e o acesso à educação, à saúde e à renda. Existem iniciativas importantes voltadas a esses objetivos, inclusive políticas de transferência e proteção de renda. Esta eleição, entretanto, evidenciou outro elemento fundamental: a necessidade de mobilização e participação ativa dos cidadãos.
O enfrentamento das desigualdades não pode prescindir do envolvimento das populações às quais as políticas públicas se destinam. Há uma diferença significativa entre formular políticas a partir de uma perspectiva tecnocrática, centrada nas administrações públicas e em decisões tomadas de cima para baixo, e construir políticas com escuta ativa e participação dos públicos envolvidos. A incorporação dessas populações aos processos de formulação, implementação e avaliação pode contribuir para resultados mais adequados e efetivos.
Portanto, o engajamento observado no processo eleitoral reforça a importância de que as políticas de enfrentamento das desigualdades sejam construídas com participação social, escuta ativa e coprodução com as populações atendidas.
IHU – No discurso de vitória, o presidente Lula disse o seguinte: “Eu aprendi, neste segundo turno, a grande lição da minha vida. Quando o governante não sabe o que fazer, ele pergunta ao seu povo que o seu povo saberá ensinar o que ele tem que fazer”. O que essa fala revela?
Filipe Souza Corrêa – Essa declaração pode ser interpretada tanto em seu sentido substantivo quanto como expressão de uma percepção da própria campanha. A comparação entre o desempenho do candidato no primeiro e no segundo turnos sugere que havia uma distância entre aquilo que a campanha pretendia comunicar e a maneira como suas mensagens eram recebidas pelo eleitorado. Havia uma expectativa de que os resultados positivos do governo mais recente e das administrações anteriores fossem reconhecidos de forma quase automática, o que não ocorreu.
A lição para a campanha e para o futuro governo é que a avaliação das políticas públicas e a percepção sobre o desempenho governamental precisam ser continuamente construídas e comunicadas. Isso exige linguagens e mecanismos capazes de dialogar com as transformações da comunicação no ambiente digital. As ferramentas tradicionais de comunicação governamental parecem insuficientes diante de um contexto em que a atenção é disputada por um volume muito grande de informações nas plataformas digitais. As mensagens precisam ser formuladas de modo a alcançar essa atenção com rapidez e estimular formas de engajamento. As campanhas e os governos precisam se adaptar a esse cenário.
IHU – Há, como muitos analistas apontam, uma desconexão do governo com a realidade da população?
Filipe Souza Corrêa – Não considero que exista uma desconexão substantiva entre o governo e a realidade da população. As políticas públicas implementadas pelo governo anterior demonstraram atenção a problemas e demandas sociais relevantes, com iniciativas orientadas para o enfrentamento das desigualdades. Naturalmente, há temas que exigem maior atenção, como a segurança pública, cuja complexidade demanda também um rearranjo das competências institucionais e a construção de uma política nacional articulada.
A percepção de distanciamento entre governo e sociedade parece estar relacionada, em grande medida, a um problema de comunicação: há dificuldade em conectar as ações governamentais e seus resultados concretos à percepção que a população tem dessas entregas. A polarização política também interfere nesse processo. Parte do eleitorado não se sente contemplada ou considera que determinados grupos recebem maior atenção do governo, ainda que também seja alcançada por políticas públicas. Esse sentimento de ressentimento político contribui para a narrativa de que o governo não responde às demandas sociais. Assim, mais do que uma ausência concreta de políticas, o que está em disputa é a interpretação sobre o que o governo realiza e sobre a forma como comunica seus resultados.
IHU – O que esperam aqueles que votaram em Lula e em Flávio Bolsonaro no pleito deste ano?
Filipe Souza Corrêa – Uma diferença importante entre os dois eleitorados diz respeito à centralidade atribuída à agenda da segurança pública. Entre os eleitores de Flávio Bolsonaro, essa agenda aparece associada à sensação de insegurança, especialmente nas cidades, e à expectativa de uma atuação mais enérgica das instituições de segurança, de maior eficiência do Judiciário e de maior rigor tanto na legislação quanto na aplicação das penas.
Entre os apoiadores de Lula e do PT, a agenda social ocupa posição central. Há a expectativa de continuidade e ampliação de programas sociais que tiveram relevância nos governos anteriores. Também existe uma demanda por mais recursos orçamentários para essa agenda, diante das restrições fiscais e dos limites impostos ao gasto público nos últimos anos, que dificultam sua expansão.
IHU – Como interpreta a declaração do presidente Lula sobre a necessidade de mudar a forma de governar? Que sinais essa fala transmite?
Filipe Souza Corrêa – A declaração sinaliza o reconhecimento da necessidade de estabelecer uma conexão mais direta e permanente entre as ações do governo e aquilo que a população deseja, espera e percebe. A mobilização intensa durante o período eleitoral pode ter evidenciado a importância de manter esse nível de comunicação e engajamento ao longo dos próximos quatro anos.
A continuidade desse diálogo poderá contribuir para a formação de uma base de apoio e de aprovação mais consistente. Essa dimensão também será relevante no próximo ciclo eleitoral, quando a decisão dos eleitores tende a considerar retrospectivamente a avaliação do governo. Uma comunicação mais efetiva sobre as ações e os resultados governamentais pode influenciar a maneira como a população avalia a administração.
IHU – Em sua fala, o vice-presidente, Geraldo Alckmin, disse: “O futuro começa hoje com a juventude…”. Superada a euforia inicial nos grupos de esquerda, quais serão os principais desafios do governo no próximo mandato para construir um futuro promissor, especialmente para os jovens e trabalhadores que enfrentam a falta de perspectivas e oportunidades?
Filipe Souza Corrêa – Os principais desafios relacionados à juventude envolvem a geração de emprego e renda e a promoção do desenvolvimento econômico, especialmente em setores de maior valor agregado. Essa agenda pode ganhar centralidade nos próximos quatro anos. O presidente Lula tem sinalizado essa possibilidade ao indicar que, depois de um primeiro mandato dedicado à reorganização da máquina pública, o período seguinte deverá priorizar o desenvolvimento.
Além da criação de postos de trabalho, será necessário enfrentar a precarização das relações de trabalho, particularmente aquela associada à plataformização, cujo exemplo mais conhecido é o trabalho mediado por aplicativos como o iFood. Esse modelo estabelece uma relação direta entre trabalhadores e usuários, mas pode ocultar relações de exploração sob uma aparência de autonomia. Na prática, frequentemente envolve vínculos frágeis e ausência de garantias associadas à formalização do trabalho, como aquelas previstas na CLT.
A melhoria das condições de trabalho nas plataformas, assim como a discussão sobre a regulação da atuação desses grandes conglomerados internacionais, pode integrar uma agenda de proteção do mercado de trabalho e de ampliação das oportunidades de emprego e renda. Essa agenda é particularmente importante para os jovens que ingressam no mercado de trabalho e, muitas vezes, enfrentam dificuldades decorrentes da falta de experiência profissional.




