Brasil e Estados Unidos, do Barão a Araújo

O esboço da diplomacia bolsonarista se reduz, até agora, a uma colagem dos slogans da guerra cultural iniciada pela direita americana já há algum tempo

Por Cláudia Antunes, na Época

No início do século 20, o Barão do Rio Branco, antes um monarquista e europeísta ferrenho, deu um giro de 180 graus em seu pensamento para buscar o que ficaria conhecido como uma “aliança não escrita” entre Brasil e Estados Unidos. Contra protestos dos vizinhos hispânicos, o Brasil apoiou a intervenção americana pela independência do Panamá da Colômbia (1903) e a invasão de Cuba (1906), ambas baseadas no chamado corolário Roosevelt da Doutrina Monroe — enunciado pelo presidente Ted Roosevelt —, que dava a Washington o direito exclusivo de intervir em países vizinhos a fim de evitar a anarquia e garantir o pagamento da dívida.

O Brasil, como sempre, esperava obter deferência especial por seu peso no continente e pela vontade demonstrada de estabelecer um relacionamento colaborativo com o governo americano. Os limites da estratégia, porém, logo ficaram claros para o Barão, como registra o embaixador Rubens Ricupero em seu livro A diplomacia na construção do Brasil. Em 1907, na Segunda Conferência de Haia tratando da resolução pacífica de conflitos, o país não teve o apoio de Washington para ser reconhecido como de primeira grandeza, segundo os critérios da época.

“A verdade é que o [os membros da delegação americana] procuraram sempre trabalhar de acordo com as grandes potências europeias, sem dar importância alguma ao Brasil e às demais nações americanas, contrariando assim a política panamericana seguida pelo governo dos Estados Unidos”, escreveu um Barão decepcionado a Joaquim Nabuco, seu embaixador em Washington.

A frustração do chanceler da jovem república se repetiria em momentos posteriores em que o Brasil buscou um alinhamento automático com os Estados Unidos — o mais notório deles ao fim da Segunda Guerra, quando se esperou em vão por um Plano Marshall tupiniquim e pela cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU com a qual o gabinete de um outro Roosevelt, o Franklin Delano, havia acenado à diplomacia brasileira.

A virada americanista do Barão refletia cálculos realistas a respeito das circunstâncias geopolíticas da época: os Estados Unidos eram a potência ascendente, ocupando um espaço cada vez maior no comércio brasileiro; o Brasil ainda era visto com desconfiança pelas repúblicas sul-americanas vizinhas, herança do período imperial recente; disputas de fronteira estavam por ser resolvidas; e, no limite norte do território, a presença de colônias despertava o temor de uma nova investida do imperialismo europeu, como registra outro embaixador e historiador, Luís Claudio Villafañe, em um livro recém-publicado na Nicarágua sobre viagens ao Brasil de Rubén Darío, intelectual daquele país centro-americano que foi um dos inventores da ideia do latino-americanismo.

Não é possível dizer o mesmo da associação com o trumpismo buscada pelo círculo de Bolsonaro e personificada pelo futuro chanceler, Ernesto Araújo. Toda política externa é política e, portanto, ideológica. Em geral, porém, ela parte de uma leitura dos interesses brasileiros diante do estado do mundo. Já o esboço da diplomacia bolsonarista se reduz, até agora, a uma colagem dos slogans da guerra cultural iniciada pela direita americana, há algum tempo, em reação a uma suposta “crise de valores” que, não por coincidência, teria como marco inicial o fim da segregação racial, nos anos 1960.

Em seu agora notório artigo sobre Trump e o Ocidente, Araújo exalta a “visão” do presidente americano, que teria assumido a tarefa de salvar a civilização cristã ocidental do “marxismo cultural globalista”, categoria confusa que veio substituir o antigo “internacionalismo” comunista. Trump, porém, foi apenas o veículo que estava à mão para assumir, isso sim, um amálgama de ideias anti-iluministas antes marginais que penetraram a política institucional americana a partir da articulação de grupos economicamente ultraliberais e socialmente conservadores, incluindo igrejas neopentecostais.

No Twitter, o deputado federal Eduardo Bolsonaro disse que o nome de Araújo foi sugerido pelo pregador de extrema direita Olavo de Carvalho, que há alguns anos apoiou os chamados “birthers”, propagadores da teoria de que Barack Obama não teria nascido nos Estados Unidos, mas no Quênia, e portanto não poderia ser presidente. Trump não inventou essa tese, mas a adotou no início de sua campanha, assim como tuitou recentemente sobre um imaginário “genocídio branco” em curso na África do Sul, propagado por lobbies supremacistas.

No seu artigo, em que cita Steve Bannon, ideólogo de uma paradoxal internacional antiglobalista, Araújo ataca a China “maoista”, há alguns anos o maior parceiro comercial do Brasil, e a União Europeia, que de fato enfrenta dificuldades institucionais e políticas, mas negocia um acordo de livre comércio com o Mercosul que finalmente parecia avançar. Ele despreza a governança global, as normas que até podem ter a influência dos mais fortes, mas são o último recurso dos menos poderosos. No seu blog, Metapolítica 17, diz que o aquecimento global não existe, é um complô marxista, quando a biodiversidade é um recurso brasileiro importante. Ele conclama o Brasil a juntar-se ao projeto de Trump de salvação do Ocidente, mas Trump já mostrou que não quer alianças — ao contrário, seu negócio é desestabilizar aliados.

Não se preocupem, o trumpismo não é imperialista, diz Araújo: seu “pan-nacionalismo” só pede respeito. Em sua exaltação do “espírito”, o futuro chanceler ignora as relações de poder. Talvez sem percebê-lo, lembra um maoista com sinal trocado que crê que a vontade (a “alma”) basta para superar as limitações materiais. Como o “garoto” Bolsonaro, quer embarcar o Brasil numa revolução passadista, movida a mitos ancestrais, teorias conspiratórias e medo. O Barão, pelo menos, tentou olhar para a frente ao buscar soluções para as questões do seu tempo.

Claudia Antunes é editora de Mundo do Globo. Foi também editora internacional da Folha de S. Paulo e do antigo Jornal do Brasil, e bolsista da Fundação Nieman para o Jornalismo, da Universidade Harvard

Jair Bolsonaro presta continência à bandeira dos Estados Unidos em Miami, nos Estados Unidos / Reprodução

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