Vitória do tour de Eduardo nos Estados Unidos, tarifaço de Trump pode explodir no colo do bolsonarismo
A cartinha de Trump para Lula é exemplar em vários sentidos.
É uma manifestação eloquente da confusão mental do chefe do país mais poderoso da tarde, com seus argumentos mal alinhavados, que pulam do pretenso déficit dos Estados Unidos na balança comercial com o Brasil para a pretensa limitação da “liberdade de expressão dos americanos” pelo Supremo Tribunal Federal e para a mais pretensa ainda perseguição sofrida pelo aliado Jair Bolsonaro.
É também uma demonstração do absoluto desinteresse do presidente alaranjado pelos fatos.
Nem preciso me estender sobre o caso de Bolsonaro. Trump torce a “narrativa”, como é moda dizer, para trocar os papéis entre criminosos e vítimas, como se fosse Lula aquele que brigava para desrespeitar um resultado eleitoral.
É fácil para Trump desenvolver este discurso – é só adaptar as patacoadas que ele falou quando perdeu em 2020.
Achei curioso ele falar de “liberdade de expressão dos americanos”. Como se fossem Susan, Michael, John ou Mary que estavam sendo calados ao visitar o Brasil., Na verdade, se referia ao domínio das plataformas sociodigitais sediadas nos Estados Unidos no ambiente de debate público brasileiro – com sua coorte de mentiras, fraudes e incitação à violência.
Ele, que hoje usa todas as armas do governo federal estadunidense para impedir a liberdade de expressão, perseguindo professores e estudantes, censurando a pesquisa científica, ameaçando a imprensa, intimidando as vozes críticas onde quer que estejam – ele quer impedir que o Brasil regule as plataformas.
No caso da balança comercial, é mais simples ainda. É só olhar os números.
Há 17 anos ininterruptos, os Estados Unidos têm superávit no comércio com o Brasil. Os dados já disponíveis para 2025 mostram uma vantagem estadunidense de 1,6 bilhão de dólares. Além disso, como apontou Geraldo Alckmin, dos dez produtos que o Brasil mais importa dos EUA, oito têm tarifa zero.
Ou seja: mesmo de acordo com a lógica tacanha de Trump, não há justificativa para o tarifaço.
Mas, sobretudo, a cartinha é exemplar da diplomacia de bullying aplicada pela potência do Norte.
Trump não negocia com o Brasil, não se comunica de fato com o presidente brasileiro: faz uma carta aberta. Empilha acusações e ameaças, não esconde a ambição de interferir nos assuntos domésticos de outros país. Abusa de palavras em caixa alta, para deixar claro que está gritando.
Fora o protocolar “best wishes” do final, não existe um aceno de polidez. O objetivo primordial de Trump, claro está, é fazer uma exibição do próprio poder.
Eduardo Bolsonaro, o “exilado”, pode comemorar o êxito de suas andanças pelos Estados Unidos. Mas, se eu tivesse que arriscar um palpite – e é sempre arriscado prever qualquer coisa na política de hoje –, diria que o resultado para o bolsonarismo é negativo, muito negativo.
Os mínions inveterados, claro, aplaudem. São irrecuperáveis. Mas o cidadão comum, mesmo o mais conservador, o que vai achar disso?
O presidente dos Estados Unidos dizendo para o Brasil: não mexam com meu bandido de estimação ou eu vou ferrar com vocês?
A interferência aberta de uma potência estrangeira na política nacional nunca pega bem, ainda mais com esse grau de brutalidade. Entregaram a Lula, de mão beijada, a posição de paladino da soberania do Brasil. O governo tem um discurso pronto nas mãos, verossímil e apoiado em fartas evidências – que já está colocando na rua, aliás.
Ao mesmo tempo, setores simpáticos ao bolsonarismo são os primeiros a serem atingidos pelas medidas anunciadas por Trump. Entre o “mito” inelegível e os dólares que deixam de entrar na carteira, quem será que os pecuaristas, por exemplo, vão preferir?
As reações da cúpula bolsonarista mostram que ela já percebeu a situação. Em vez de comemorar a vitória, estão na encolha.
Ensaiam o discurso de que o bolsonarismo não teve nada a ver com a ameaça estadunidense. Fora da sua base desvairada, é difícil alguém acreditar nisso. E fica difícil manter a idolatria ao imperador de Washington, posar ridiculamente com aqueles bonés MAGA, quando a agressividade contra o Brasil é tão patente.
Se Trump recuar, será uma vitória de Lula. Se não recuar, as consequências cairão na conta da direita. Eduardo, quem diria, escorregou na casca da bananinha que ele mesmo atirou no chão.
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Imagem: André Carrilho




