Entre o necropalanque e a gestão da barbárie na chacina: a ação mais letal da história do Rio de Janeiro – Brasil. Por Sérgio Botton Barcellos

Na madrugada de 28 de outubro de 2025, uma terça-feira, a comunidade do Cruzeiro no Rio de Janeiro (RJ) amanheceu coberta de corpos. Nos complexos da Penha e do Alemão, uma operação policial resultou em pelo menos 132 mortes, segundo a Defensoria Pública do Estado, tornando-se a mais letal da história fluminense. Foram cenas de horror: moradores alinhando corpos nas vielas, protestos com camisetas brancas, cartazes pedindo “parem de nos matar”. O governador Cláudio Castro (PL) comemorou o resultado da operação como “um sucesso” e afirmou que os mortos eram criminosos. O presidente Lula, por sua vez, manifestou-se, dizendo-se “horrorizado” e pedindo “coordenação” entre os entes federativos, mas sem anunciar medidas concretas de responsabilização ou de investigação imediata.

Os acontecimentos e imagens chocantes dos corpos enfileirados, resultado dessa megaoperação policial, não podem ser vistos como um mero acidente de percurso. Esses acontecimentos não representam um erro, mas sim um sintoma brutal e explícito de um modelo de segurança pública que segue fracassando, mas que foi deliberadamente projetado para falhar e ao mesmo tempo é funcional ao sistema capitalista dependente brasileiro sob diferentes perspectivas.

O que assistimos em todo o Brasil e no mundo não foi um equívoco, mas uma “lambança operacional” planejada, cujo principal produto é a própria insegurança. Uma insegurança que serve como projeto de poder, que mascara a profunda cumplicidade de setores do Estado com o crime organizado e cujo custo real é pago com vidas majoritariamente pobres e negras. A mensagem foi clara: guerra aos pobres na favela, proteção aos sócios nos palácios. Para além dos números e das análises, precisamos encarar o impacto humano devastador desta política de segurança pública. A desumanização das vítimas é um pilar que sustenta todo este edifício de violência, pois vai normalizando aceitar o inaceitável e banalizando mais essa demonstração de estupidez funcional.

É fundamental compreender o fracasso humano desta megaoperação a partir de uma perspectiva crítica e reflexiva e por aqui vou acionar as ferramentas com as quais eu trabalho no exercício da sociologia. Desse modo, entende-se que em um jogo de poder e com a disseminação de um ideário protofascistas, a produção da insegurança gera uma alta rentabilidade eleitoral e esta operação foi um ato político cronometrado com precisão. O contexto político síncrono com a megaoperação é que ela ocorreu às vésperas do julgamento que poderia tornar o governador Cláudio Castro inelegível, um processo que apura a contratação irregular de pessoas com dinheiro público para sua campanha. A chacina serviu como uma cortina de fumaça grotesca, uma tentativa de sequestrar a pauta nacional e reposicionar Castro como um suposto “homem forte” em um momento de extrema fragilidade política e também reacender as atenções para as narrativas de extrema direita.

A noção necropalanque, cunhado em um texto do Blog Comendo Ananás, que eu trouxe aqui para esse ensaio, acredito que auxilia a compreender o que está em jogo. Trata-se da transformação da violência e de mais de 100 mortes em instrumento de visibilidade política. Governadores de direita e extrema direita e forças de segurança constroem um palco simbólico no qual a megaoperação altamente letal se converte em demonstração de autoridade e controle. A operação virou espetáculo, com helicópteros, blindados e drones transmitindo ao vivo o poder de fogo do Estado, enquanto as favelas se tornam o cenário onde a destruição é apresentada como prova de eficiência. Como observa Achille Mbembe, na necropolítica moderna o poder se define pela capacidade de decidir quem deve viver e quem pode morrer. No Brasil, essa decisão recai sistematicamente sobre os corpos negros e periféricos, herdeiros diretos da história da escravidão e da exclusão social. O “inimigo interno” é construído e eliminado sob aplausos e a barbárie que ocorreu torna-se espetáculo, inclusive na forma como foi noticiada a operação no dia 02/11 no programa semanal da Rede Globo – Fantástico. Ficou explícita a construção editorial de uma narrativa que tentou “normalizar” a operação, “legitimar” tipo “o mal ocorreu em relação a um bem maior” e “morreram policiais também” e a “consagração” da operação como eficiente.

A reação atabalhoada dos governadores, defendendo o enquadramento de facções criminosas como organizações terroristas, mostra como a agenda de segurança pública foi convertida em ferramenta de afirmação política. Em vez de discutir desigualdade, racismo e políticas sociais, enfatiza-se o discurso da guerra. Teresa Caldeira chama isso de “cidadania cercada”: o medo e a violência justificam o Estado policial. Loïc Wacquant descreve fenômeno semelhante ao falar da “gestão neoliberal da marginalidade”, na qual o encarceramento e o extermínio substituem a proteção social.

A operação no Rio não é uma exceção trágica, mas a expressão de um modo de governar em que a força e a morte se tornam o eixo da legitimidade pública. A segurança aparece como espetáculo e a barbárie como rotina institucional a ser gestada. A retórica fascista constrói a morte como uma escolha entre quem deve viver e morrer, ao mesmo tempo em que transforma os que morrem em números ou em estigmas, destituindo-os de humanidade (Ricci, 2022). Nessa lógica, a morte deixa de ser acontecimento trágico para se tornar parte do funcionamento banal da política, racionalizado como “dano colateral” ou como preço necessário para a manutenção da ordem capitalista.

O governo federal reagiu de forma lenta. O silêncio e a lentidão federais soam, nesse contexto, como parte do problema, não como caminho de superação. O governo Lula 3 expressou indignação e pediu diálogo, mas sem agilidade e concretude, provavelmente pela sua característica hiperpragmática em si e por conta das eleições que se aproximam. Não houve até agora de forma efetiva a formação de uma comissão de investigação independente, a revisão de protocolos policiais, um plano de apoio às famílias das vítimas e um pronunciamento firme sobre responsabilidades políticas e criminais. O governo age como se a chacina fosse apenas um episódio regional, quando é um sintoma nacional da maneira como o Estado administra a violência. Essa lentidão também revela o distanciamento de uma tecnoburocracia pequeno burguesa, como descrevo em livro recente, inclusive em relação às mortes concretas, como se a tragédia fosse uma abstração.

Ou seja, a reação do governo federal teve o tom de um comentarista distante: notas oficiais, reuniões interministeriais, visita ao local da tragédia, declarações de repúdio, discursos que poupam o governo RJ e a sanção de uma lei em uma sala fechada com um staff branco masculino. Nada que interrompa o ciclo e a gestão da barbárie. O resultado é um Estado que reage com lentidão administrativa a eventos que exigiriam urgência prática e moral.

E a política pública de segurança pública?

De acordo com a doutrina policial, salvo engano, uma operação especial é, por definição, uma ação pontual, cirúrgica e resolutiva. É o momento em que o esquadrão entra em cena para realizar uma ação precisa em um cenário de altíssimo risco. O objetivo em tese como expresso pela professora Jacqueline Muniz em entrevista recente, é sempre a “baixa zero”: nenhum policial, cidadão ou suspeito morto. O que vimos, no entanto, foi lamentavelmente o oposto.

Cabe considerar, dentre tantos equívocos, analisando a ação política no âmbito da política pública de segurança, por exemplo, mobilizar 2.500 policiais para uma única ação exigiu, na prática, o empenho de 7.500 a 10.000 agentes. Isso não apenas deixou uma vasta área metropolitana desprotegida; isso “saturou a capacidade ostensiva da polícia” e “inviabilizou a pronta resposta na emergência”. Ou seja: enquanto a operação acontecia, se ligassem para o 190 por um estupro, um assalto ou um feminicídio, ninguém iria. Além disso, em segurança pública, “não há estoque de repressão”. Cada recurso utilizado é um recurso gasto. Uma operação desta escala é, por natureza, insustentável. Ela se torna uma síndrome de “sobe e desce morro”, uma ação performática sem capacidade de permanência, controle ou consolidação de resultados efetivos na segurança cotidiana da população. É um teatro com hora para acabar, deixando para trás apenas o rastro de sangue e destruição com corpos atirados na mata e casas alvejadas por tiros. E, sobretudo a ironia mais trágica é que a própria polícia do Rio de Janeiro, em 2018, produziu protocolos de operações especiais que, se tivessem sido seguidos, teriam evitado esta catástrofe. A decisão de ignorar as próprias regras não foi incompetência, foi uma escolha.

Ao que tudo indica foi uma ação irresponsável, um projeto pessoal do governador para “produzir filminho no Instagram” e capitalizar politicamente a tragédia.  Essa falha técnica deliberada não é um fim em si mesma, pois serve a um propósito maior: a construção de um palanque sobre caixões, o que nos leva diretamente à sua motivação política.

Isso nos obriga a perguntar: quando o Estado promove a barbárie, a quem ele realmente serve? A resposta nos leva ao cerne do problema: a sua cumplicidade estrutural com o crime.

O chamado “Estado regulador” desmascara o mito confortável do Estado ausente. Como observa o sociólogo José Cláudio Souza Alves em entrevista, o que se vê nas periferias brasileiras não é ausência de Estado, mas a cumplicidade ativa dele com as facções criminosas. Setores do Estado atuam como uma espécie de agência reguladora do crime, negociando com grupos armados o controle de territórios e a administração cotidiana da violência. Essa presença cúmplice se manifesta quando o poder público terceiriza o domínio sobre áreas populares, arrendando o controle da vida de milhares de pessoas em troca de benefícios políticos e financeiros. O resultado é um Estado que se comporta como uma “imobiliária da violência”, cobrando “aluguéis” pagos em propina, financiamento de campanhas e silêncio institucional.

As chacinas, nesse contexto, funcionam como instrumentos de renegociação entre o crime e no Estado. Um massacre como o ocorrido no RJ atua como um “edital de licitação” violento, em que se redefinem preços, alianças e zonas de influência. O sangue derramado marca a quebra de acordos e o estabelecimento de novas regras para uma economia ilícita e que transita muita grana. Paradoxalmente, a alta letalidade também presta um serviço direto ao crime organizado, pois elimina testemunhas, apaga rastros e destrói as fontes de informação que poderiam revelar os vínculos entre o “lado firma” e o “lado Estado” da engrenagem criminosa. Ao agir dessa forma, o Estado brasileiro não combate o crime, mas o regula, gesta a barbárie, mantém viva uma economia da violência que alimenta poder político de determinados grupos e amplia a desigualdade social estrutural no Brasil.

Ou seja, a narrativa pública sobre caça ao “chefe do tráfico” revela uma grande distorção social e política. Como afirmou o jornalista Leandro Demori no ICL, figuras como Marcinho VP ou Doca são gerentes locais de um sistema que os utiliza e descarta. O comando do tráfico de fato está distante das vielas e dos becos das favelas: encontra-se nas coberturas da Faria Lima, nos gabinetes de Brasília, nas assembleias legislativas e câmaras municipais, onde o crime se institucionaliza e se confunde com o poder político e financeiro. Essa estrutura mostra que o tráfico é menos uma anomalia e mais uma engrenagem funcional do capitalismo periférico brasileiro, sustentado por elites que lucram com a barbárie que fingem combater. As favelas do RJ, nascidas do abandono histórico do Estado desde os soldados de Canudos, tornaram-se o território onde o sistema deposita suas vítimas preferenciais, transformando vidas em carne descartável enquanto o crime de colarinho branco continua a operar, protegido e legitimado pelo próprio Estado.

A violência e a sua “gestão”?

A chacina do Rio confirma análises feitas há décadas por Michel Misse, por exemplo, que mostra como a violência urbana brasileira funciona como um sistema de regulação social, no qual o Estado negocia, reprime e legitima a ordem pela força. A gestão da barbárie não é sinal de descontrole, mas um método de governo. Ela serve para produzir medo, disciplinar territórios e reafirmar hierarquias raciais e espaciais. Quando o governo federal hesita em nomear o massacre como o que ele é, torna-se cúmplice da mesma estrutura de morte que pretende combater.

Cada chacina não é apenas um episódio isolado, mas a expressão de um projeto de país. O Brasil decide lentamente, mas mata depressa. Chama de “guerra” o massacre de civis e transforma a morte em estatística. Ao não reagir com a velocidade e a firmeza que o caso exige, o governo federal ajuda a banalizar a barbárie que diz combater. A frase “a violência como forma de governo” está atual e segue se reatualizando.

As megaoperações policiais nesse formato além das mortes, do terror e da violência, bem como a baixa eficácia no sentido de proteger a população, um dos seus resultados é também o adoecimento das comunidades. As consequências são duradouras: diabetes, hipertensão, AVCs e traumas psíquicos profundos que destroem famílias, sobrecarregam o sistema de saúde e perpetuam o sofrimento por gerações. Esta política não apenas falha em prover segurança, mas ativamente destrói o tecido social e o próprio sentido de humanidade enquanto sociedade. Por isso, buscar uma alternativa a esse modelo de segurança pública não é uma opção, é um imperativo ético e civilizatório.

Há muito a refletir e escolher como trabalhar com mais esse luto em sociedade, ou pelo menos tentar, como escrevi em texto recente sobre o tema. Enquanto o tempo do Estado corre devagar, o tempo da barbárie corre depressa. Considero que um país que permite que governadores transformem o extermínio em palanque e que aceita a hesitação de um governo federal paralisado entre um esboço de empatia e a inércia é o retrato de um Brasil que tem a sua banalidade do mal e está longe de superar a chaga da escravidão e do racismo estrutural. É nesse descompasso que o necropalanque para as eleições de 2026 está se erguendo: visível, ruidoso, se banalizando e com a gestão da barbárie se fazendo por meio de governos que em uma eleição muito próxima virá com um discurso à “esquerda” e também na defesa de discursos cínicos de extermínio de “bandidos” (desde que não seja o de quem faz esse discurso oportunista de extermínio). Teria e tem muita coisa a analisar, mas por hora fico por aqui, não que em breve não virá mais.

Corpos são levados para praça na Penha — Foto: Betinho Casas Novas/g1

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