Carajás nos anos 80 – Histórias contadas por mulheres. Por Lúcio Flávio Pinto

O texto retrata a vida de mulheres que saíram de suas áreas de origens, em diferentes estados do Brasil, para acompanhar seus maridos que foram para Carajás trabalhar em mineração na década de 80. São mulheres que se encontraram em uma região tão distante e que tentaram se adaptar à nova realidade. Conheça quem são

Por Lúcio Flávio Pinto, da Amazônia Real

Elas eram oito, quatro de São Paulo, uma do Rio de Janeiro, outra de Minas Gerais e de Santa Catarina. Foram para Carajás acompanhando seus maridos. Rosa foi a primeira a chegar em fevereiro de 1982 e foi trabalhar no Hospital Nossa Senhora de Nazaré, sob a administração de Rosa Chamma, “tornando-se um ícone em Carajás”. A Logus Engenharia foi quem editou o livro.

A empresa ganhou a concorrência da Companhia Vale do Rio Doce para gerenciar a implantação da maior mina de minério de ferro, em Carajás, 500 quilômetros a sudoeste de Belém. Eram cinco “pacotes” de serviços, com a implantação da mais importante mina de ferro do mundo, além de ferrovia, ponte e porto. O núcleo urbano de Carajás chegou a ter 6 mil pessoas, além de igreja, clube, centro comercial, terminal de ônibus e casa de hóspedes.

Em 28 de fevereiro de 1985 foi a inauguração da ferrovia. Nesse mesmo dia, Rosa e seu marido saíam de São Paulo para Carajás, contratado pela Logus, integrando o grupo pioneiro da empresa. Marcia Ornellas Rocha chegou a Carajás em julho de 1982, voltando para a sua terra um mês antes da inauguração do início da operação. em janeiro de 1985.

“Os três clubes de Carajás, assim como as residências, retratavam perfeitamente a organização hierárquica do local. Na base da pirâmide ficava o clube dos peões, com uma área para festas. Um gramado, com direito a churrasqueira, mas não tinha piscina”.

Um degrau acima, ficava o Carajás Social Clube, mais espaçoso, com sauna, piscina, um ótimo salão, bar e quadras. Era frequentado “pelo pessoal de nível técnico”. Marcia o considerava “o melhor clube da Serra”. Marcia diz que essa vida acontecia “como se estivesse em um oásis”.

Mas fora dos limites, havia “um quadro de abandono e miséria difícil de encarar. Bastava descer a serra, cruzar a porteira para se deparar com uma população vivendo na extrema pobreza, com altos níveis de violência, ausência de saneamento básico e uma infraestrutura precária”. Destacava-se “uma brutal concentração de renda, uma tenebrosa desigualdade. Era “espantoso como a extração e exportação do minério em nada beneficiou a população lo cal”. Garimpo clandestino ‘não faltava em Carajás”.

Interessando-se pela cultura indígena, Rosa fez parte da equipe “que fiscalizava a aplicação do dinheiro vindo do Banco Mundial “para a fixação das aldeias em lugar permanente”. Foi o Bird que impôs ao governo federal um programa para favorecer a população.

As ocas nas quais viviam eram “impressionantes, construídas em madeira e palha, mas com uma graça e beleza que a arquitetura, com um madeiramento interno que era um primor”. Lembrava um desenho de Gaudí na catedral de Barcelona, cujos corredores eram como “galhos que se entrelaçam lá em cima”.

Um ano depois do início das atividades da ferrovia de Carajás, foi inaugurado o Hospital Yutaka Takeda, homenagem à Mitsui, que era então a maior compradora do minério de ferro de Carajás. Hoje, é a China.

A imagem que abre este artigo é de autoria de Cristiano Oliveira e mostra o trem no TFPM na estrada de ferro Carajás.

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