Oficina Política do povo Mura: fortalecendo lideranças e caminhos para o enfrentamento às ameaças e proteção do território

Jovens, anciãos, guerreiras e guerreiros Mura participaram da Oficina Política que analisou a realidade, animou lideranças e planeja ações de defesa do território com autonomia, identidade e resistência

Por Filipe Gabriel Mura e Mayara Mura, Rede de Comunicadores Mura, e Ligia Apel, Ascom Cimi Regional Norte 1, no Cimi

Entre os dias 22 e 24 de janeiro, a Aldeia Murutinga, Autazes, Amazonas, se tornou espaço de diálogo, formação e fortalecimento da luta coletiva com a realização da Oficina de Políticas, promovida pela parceria entre o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e lideranças e organizações da Resistência Mura de Autazes e Careiro da Várzea.

Para o povo Mura, realizar uma oficina sobre política dentro do território é um ato de afirmação da identidade e da cultura indígena. Nela, são debatidos temas que envolvem o passado que resistiu ao invasor, o presente que resiste às novas estratégias de dominação e colonização, e o futuro que está no horizonte para garantir que as novas gerações tenham vida digna com direitos garantidos.

“Realizar uma oficina sobre política dentro do território é um ato de afirmação da identidade e da cultura indígena”

Dialogar sobre a amplitude e complexidades desses temas que envolvem a vida Mura é reconhecer que o conhecimento nasce e cresce da vivência, da história e da resistência do povo. É fortalecer a consciência política a partir da realidade, dos desafios e das prioridades de um povo originário que tem o direito de viver a seu modo em seu lugar.

Mais que uma oficina, o momento foi de escuta, troca de informações e construção coletiva, analisando os caminhos até agora feitos e visualizando os novos cenários políticos que se apresentam para 2026. Uma roda de conversa onde se reafirmou que a política é ferramenta de defesa do território, dos direitos, da cultura e da vida. Fortalecer lideranças é fortalecer o presente e preparar o futuro, com autonomia, identidade e resistência, é dar passos firmes e corajosos, subir o tom e se lançar em ações mais contundentes.

“Mais que uma oficina, o momento foi de escuta, trocas e construção coletiva, analisando os caminhos até agora feitos e visualizando os novos cenários políticos”

Ser liderança

O coordenador da Organização Indígena da Resistência Mura de Autazes (OIRMA), Roni Braga Mura, analisa a importância do ser liderança em tempos de tecnologia avançada, como ela deve ser construída e compara com a fragilidade das lideranças que sucumbiram ao assédio da empresa Potássio do Brasil que, abertamente, prometeu compensações financeiras individuais em troca do apoio ao empreendimento de exploração da silvinita dentro do território Mura.

“Antes da tecnologia, nós tínhamos um conceito de que só vai ser liderança aquelas pessoas mais antigas, aquelas pessoas mais duras, porque são fortes. Mas, um tempo pra cá, nós viemos pensando, estudando que pra ser liderança precisa ter conhecimentos [sociais e ambientais amplos]. Se as lideranças de Autazes que hoje estão ao lado do empreendimento, tivessem conhecimento [da gravidade da destruição que vai ser a exploração], não estaríamos repartidos, divididos”, afirma Roni. Ele ainda destaca que as opiniões favoráveis à empresa não têm fundamentos substanciados, apenas repetição de argumentos incertos e incautos.

“Antes da tecnologia, nós tínhamos um conceito de que só vai ser liderança aquelas pessoas mais antigas, aquelas pessoas mais duras, porque são fortes”

A coordenadora da Organização de Lideranças Indígenas Mura do Careiro da Várzea (OLIMCV), Ana Cláudia Mura, se soma à reflexão de Roni e afirma que ser liderança, apesar de exigir grandes esforços, é um caminho que traz realizações pessoais e coletivas.

“A vida de liderança realmente não é fácil. A gente vive uma vida de correria, uma vida ameaçada. Praticamente a gente não fica em casa, participa de muitas reuniões e encontros. Mas, vale a pena. Depois que toma o gosto é difícil largar. Por experiência, eu garanto que não vai mais querer abrir mão, porque representa um sonho coletivo. E isso vem dessa força de vontade de ajudar a nós mesmos e ao nosso povo”, afirmou, lamentando a chegada da empresa ao território que, em sua análise, enfraqueceu a união.

“A vida de liderança realmente não é fácil. A gente vive uma vida de correria, uma vida ameaçada”

Promessas que desestruturam

Embora a empresa Potássio do Brasil chegou a Autazes prometendo um futuro próspero, com geração de empregos e aumento de renda, essa ilusão esconde consequências profundas e duradouras. As promessas de desenvolvimento econômico ignoram os impactos ambientais, a degradação de ecossistemas vitais e os impactos sociais, como a desestabilização das comunidades locais. Dessa forma, o que se apresenta como uma solução momentânea pode, na verdade, perpetuar um ciclo de exploração e desequilíbrio.

Leandro Braga Mura, da comunidade Murutinga, fala desses ciclos e das promessas ilusórias que, na verdade, substituem os conhecimentos tradicionais.

“Os conhecimentos tradicionais já estão se apagando, e como consequência, a vulnerabilidade já chegou às aldeias”

“As pessoas falam que o empreendimento vai trazer muita coisa boa, mas não é verdade. Os conhecimentos tradicionais já estão se apagando, e como consequência, a vulnerabilidade já chegou às aldeias. Essa empresa já tirou várias coisas dos nossos parentes, roubou nossas ideias. Os medicamentos tradicionais estão se acabando, a pagelança tá apagada dentro da aldeia, os pegadores de ossos a gente nem ouve mais falar, não se conhece mais parteiras. E as promessas são de muitas coisas que não estão na nossa realidade”, aponta com preocupação.

De fato, as melhorias prometidas se concentram em benefícios imediatos, dinheiro agora, mas não para todos e sem garantir que o território permaneça livre de impactos negativos. Esse enfoque de curto prazo acaba provocando a desestruturação ambiental, minando as riquezas naturais que sustentam a região a longo prazo. Dessa forma, o que se apresenta como progresso pode, na verdade, comprometer o futuro da terra e das comunidades que nela vivem, analisam as lideranças, elencando incertezas.

“As pessoas falam que o empreendimento vai trazer muita coisa boa, mas não é verdade”

E o que será do futuro dessas comunidades quando os recursos naturais se esgotarem? Se a terra dos Mura, rica em potássio, tiver seu recurso extraído, o que acontecerá com o solo, com a vegetação e com os rios, que há séculos são fontes vitais de água e pesca, sustentando tantas famílias? As consequências de tudo isso obrigarão as pessoas a migrar e depender exclusivamente de mercadorias de fora?

As questões colocadas preocuparam Dona Francisca Mura, da aldeia Murutinga. “Se isso chegar a acontecer, infelizmente, vai morrer muita gente, porque o rio é um só”, disse, imaginando a poluição decorrente do empreendimento. Mas, convicta, reafirma sua opinião e esperança: “nunca fui a favor da [empresa] Potássio, sempre a favor da demarcação de Murutinga que nós vamos conquistar”.

“Se a terra dos Mura, rica em potássio, tiver seu recurso extraído, o que acontecerá com o solo, com a vegetação e com os rios, que há séculos são fontes vitais?”

Demarcação já! Não à mineração!

A demarcação das terras indígenas é um Direito Constitucional, traz proteção ao território e garantia da vida e cultura dos povos originários. Assegurar saúde, educação, segurança e manutenção da cultura e modos de vida tradicionais são deveres do Estado previstos na Constituição Federal de 1988.

Para o povo Mura de Autazes e Careiro da Várzea esse dever ainda o Estado brasileiro não cumpriu. E a morosidade está desencadeando graves rupturas sociais, inseguranças jurídicas e avanço da degradação ambiental em toda a região do baixo rio Madeira. A Terra Indígena (TI) Lago do Soares é a principal área afetada por esse descaso que beneficia a empresa Potássio do Brasil, mineradora que se instalou sem consulta, desrespeitando o protocolo produzido em 2019 por todas as aldeias Mura.

“A mineração é um genocídio aos povos indígenas, nos afeta diretamente trazendo impactos ambientais, sociais, nossas tradições, nossa cultura e nossos costumes”

Para os indígenas, a mineração em seus territórios “é um genocídio”, diz Milena Mura, coordenadora da Organização das Mulheres Indígenas Mura (OMIM), uma das lideranças que resistem ao avanço da mineradora. “Porque nos afeta diretamente, trazendo impactos ambientais, sociais, pesando em nossas tradições, nossa cultura e nossos costumes” alerta.

Os questionamentos e problemas apontados e debatidos pelos participantes da oficina revelam o verdadeiro custo de um progresso que ignora a sustentabilidade e o bem-estar das comunidades locais, como afirma Ana Cláudia. “Essa empresa chegou em nosso território, veio dividindo o nosso povo. Até as igrejas têm um pensamento diferente do nosso. Os Mura de Careiro da Várzea também estão se dividindo graças à Potássio e trazendo conflitos no nosso município”, lamentou, mas logo se reanimando e valorizando a força do debate.

“Essa empresa chegou em nosso território, veio dividindo o nosso povo e trazendo conflitos no nosso município”

“Eu creio que hoje, cada um e cada uma que aqui está presente, está lutando por um objetivo só, que é pela demarcação do nosso território. Queremos as nossas florestas em pé, nosso lago preservado, queremos que as nossas crianças tenham um futuro digno, com nossos professores dentro de sala de aula, com nossos agentes de saúde, nossos técnicos”, falou esperançosa, descrevendo a vida Mura.

“Nós temos um território rico para trabalhar, não dependemos de mineração para sobreviver, porque plantamos, criamos, temos a nossa casa, nossos peixes, e podemos, no nosso território termos o nosso modo de sobreviver. A nossa cultura. Então, podem querer dividir a gente, mas trazemos nossas falas e opiniões para nos fortalecer”, afirmou convicta.

“Nós temos um território rico para trabalhar, não dependemos de mineração para sobreviver”

Juventude? Presente!

No contexto atual, a juventude indígena assume um papel fundamental na construção do futuro de suas comunidades. Diferente de opiniões que dizem que há desinteresse e ausência de participação da juventude nos rumos das comunidades, os jovens estão presentes e atuantes, preocupados com o futuro.

As declarações da juventude presente na oficina ressaltaram que o incentivo é essencial para os jovens e que o apoio das gerações mais velhas é fundamental para mostrar a realidade por trás das promessas da mineradora e enxergar o futuro com a mesma perspectiva de quem já viveu e tem experiências a compartilhar, garantindo assim um amanhã melhor, com consciência e engajamento.

Orgulhoso das colocações da juventude, Roni Mura destacou a preocupação e a ação da OIRMA com a juventude. “A gente tem discutido as nossas pautas de reuniões e conversas e bate-papo, e a gente joga para a liderança jovem, porque amanhã são vocês que vão tratar a comunidade à frente [das demandas e necessidades]. Amanhã são vocês que vão estar representando nós lá fora”, disse o coordenador se dirigindo à juventude presente na oficina.

“A juventude indígena assume um papel fundamental na construção do futuro de suas comunidades”

Também em Careiro da Várzea, os jovens Mura estão passando por um processo contínuo de formações e capacitações, preparando-se para se tornarem lideranças que realmente pensam e agem pelo seu povo. Motivado pelos debates, Dirley Mura, jovem comunicador da aldeia Murutinga, concordou com as reflexões e disse ser necessário participar para “preparar a juventude para os lugares de fala como o encontro do Povo Mura, as mobilizações e a marcha indígena”, alegou, sugerindo a formação de delegações jovens para esses momentos.

Desafios postos, os participantes declararam ser essencial a participação da juventude nas reflexões sobre a luta contínua contra a mineradora, pois está em curso impactos profundos na vida social de cada jovem e de cada aldeia. “Enfrentar esses desafios pode ser difícil, mas fortalece a juventude e ela se torna consciente e engajada, pronta para defender seu território e suas tradições”, aclamaram os jovens.

“Enfrentar esses desafios pode ser difícil, mas fortalece a juventude e ela se torna consciente e engajada”

2026: os desafios das eleições

Participar de processos eleitorais de forma consciente e crítica deve acontecer sempre, mas esse ano, os cuidados são redobrados. Enfrentar os desafios eleitorais em 2026 exigirá sabedoria e firmeza, pois resultados eleitorais afetam diretamente os direitos e modos de vida indígenas. São os poderes executivo e legislativo do Brasil que definem as políticas indígenas, portanto, é necessário cautela, atenção e conhecimento de quem é quem no jogo político.

Esse foi um dos temas da Oficina Política que orientou os debates e a construção de estratégias para enfrentar o ano eleitoral e eleger políticos que defendam os direitos indígenas. O professor Diego Mura, da aldeia Moyray, TI Guapenú, em Autazes, considerou extremamente importante conhecer o sistema político eleitoral para saber escolher políticos que, realmente, representem os indígenas.

“Conhecer o sistema do Estado brasileiro é fundamental para votar bem e escolher representantes coerentes nesse ano”

“Conhecer o sistema do Estado brasileiro é fundamental para votar bem e escolher representantes coerentes nesse ano que vamos escolher presidente, governadores, deputados e senadores. Conversamos sobre como a gente deve tomar as decisões e agir quando estivermos nas nossas incidências, buscando a garantia de nossos direitos na prática, no real mesmo”, assegurou.

Luiz Ventura, secretário executivo do Cimi, participou dos debates e trouxe análises da conjuntura política nacional, abordando os interesses que existem para barrar os processos de demarcação de territórios indígenas e a pressão que exercem os poderes econômicos mundiais que afetam as terras indígenas, no Brasil.

“Há pressão cada vez maior dos poderes econômicos sobre os territórios indígenas no Brasil, na procura de petróleo, de minerais raros e também no caso da Potássio do Brasil”

“A gente está vendo no mundo todo que há pressão cada vez maior dos poderes econômicos dos grandes países que acabam repercutindo nos territórios indígenas no Brasil, na procura de petróleo, de minerais raros e também no caso da Potássio do Brasil”, analisou, destacando que no Brasil, o Congresso Nacional, com certo apoio do Governo Federal e do STF, está tentando definir a regulamentação da mineração em territórios indígenas.

“Precisamos mudar as condições de poder que estão dadas em Brasília hoje, particularmente no Congresso Nacional, portanto precisamos nos preparar para esse ano eleitoral e principalmente que as comunidades indígenas aqui no território estejam unidas, estejam bem articuladas, estejam munidas das informações necessárias para que possam tomar as decisões em defesa do território e da demarcação”, concluiu.

Seguir em frente na defesa das terras indígenas e da demarcação dos territórios Mura, diante de todas as ameaças, especialmente do projeto da Potássio do Brasil, organizados e conscientes, entendendo que o território é lugar próprio de decisão, luta e esperanças, foi a conclusão da formação do Povo Mura.

“Precisamos mudar as condições de poder que estão dadas em Brasília hoje, particularmente no Congresso Nacional”

Oficina Política do povo Mura (AM). Foto: Rede de Comunicadores Mura ( Recim)

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