Assembleia Nacional do CPP 2026 inicia com escuta sinodal da missão profética da pastoral nos territórios pesqueiros

O primeiro dia do evento foi banhado por reflexões, memória, lutas e conquistas vividas em cada território e instâncias do CPP ao longo do último triênio

Por Louise Campos, Comunicação do CPP

Nesta terça-feira, dia três (03) de fevereiro, foi iniciada a Assembleia Nacional do Conselho Pastoral dos Pescadores e Pescadoras (CPP) 2026. O evento reúne a equipe nacional, diretoria, o secretariado, agentes de pastoral e parceiras/os no Centro de Formação Vicente Cañas, chácara do Conselho Indigenista Missionário (CIMI) em Luziânia (GO), em um processo marcado por escuta e diálogos a respeito das realidades dos territórios pesqueiros e caminhos que a Pastoral percorreu ao longo dos últimos três anos (2023-2026).

Após a Celebração da Caminhada, mística de abertura marcada pela comunhão, espiritualidade e acolhimento, Dom José Altevir, presidente do CPP e bispo da Prelazia de Tefé-AM, destacou a sinodalidade como caminho essencial da missão conferida aos agentes de pastoral presentes na Assembleia e na extensão dos horizontes traçados a partir dela.  Para o bispo, o encontro deverá ser marcado “pela escuta, pela fraternidade e pela coragem profética […]” com o propósito de “sair daqui renovados na esperança e firmes no compromisso de sermos pescadores e pescadoras de gente, cuidando da Casa Comum e defendendo os territórios como espaços sagrados de vida e trabalho”.

A fala inicial também apresentou a Assembleia como um tempo de recuperação das forças coletivas, em que a diversidade das experiências vividas nas águas do país, moradas de povos, flora e fauna, se transformem em aprendizado comum. Diante das injustiças, das pressões econômicas, dos conflitos socioambientais e das violações de direitos que atingem as comunidades pesqueiras, a presença pastoral precisa ser organizada, atenta e enraizada na realidade do povo, caminhando sempre ao lado daqueles que mais necessitam.

“Libertar todas as pessoas e a pessoa toda”, Dom José Altevir

“O propósito é sairmos renovados na esperança e firmes no compromisso de sermos pescadores e pescadoras de gente, cuidando da Casa Comum”

“Quem entende de farinha, venha peneirar aqui’”

Atendendo ao chamado dos instrumentos e cantorias, representantes das secretarias temáticas do CPP Nacional apresentaram suas percepções dos desafios e conquistas experienciadas no último triênio.

A secretária de Direitos Sociais e Organização, Valmira Gonçalves (Kaka), ressaltou o fortalecimento da organização comunitária como base da atuação do CPP, apontando o acompanhamento às comunidades em conflito, a formação de lideranças e a articulação com pastorais sociais, movimentos populares e espaços institucionais. A fala também deu destaque ao protagonismo crescente das mulheres e da juventude pesqueira nos processos de defesa de direitos, celebrado, por exemplo, na presença delas durante a primeira Conferência Livre de Saúde dos Povos das Águas.

Já a Secretaria de Economia Solidária e Renda, coordenada por Marcelo Apel, destacou experiências concretas de geração de renda e autonomia, como projetos produtivos e de infraestrutura aprovados em espaços de incidência política, grupos de mulheres pescadoras, ações de beneficiamento e comercialização coletiva do pescado e o acesso a políticas públicas como Registro Geral da Atividade Pesqueira (RGP), Cadastro Nacional da Agricultura Familiar (CAF) e fundos rotativos comunitários.

“Representantes das secretarias temáticas do CPP Nacional apresentaram suas percepções dos desafios e conquistas experienciadas no último triênio”

Adiante, Andréa Rocha, Secretária de Território e Meio Ambiente, apresentou o cenário dos conflitos socioambientais que atingem os territórios pesqueiros, com impactos causados por portos, energia eólica e solar, petróleo, mineração, hidrogênio verde e projetos de crédito de carbono azul. A secretária destacou ações de apoio aos Regionais por meio de oficinas formativas, incidência junto ao Ministério Público e Defensorias, a construção de cartografias sociais e a defesa dos direitos dos territórios pesqueiros e seus povos.

Por fim, o secretário-executivo do CPP, Gilberto Lima, apresentou um balanço do trabalho da secretaria no período, destacando a elevada quantidade de demandas enfrentadas ao longo da caminhada. Ressaltou, contudo, os avanços nas articulações pastorais em diversas frentes políticas e eclesiais, a participação em lutas e debates estratégicos de incidência política, além do fortalecimento das parcerias com movimentos e organizações da pesca artesanal. Como desafios para o próximo período, apontou os novos cenários internacionais para a captação de recursos e a necessidade de repensar a estrutura pastoral, a fim de garantir a continuidade e o aprofundamento da missão do CPP nos próximos três anos.

“Houve avanços nas articulações pastorais em diversas frentes políticas e eclesiais, nas lutas e debates estratégicos e o fortalecimento das parcerias”

Regionais partilham lutas, conflitos e conquistas

Na partilha dos regionais, o Maranhão destacou o fortalecimento da resistência frente aos portos e especulação imobiliária, a visibilidade da luta pela criação da Resex Tauá-Mirim, a realização de feiras culturais nos territórios e o protagonismo das mulheres e juventude, além de denúncias nacionais e internacionais de violações de direitos.

O Regional Sul ressaltou o acompanhamento pastoral às comunidades em conflito, o trabalho de base e a articulação com outras organizações na defesa dos direitos dos pescadores e pescadoras artesanais. Também trouxe para a roda, a participação na 1ª Feira da Pesca Artesanal de Laguna/SC e projetos realizados junto ao Fondo de Acción Urgente (FAU) em defesa da vida das mulheres pescadoras e marisqueiras.

“O trabalho de base e a articulação com outras organizações na defesa dos direitos dos pescadores e pescadoras artesanais foi destaque na partilha dos regionais”

Em Minas Gerais e Espírito Santo, foi apresentada uma conquista histórica: a demarcação das áreas da União no Rio São Francisco, resultado de anos de incidência política do CPP junto com movimentos da pesca artesanal. O regional também destacou o Projeto de Vida – Juventude Pesqueira na Universidade, que já garantiu o ingresso de jovens de comunidades tradicionais no ensino superior.

No Norte 1, foram apresentados os primeiros passos da implantação do CPP na Amazônia, com articulações em Tefé e Manaus, processos formativos, criação de equipes locais e planejamento das ações para 2026.

O Norte 2 enfatizou a atuação em territórios pressionados por grandes empreendimentos, a articulação em redes, a elaboração de denúncias e o fortalecimento da autonomia comunitária por meio de processos formativos.

“Enfatizou-se a atuação em territórios pressionados por grandes empreendimentos, a articulação em redes, a elaboração de denúncias e o fortalecimento da autonomia comunitária”

No Nordeste 2, a partilha trouxe ações de enfrentamento a conflitos socioambientais, como os impactos do crime da Braskem, a incidência junto ao MPF e à DPU, a criação de grupos produtivos de mulheres e a ampliação do acesso a políticas públicas da pesca artesanal.

O regional Bahia e Sergipe destacou conquistas como a aprovação da Lei da Pesca da Bahia, avanços na regularização territorial, fortalecimento da economia solidária e ações de enfrentamento ao racismo ambiental, à violência e à precarização das condições de vida nas comunidades pesqueiras.

“A partilha trouxe ações de enfrentamento a conflitos socioambientais a criação de grupos produtivos de mulheres e a ampliação do acesso a políticas públicas da pesca artesanal”

Por fim, o regional Ceará e Piauí trouxe com força o debate sobre os impactos dos grandes projetos energéticos, como a expansão da energia eólica em terra e no mar, os projetos de hidrogênio verde, a energia solar e os impactos do petróleo no litoral. A fala destacou a necessidade de acompanhamento direto desses projetos, articulação entre organizações e transformação das informações acumuladas em ações concretas de defesa dos territórios.

O evento também contou com a presença e contribuições de representantes do Cimi, da Comissão Pastoral da Terra (CPT); da Pastoral da Juventude Rural; do Movimento dos Pescadores e Pescadoras Artesanais (MPP); da Articulação Nacional dos Pescadores (ANP); e da Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM-Brasil).

“Veio com força o debate sobre os impactos dos grandes projetos energéticos, como a expansão da energia eólica em terra e no mar”

Assembleia Nacional do CPP 2026. Foto: João Palhares/Articulação Agro é Fogo

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