“Onde corria a água, agora grita a terra”

As águas do Cerrado insurgem à ganância do capital e banham de vida e esperança a resistência popular por sua preservação

Por Júlia Barbosa, em CPT

Conhecido como o Berço das Águas, o Cerrado é a multiplicação, “as infinitas diferenças”, como escreve o poeta cerradeiro Pedro Tierra. Em meio a sanha de destruição do agro-hidro-minero-negócio, frente às violências contra sua fauna, flora e seus povos, “o Cerrado sabe seus atalhos…”, garante o poema.

Suas raízes profundas se banham das águas das chuvas e percorrem caminhos subterrâneos, num movimento insubmisso, rompendo a terra árida e formando uma floresta invertida, que armazena as águas e, com generosidade, distribui para milhões de nascentes pelo Brasil e garante a segurança hídrica do povo brasileiro.

Mesmo com a resiliência de um bioma que renasce do fogo, toda essa riqueza está ameaçada. O Atlas dos Conflitos no Campo Brasileiro, lançado em 2025 pela CPT, aponta um futuro ‘sombrio’ para o Cerrado, caso não haja mudanças emergenciais e efetivas no cenário devastador apresentado nas últimas quatro décadas.

O estudo revela que, entre 1985 e 2023, o bioma concentrou quase 18 mil conflitos por terra e água, com crescimento nos últimos anos. Essa realidade devastadora do bioma, fruto dos projetos de morte do capitalismo no campo, ameaça um aprofundamento irreversível do Ecocídio em curso do Cerrado e, assim sendo, o Genocídio de seus povos.

Contra o Ecogenocídio, a resistência dos povos cerradeiros

“Onde corria água, agora grita a terra”, expressou uma camponesa durante o V Congresso Nacional da CPT. A morte das águas representa não apenas o ecogenocídio do Cerrado e seus povos, mas também o epistemicídio – a destruição e o aniquilamento dos saberes, dos sagrados e das culturas enraizadas na relação com a terra e as águas.

Durante um protesto contra a apropriação das águas da região de Correntina (BA) pelo agronegócio, uma jovem gritou à polícia – aliada do agro e igualmente violadora de direitos: “Ninguém vai morrer de sede às margens do Rio Arrojado!”. Ecoando esse grito de resistência, as comunidades continuam enfrentando a progressiva morte de seus rios e corpos d’água, devido ao uso predatório do agro-hidronegócio.

“É possível caminhar pelo fundo dos rios que morreram”. O mapeamento ‘A morte das águas no oeste da Bahia’, realizado ao longo de 2023 e 2024 pelas comunidades, junto à CPT Bahia e parceiros, identificou que, nas sub-bacias hidrográficas dos rios Corrente e Carinhanha, 3.050 trechos de águas já estão secos, entre córregos, riachos, nascentes e cabeceiras de rios, num total de 7.120 km de extensão de águas mortas, além de diversos trechos em estado crítico.

“Cuidar do Cerrado, recuperar e preservar as nascentes!”

Desde 2006, a CPT Mato Grosso junto às comunidades e diversos parceiros vem dando continuidade ao trabalho de proteção e recuperação de nascentes. Essa renovação da vida no Cerrado a partir da revitalização das nascentes, para a CPT MT, é a confirmação da profecia

Neste último semestre do ano passado, foram realizados mutirões na Comunidade Poço Azul, município de Poxoréu/MT, com a contribuição da Articulação CPTs Cerrado, Diocese de Rondonópolis, Grupo Arareau e demais parceiros. “Já é a terceira nascente recuperada na nossa região e isso é muito importante, porque as minas de água estão secando e escassas, então a gente precisa preservar não só para nós, mas para nossos filhos, para terem uma água de qualidade, e para a toda a população”, relatou Zacarias José, agricultor que vive na Comunidade Poço Azul.

Já são em torno de 200 nascentes protegidas na região. A comunidade não só protegeu e recuperou nascentes, mas foi cercando com árvores nativas toda a margem de cada um delas. “O que mantém a água aqui é o Cerrado, que tem as raízes bem profundas, e quando chove, através da profundeza das raízes, a água vai para o subsolo e forma a nascente. Se tem nascente, tem o rio. Então essa é a importância de proteger as nascentes. E o que faz a força para isso é o mutirão, é a gente junto”, explicou Baltazar Ferreira, agente pastoral da CPT MT, durante o último mutirão, no final de novembro.

Já no Piauí, nas comunidades acompanhadas pela CPT PI, a degradação do Cerrado tem sido percebido de forma crescente, afirma Salvadora Barbosa, agente pastoral que atua na região: “O desmatamento, o avanço do agronegócio com uso intensivo de agrotóxicos e expansão das monoculturas têm afetado diretamente o equilíbrio ambiental e o ciclo das águas”, denunciou. Segundo ela, hoje, o processo de recuperação de nascentes, com mutirões, rodas de conversa e formações junto aos camponeses e camponesas, continua com ações de reflorestamento, troca de saberes e fortalecimento da organização local.

Salvadora afirma que as expectativas são ampliar as ações de conscientização, envolver a juventude e as escolas camponesas, conquistar políticas públicas e apoio técnico, ampliar as articulações com outras comunidades e parcerias, além de fortalecer os quintais produtivos com práticas agroecológicas.

O Cerrado representa vida, alimentos, água, cura, espiritualidade e resistência. É fonte de sustento e de saberes tradicionais, onde as mulheres, jovens e anciãos compartilham práticas de cuidado com a terra e as águas. Ele é parte da identidade dos povos que ali vivem – Salvadora Barbosa.

Caminhar para que as águas corram

Em 2026, será realizada a Romaria da Terra e das Águas do Cerrado e do Pantanal, entre os dias 4 e 6 de junho, em Corumbá, no Mato Grosso do Sul.  Com o tema “No Cerrado e Pantanal correm os segredos sagrados das águas”, irá ecoar gritos do Cerrado e do Pantanal, denunciando as violências, anunciando as resistências e as lutas históricas dos povos indígenas, tradicionais e comunidades camponesas que vivem e defendem seus territórios e suas águas.

Povos tradicionais e originários saúdam as águas do Cerrado. Teia dos Povos (MA, 2024). FotoJúlia Barbosa

Deixe um comentário

O comentário deve ter seu nome e sobrenome. O e-mail é necessário, mas não será publicado.

um × dois =