SUS e Direito à Cidade na corda bamba em São Paulo

No 18º Congresso Paulista de Saúde Pública, um meio ambiente e acesso à saúde e o direito à memória na maior cidade do país. Por que a gestão do planejamento urbano continua a ignorar as necessidades da população e os desastres climáticos que se avizinham?

Por Gabriel Brito, Outra Saúde

A conferência da noite de segunda-feira (9) do 18º Congresso Paulista de Saúde Pública reforçou a essência do evento, que trata da saúde como parte de uma gama multidisciplinar de pautas conjunturais. Realizada no auditório João Yunes, da Faculdade de Saúde Pública da USP, o debate Justiça Ambiental e Direito à Cidade ressaltou as conexões entre temas aparentemente distantes.

Com a presença da jornalista Luciana Araújo, que representou o movimento Mobiliza Saracura Vai-Vai, criado após início das obras da estação do metrô onde, durante décadas, a escola de samba construiu sua história, no conhecido bairro do Bixiga. Ao seu lado, estava o vereador Nabil Bonduki, a conferência ofereceu perspectivas ampliadas sobre o atual momento da maior cidade do país.

“Metrô e parque são uma luta de 43 anos, mas trazem consigo aquela que é a oitava onda de expulsão de moradores do Bixiga, uma grande região de tombamento de imóveis, mas também conflitos – agora ampliados –, dentro da lógica inerente às cidades brasileiras”, introduziu Luciana Araújo.

A história

A jornalista trata de disputas sociais que eclodiram em momentos semelhantes, inclusive de forma inesperada. Ao escavar o imenso buraco que permitirá a construção da estação de metrô no tradicional bairro do centro de São Paulo, foi encontrado um sítio arqueológico que remete a tempos nos quais o Bixiga era local de aquilombamento de ex-escravos.

“Pelo menos 1.500 pares de sapatos foram encontrados naquele núcleo do córrego Saracura. E o Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade (Concresp) sempre colocou dúvidas sobre isso, dizia não ser factível que aquilo pertencesse aos negros recém-desescravizados. Mas por que o Bixiga até hoje tem tantos negros?”, indagou.

Nabil Bonduki, por sua vez, fez um resgate dos primórdios da ocupação da cidade. Os habitantes viviam em torno dos rios, como aqueles que corriam rumo ao vale do Anhangabaú – e hoje estão soterrados abaixo de avenidas como a 23 de Maio e 9 de Julho –, fator fundamental do povoamento de então.

As lutas

Como explicou Araújo, o poder público de uma cidade governada por uma direita que a enxerga como balcão de negócios teria passado por cima da descoberta desse patrimônio histórico se não se deparasse com surpreendente mobilização da população da Bela Vista. Em sua apresentação, mostrou como outras cidades se relacionaram com descobertas semelhantes e souberam preservar sua memória histórica.

Por sua vez, Bonduki, cujo mandato se dedica a questões urbanísticas e ambientais, afirma que a gestão de Ricardo Nunes é um desastre e as repercussões sanitárias são inevitáveis – mais ainda em tempos de mudança climática.

“O planejamento urbano está praticamente abandonado, a cidade cresce de maneira desordenada. As questões urbanas, principalmente do meio ambiente, são fatores que agravam os problemas de saúde”, explicou.

Para Bonduki, o atual prefeito, cujo mandato é envolto em gastos suspeitos e denúncias de corrupção, atira pela janela um momento financeiro favorável. O transporte coletivo retrocedeu em favor de nova aposta no individual, a eletrificação da frota de ônibus está estagnada, a coleta de lixo e reciclagem pouco avança e construtoras fazem o que querem com o espaço urbano.

“Avenidas como a 9 de Julho (vizinha da futura estação de metrô) alagam em cinco minutos. Esses dias, o velho córrego Saracura voltou a emergir por causa da chuva. Outras cidades conseguem resolver isso e preservar a história. Por que uma cidade tão impermeabilizada não consegue criar um projeto de desenvolvimento ao lado da preservação de natureza?”, indagou Luciana Araújo.

Para Nabil Bonduki, a gestão das cidades brasileiras beira a insanidade. Mesmo depois do desastre de Porto Alegre em 2024, mantém-se um padrão de desenvolvimento que privilegia o carro, derruba árvores, emite mais carbono, causa mais enchentes e gera mais agravos, seja por adoecimentos ou acidentes.

“Por exemplo, as ondas de calor que têm acontecido em vários lugares, inclusive aqui em São Paulo, prejudicam enormemente a saúde dos mais idosos. Chuvas, deslizamentos deixam muitas pessoas desalojadas e uma pessoa desalojada é muito mais vulnerável a contrair doenças e problemas de vários tipos”, enumera.

Como sintetiza o Congresso da APSP e a conferência, não há como garantir o direito à saúde sem uma agenda política de bem estar e sustentabilidade. E a cidade de São Paulo, com seu orçamento de R$ 137 bilhões, é palco privilegiado para se compreender o conceito em sua totalidade.

Um caso concreto

Tanto os conferencistas como um conselheiro de saúde ouvido pela nossa reportagem são enfáticos em afirmar que há um projeto de gentrificação da região central da cidade. Isso explica o até hoje misterioso fechamento do Hospital da Bela Vista, história que fornece pistas para a hipótese.

Aberto em 2021, esse hospital fechou as portas em 2025, sob alegações de não cumprir normas sanitárias, o que explicaria o elevado número de mortes em suas dependências. Hoje, os moradores do populoso bairro, por onde circulam outras milhares de pessoas em horário comercial, têm apenas doze leitos de internação do SUS, localizados na UPA Vergueiro, um equipamento de média complexidade.

“O Hospital da Bela Vista era a referência, isto é, recebia encaminhamentos de UBS e UPAS, que agora estão muito sobrecarregadas, até porque a gestão Nunes não investe em atenção primária. E agora a mortalidade da UPA Vergueiro aumentou pelo menos 50%”, contou Marco Ribeiro, conselheiro de saúde da região central da cidade.

Ao Outra Saúde, ele destaca que as mortes do hospital tinham notória relação com a condição social mais vulnerável. Afinal, o centro de São Paulo concentra moradores de rua e áreas como a “cracolândia”, que por sinal também foi alvo de violento processo de limpeza social sem acesso a tratamentos de saúde. Ou seja, a mortalidade no Hospital da Bela Vista pode estar muito mais relacionada ao perfil epidemiológico do público atendido. Ainda assim, serviu como pretexto para seu fechamento.

Imagem: Créditos: Paulo Pinto/Agência Brasil

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