Depois da COP, continuamos nós

Artigo de lançamento da nova coluna exclusiva do Tapajós de Fato ‘Norteadas’ co-escrita por Tainá Rionegro e Val Munduruku

Por Tainá Rionegro*, Tapajós de Fato

A COP passou.

Desmontaram as estruturas, recolheram os crachás, as autoridades foram embora.

Mas aqui ninguém foi embora.

O rio continuou correndo, mesmo ameaçado por barragem.

Imagina você, querem nos barrar logo no território da cabanagem!

As mulheres continuaram organizando futuros mandatos, reunião, roça, escola, assembleia.

A crise climática não acabou quando a conferência acabou. Para nós, nunca foi evento. Sempre foi sobre proteger a vida na Amazônia e do mundo.

Perguntei a Vall Munduruku depois de um encontro de fortalecimento de mulheres amazônidas conduzido por mulheres amazônidas, quais “resultados”, “acordos históricos”, “metas” são necessárias para sairmos bem da COP?

Ela me disse vários, mas a resposta que realmente me fez refletir, foi:

— Engraçado, né? Parece que eles estão começando agora uma conversa que a gente vive há séculos.

Fiquei pensando nisso.

“Para o mundo, debate climático é plenária, acordo, reunião.

Para nós, é território de comunhão”.

Perguntei como ela imaginava que teria sido se aquela conferência tivesse realmente a nossa cara.

Ela não falou de palco, nem de auditório. Falou de acolhimento.

— Eu começava com um grande ritual. Um puxirum. Todo mundo junto. Pra mostrar que a Amazônia não é só floresta. É povo.

A palavra puxirum ficou ecoando, porque é isso que os povos de verdade, gente como a gente, sabe fazer: juntar gente, falar e festejar com gente.

Enquanto eles organizam mesas de negociação, a gente organiza mutirão e estratégias igualmente complexas de vida.

Enquanto eles produzem relatórios, a gente vive o cuidado. [e produzimos alguns relatórios também]

“A gente queria mostrar rostos, vozes, corpos vivos.Mostrar que aqui tem gente atuando todo dia para enfrentar a crise climática, não em tese, mas na prática”, Vall me explicou seu sonho de uma COP construída verdadeiramente por nós.

Mitigação, eles chamam.

“A gente chama de proteger a nascente, de barrar garimpo, de dizer não à mineração, de vigiar o território.Toda vez que a comunidade impede uma invasão, o clima agradece”.

Mas isso não entra nas planilhas.

— E o pior, Vall continuou: quem mais sofre é quem menos causa.

Somos as primeiras a sentir o impacto.

Mas não somos nós que provocamos o colapso.

Quem provoca tem nome, empresa, lucro.

Tem ganância.

Tem esse velho modelo que olha pra terra como recurso, não como vida.

Enquanto isso, nossos modos de existir seguem sendo tratados como “alternativa”.

Alternativa nada, são solução, sempre foram.

Falamos muito das mulheres.

Porque, no fim das contas, somos nós que seguramos as pontas do mundo.

Nosso jeito de fazer política nasce do cuidado, e cuidado também é estratégia climática.

Só que ninguém gosta de chamar assim, porque cuidado não vira lucro, não vira crédito de carbono, não vira negócio.

Mas vira vida e vida é o que está em jogo.

A COP passou, mas nós continuamos aqui… ainda bem!

*Um diálogo entre Tainá Rionegro e Val Sawré Munduruku virou esse texto.

Foto: Tainá Rionegro

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