“A ecologia é a questão política, social e humana central no século XXI”, constata Michel Löwy

Ciclo de estudos promovido pela Comissão para Ecologia Integral e Mineração (CEEM), da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em parceria com o Instituto Humanitas Unisinos – IHU, debate a ecologia integral e o ecossocialismo em tempos de mudanças climáticas. Evento ocorre na próxima quarta-feira, 04-03-2026

Por: Patricia Fachin, em IHU

Nesta semana, os brasileiros estão acompanhando o drama dos moradores da cidade mineira de Juiz de Fora, atingida por fortes chuvas que provocaram deslizamentos e desabamentos de casas e edifícios, ocasionaram 55 mortes e deixaram cerca de 4.200 desabrigados, segundo dados da Prefeitura Municipal. A esse evento climático extremo somam-se as enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul em 2024, a seca e os incêndios que afetaram a Amazônia e o Pantanal, as ondas de calor em diversas regiões do país, e o tornado que atingiu o Paraná no fim do ano passado.

A recorrência desses fenômenos e seus efeitos sobre as populações atingidas é um problema mundial. Somente na última década, aproximadamente 250 milhões de pessoas deslocaram-se dentro de seus próprios países, o que representa uma média estimada de cerca de 70 mil deslocamentos diários, segundo dados do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR).

Para o sociólogo brasileiro radicado na França, Michael Löwy, “a ecologia é a questão política, social e humana central no século XXI”. A classe política, contudo, crítica Löwy, tem priorizado a adaptação em vez da prevenção dos eventos climáticos. “É uma forma indireta de se resignar à inevitabilidade das mudanças climáticas”, afirma. Se, por enquanto, a adaptação ainda é possível, adverte, “a partir de um certo aumento da temperatura – dois graus? três graus? ninguém pode dizer – ela se tornará impossível. Como se adaptar, se a temperatura ultrapassar os 50 graus? Se a água potável se tornar um bem escasso? Podemos multiplicar os exemplos”.

Ciclo de Estudos Ecologia Integral em tempos de colapso ambiental
Löwy é o próximo painelista do Ciclo de Estudos Ecologia Integral em tempos de colapso ambiental. Profecia, resistência e propostas pastorais, juntamente com Roberto Malvezzi, da Comissão para Ecologia Integral e Mineração (CEEM) e da Comissão Pastoral da Terra (CPT), e Dom Vicente Ferreira, bispo da Diocese de Livramento de Nossa Senhora, Bahia, e presidente da CEEM. O evento é promovido pela CEEM, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em parceria com o Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

Os painelistas vão refletir sobre a ecologia integral e o ecossocialismo. A proposta tem sido defendida pelo sociólogo como um projeto de futuro alternativo ao capitalismo, mas também como “uma estratégia para a luta aqui e agora”. A atividade ocorre nesta quarta-feira, 04-03-2026, e será transmitida na página eletrônica do IHU, nas redes sociais e no YouTube às 10h.

Paradigma civilizacional alternativo
Michael Löwy é um teórico marxista que se dedica à análise da crise civilizacional. Crítico da acumulação ilimitada do capital, da mercantilização de todas as esferas da vida e da exploração do trabalho e da natureza, tem defendido um modelo civilizacional baseado na justiça social, na igualdade, na liberdade, na solidariedade e no respeito à Casa Comum.

Ele figura entre os teóricos de esquerda que dialogaram com o pensamento do Papa Francisco e ele próprio escreveu com entusiasmo sobre o legado social de Bergoglio, dias após a morte do pontífice ano passado. No texto publicado na página eletrônica do IHU, Löwy valorizou a denúncia do Papa à “‘globalização da indiferença’ que nos torna ‘insensíveis aos gritos dos outros’”, fazendo referência aos migrantes mortos no Mediterrâneo e às políticas europeias desumanizantes. Recordou o encontro do Papa argentino com os movimentos sociais de Santa Cruz, na Bolívia, em 2015, e a crítica do pontífice à economia que mata. Na avaliação do sociólogo, o discurso anticapitalista de Francisco foi feito “num nível que nenhum de seus antecessores conseguiu atingir”.

Löwy também teceu vários comentários sobre a Laudato si’, publicada em 2015. A encíclica ecológica do Papa Francisco, afirmou, “é um acontecimento de importância global, do ponto de vista religioso, ético, social e político. Dada a enorme influência da Igreja Católica, foi uma contribuição crucial para o desenvolvimento de uma consciência ecológica crítica. Embora tenha sido acolhida com entusiasmo pelos verdadeiros ambientalistas, suscitou inquietação e rejeição dos conservadores religiosos, dos representantes do capital e dos ideólogos da ‘ecologia de mercado’”. Este documento, acrescentou, “é uma contribuição preciosa e inestimável diante da catástrofe socioambiental. O Papa foi lúcido ao questionar elites e a ‘ecologia de mercado’. Cabe à esquerda completar seus diagnósticos com propostas radicais”.

Em entrevista ao IHU em 2019, Löwy sugeriu que intelectuais e políticos de esquerda lessem o documento magisterial. “A esquerda deveria ler este documento e se inspirar no seu diagnóstico sobre a urgência de salvarmos nossa Casa Comum, a Mãe Terra”.

Ecossocialismo
Enquanto os líderes das principais potências econômicas do mundo apostam num modelo econômico predatório e disputam minerais críticos e terras raras para dar continuidade a projetos expansionistas de poder, ao progresso tecnológico, à transição energética e à expansão agrícola, Löwy defende uma transição para o ecossocialismo. Trata-se, explica, de um modelo político “orientado por dois critérios: a satisfação das necessidades reais e o respeito ao equilíbrio ecológico do planeta. São as próprias pessoas – uma vez livres da propaganda e da obsessão consumista fabricadas pelo mercado capitalista – que decidirão, democraticamente, quais são as verdadeiras necessidades”. O ecossocialismo, enfatiza, “é uma aposta na racionalidade democrática das classes populares”.

O ecossocialismo tem sido proposto pelo sociólogo como uma alternativa ao que ele denomina de “ecocídio capitalista”, termo que designa a destruição sistemática de ecossistemas, ameaçando todas as formas de vida. A proposta, explicita, é inspirada no arcabouço teórico marxista. “Os trabalhadores não podem tomar posse do aparato de estado capitalista e colocá-lo para funcionar a seu serviço. Eles têm que ‘quebrá-lo’ e substituí-lo por uma forma radicalmente diferente, democrática e não-estatizante de poder político”.

O projeto ecossocialista, argumenta, não é despótico. Visa, ao contrário, ser um exercício de liberdade da própria sociedade. “O ecossocialismo é baseado em uma aposta, que já foi de Marx: o predomínio, em uma sociedade sem classes e liberta da alienação capitalista, do ‘ser’ sobre o ‘ter’, isto é, do tempo livre para a realização pessoal de atividades culturais, esportivas, lúdicas, científicas, eróticas, artísticas e políticas, ao invés do desejo pela posse infinita de produtos”, explica.

Sobre o evento

A atividade promovida pela Comissão para Ecologia Integral e Mineração (CEEM), da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em parceria com o Instituto Humanitas Unisinos – IHU, pretende desenvolver a reflexão sobre Ecologia Integral e consolidar escolhas e ações pastorais, em fidelidade à encíclica Laudato Si’, inspirando-se no Manifesto recém-publicado.

O Ciclo de Estudos também visa compreender a conexão entre o extrativismo predatório, que atenta ao equilíbrio da Ecologia Integral, e os graves desafios globais, como as guerras entre os povos e com a natureza, a crescente voracidade energética e a irrupção da inteligência artificial. Os painéis e conferências são gratuitos e abertos ao público.

Será fornecido certificado a quem matricular-se em cada conferência e, no dia do evento, preencher o formulário de presença disponibilizado somente durante a transmissão. O aluno poderá matricular-se apenas nas conferências que desejar assistir. O certificado informará a carga horária total cursada e estará disponível no Portal Minha Unisinos a partir de 20 dias após o término do Ciclo de Estudos (todas as conferências). Não é necessária inscrição para acompanhar a transmissão.

Serviço

O quê: Painel “Transações energéticas ou transformação sistêmica? A ecologia integral e o ecossocialismo” | Ciclo de estudos: Ecologia Integral em tempos de colapso ambiental Profecia, resistência e propostas pastorais

Quando: 04-03-2026

Quem: Prof. Dr. Michael Löwy, Diretor de Pesquisas emérito do CNRS – França | Roberto Malvezzi (Gogó), da Comissão para Ecologia Integral e Mineração da CNBB e da CPT | Dom Vicente Ferreira, bispo da Diocese de Livramento de Nossa Senhora (BA) e presidente da CEEM

Onde assistir: www.ihu.unisinos | YouTube do IHU | Facebook do IHU

Michael Löwy, Paris, 24/02/2014. Foto: Pierre Pytkowicz

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