Um integrante da 31ª Brigada de Trabalho Voluntário narra a imersão na realidade cubana em esforço anual de trocas e fortalecimento de laços latinos. Reporta o momento delicado que a ilha atravessa e os impactos das agressões de Washington
Por André Luiz Domingos, em Outras Palavras
Este texto tem como objetivo apresentar algumas considerações sobre a XXXI Brigada Sul-americana de trabalho voluntário e solidariedade com Cuba. Será feita uma apresentação breve do que são as Brigadas e os seus objetivos, partindo depois para algumas considerações sobre a experiência de participar da Brigada, algumas impressões sobre os dias vividos em Cuba e os principais desafios impostos pelo imperialismo estadunidense ao povo cubano.
1. As Brigadas de Trabalho Voluntário e Solidariedade com Cuba
No Brasil, a organização das Brigadas é realizada pelo MBSC – Movimento Brasileiro de Solidariedade com Cuba, em parceria com as Associações Culturais José Martí, cada uma com células locais em alguns Estados, além de uma célula nacional responsável nas localidades onde ainda não existe organização. São entidades civis sem fins lucrativos e possuem a finalidade de difundir a solidariedade com o povo cubano para defender o seu direito à soberania. A ideia é reunir brigadistas de todo o país para conhecer a realidade cubana e, assim, têm-se evidente desde o início que ser brigadista não significa apenas ir à Cuba, enquanto turista, visando a diversão e lazer. O comprometimento do brigadista passa pela responsabilidade de difundir, no seu país de origem, o que realmente se passa em Cuba. Trata-se de um turismo político e de um trabalho militante.
A XXXI Brigada Sul-americana de Trabalho Voluntário e Solidariedade com Cuba ocorreu entre 25 de janeiro a 7 de fevereiro de 2026, ano em que se comemora o centenário de nascimento, e também 10 anos de sua passagem à imortalidade, do comandante em chefe Fidel Castro, “o melhor discípulo de Martí”, evidenciando sua obra e pensamento. Tanto Fidel quanto Martí são figuras presentes no cotidiano cubano, são vários os murais com fotos, frases e referências aos dois heróis da revolução cubana nas ruas, praças e espaços públicos, uma manifestação inequívoca de que o pensamento revolucionário continua firme e forte nos dias atuais. Foram, no total, quase 80 brigadistas, sendo 20 brasileiros/as; 49 uruguaios/as, a maior delegação da XXXI Brigada Sul-americana, que contou ainda com 8 chilenos/as e 1 brigadista de El Salvador.
As Brigadas de trabalho voluntário e solidariedade são realizadas pelo ICAP – Instituto Cubano de Amizade entre os povos, em parceria com sua agência de viagens, a estatal Amistur Cuba. Parte essencial do objetivo das Brigadas consiste em divulgar e promover o conhecimento da história cubana, bem como a realização de jornadas de trabalho voluntário e solidariedade, além de levar doações ao país. O trabalho voluntário compreende a participação em jornadas de trabalho agrícola, como o plantio e cuidado de hortaliças para apoiar a produção local; atividades de limpeza no acampamento onde os/as brigadistas ficam alojados/as, auxílio nas atividades de refeições na cozinha, dentre outras atividades laborais produtivas. Há, ainda, a promoção de intercâmbios de experiências entre os brigadistas de diversos países da América Latina que integram as Brigadas. Com tudo isso, o intuito é propiciar uma imersão na realidade cubana para melhor compreensão das dificuldades que o país tem atravessado devido aos ataques consistentes e históricos à sua soberania e fortalecer a luta e a resistência frente à esses ataques.
A programação em 2026 incluía visitas a locais de interesse histórico, econômico, cultural e social – como o Centro Fidel Castro Ruz e o Memorial da Denúncia, em La Habana, e a visita que estava prevista a Villa Clara e Santiago de Cuba –, além de conferências sobre temas históricos e da atualidade – como a participação no III Colóquio Internacional “José Martí por una cultura de la naturaleza”, realizado no Jardim Botânico de La Habana, para refletir sobre a relação entre o Ser Humano e a Natureza a partir do pensamento de Martí. O cronograma previa, ainda, visitas a museus e instituições sociais, alguns períodos livres para os/as brigadistas, além de palestras de formação e contexto histórico-político sobre os recentes acontecimentos na América Latina.
Estas últimas foram realizadas no CIJAM – Campamento Internacional “Julio Antonio Mella”, no município de Caimito, localizado na província de Artemisa, a 45 km de La Habana, onde nós brigadistas ficamos alojados/as por alguns dias. Sua criação foi uma iniciativa do próprio comandante em chefe Fidel Castro, com o objetivo de criar um lugar para reunir as delegações de vários países e estimular a solidariedade internacional entre os povos. É uma importante e histórica referência para as Brigadas de trabalho voluntário e solidariedade, hospedando brigadistas internacionais já há muitos anos, desde a década de 1970. Passou por diversas reformas e melhorias durante os anos, muitas realizadas com trabalho voluntário dos/as próprios/as brigadistas e conta hoje com capacidade para mais de 300 pessoas. Oferece acomodações simples com quartos compartilhados, banheiros coletivos, além de refeitório, lojinha com produtos, biblioteca e o lugar mais “frequentado” do CIJAM, o bar La Piragua, sempre lotado por suas bebidas, em especial os mojitos. Há também um campo para a prática de esportes coletivos, auditório, onde são realizadas as palestras e conversas, um posto médico aberto 24h por dia, ampla área de convivência ao ar livre com um palco para apresentações culturais e até um bosque. Também ficamos hospedados em hotéis, como o La Ermita, na cidade de Viñales, província de Piñar del Rio, e o Hotel Copacabana, na capital cubana.
As Brigadas também visitam instituições culturais, escolas, associações, universidades, manifestações culturais e políticas – como a participação na importante Marcha de las Antorchas, em 27 de janeiro de 2026, em homenagem ao 173º aniversário de José Martí e, especialmente esse ano, ao centenário de Fidel Castro; e a visita ao Proyecto Soñarte, uma iniciativa sociocultural comunitária localizada no município de Cotorro, próximo a La Habana. Visitamos também hospitais e centros comunitários, com intuito de levar nossa solidariedade e doações, que podem ser feitas para o ICAP, distribuindo para onde mais precisam, ou diretamente em algumas instituições visitadas. Em 2026, as delegações da XXXI Brigada Sul-americana doaram, em 05 de fevereiro de 2026, ao Hospital Docente Clínico Quirúrgico 10 de Octubre, em La Habana, mais de 500kg de medicamentos diretamente aos/as médicos/as da instituição.
No dia da cerimônia de encerramento da XXXI Brigada Sul-americana, em 06 de fevereiro de 2026, foi entregue em mãos ao Presidente do ICAP, Fernando González Llort (conhecido por ser um dos cinco heróis cubanos preso pelos Estados Unidos por mais de 15 anos, quando investigava planos de ações terroristas contra Cuba) a quantia de mais de $17.000usd. Tudo foi arrecadado durante meses de campanha, realizadas pelas delegações que participaram da XXXI Brigada Sul-americana. O presidente do ICAP, ao receber as doações, foi muito feliz em sua colocação: “No dan lo que les sobra, sino de lo poco que tienen”, o que destaca o imenso valor deste gesto solidário e fraternal demonstrado pelos/as brigadistas e a importância da realização das Brigadas para fortalecer à solidariedade com Cuba.
Por tudo isso, a presença do/a brigadista em Cuba é muito enaltecida. Várias foram as palavras e o reconhecimento ao trabalho político, é assim que entendem, que fazíamos ao estar ali. “Ustedes no son turistas, son brigadistas” ouvi, mais de uma vez. O reconhecimento e a gratidão estão em cada palavra de conforto, em cada gesto, em cada abraço, em cada cumprimento. É uma empatia genuína e uma gratidão sincera apenas por estarmos ali, presentes e comprometidos com a sua luta, que também é a nossa.
Foram feitas, ainda, doações pontuais aos funcionários do CIJAM, do ICAP e outros trabalhadores/as cubanos/as que tanto nos auxiliam durante nossa estadia na ilha. À todos e todas, nosso eterno agradecimento, pelos ensinamentos, pelas conversas, pela acolhida calorosa e pela companhia presente, forte e dedicada, durante os momentos que compartilhamos juntos.
2. Os impactos das agressões à Cuba no decorrer da Brigada
A partir do conhecimento da história cubana, da realização de trabalhos voluntários e a troca de experiências entre os/as brigadistas, espera-se que nós possamos compreender de maneira singular a realidade cubana. Que possamos sentir e compartir das mesmas dificuldades, vivenciar o dia-a-dia e os desafios enfrentados pela população cubana, constituindo uma importante ferramenta de divulgação verídica sobre a realidade em Cuba e os impactos do embargo criminoso engendrado pelo império estadunidense já há mais de 60 anos.
E a XXXI Brigada Sul-americana de Trabalho Voluntário e solidariedade com Cuba não poderia ter acontecido em um momento mais oportuno. O ano de 2026 começou marcado por ataques do imperialismo à Venezuela e o agravamento das sanções aos cubanos por parte dos Estados Unidos, o que torna ainda mais crucial o fortalecimento à luta de resistência contra o cerco imperialista imposto à América Latina, em especial à Cuba.
No dia da visita ao Centro Fidel Castro Ruz, em 27 de janeiro de 2026, durante a cerimônia de boas-vindas à XXXI Brigada Sul-americana, mais uma vez o presidente do ICAP, Fernando González Llort, foi preciso em sua fala: “O mundo não é mais o mesmo depois da covarde e criminal agressão à Venezuela em 03 de janeiro, com o sequestro do presidente Nicolás Maduro e Cilia Flores”. Era a Venezuela que fornecia grande parte do petróleo recebido por Cuba. Assim, o ataque a Venezuela foi, também, mais um ataque a Cuba. A ordem executiva assinada pelo presidente dos Estados Unidos, em 29 de janeiro de 2026, mais uma grave agressão à Cuba e sua população, impõe represálias aos países que fornecerem petróleo à ilha. Essa medida dificulta ainda mais o acesso de Cuba ao combustível, colocando-a em situação delicada.
Sentimos todos e todas os impactos dessa agressão. No dia 30 de janeiro, véspera de nossa viagem à Santa Clara (distante cerca de 300km de Havana), os funcionários responsáveis pela organização e realização da Brigada, reuniram-se conosco para nos informar, primeiro sobre as medidas impostas pelo governo estadunidense no dia anterior, depois sobre como tais medidas impactariam o decorrer e o cumprimento das atividades previstas. Como consequência da escassez de combustível, nossa viagem ao oriente da ilha foi suspensa, fato que foi muito bem compreendido por todos/as brigadistas. Foi mais um momento de união entre todos/as na compreensão do momento vivido por Cuba. Foi muito bonito ouvir os companheiros e companheiras falarem, emocionados, muitos e muitas com lágrimas nos olhos, sobre como tais medidas reforçavam, mais do que nunca, nossa fraterna solidariedade com a situação vivida pelo povo cubano diante de mais uma agressão sofrida.
Um momento duro, difícil, no qual sentimos “na pele” o impacto das agressões à Cuba e ao seu povo: nós deixamos apenas de fazer uma viagem mas, e a população cubana, que deixa de ter água por conta dessas medidas? Ou aqueles que ficam horas e horas sem energia elétrica? Aqueles que são afetados pela diminuição da oferta de transporte público ou atendimento médico? As sanções, impostas durante décadas, tem um único objetivo: castigar a população cubana ao impactar severamente o turismo, o comércio, a economia, a infraestrutura básica do país, dificultando o acesso à insumos essenciais, como medicamentos, alimentos, produtos de higiene pessoal, entre outros materiais básicos. A degradação da qualidade de vida do povo cubano é resultado direto, de maneira deliberada, dessa política sistemática de ataques. A ideia é que esse cenário aumente a pressão social e gere um desgaste na sociedade cubana, o que favoreceria seus opositores.
Os impactos desses ataques são imensos. Devido à falta de combustível, ocorre a diminuição da oferta de transporte público, dada a baixa disponibilidade de combustível que, racionalizado, passa a ser ofertado apenas para serviços emergenciais. Diminui-se as linhas de transporte coletivo, reduz-se as jornadas de trabalho, aulas nas universidades, toda atividade não essencial que pressuponha o uso de combustível. Outra consequência disso é a falta de combustível para abastecer os caminhões responsáveis pela coleta de lixo, que fica acumulado em alguns pontos das cidades, gerando risco à saúde da população cubana.
A insuficiência da geração de energia elétrica ocasiona longos períodos por dia sem energia: às vezes passam-se mais de 4/5h diárias, mais de uma vez por dia, sem energia elétrica. Consequentemente, não há agua, uma vez que não é possível acionar o bombeamento, deteriorando as condições de higiene e limpeza em diversos locais, como residências, hotéis, restaurantes e até hospitais.
Médicos e profissionais de saúde também são severamente impactados pois, dependem da energia elétrica para trabalhar, além do encarecimento dos insumos e medicamentos necessários para o atendimento ao povo. Não é que faltam equipamentos ou profissionais, é porque as sanções à Cuba impedem o acesso a este material que é essencial, as transações bancárias são bloqueadas e as empresas que têm interesse em fazer negócios são sancionadas. Daí a grande importância das doações levadas pelas Brigadas, que realmente ajudam no atendimento à população cubana, a principal afetada por todas essas consequências. É uma só a causa principal do problema: o bloqueio comandado pelo governo estadunidense.
Cabe aqui um questionamento. Chamemos o bloqueio, por aquilo que ele realmente é: um crime contra a humanidade e os direitos humanos. É preciso questionar o uso dessa palavra pois a sua normalização pode banalizar o seu sentido e esvaziar o seu conteúdo. Nada é inocente nessa guerra travada contra Cuba e a retórica esvaziada serve àqueles que a atacam constantemente, normalizando os ataques e reduzindo a sua responsabilidade. Não se trata de bloqueio, é uma política de guerra e terrorismo. Não se trata de bloqueio, é crime. Praticado contra um povo que sofre apenas por não se curvar diante dos interesses do imperialismo. Questionar é, também, resistir.
3. A importância da resistência cubana e a de nossa solidariedade
É preciso olhar para Cuba, essa pequena ilha com um grande povo, e nos perguntar: de qual lado da história queremos estar? Do lado de uma população que luta, que não se rende, apesar de todas as dificuldades deliberadamente impostas? Ou queremos ser cúmplices deste crime que é cometido contra a população cubana, ao não tomarmos iniciativa alguma?
Não é só Cuba que precisa da nossa solidariedade. Nós também precisamos de Cuba: defender Cuba é defender, ao mesmo tempo, nós mesmos. Ademais, em suas diferentes missões de ajuda, nunca deixou, com seu caráter de solidariedade internacionalista, de ajudar outros povos quando necessário. Cuba é a única experiência duradoura do socialismo na América Latina, um desafio escancarado à hegemonia estadunidense e à doutrina Monroe, que entende toda a América Latina como seu mero quintal. É nesse sentido que precisamos defender Cuba, pois defendê-la é também defender a nossa própria soberania e direito de escolher nossos próprios rumos, sem a intervenção de nenhum outro país.
A existência de Cuba é um marco político e ideológico importantíssimo pois, materializa a existência de outra alternativa na qual um mundo melhor é possível, um mundo no qual se preza a vida e o ser humano, em detrimento ao consumismo desenfreado do mundo capitalista. Significa que outro modelo de sociedade, socialista, igualitária e soberana é possível. Por isso Cuba é uma ameaça: porque concretizam um modelo de sociedade alternativo, que não é perfeito, obviamente, mas possível, com muita luta, resistência e solidariedade, tudo aquilo que sobra ao povo cubano. Se Cuba constitui uma ameaça, como afirma a ordem executiva de 29 de janeiro, é por mostrar ao mundo capitalista que outro mundo, melhor e mais justo, é, sim, possível.
Logo, a queda de Cuba significaria uma derrota para qualquer projeto que tenha como objetivo a independência frente ao imperialismo estadunidense. Denunciar as consequências do embargo criminoso que sofre Cuba é mais do que um ato de solidariedade, é uma responsabilidade que temos todos, latino-americanos, frente a um inimigo que nos subjuga e ameaça o tempo todo. E em Cuba todos e todas sabem claramente quem é este inimigo: está ali, próximo, cerca de 150km de seu litoral.
Por fim, parte da solidariedade que Cuba necessita pode vir também dos meios de comunicação. Em sua maioria, ao não denunciarem verdadeiramente os impactos das agressões ao povo cubano, são coniventes; outros, ao reportarem o que se passa em Cuba de maneira tendenciosa e parcial, na qual se dá a entender que o culpado pelo sofrimento do povo cubano é o governo cubano, sem citar ou sem questionar o porquê, escondem o verdadeiro inimigo e, também, são cúmplices dessas agressões.
Por isso, o espaço aqui cedido é primordial para a denúncia desta situação, para que fique explícita a realidade: é justamente porque Cuba não é, nem nunca foi, um Estado falido que os Estados Unidos empenham-se há tanto tempo em derrotar sua revolução. Falido está quem tenta sucessivamente derrotar o povo cubano. Ouvi nos dias em Cuba uma frase que é muito simbólica para todo esse contexto: “És mejor morir de hambre que morir de verguenza”. É esse o espírito do povo cubano!
4. Impressões sobre Cuba e os/as cubanos/as
A ideia aqui é trazer algumas observações e diálogos que permitam ilustrar toda força, luta, resiliência e solidariedade do povo cubano. Em primeiro lugar, estar em Cuba nos lembra de que outra vida é, realmente, possível. Um cotidiano distinto do que encontramos no Brasil, onde se tem combustível à vontade mas, não há as coisas mais básicas como viver com dignidade ou com segurança nas ruas; uma realidade na qual as crianças e adolescentes ainda brincam coletivamente, ocupam os espaços públicos, ao invés do que vemos cada vez mais, individualizadas e com telas nas mãos. Em Cuba não há nenhuma pessoa morando nas ruas, tampouco há violência ou insegurança nessas ruas. Pode-se andar tranquilamente a noite em qualquer horário sem medo algum de ser assaltado, em meio às apagadas e escuras ruas cubanas, devido à falta de energia elétrica ocasionada pela escassez de combustível.
O povo cubano é muito receptivo, simpático, alegre. Dizem, nesse sentido, que somos “hermanos” pois, consideram nós, brasileiros, festivos, extrovertidos e dançantes como eles. A maioria dos/as cubanos/as estava sempre dispostos/as a ouvir, assim como estavam curiosos em saber mais sobre o Brasil e trocar informações, experiências, culturas, que em tantos sentidos são parecidos com os nossos. Basta ver a quantidade de pessoas negras nas ruas cubanas, tanto quanto em Salvador ou no Rio de Janeiro. Pena que somente em Cuba essas pessoas negras não estão em condições deploráveis, dormindo nas ruas ou procurando comida nos lixos. Lá, os negros ocupam lugares que, para nós, são lugar de destaque. Por lá, as pessoas negras podem estar onde quiserem pois não são tolhidas de oportunidades por causa da cor de sua pele.
Por lá, os negros são músicos reconhecidos, como Yosué Vigo, músico da banda Color Cubano, a quem tive o prazer de conhecer e conversar um pouco após sua apresentação musical no hotel La Ermita, em Viñales. Yosué, cubano, músico, 44 anos, vive “apenas” daquilo que é sua única profissão: ser músico. Um exemplo de simplicidade e conhecimento, profundo, histórico e político não só de seu povo mas, de sua condição, de seus desafios e de suas conquistas. “Conquistas que devem e serão defendidas, não importa o que aconteça”, segundo suas palavras. Estava muito interessado em explicar as dificuldades e a realidade que vive mas, queria também saber a nossa realidade, chocado em alguns momentos com o que não temos de mais básico.
Tudo isso nos mostra como a solidariedade para o povo cubano não é só um discurso ou um conjunto de ações soltas que fazem para o próprio ego. É uma prática, cotidiana, histórica, sincera e altruísta. “La solidaridad está en nuestra sangre”, como disse o músico Yosué, apontando para seu colega músico, também negro.
Em Cuba prevalece o coletivo em detrimento ao individual. Naturalmente se pensa em ajudar e solidarizar com o próximo, o que é totalmente dispensável na sociedade capitalista e neoliberal que vivemos hoje, na qual tudo se resume ao lucro, ao dinheiro e ao ganhar alguma vantagem na relação com o próximo. As consequências de uma sociedade amparada na desigualdade social, não se encontram em Cuba: pouquíssimas são as pessoas que estão em situação de rua e são resultado direto de um bloqueio que asfixia a população cubana já há muito tempo; não existe o uso de drogas nas ruas e existe um trabalho forte feito sobre o assunto, não se vê crime organizado, violência ou assaltos de qualquer tipo. Quando a sociedade é mais igualitária, com acesso ao básico para se viver, não há porque retirar do outro, de seu irmão, aquilo que você já têm.
5. “La decisión és una: ¡pátria o muerte! ¡Venceremos!”
Apesar de todo o sofrimento, Cuba e a população cubana resistem! Defendem com toda determinação sua independência e soberania e são conscientes de sua situação. Entendem o motivo e a real causa dos seus problemas e sabem, o que é importantíssimo, qual é o seu verdadeiro inimigo: o imperialismo estadunidense. Cuba, seu povo e seu governo mantêm firme seu compromisso com a revolução cubana, ao preservar sua soberania e independência frente à qualquer agressão externa.
Visitar Cuba é, acima de tudo, um ato de solidariedade. Antes de ser uma viagem turística, sempre foi e, agora mais do que nunca, um ato de resistência e de solidariedade. Além disso, é uma forma também de superar o bloqueio imposto pelo governo estadunidense. Parte da motivação em escrever este texto é contribuir, de maneira muito singela, à essa grande causa que, no fundo, é de todos nós. É preciso levar adiante a realidade e o contexto cubano, para que se saiba que Cuba não se rende. Para que se saiba que a revolução cubana segue viva. Para que o mundo perceba todo o sofrimento causado por anos e anos de agressões criminosas e desumanas dos Estados Unidos. Para que todos e todas saibam, acima de tudo, que apesar de tudo, Cuba segue firme em seus valores. E saibam que tais valores são intrínsecos à identidade cubana pois, não se trata de meras palavras em um belo discurso mas, sim, de uma ideologia forte, genuína e verdadeiramente entendida pelo povo cubano.
Como conseguiram alcançar tamanha consciência histórica e política? É uma pergunta complexa mas, parte da resposta, seguramente, passa pela educação do povo cubano. As ideias revolucionárias estão presente em tudo, narrativas, artes, cultura, músicas e também na educação. A educação é uma das principais trincheiras onde se constrói sua luta, reverencia seus heróis, como Fidel, Martí, Cienfuegos, Che e tantos outros; é por meio da educação que elaboram seus desafios atuais, aprendendo os valores de suas conquistas, bem como os desafios de mantê-las e a importância de resistir. Escola, família, comunidade, solidariedade, está tudo conectado e servindo à um só propósito: a continuidade da emancipação do povo cubano.
Estar em Cuba é perceber, de fato, como o bloqueio econômico, comercial e financeiro, os ataques ao turismo e a disseminação de notícias falsas afetam o cotidiano da ilha. Somente assim podemos entender com clareza que a ameaça imperialista à Cuba é, também, uma ameaça para todos nós, latino-americanos. É neste contexto também que se evidencia toda a força, toda resistência, toda a luta do povo cubano. Sua dignidade, sua criatividade para reinventarem-se diante das adversidades impostas e, mesmo assim, não se retira a dignidade do povo cubano. Existem problemas como em todo e qualquer país mas, antes de criticar, é preciso lembrar, acima de tudo, entender, o porque seus problemas são agravados: são consequências de ataques históricos, sistemáticos e consistentes por parte dos Estados Unidos.
De toda maneira, tenta-se criar, a partir de narrativas falsas e distorção da realidade, um contexto artificial no qual Cuba está prestes a se render. Não poderia ser menos verdadeiro: a verdade é que Cuba está preparada para eventuais ataques, porque já sofre ataques há décadas e sabe como agir. São conscientes de que sua revolução só se defende com luta, com unidade coletiva e com sacrifício, o que estão dispostos a fazer, porque entendem que sua vitória é resultado disso. “La unidad és el arma indestructible de los pueblos”. Outra frase bastante marcante pois, somente com a unidade entre seu povo se consegue resistir. Mais uma lição importante para nós.
6. E depois da Brigada? Como voltar ao nosso país depois de Cuba?
Depois de tanto aprendizado, como voltar? Como voltar a um país no qual boa parte da população, nem de longe, está perto de ter a consciência social, cultural, política e histórica de sua própria trajetória para poder defendê-la? Como argumentar? Como construir essa luta? Como desarmar os argumentos mentirosos e falsos a respeito de Cuba? Como mostrar a essas pessoas que enfrentamos o mesmo inimigo que eles, se não nos reconhecemos em sua luta? Esse é o desafio ao regressar de Cuba após a experiência como Brigadistas. Temos a obrigação de contar o que vimos, conversar com quem acredita nas mentiras que são contadas cotidianamente e disputar essa narrativa com os fatos e informações que trazemos para cá, organizando e fortalecendo aqui também a nossa luta.
Conhecer de perto a realidade do socialismo cubano e, principalmente, o povo cubano, foi uma experiência única e sem precedentes. A educação de sua gente, a acolhida calorosa de seu povo, a força, resistência e luta em defesa do seu país, suas belezas naturais, sua cultura, enfim, essa ilha caribenha, pequena em seu tamanho mas enorme em seu significado, é um farol de esperança nesse mundo obscuro em que vivemos.
Cuba e seu povo seguem firmes em sua revolução que, continua, até hoje. São conscientes de sua história e de seus deveres frente aos desafios que se impõem e sabem que, somente com luta e resistência, seguirão sendo uma nação soberana e independente. Esse é o verdadeiro patriotismo. E mais uma verdadeira lição para nós, brasileiros e brasileiras.
