Covid, 6 anos: anjos da memória e do esquecimento

Em um 12 de março, morria a primeira vítima da pandemia no Brasil. Quem se lembra? Em Manaus, ergue-se sinistra homenagem: uma estátua de costas ao cemitério onde foram enterradas 4.679 pessoas, mortas por falta de ar. A quem restará resgatar sua história?

Por Mariana Cabral Campos, em Outra Saúde

Exatamente seis anos atrás, no dia 12 de março de 2020, morria na zona leste da cidade de São Paulo a primeira vítima da covid-19 no Brasil: Rosana Aparecida Urbano, diarista de 57 anos, falecida no mesmo hospital em que visitou sua mãe no dia anterior. Até 2023 somaram-se 700 mil mortes por covid-19 reportadas, vítimas do projeto negacionista do ex-presidente Jair Bolsonaro que transformou o país com o maior sistema público de saúde do mundo em um laboratório a céu aberto, no qual estratégias comprovadamente falsas – como a “imunidade de rebanho” ou o “tratamento precoce” – deixaram rastros de destruição.

Ainda em 2021, os esforços investigativos da Comissão Parlamentar de Inquérito da Pandemia (ou CPI da Pandemia) recomendaram o indiciamento de dezenas de pessoas ligadas ao governo Bolsonaro. Os últimos atos de relevância foram o anúncio, pelo Ministério da Saúde, da criação do “Memorial da Pandemia de Covid-19”, no Rio de Janeiro, e a instauração do Grupo de Trabalho dedicado ao aprimoramento das estratégias brasileiras de resposta às emergências de saúde. É marcante, porém, que nenhuma dessas iniciativas tenha se traduzido ainda em iniciativas tangíveis .

O Anjo marca o lugar
Firmou-se como símbolo da pandemia no Brasil a cidade de Manaus, palco de uma das faces mais marcantes da crise pela abertura de covas coletivas em 2020 e pelo esgotamento dos suprimentos de oxigênio que resultou na morte por asfixia de pelo menos 40 pessoas. O caso foi um dos focos principais das investigações realizadas pela CPI da covid-19, que revelou depoimentos e documentos que comprovaram a negligência do Centro de Coordenação das Operações do Comitê de Crise da covid-19 (CCOP), então responsável pela resposta federal à pandemia, e dos demais órgãos competentes.

O documento revelou, por exemplo, que a empresa responsável pela maior parte do suprimento de oxigênio disponível em Manaus havia feito inúmeras tentativas de contato com o Governo Federal para notificar sobre a escassez de recursos – a última em 11 de janeiro de 2021, três dias antes dos estoques de oxigênio se esgotarem. No entanto, o governo federal buscou responsabilizar a população manauara pela falta de adesão ao “tratamento precoce”.

Apesar desse atravessamento dramático entre a pandemia e a cidade de Manaus, o primeiro memorial financiado pela Prefeitura surgiu apenas em 2025. A praça Anjo da Esperança foi inaugurada no dia 02 de novembro como parte das homenagens do Dia de Finados. Localizada na entrada do cemitério Nossa Senhora Aparecida, o monumento central é a representação de um anjo (de fisionomia próxima a imagem clássica de Jesus) com três metros de altura, no rosto a máscara facial e nas mãos pulmões – “símbolo do respiro da humanidade”.

O artesão, o gari Luiz Cláudio Azevedo da Silva, é responsável por outras esculturas presentes na sede da Secretaria Municipal de Limpeza Urbana (SEMULSP), entre elas a réplica do touro dourado de Wall Street. A iniciativa foi apresentada pela Secretaria como uma “homenagem às vítimas da covid-19 e aos profissionais da saúde que atuaram na linha de frente durante a pandemia”.

Disputas pelas lembranças
A inauguração teve pouca repercussão na mídia nacional. Um memorial já havia sido prometido durante as campanhas eleitorais do ex-prefeito Arthur Virgílio Neto (à época no PSDB) e do atual prefeito David Almeida (Avante) nas eleições de 2020 e era uma demanda ativa de familiares de vítimas da covid-19 ao longo dos anos.

Ainda assim, não existem documentos ou notícias que identifiquem algum tipo de iniciativa de participação da população e/ou das associações de vítimas na idealização e realização do monumento ou na inauguração, na qual reporta-se apenas a fala do vice-prefeito Renato Junior (Avante). Vale notar ainda que, meses antes da inauguração, o Ministério Público do Estado do Amazonas havia formalizado uma investigação contra a SEMULSP pelo descaso com a limpeza e manutenção das covas no cemitério que viria a sediar o memorial, principalmente na seção onde estão as covas coletivas abertas para receber as vítimas da covid-19.

Nas redes sociais da SEMULSP, entre os comentários elogiosos, existem comentários que questionam a homenagem, refletindo o sentimento de insatisfação quanto ao potencial do monumento de representar o que aconteceu na cidade durante a pandemia. Em depoimento, familiares de vítimas afirmaram que o memorial deveria ter sido idealizado “não apenas para ser visto, mas para ser sentido.”

É marcante que nesse campo santo estão 74,94% (4.679) de todas as vítimas da covid-19 enterradas em cemitérios públicos da cidade, muitas dessas em covas coletivas com demarcações degradadas ou ausentes. De fato, o “Anjo da Esperança” e a sua praça não foram capazes de nomear as vítimas ali representadas, o que aconteceu com elas e, principalmente, os motivos que centralizam a crise que levou à sua morte. Nesse sentido, nos resta perguntar sobre qual versão do passado a esperança do anjo representado está construída.

Uma maneira de justificar essa pergunta é entender o anjo através do simbolismo comparado ao anjo da história de Walter Benjamin, representado na pintura de Paul Klee Angelus Novus. O anjo nega, para Benjamin, a história linear no qual os acontecimentos encadeados se orientam ao progresso; olhando involuntariamente para o passado, “ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés”. Esse olhar contínuo do anjo permite que se faça surgir o passado no presente, conexão que se evidencia através do testemunho.

É o testemunho sobre o passado que permite que a ação no presente aconteça, contrariando a renúncia ao fatalismo do que já se foi, protagonista de uma perspectiva linear da história. Pensando sobre a relação dos países latino-americanos com a memória após as suas ditaduras militares, José Carlos M. da Silva Filho remonta essa alegoria para explicar que: “Não se trata de reproduzir o fato com documentos, mas sim de fazer justiça escutando quem fala [as testemunhas] do seu sofrimento”. No caso da pandemia, reivindicar uma política de memória demanda significar essas mortes para além do choque quantitativo, tornando presente o testemunho dos mortos e dos vivos sobre as suas tragédias.

“Para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça”
Ainda nas palavras do Professor Silva Filho, “recuperar o passado é tarefa da memória, de uma memória que se põe à escuta daquilo que foi esquecido”. Sob ela está a responsabilidade da humanidade sobre as suas mazelas e aqueles que sofrem as suas consequências. Como ecoa o lema da justiça de transição que temos repetido, a memória serve para que não se repitam os erros, as negligências, as ignorâncias e os crimes do passado.

Nisso é necessário considerar que “a política da memória não é monopólio do Estado” (ou de nenhum dos seus representantes) e, sim, parte de uma rede complexa e ampla de diferentes testemunhos que juntos constroem a história. Por isso, familiares de vítimas, ativistas e especialistas da saúde se unem hoje, novamente na demanda por justiça e na luta contra o esquecimento.

Como marcou Deisy Ventura em entrevista ao Outra Saúde, é necessária uma “cultura de reconhecimento das violações de direitos ocorridas”, aliada e constituinte dessa política. Afinal, os responsáveis hoje presos não o foram pelos crimes cometidos durante a pandemia, seis anos após a primeira morte por covid-19 no Brasil. O olhar do “Anjo da Esperança” precisa ser reorientado da rua para dentro do cemitério, reconhecendo e nomeando as consequências de escolhas cruéis.

Será o esquecimento necessário para o “respiro da humanidade”? Ou precisamos considerar se é possível respirar sem lembrar?

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