Flotilha com 30 toneladas de alimentos e 73 painéis solares chega a Cuba

Primeiro barco vindo do México chegou a Havana nesta terça (24), em meio ao agravamento do bloqueio dos EUA

por Rodrigo Chagas, em Brasil de Fato

O primeiro barco da flotilha Nuestra América atracou em Havana nesta terça-feira (24) levando ajuda humanitária a Cuba em meio ao agravamento da crise energética na ilha. A embarcação de pesca Maguro, rebatizada simbolicamente de Granma 2.0, completou a travessia iniciada no porto de Progreso, em Yucatán, no México, após cinco dias de viagem pelo Caribe.

O nome é uma alusão ao Granma, embarcação que entrou para a história cubana ao transportar, em 1956, Fidel Castro e outros integrantes da expedição revolucionária que partiu do México rumo à ilha.

A bordo estavam 32 pessoas de 11 países, reunidas em uma missão internacional de solidariedade que percorreu 370 milhas náuticas — quase 700 km — sob condições meteorológicas adversas. Segundo os relatos sobre a travessia, o barco enfrentou ventos fortes, correntes marítimas e problemas elétricos, o que provocou atraso na chegada a Havana.

O carregamento reúne 30 toneladas de alimentos, medicamentos e produtos de higiene, além de 73 painéis solares destinados a aliviar os efeitos da crise de energia que atinge o país caribenho. Ao se aproximarem do porto, os ativistas exibiram no convés uma faixa com dizeres em defesa de Cuba, enquanto cidadãos cubanos os recebiam no cais com gritos contra o bloqueio.

A chegada do Maguro integra uma operação mais ampla, por via aérea e marítima, organizada para entregar 50 toneladas de ajuda à ilha. Segundo os organizadores, cerca de 140 pessoas participam da missão. Outros barcos menores também partiram do México, saindo de Isla Mujeres, no Caribe mexicano, com destino a Cuba.

Mais do que uma ação de entrega de donativos, a flotilha foi caracterizada por seus articuladores como uma resposta política ao endurecimento das medidas dos Estados Unidos contra a ilha. No texto de apresentação da missão, os organizadores afirmam que navegam rumo a Cuba com “ajuda humanitária essencial” e denunciam que a administração de Donald Trump vem “sufocando a ilha” ao cortar combustível, voos e bens considerados indispensáveis à sobrevivência. O manifesto também convoca apoio internacional para “romper o cerco, salvar vidas e defender a causa da autodeterminação de Cuba”.

Coordenador da missão, Thiago Ávila afirmou que a chegada a Havana representa uma mensagem de esperança ao povo cubano e também ao palestino. Já David Adler, da Progressive International, disse à AFP que a iniciativa buscou enviar ajuda urgente diretamente à população e mostrar ao mundo “o custo humano do cerco de Trump contra Cuba”, além de evidenciar que “a solidariedade internacional pode triunfar sobre o isolamento imposto”.

Crise energética amplia mobilização internacional
A chegada da flotilha ocorre em um momento de deterioração das condições de abastecimento em Cuba. Desde 2024, o país sofreu sete apagões em escala nacional, dois deles na última semana, em um cenário marcado pela obsolescência das usinas termoelétricas, escassez de petróleo e pelo endurecimento das sanções impostas pelos Estados Unidos.

Os organizadores da missão sustentam que o bloqueio ao combustível, agravado neste ano, aprofundou a crise na ilha e ampliou os impactos sobre a vida cotidiana da população. É nesse contexto que alimentos, remédios e equipamentos de energia solar passaram ao centro das ações de solidariedade articuladas por movimentos e organizações de diferentes países.

Também nesta terça-feira, o chanceler russo, Serguei Lavrov, declarou que Moscou seguirá oferecendo apoio “material e humanitário” a Cuba diante do aumento da pressão externa. Nos últimos dias, relatos sobre carregamentos de combustível russo e mudanças de rota de petroleiros reforçaram o clima de tensão em torno do abastecimento energético da ilha.

Na América Latina, a rede de apoio também ganhou força nas últimas semanas. Uma caravana com parlamentares, sindicalistas e representantes estudantis brasileiros integrou a articulação internacional de solidariedade, com previsão de envio de mais de 20 toneladas de produtos, entre alimentos, medicamentos, itens de higiene e equipamentos voltados a serviços essenciais. No início de março, o governo brasileiro anunciou o envio de alimentos e insumos destinados à produção agrícola em Cuba.

O México, por sua vez, confirmou um quarto envio de ajuda humanitária à ilha. Na segunda-feira (23), a presidenta Claudia Sheinbaum afirmou que um novo navio partirá do país rumo a Cuba e disse que seu governo manterá o apoio contínuo, além de buscar formas de incentivar o diálogo entre Havana e Washington. Segundo ela, a Marinha mexicana acompanha as brigadas internacionais que seguem em embarcações menores, como medida de segurança durante a travessia.

Sheinbaum declarou ainda que seu governo procura alternativas para retomar o envio de combustível a Cuba sem expor o México às retaliações anunciadas pelos Estados Unidos. Segundo a presidenta, uma das possibilidades em análise é que o combustível seja enviado como ajuda humanitária ou por meio de acordos comerciais que não afetem o país.

Editado por: Rafaella Coury

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