ATL Roraima reúne 800 indígenas sob clamor por justiça: “Quem matou Gabriel? Mexeu com um, mexeu com todos”

O encontro, realizado simultaneamente ao ATL nacional, visa fortalecer a luta pela demarcação e por políticas públicas específicas para os indígenas da região

Por Lígia Apel, Ascom Cimi Regional Norte 1

A 6ª edição do Acampamento Terra Livre (ATL) de Roraima, iniciado nesta segunda-feira, 6 de abril, junto com o ATL nacional, é realizada na terra indígena Araçá, comunidade indígena Mangueira, na região de Amajari. A escolha do local, bem como do tema do encontro, “Quem matou Gabriel? Mexeu com um, mexeu com todos”, decorre do assassinato de Gabriel Ferreira, jovem liderança do povo Wapichana e comunicador do Conselho Indígena de Roraima (CIR). O ATL Roraima acontece no Centro Regional de Educação Indígena do Amajari Noêmia Peres e segue até sexta-feira, 10 de abril.

O Acampamento Terra Livre, maior mobilização indígena do país, acontece anualmente desde 2004 como forma de pressionar o Estado brasileiro a honrar seus compromissos constitucionais com os povos indígenas. Representações indígenas de todas as regiões do Brasil se encontram em Brasília, mas aldeias e comunidades seguem mobilizadas em seus territórios, sintonizados às delegações presentes na capital federal.

Em Roraima, a mobilização reúne cerca de 800 pessoas entre jovens, anciãos, mulheres e homens, lideranças e representantes das regiões do Baixo Cotingo, Serra, Alto Cauamé, Tabaio, Amajari, Wai Wai, Murupu, Serra da Lua, Raposa, Alto Miang e Itacutu. Também estão presentes no encontro, parceiros e apoiadores da causa indígena, como o Conselho Indigenista Missionário (CIMI) e a Pastoral Indigenista de Roraima.

Todos unidos para fortalecer a luta pela demarcação das terras indígenas (TIs) da região, reivindicar melhorias no acesso à saúde e educação para as comunidades, reafirmar o posicionamento contra as ameaças ambientais e legislativas sofridas nos últimos tempos, além de pedir justiça por Gabriel.

“No estado onde as lideranças são ameaçadas a todo momento, a gente não tem como concordar com isso”

Quem matou Gabriel?

“O ATL é uma mobilização que acontece todos os anos e estamos realizando essa 6ª edição com um tema que repercutiu nos últimos dias na mídia local e até internacional, que é sobre o Gabriel. A gente decidiu vir para essa localidade, porque é a região onde ele viveu e onde foi assassinado. Por ele estamos aqui”, explica Paulo Ricardo Macuxi, Vice-Tuxaua Geral do Conselho Indígena de Roraima (CIR).

Gabriel Ferreira foi encontrado sem vida pelos indígenas na noite de 10 de fevereiro, após dez dias de desaparecimento. Segundo Sebastião Guilherme Wapichana, coordenador do regional Amajari, o jovem “saiu da sua casa para uma festa já tradicional no município que se realizou na comunidade Jurassi [em Amajari] e, no término dessa festa, quando o jovem ia retornando para a sua casa, sofreu o assassinato”. Indignado, Sebastião reivindica: “casos dessa natureza não podem ser tratados com silêncio, normalidade ou negligência institucional”.

As duas lideranças falam com tristeza sobre a perda do jovem e com indignação pelas conclusões da Polícia Civil de Roraima. Segundo reportagem publicada no portal G1, os laudos apresentados em 20 de março pela Polícia Civil ao CIR e à Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), indicam que Gabriel caiu da moto “sobre um ninho de formigas tucandeiras, conhecidas por terem uma ferroada extremamente dolorosa”, o que “teria provocado dor intensa, pânico e desorientação no líder indígena”. Para o vice-tuxaua, “é inadmissível. No estado onde as lideranças são ameaçadas a todo momento, a gente não tem como concordar com isso”.

“Casos dessa natureza não podem ser tratados com silêncio, normalidade ou negligência institucional”

Apesar do laudo pericial, a causa da morte foi classificada como indeterminada e a polícia civil não descarta a possibilidade de homicídio. Em nota publicada nas redes sociais, o CIR cobra a continuidade das investigações. O conselho tem reforçado o pedido de atuação da Polícia Federal e do Ministério Público Federal, solicitando novas diligências periciais e ecoando suas vozes indignadas durante o ATL Roraima.

“Então, o acampamento Terra Livre de Roraima [2026], é realizado pela primeira vez fora da capital do estado. Para assegurar a vida das outras lideranças, para assegurar o direito de ir e vir das lideranças, do pai, do jovem, da mãe de família, da comunidade em geral”, declara Paulo Ricardo Macuxi, que reafirma a força coletiva dos povos indígenas na defesa da vida, da memória e do direito à justiça.

“Diante da tristeza pela perda do parceiro, lideranças, jovens, mulheres e organizações indígenas se unem para denunciar a violência, exigir respostas do Estado e manter viva a memória de Gabriel. Quando um corpo indígena é atingido, toda a comunidade se levanta, transformando dor em resistência e reivindicação por justiça. Seguiremos vigilantes, cobrando responsabilização e medidas concretas para que casos como este não se repitam”, ecoam as vozes indígenas de Roraima.

“Essa é a nossa realidade, nossas lideranças estão sofrendo ameaças, estão sendo assassinadas dentro do seu próprio território. E isso traz uma reflexão para a juventude”

Juventude presente: “mataram Gabriel, mas não a sua luta”

O pedido de justiça por Gabriel Ferreira no ATL Roraima 2026 impulsiona a juventude indígena a agir em defesa de suas vidas. Para Raquel Wapichana, coordenadora do departamento da juventude do CIR, estar presente com a dor da ausência do amigo é uma forma de se fortalecer.

“O tema do ATL, mexe muito com a gente. É um tema sério que aconteceu dentro do nosso território. Então, trabalhamos o feixe de vara [que juntas não se quebram], porque é nessa união que a juventude se fortalece. Estamos aqui aprendendo, ouvindo, conhecendo onde as lideranças colocam suas preocupações, desafios e, principalmente, as ameaças aos nossos territórios e vidas”, afirma Raquel.

Para ela, cada jovem que veio ao ATL “se tornará um grande líder e, por isso, é tão importante ter a presença dos jovens aqui” pois, enquanto o ATL Nacional traz as lutas de todos os povos, o de Roraima traz a realidade específica.

“O tema do ATL, mexe muito com a gente. É um tema sério que aconteceu dentro do nosso território”

“Essa é a nossa realidade, nossas lideranças estão sofrendo ameaças, estão sendo assassinadas dentro do seu próprio território. E isso traz uma reflexão para a juventude, para que a gente possa pensar como que nós, lideranças jovens, estaremos sendo protegidas, como os nossos Tuxauas vão ser protegidos. Como o movimento indígena pode e está monitorando nosso território. E como nós, juventude, atuamos de fato dentro do nosso território”.

Para o Padre Mattia Bezze, coordenador da Pastoral Indigenista de Roraima, parceira incondicional da vida indígena, a grande presença da juventude no ATL Roraima “é um legado que já está presente e em ação”.

“Um dos gritos que os jovens estão lançando mais alto e mais forte, junto com todos os outros indígenas, é: ‘mataram Gabriel, mas não a sua luta’. Claro que choca muito a ausência física do Gabriel, já que ele sempre estava na frente das manifestações, era quem mais gritava, aquele que coordenava, aquele que puxava, chamava. Agora ele não está aqui fisicamente, mas percebe-se a sua presença na multidão de jovens que está à frente, que está animando, que está puxando gritos, danças, parixaras”, afirma Pe Mattia emocionado e com a certeza de que o ATL é um momento importante por dar visibilidade aos povos indígenas e às ameaças a sua existência.

“Um dos gritos que os jovens estão lançando mais alto e mais forte, junto com todos os outros indígenas, é: ‘mataram Gabriel, mas não a sua luta’”

Em nome da Pastoral Indigenista, o Padre avalia que a realização do ATL Roraima é importante para dar visibilidade à realidade indígena na região, mesmo não acontecendo na capital Boa Vista. “Dá para perceber maior presença dos povos indígenas e, com isso, está tendo muita ressonância pela escolha simbólica, que é o fato do assassinato de Gabriel. E isso é ocasião para denunciar e reivindicar os direitos, começando pelo direito à terra, contra invasões, contra garimpo, a favor das comunidades que ainda estão lutando por demarcação ou ampliação de seus territórios”, comenta.

Vozes de Roraima ecoam em Brasília

Segundo a Assessoria de Comunicação do CIR, “paralelamente à manifestação que acontece em Amajari, uma comissão formada por 30 lideranças de Roraima participa da 22ª edição do ATL em Brasília”, que é organizado pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e tem como tema “Nosso futuro não está à venda: A resposta somos nós”.

No segundo dia do ATL nacional, os cerca de 7 mil indígenas presentes na mobilização marcharam rumo ao Congresso Nacional em defesa de seus direitos e contra propostas legislativas que atacam diretamente seus territórios e modos de vida.

Após a marcha, que teve como lema “Congresso inimigo dos povos: nosso futuro não está à venda”, foi realizada uma plenária que debateu as demarcações territoriais e o direito originário aos territórios. Há, atualmente, um avanço acelerado de propostas legislativas que buscam restringir direitos constitucionais e abrir as terras indígenas à exploração econômica, além de flexibilizar suas garantias legais.

“Há um avanço acelerado de propostas legislativas que buscam restringir direitos constitucionais e abrir as terras indígenas à exploração econômica”

Tais propostas colocam em grave risco a existência indígena no país. Conflitos violentos, ameaças e mortes vêm acontecendo por todos os territórios, agravados pela Lei 14.701/2023 que, apesar de ter sido declarada parcialmente inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal (STF), permanece em vigor, criando inúmeros empecilhos para a demarcação de territórios e aumentando a violência contra os povos indígenas.

Em Roraima, a insegurança nos territórios pode ter culminado na morte de Gabriel Ferreira. Em Brasília, compondo a delegação do estado, Ludernilda Macuxi, liderança da comunidade indígena Maturuca, na TI Raposa Serra do Sol, reverberou as vozes do estado: “Pedimos as demarcações que estão esperando há 10, 20, 50 anos. Os povos originários resistem, apesar de sermos constantemente ameaçados, humilhados e assassinados na defesa dos nossos territórios. Pedimos respeito às autoridades. A demarcação dos territórios é vital para nós, mulheres. A Terra é a Mãe Sagrada para as crianças e todos nós. Por isso pedimos justiça por ela, pela água e pela natureza que nos fazem viver dignamente”.

A garantia dos direitos territoriais e constitucionais, o repúdio aos retrocessos na legislação que vêm sendo promovidos tanto no parlamento, quanto pelo poder judiciário, e a proteção dos territórios e vidas indígenas são as principais reivindicações do Acampamento Terra Livre, em Brasília e em Roraima.

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