Tapa por cebola e facada por franja são vitórias do Brasil miliciano. Por Leonardo Sakamoto

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Uma atendente de fast food e um cabeleireiro. Uma cliente insatisfeita com o sanduíche e outra insatisfeita com o corte. Dois episódios banais que revelam algo profundo e assustador sobre a República miliciana que podemos nos tornar.

Na madrugada do último dia 1º, em Brasília, Huíla Klanovichs, funcionária do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime, desceu do carro no drive-thru de um McDonald’s, discutiu com a atendente e deu um tapa no rosto de uma funcionária de 34 anos. O motivo: o sanduíche tinha cebola. Ela disse que pediu sem o produto, pois é alérgica. Quis, além da troca, um pedido formal de desculpas. A atendente se recusou. O tapa veio como sentença.

Quatro dias depois, na Barra Funda, em São Paulo, Laís Barbosa da Cunha entrou em um salão de beleza, caminhou em direção ao cabeleireiro que a havia atendido quase um mês antes, tentou falar algo, abriu a bolsa, retirou uma faca de cozinha e o esfaqueou pelas costas. O motivo: a franja tinha ficado ruim. Ela disse que enviou mensagens de WhatsApp reclamando e ficou dois dias sem resposta. A faca veio como sentença.

Em ambos os casos, as agressoras foram detidas e liberadas no mesmo dia.

Dois episódios com motivações toscas — e é preciso dizer que são toscas, sem nenhum pudor em usar essa palavra. Mas seria um erro grave reduzi-los a meros surtos individuais de loucura. Reconfortante demais. O que une uma cebola e uma franja não é a banalidade dos motivos. Mas a lógica que sustenta os dois ataques.

Essa lógica diz o seguinte: se você me desagradou, se você me desrespeitou, se você me causou algum dano, ainda que seja um ingrediente num sanduíche, ainda que seja um corte de cabelo que não ficou como eu queria, então eu tenho o direito de punir você. Agora. Com as minhas próprias mãos. Sem delegacia, sem processo, sem juiz. Eu sou a delegacia. Eu sou o processo. Eu sou o juiz.

Isso tem nome. Chama-se justiçamento. E se contrapõe frontalmente ao que estabelece a Constituição Federal de 1988, aquela que garante o devido processo legal, a presunção de inocência, o contraditório e a ampla defesa.

O problema é que o tapa e a facada não são desvios da norma. São, cada vez mais, a norma.

Um deputado federal que viria a ser presidente da República cansou de elogiar policiais que matavam suspeitos. Dizia que bandido bom é bandido morto. Ovacionava quando ouvia que algum agente de segurança tinha “abatido” alguém. Fez disso plataforma eleitoral, política de governo e projeto de país. Como a História se repete, hoje seu filho, que condecorou o miliciano Adriano da Nóbrega em 2005 e veio a empregar a família dele em seu gabinete, é pré-candidato à Presidência da República.Continua após a publicidade

Mas esse tipo de comportamento não nasceu com o tal clã, apesar de ter ganhado corpo junto a ele. É mais antiga, gestada na ideia de que a força é mais forte que a lei.

A mensagem que isso passa à população é de que qualquer um está autorizado (de forma tácita, reiterada e entusiasmada) a usar a violência como resposta aceitável para quem você considera errado, culpado ou merecedor de punição.

Em uma sociedade miliciana (e o Brasil vem sendo construído, tijolo a tijolo, como uma), não existem suspeitos. Só existem culpados que ainda não foram punidos. A Justiça, nesse modelo, é burocracia. É enrolação. É proteção de bandido. Quem age primeiro age certo. O resultado são centenas de corpos empilhados em chacinas enfileiradas em comunidades pobres, como no Rio de Janeiro. Se morreu, é porque era bandido. Quem define a verdade é o cano da arma.

A visão miliciana faz da Justiça algo desnecessário. Porque a própria polícia, cujo mandato limita-se a investigar e prender quem comete crimes, também assume o papel de acusar, julgar e executar. E na ausência dela, qualquer pessoa que se sinta ofendida ou prejudicada incorpora o papel de policial, promotor e magistrado. Com as próprias mãos. Com um tapa. Com uma faca de cozinha tirada da bolsa.

Não é coincidência que as duas agressoras tenham sido liberadas rapidamente. No caso do McDonald’s, o registro foi de lesão corporal por meio de um termo circunstanciado. No caso do salão, a polícia tipificou como lesão corporal leve, enquanto os advogados do cabeleireiro apontam para tentativa de homicídio.

Alguém entrou em um estabelecimento com uma faca escondida na bolsa, caminhou em direção a uma pessoa específica e a esfaqueou pelas costas. Isso tem nome, e esse nome não é lesão leve.Continua após a publicidade

Mas o Estado que deveria proteger quem trabalha também foi contaminado pela lógica do justiçamento. Quando ele subestima sistematicamente a violência cometida por certas pessoas em certos contextos, não está sendo leniente, mas seletivo. E a seletividade tem cor, tem classe, tem endereço. Em outras palavras, imagine se fossem negras pobres?

Sim, se fosse de outra cor de pele, pelo menos a que deu a facada estaria presa.

A atendente que levou um tapa no rosto de madrugada porque a cebola estava no sanduíche errado e o cabeleireiro que levou uma facada pelas costas porque a franja da cliente ficou ruim são duas pessoas que foram ao trabalho para ganhar a vida e voltaram para casa machucadas, física e psicologicamente.

Eles são os trabalhadores que a sociedade miliciana considera descartáveis: os que servem, os que atendem, os que dependem de uma gorjeta ou de uma avaliação cinco estrelas.

A Constituição de 1988 foi construída como um antídoto contra o Brasil que havia antes dela. Um Brasil onde o Estado podia prender sem acusar, torturar sem responder, matar sem julgamento. Os constituintes sabiam que uma democracia só funciona quando o monopólio legítimo da força pertence ao Estado e quando esse Estado cumpre a lei.

O que estamos vendo (dos linchamentos filmados e aplaudidos nas redes sociais às facadas por franja e tapas por cebola) é o desmanche lento desse antídoto. É a privatização da violência. É cada cidadão se tornando seu próprio tribunal.Continua após a publicidade

Uma sociedade que normaliza isso não está apenas sendo violenta. Está escolhendo um modelo de convivência e decidindo, conscientemente ou não, que o mais forte tem razão. Que a lei é para os outros.

A cebola no sanduíche e a franja mal cortada não são o problema. O problema é que alguém, em algum momento, aprendeu que podia resolver sua frustração com violência. E que, por enquanto, está saindo impune.

Isso é a vitória da sociedade da milícia, que vem sendo construída um tapa de cada vez.

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