Alvaro Bianchi, Blog Boitempo
Ao longo das décadas, “Bella ciao” tornou-se uma das canções populares mais conhecidas do mundo. Identificada sobretudo como hino da resistência ao fascismo, sua força deve muito à simplicidade do refrão e a um ritmo que convida à participação coletiva, facilmente acompanhado por palmas, vozes e corpos em movimento. Essas características ajudam a explicar sua extraordinária capacidade de circulação, fazendo da canção um repertório comum em manifestações, atos políticos e celebrações populares ao redor em todos os continentes.
Recentemente, essa difusão ganhou novo impulso com a cultura de massas. O remix de Hugel e a popularização da canção pela série espanhola La casa de papel apresentaram “Bella ciao” a públicos jovens que muitas vezes desconhecem sua história. A música passou a circular em festas, plataformas digitais e redes sociais, deslocando-se para fora dos contextos diretamente políticos nos quais havia sido consagrada.
Mas essa história não começou aí. Antes de se tornar um fenômeno global, “Bella ciao” já carregava uma trajetória marcada por disputas de memória, incertezas sobre sua origem e sucessivas reinvenções. O documentário de Giulia Giapponesi, Bella ciao, per la libertà (2022), parte justamente desse ponto. Seu objetivo é compreender como uma canção associada à experiência histórica da Resistência italiana pôde atravessar fronteiras, épocas e linguagens, transformando-se em um símbolo internacional de liberdade.
A força do documentário está em tratar a canção como um objeto histórico em movimento. Sua autoria é desconhecida e suas origens remetem a um repertório popular anterior à Resistência. A versão partigiana parece ter retomado elementos de cantos tradicionais do século XIX, entre eles Fior di tomba e La bevanda sonnifera, recolhidas por Costantino Nigra no final do século XIX, em seus estudos sobre os cantos populares do Piemonte. Nesses materiais, já apareciam motivos que depois seriam reconhecíveis em “Bella ciao”, como o despertar pela manhã, a despedida, a morte e a imagem da flor sobre a sepultura. Alguns intérpretes aproximaram sua genealogia também do canto das mondine, as trabalhadoras dos arrozais do Norte da Itália, cuja experiência de exploração social deu origem a um repertório próprio de protesto.
Como todas as tradições, até mesmo a de “Bella ciao” foi inventada. Na verdade, reinventada várias vezes. A versão partigiana foi, provavelmente uma reelaboração de canções populares já existentes. Essa versão, entretanto, sequer era conhecida em todas as regiões da Itália, integrando o repertório de um número reduzido de divisões de combatentes em algumas províncias. Mesmo entre aqueles que a conheciam e cantavam parece ter existido mais de uma variante da letra. Em uma dessas versões, registrada no documentário, o protagonismo era de uma mulher partigiana que vai à montanha vingar seu amor morto pelos invasores.
Mas apesar de ser cantada por alguns combatentes, a consagração de “Bella ciao” como canto nacional da luta contra o fascismo foi tardia. Quando a guerra terminou e o fascismo foi derrotado, a canção ainda não era amplamente conhecida. Só se tornou um hino da Resistência cerca de vinte anos depois do fim do conflito, muito tempo depois dos partigiani terem deposto as armas. A canção tornou-se, assim, parte de uma identidade que também levou tempos para ser construída, organizada e simbolicamente estabilizada no pós-guerra. “Bella ciao” ajudou, desse modo, a condensar uma experiência coletiva complexa, feita de luta armada, sofrimento, esperança e reconstrução democrática. Sua força residia na possibilidade de ser cantada em comum, até mesmo por quem não sabia a letra. Era um gesto de reconhecimento, pertencimento e afirmação de uma esperança coletiva nascida da derrota do fascismo e do nazismo.
Essa identidade, entretanto, encontra-se hoje sob ameaça. Na Itália, expoentes do governo têm afirmado que o antifascismo é coisa do passado e que, como tal, não pertence a nosso presente. Acreditam que seu país precisa de uma nova Constituição “afascista”, que afaste as instituições italianas de suas raízes. Com isso, buscam deslocar a Resistência do centro simbólico da democracia italiana e enfraquecer uma concepção de vida civil fundada na participação popular e na ampliação democrática. Ao mesmo tempo, defendem a concentração de poderes nas mãos da chefe de governo.
Não por acaso, são esses mesmos setores que tendem a considerar “Bella ciao” uma canção que pertence ao passado. Matteo Salvini, líder da Lega, tem protestado contra o uso público de “Bella ciao”, tratada por ele como inadequada ou desrespeitosa em espaços institucionais. O presidente do Senado, Ignazio La Russa, um ex-membro do neofascista Movimento Sociale Italiano, repetidas vezes se manifestou contrariamente a que a canção fosse ensinada nas escolas e que se tornasse o hino oficial do Dia da Liberação, 25 de abril, afirmando que a música representava apenas os comunistas. O mesmo senador não vê, entretanto, problema algum em ter um busto de Mussolini em sua casa, o qual é para ele uma querida “lembrança de família”.
Enquanto isso, com a cobertura de altas autoridades da República, todo ano, no dia 7 de janeiro, milhares de neofascistas fazem a saudação romana em uma manifestação na capital da Itália, dedicada à memória de seus mártires. Trata-se de um gesto que contraria abertamente as leis e a Constituição, mas que é tolerado pelos governantes. Enfim, “Bella ciao” não pode, mas a saudação romana e o busto de Mussolini na sala, sim. Por que essa música incomoda tanto? A resposta pode ser procurada no documentário de Giapponesi. É o próprio antifascismo e sua ideia de liberdade aquilo que incomoda. Contra isso, a indústria cultural pode fazer muito pouco. Muitas pessoas podem cantá-la, bater palmas e dançar sem saber do que se trata. Mas os inimigos da liberdade sabem, e por isso não a toleram.
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Alvaro Bianchi é professor titular do Departamento de Ciência Política da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coordenador do Laboratório de Pensamento Político (Pepol/Unicamp). É mestre em sociologia (2000) e doutor em ciências sociais (2004) pela Unicamp. Além de Fascismo e liberalismo: afinidades seletivas (Boitempo, 2026), é autor de O laboratório de Gramsci (Zouk, 2018) e Gramsci entre dois mundos (Autonomia Literária, 2020). Foi diretor do Arquivo Edgard Leuenroth (2009-2017) e do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp (2017-2020).
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