Desastres na mineração: pesquisadores da Fiocruz discutem “fraturas expostas” e impactos na saúde

Roda temática no 3º Sibsa reuniu especialistas para analisar as consequências socioambientais e os riscos à saúde de populações atingidas por rejeitos de minérios

Por Yasmine Saboya (Coordenação de Saúde e Ambiente/VPAAPS), em Fiocruz

A mineração e seus impactos nos territórios brasileiros foram o centro dos debates na Roda Temática Mineração, territórios e resistências: conhecimento científico e popular na defesa da vida, realizada na tarde de 27 de maio de 2026. A mesa, organizada pelo pesquisador Carlos Machado, da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (ENSP/Fiocruz),  integrou a programação do 3º Simpósio Brasileiro de Saúde e Ambiente (Sibsa), em Cuiabá (MT), sob o tema central A luta da Saúde Coletiva frente ao colapso ecológico: soberania, justiça e conhecimento para a transformação.

O conceito de fraturas expostas
O pesquisador Carlos Machado utilizou o conceito de “fraturas expostas” para caracterizar os desastres de Mariana (2015) e Brumadinho (2019). Segundo Machado, esses eventos não são acasos, mas processos produzidos diariamente no cotidiano das formas de ocupação dos territórios.

Machado destacou que o Brasil é palco dos maiores desastres de barragens de mineração do século 21 em termos de extensão territorial, danos ambientais e óbitos imediatos. Para Machado, os desastres permitem vislumbrar um universo de falhas e anormalidades que, em situações normais, são invisibilizadas e transformadas em “normalidade” pelas empresas. Ele enfatizou o cenário de “quase Estados”, onde instituições de fiscalização fragilizadas não conseguem atuar como freios efetivos à liberdade de mineradoras globais.

Monitoramento da população adulta em Brumadinho
Sérgio Peixoto, do Instituto René Rachou (Fiocruz Minas), apresentou resultados do projeto Saúde Brumadinho, que monitorou 3.080 participantes com 12 anos ou mais ao longo de cinco anos. O estudo revelou que as áreas atingidas pela lama ou expostas à mineração apresentam populações mais vulnerabilizadas, com maior proporção de pessoas pardas e menor escolaridade, o que evidencia processos de racismo ambiental.

Os dados indicam que a prevalência de depressão em Brumadinho (20%) é o dobro da média nacional (10%). Além disso, o relato de diagnósticos de asma e Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC) é significativamente superior ao observado na Pesquisa Nacional de Saúde (PNS). Em relação à exposição a metais, Peixoto destacou a persistência de níveis elevados de arsênio em cerca de 30% da população monitorada em 2025.

Impactos no desenvolvimento infantil
A pesquisadora Carmen Froes, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), detalhou o projeto Bruminha, que integra o projeto Brumadinho focando em crianças de zero a seis anos. A pesquisa demonstrou que 100% das amostras de urina analisadas detectaram a presença de arsênio em todos os cinco anos de avaliação.

Froes alertou para um aumento da concentração de arsênio nas crianças que vivem em áreas onde a atividade de mineração foi retomada a partir de 2022. Enquanto em 2021 a média de concentração era de 9,4 microgramas por grama de creatinina, o valor subiu para 13,6 em 2025. No campo do neurodesenvolvimento, o estudo identificou que 50% das crianças em áreas de desastre apresentavam falhas em testes de triagem em 2021, impacto agravado pelo isolamento social da pandemia e pela restrição de circulação no território contaminado.

Desafios para as políticas públicas
Os expositores foram unânimes quanto à necessidade de estruturar o SUS para atender populações expostas a metais pesados e sofrimento mental crônico. Sérgio Peixoto recomendou a busca ativa pelas fontes de exposição ambiental, enquanto Carmen Froes criticou a ausência de órgãos ambientais governamentais no acompanhamento dos resultados.

A roda temática destacou que desastres tecnológicos na mineração provocam rupturas profundas e duradouras nas condições de vida, exigindo uma atuação integrada entre ciência, movimentos sociais e o controle social da saúde.

A escolha do Mato Grosso para o simpósio reflete a trajetória de disputas territoriais e pressões do setor agromineral nos biomas Amazônia, Cerrado e Pantanal. Inspirado no pensamento de Dom Pedro Casaldáliga, o 3º Sibsa reuniu cerca de 500 participantes para discutir estratégias de proteção à vida e fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS) diante da crise socioambiental. Sob a presidência da pesquisadora Karen Friedrich e Guilherme Franco Netto, da Vice-Presidência de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde, o 3º Sibsa reafirma o compromisso com a justiça socioambiental e o fortalecimento do SUS. O encontro destaca a luta contra o racismo ambiental e a promoção da democracia como eixos fundamentais para a transformação da Saúde Coletiva.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

treze + dezoito =