Vulnerabilidade, instabilidade e desamparo geram alma coletiva carente e abrem espaço para autoritarismo. Entrevista especial com Eguimar Felício Chaveiro

Adoecimento e violência são os dois documentos espaciais vistos nas paisagens urbanas e rurais, constata o geógrafo

Por: Patricia Fachin, em IHU

Ideologização da riqueza, criação de zonas de luxo em meio a espaços de vulnerabilidade, disseminação da violência simbólica mesclada a práticas religiosas e formação de um imaginário agronegocial são alguns traços que marcam a mentalidade brasileira contemporânea. Esse retrato do Brasil é apresentado pelo geógrafo Eguimar Chaveiro na entrevista a seguir concedida ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU por e-mail. Essa visão de mundo não está criando bem-estar. Segundo o pesquisador, predominam a “vulnerabilidade”, a “instabilidade” e o “desamparo”, que geram “uma alma coletiva carente”. Neste ambiente “personalidades autoritárias” buscam desenvolver seus projetos.

As transformações observadas por Eguimar Chaveiro em seu ambiente de pesquisa não se limitam à região Centro-Oeste. O diagnóstico das periferias proletárias de Goiânia ou da exploração do Cerrado no estado de Goiás pode ser replicado em várias regiões, apesar da multiplicidade geográfica e étnica que caracteriza cada canto do Brasil. “Ilhas de luxos contrastando com lugares depauperados fundam as paisagens urbanas. Criaram-se, como exemplo do modelo de acumulação, a instabilidade e a vulnerabilidade como signos sociais que encarnaram nos sujeitos”, afirma.

Convidado a refletir sobre o desenvolvimento do país à luz da Geografia, Chaveiro explica que isso significa perguntar-se sobre as contradições e tensões que marcam o imaginário e a ação da população. “Como pensar um país que, nas últimas décadas, se situa entre os 15 com maior Produto Interno Bruto (PIB) e mantém uma profunda desigualdade social? Como pensar um país profundamente religioso e igualmente violento? Como analisar o cerne constituidor da sociedade brasileira mediante os grandes eventos que perduram, como a colonialidade, o preconceito racial, a desigualdade social, a sede por um Estado autoritário, a vulnerabilidade das instituições, a necessidade de um salvador mítico para, num passe de mágica, resolver as mazelas do país?”, questiona.

A seguir, ele destaca como as disputas geopolíticas legitimam o “discurso miraculoso e ideológico do agronegócio brasileiro”, que se dissemina em várias esferas da vida pública, da política à cultura, e apresenta brevemente o pensamento de geógrafos que podem inspirar perspectivas de futuro para o país.

Eguimar Felício Chaveiro é graduado em Geografia pela Universidade Católica de Goiás (PUC Goiás), mestre em Educação pela Universidade Federal de Goiás (UFG) e doutor em Geografia Humana pela Universidade de São Paulo (USP). Leciona na UFG e coordena o Núcleo de estudos Espaço, Sujeito e Existência “Dona Alzira”.

Confira a entrevista.
IHU – Como o senhor compreende e interpreta o Brasil a partir da Geografia?

Eguimar Felício Chaveiro – Certa vez, num evento nacional de Geografia, eu ouvi uma palestra do geógrafo Armando Corrêa da Silva (USP), em que ele, com ironia e humor – e também com erudição –, expôs o que, para ele, eram as ideologias geográficas de representação do Brasil. Lembro-me de ele ter explorado enfaticamente a ideologia edênica, essa que representa o Brasil a partir da natureza. Mais tarde, bem mais tarde, li em Gilvan Charles Cerqueira de Araújo (UnB) o modo pelo qual a ideologia edênica se efetivou. Algo assim: o Brasil, em se tratando de natureza, é metaforicamente onde Deus nasceu, ou é o modo pelo qual Deus se mostra. As florestas, os rios, a imensa costa, os minérios, os solos agricultáveis, os pássaros, as cachoeiras – e todo um repertório que se encarna num mosaico de paisagens diversificadas – é uma espécie de paraíso telúrico e metafísico que, desgraçada e infortunadamente se tornou a justificativa para as barbaridades da colonização, da distribuição de terras, da escravidão. Poderia sintetizar: Brasil, terra de Deus; Brasil, terra de desgraça. A Geografia disseminou a ideologia edênica tecendo louros ao gigante dos trópicos numa síntese: natureza rica, povo pobre.

Em outra passagem, numa conversa demorada com Milton Santos (USP), em torno de 1999, quando eu fazia a disciplina Teoria e Método, ele me disse da conversa que teve com o antropólogo Darcy Ribeiro na circunstância da criação da Universidade de Brasília (UnB). Darcy o provocou com uma pergunta: “Como explicar o fato de os geógrafos e as geógrafas não participarem do Pensamento Social Brasileiro?” Darcy Ribeiro emendou: “Falta uma leitura geográfica do Brasil”.

Santos considerou a pergunta do antropólogo pertinente e desafiadora. Estava contraída uma dívida que, mais à frente, em algumas décadas depois, junto com os orientados e orientadas, Santos tentou saldar com o livro “Brasil: território e sociedade no início do século XXI”. A meu ver, apenas tentou.

Movimento de reflexão sobre a identidade brasileira
Especificamente, a partir dos meados do século XIX em diante, momento em que suscitavam transformações na formação da propriedade da terra, no fim do trabalho escravo, na derrocada do absolutismo português, na entrada do positivismo, na incrementação da indústria têxtil e na formação de um Estado republicano, houve um movimento rico de reflexão sobre a identidade brasileira e sobre um projeto de país possível a partir de sua realidade.

Categorias e fenômenos como identidade, raça, desenvolvimento, dependência, urbanização, Estado, patrimônio, desigualdade regional – e outras – tomaram o centro das reflexões. Contudo, a Geografia como um saber sistemático não apareceu. As lentes que olharam o Brasil mediante nomes como Sílvio Romero, Tobias Barreto e, no século XX, Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Florestan Fernandes e tantos outros, apesar de terem referências geográficas, não se dispuseram do saber geográfico, inclusive porque, em termos formais, apenas na década de 1930 é que a Geografia apareceu como saber universitário.

Contribuições da Geografia
Lembro também de Ruy Moreira (UFF) e Douglas Santos (PUC-SP) fazerem a pergunta: “Que Brasil existe na leitura geográfica do Brasil?” Vânia Rúbia Farias Vlach (UFU) e José William Vesentini (USP), por um bom período, se ocuparam de refletir e criticar a noção de “ideologia da pátria geográfica”.

Outros geógrafos e geógrafas levantaram teses de cunho estrutural. Ariovaldo Umbelino de Oliveira (USP), entre as décadas de 1980 e 1990, com força argumentativa e veemência política, teceu uma síntese: “Não há e nem haverá mudanças estruturais do Brasil sem enfrentar a estrutura do latifúndio”. Argumentava que na estrutura do latifúndio residia a forma autoritária do poder no Brasil sempre se transformando, contudo, mantendo a mesma índole de classe e de domínio. O atavismo sempre recuperado e ressemantizado soube passar por grandes transformações em termos de eventos históricos, como o fim da escravidão, a Proclamação da República Velha, a chegada das primeiras indústrias, mantendo uma ordem contínua do poder.

No diálogo com autores como Darcy Ribeiro, Antonio Candido, Alfredo Bosi, Florestan Fernandes, José Miguel Wisnik, há um campo da Geografia que lê o Brasil mediante as suas culturas e interpreta as suas culturas mediante a etnia, a raça, o poder e as relações sociais. Também tem sido prodigioso o campo da literogeografia que, mediante obras literárias, permite que geógrafos leiam o Brasil além de números e cifras etapistas.

Livros como Vidas Secas, de Graciliano Ramos; Grandes Sertões Veredas, de João Guimarães Rosa; e Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais, Vintém de Cobre, Estórias da Casa Velha da Ponte, de Cora Coralina, apenas para citar alguns, tecem leituras que possibilitam ler a relação entre espaço, sujeitos e existência.

Pergunta decisiva e problemas permanentes
Entretanto, a questão colocada é outra: “Como compreende e interpreta o Brasil a partir da Geografia?” Pois bem! Esta pergunta insufla outras: Como pensar um país que, nas últimas décadas, se situa entre os 15 com maior Produto Interno Bruto (PIB) e mantém uma profunda desigualdade social? Como pensar um país profundamente religioso e igualmente violento? Como analisar o cerne constituidor da sociedade brasileira mediante os grandes eventos que perduram, como a colonialidade, o preconceito racial, a desigualdade social, a sede por um Estado autoritário, a vulnerabilidade das instituições, a necessidade de um salvador mítico para, num passe de mágica, resolver as mazelas do país? A pergunta decisiva é outra: a Geografia brasileira, na sua grandeza, diversidade e movimentação, tem pautado isso?

Essas perguntas, a meu ver, dão os pontos para uma leitura geográfica do Brasil. E compele a compreender a dimensão geopolítica do Brasil, do gigante dos trópicos no concerto das nações do mundo capitalista mundializado, até os eventos que, dia a dia, são arrolados no campo intoxicado e nas cidades segregadas. Isso significa compreender a dimensão histórico-espacial do país e a maneira pela qual as contradições e os conflitos sociais, numa espécie de atualização atávica, conseguem permanecer, por exemplo, na ação do Congresso Nacional; na organização corporativa das bancadas na Assembleia Legislativa, como é o caso do Centrão e da bancada ruralista. Significa também agir para compreender o que o geógrafo Ubiratan Francisco de Oliveira (UFNT) repete: “A elite brasileira ainda não aceitou o fim da escravidão”.

Para essa leitura, não bastam os slogans e a denúncia. Ler o Brasil, seus problemas, suas tensões, as suas potências, exige um entrelaçamento de escalas e um diálogo de saberes, desde os clássicos do pensamento social brasileiro até os contemporâneos de saberes como a Sociologia, a Antropologia e a História.

Como disse o geógrafo Rossevelt José dos Santos (UFU), cabe ler o território e os lugares, um participando do outro; ou como disse Marcelo Lopes de Souza (UFRJ), convém proceder a leitura esquivando-se do essencialismo abstrato, daí a necessidade de considerar as práticas espaciais.

IHU – O incentivo massivo na expansão do agronegócio no país se justifica, considerando a geografia diversa das regiões brasileiras?

Eguimar Felício Chaveiro – Nesta semana eu vi uma propaganda na TV com a seguinte expressão: O agronegócio é tudo. Talvez, uma interpretação rápida dessa afirmação peremptória, pudesse ser assim: “O agronegócio é Deus; é onipotente; é onisciente. É a salvação”. Além das renitentes propagandas, algumas novelas foram feitas exaltando essa economia de monopólios e de corporações. Também foram feitas séries e são feitas festas, desfiles, exposições agropecuárias e tecnológicas. Há um tipo de música que o representa. E mais: o governo brasileiro se vê obrigado a chancelar as portas do governo para os seus signatários.

Discurso miraculoso e ideológico do agronegócio brasileiro
O que se vê é a criação de um imaginário agronegocial, que é também agrotoxical. Esse imaginário transformado em ideologia ocorre mediante os negócios efetivos e simbólicos com setores religiosos, com jogos de BETs, com o futebol, com o latifúndio, com as prefeituras, com governos locais e com o Estado. Percebe-se que o agronegócio não se basta nele próprio. Ele se estende enquanto ideologia, condomínios fechados, negócios midiáticos, aeroportos, times de futebol. A pergunta é: Que sentidos esse imaginário produz no atual momento do mundo?

Não resta dúvida: o embate geopolítico contemporâneo, envolvendo guerras, disputas de minerais críticos, domínio da tecnologia da Inteligência Artificial (IA), estratégia de monopolização do céu mediante a astrogeopolítica; intercedência do colonialismo de dados, o que alguns chamam “nova guerra fria”, especificamente a partir do confronto entre os Estados Unidos da América e a China, é o que outorga o significado pujante do discurso miraculoso e ideológico do agronegócio brasileiro. E abre páginas para que, além da expansão do arco de sua incidência em todas as regiões do país, e dos efeitos no arco do desmatamento, da pressão sobre a apropriação das águas, do solo e de minérios, configurando-se como uma onda predatória, se efetiva como uma ideologia que é capaz de fazer suscitar setores e agentes conservadores como candidatos à Presidência da República. Vejamos que em torno – e partir do agronegócio – estão ações econômicas, políticas, ideológicas e simbólicas.

A visada economicista dessa ideologia e dessa prática econômica, justificada no aumento do PIB, na exportação de commodities recriando o latifúndio, no monopólio de terras e riquezas, além dos elementos simbólicos, políticos e sociais, tem usado esquemas de violência colonial, como a criminalização dos movimentos sociais que lutam por justiça, reforça agrária, agroecologia, direitos humanos.

Portanto, na prática ideológica, econômica e predatória do agronegócio não se vê as diferenças regionais e a multiplicidade de paisagens, culturais e as múltiplas formas espaciais do Brasil. O que se vê é a desconsideração da vida, ela territorialmente organizada, em função da empreitada monopolista da economia concernente à geopolítica contemporânea e ao modelo de acumulação financeirizada de uma sociedade mundializada. Algo parece desafiar a leitura geográfica: Qual é a cultura ecológica do agronegócio? Como a monocultura se relaciona com o relevo e este com a tecnologia?

Latifúndios infinitos
Num longo trabalho de campo, acompanhado dos pesquisadores João Batista de Deus (IESA-UFG), Emerson Martins (IESA-UFG) e Alex Tristão (IESA-UFG), foi possível verificar que a incidência das enormes lavouras ocorre nos tabuleiros planos, onde plasmam latifúndios infinitos. Os relevos de maiores movimentações são destinados à pecuária tradicional, em que a propriedade da terra é menor. Portanto, há uma relação entre relevo, cultura, estrutura fundiária e renda fundiária. Por conseguinte, convém perguntar: Como os conflitos sociais se cristalizam territorialmente? E mais: Como isso afeta a vida dos sujeitos e de suas práticas espaciais?

Essas perguntas podem elucidar o que parece evidente: a intoxicação do território em nome da economia do monopólio não respeita as diferenças regionais, culturais e ontológicas. É a economia se impondo sobre a diversidade, reduzindo a vida em nome da acumulação.

IHU – Quais são os discursos, as ideologias e as produções de sentido elaborados a partir do Cerrado e como isso se manifesta nas opções de desenvolvimento na região?

Eguimar Felício Chaveiro – O primeiro ponto é superar o conceito “Bioma”, enxergando a sua fragilidade. Esse conceito tende a priorizar e até reduzir a leitura do Cerrado pela vegetação ou pelas fitofisionomias, preceito de uma ciência classificatória e hierarquizante. Mediante o conceito “bioma” não é possível ver o que ocorreu e ocorre com os povos indígenas, com os povos quilombolas, com camponeses e camponesas. Nem é possível enxergar o modo pelo qual os chamados “povos ancestrais do Cerrado”, ceramistas e povos do bando, desde 13 mil anos passados, desenvolveram a sua arte de vida em meio a rios, florestas, raízes, palmáceas, frutos, pássaros. Não é possível ver, como querem Altair Sales Barbosa, Antonio Texeira Neto e Horieste Gomes, estudiosos do Cerrado e militantes da causa da vida, a cartografia dos povos ancestrais, suas táticas de vida, seu esplendor e a sua sabedoria. Nem se enxerga a sua memória, a sua arte, o seu sofrimento proveniente da hegemonia predatória que, desde o período colonial, se impôs em seus territórios, em suas línguas e em seus corpos.

A meu ver, a leitura do Cerrado deve-se ajustar nisso: enquanto este sistema biogeográfico era preservado, a sua economia não era dinâmica; agora a economia é dinâmica, mas o sistema biogeográfico é dilacerado. Isso quer dizer que a biodiversidade e a sociodiversidade foram reduzidas em nome da formação de um território desigual.

Cerrado: especificidade e criação geopolítica
Outro aspecto que pode ajudar a interpretar e a desvendar as ideologias do Cerrado consiste em não separar a sua leitura da formação socioespacial brasileira. Isso significa concebê-lo numa especificidade entrelaçada com a formação da sociedade brasileira. A especificidade diz respeito às características e à história de seu solo, de suas águas, de sua vegetação, relevo e também de seus povos e suas culturas numa integração dinâmica. Mas isso nunca foi determinista relativo ao Estado, à formação das classes sociais, à força do latifúndio, ao modo como povos indígenas, quilombolas e camponeses foram tratados.

Outra forma é enxergar que o Cerrado atual é uma criação geopolítica. No pós-guerra, com a investida nas pesquisas agronômicas, a partir do interesse dos EUA em obter a hegemonia política e econômica do sistema mundial, é que houve a intercedência da ciência transformando o território do Cerrado no denominado “celeiro produtivo”, ou melhor, “celeiro produtivo submisso ao mercado internacional”.

Por conseguinte, o Cerrado brasileiro, em sua vastidão, encontrou ecos para cumprir o que Milton Santos sintetizou relativo ao Brasil: o esforço do Estado brasileiro em transformar o território nacional em espaço da economia internacional. Outra forma é não proclamar, o que a pesquisadora Rosana Borges (UFG), em sua tese de doutoramento, diz ser a tática de dispersão do pensamento. Ao criticar os problemas ambientais separados da geopolítica, do modelo de acumulação, do comércio de commodities, da ação do poder, segundo Rosana Borges, o Cerrado é ideologizado, pois perde a totalidade, ou o prisma sistêmico do seu processo de ocupação e apropriação como diz o geógrafo Horieste Gomes (UFG).

Interpretação do Cerrado
Quero, em poucas linhas, lhes apresentar vias e entradas que, a meu ver, devem compreender a interpretação do Cerrado:

Observar o ritmo das mudanças no território do Cerrado e a sua significação: é um sistema biogeográfico antigo, mas um território de transformações rápidas.
Reconhecer que há muitas propostas de periodizações: ver que até 1970 esse Sistema Biogeográfico tem uma ligação efetiva com o espaço rural sob o comando da troca simples; e depois de 1970, teve uma urbanização acelerada.
Diferenciação espacial no interior do território cerradeiro. Ainda se existem as parteiras e junto, as plataformas tecnológicas; mesclam e se conflitam fazendas tradicionais e banco de sêmens.
A asfixia territorial de povos indígenas insuflados pelo agronegócio, pelas mineradoras, madeireiros.
O absenteísmo territorial e a fratura do pertencimento.
O mundo da diversidade genética, cultural e social do Cerrado, sob o comando do triunfalismo inconsequente (expansão econômica, crescimento do PIB), ao silenciar sobre o extermínio de povos indígenas, concentração de terras, explotação dos minérios, expulsão de camponeses de suas terras, envenenamento das águas e dos solos, deixa de enxergar a dinâmica conflituosa desse território desigual. E também deixa de enxergar a reação de movimentos sociais, de associações, organizações coletivas diversas e ativistas culturais; córregos secos e aumento da fundação de poços artesianos.

Além disso, alguns problemas devem se tornar temas urgentes da pesquisa de Cerrado, como:

O debate da privatização e do controle dos lençóis.
A relação entre o aumento do PIB, governança e afirmação da direita nos territórios do Cerrado.
A culpabilização ideológica da natureza e a sua leitura antropomórfica;
O debate científico, político e ideológico das emergências climáticas e das mudanças climáticas.
O delineamento do arco das queimadas – a cartografia do fogo.
A incidência do que a professora Gislaine Luiz (UFG), denomina “deserto atmosférico”.
IHU – Como o Brasil deveria se posicionar diante da expansão da fronteira extrativa mineral das terras raras? A criação de uma empresa estatal para terras raras é um projeto viável?

Eguimar Felício Chaveiro – Serei econômico na resposta dessa pergunta. Há pesquisadores, como Ricardo Assis Gonçalves (UEG) e redes de pesquisa críticos que, há mais de 15 anos, investigam esse campo importante da geopolítica mundial e também dominado pelo colonialismo de dados ou pelo dataísmo. O Estado brasileiro não pode se afastar de um tema importante. Por isso, deveria ouvir pesquisadores, fazer fóruns públicos, publicizar o debate com pesquisadores e gente do movimento social, gerar uma fermentação pedagógica e política em torno do tema.

Parece-me que há dois horizontes temporais solicitados na ação: um, a curto prazo, que deve brecar a volúpia de governos conservadores da federação nacional; e outro que apresente uma proposta do uso de minerais, não apenas de terras raras, mas de outros, conforme um projeto nacional do país.

A tese de doutoramento e o livro Rede Global Extrativa de Terras Raras, de Ricardo Assis Gonçalves, apontam o dedo para o problema estrutural dos minérios do Brasil desde o período colonial. Pode-se até dizer que se a colonialidade persiste – e ela persiste! – a apropriação dos minérios, como o ferro, o ouro e as terras raras são exemplos de uma colonialidade ativa que submete as comunidades, os povos indígenas, quilombolas e camponeses à força das corporações mundiais.

Eu não saberia dizer o que convém fazer uma empresa estatal especificamente para agir com as terras raras. Em função desses minérios serem importantes ao modelo de acumulação reinante, à geopolítica atual e ao domínio das corporações não se pode pautá-la não apenas na pauta econômica e jurídica, mas ambiental.

IHU – Como a disputa por terras raras tende a impactar o Cerrado?

Eguimar Felício Chaveiro – Quando um segmento econômico suscita interesse, o primeiro impacto ocorre na esfera do poder. O atual governo de Goiás, deliberando à revelia das leis nacionais, está intentando fazer as leis com as próprias mãos. O outro impacto é ambiental, procedendo o que se tem chamado, a partir de autores como Eduardo Gudynas, “amputação ecológica”. Há também uma ideologização da riqueza, incluindo estratégias de tentativa de subordinação de lideranças indígenas e quilombolas. Isso cria fendas, rachas e conflitos nas comunidades locais. Em muitos casos, o dinheiro se impõe contra as culturas nativas e contra os modos de vida de populações de tradição consistente.

Cria-se uma corrida quase diabólica pelas terras, territórios e subsolos em que os minerais podem ser explorados. Daí os golpes de convencimento do imaginário coletivo se tornam necessários e subsidiários do processo de exploração.

IHU – A partir da Geografia diversa das regiões brasileiras, que outros modelos de desenvolvimento poderiam ser valorizados, incentivados e implementados no país?

Eguimar Felício Chaveiro – Há várias experiências saudáveis que necessitam de apoio do governo. Como o governo vige em disputa, há a necessidade de trabalhadores e trabalhadoras se organizarem e se movimentarem em busca de soluções disputando também as políticas públicas de qualquer governo. A mesma necessidade é a de reivindicarem o que lhes deve pertencer. Há experiências de cooperativas, de extrativismo coletivo; de mercados de circuitos curtos; de ligação entre formação política, formação educacional e agroecologia; de ação entre produção, arte e intervenção. Junto com os pesquisadores Adão Francisco de Oliveira (UFTO), Rossevelt José dos Santos (UFU), Ana Carolina de Oliveira Marques (UFPB) – e outros –, a partir do conceito de Sociobiodiversidade, desenvolvemos pesquisas que apontaram princípios de desenvolvimento territorial do Cerrado fora do modelo baseado na hegemonia predatória atual.

Parece-me que o ponto inicial de criação de alternativas em cada região depende de uma leitura percuciente do que ocorre e das potências regionais ligadas ao país. No Cerrado, por exemplo, convém ler inclusive a imagem desse sistema biogeográfico. Quase sempre existe uma apologia que, invariavelmente vai cair num provincianismo ambiental interesseiro. Não se trata de dizer que o Cerrado é maior, melhor, mais potente que outros sistemas biogeográficos e domínios. Trata-se de enxergá-lo como parte ativa da formação socioespacial brasileira que, com suas potências ecológicas e ambientais – e também culturais e antropológicas – pode se transformar num território fora dos padrões do modelo de desenvolvimento predatório que, como dizem os pesquisadores Benjamim Pereira Vilela (IFG) e Weigma Michely (UFNT), causam asfixia territorial no campo, nas aldeias e nas cidades. Penso como dizem as pesquisadoras Ádila Eugênia, Daisy Luzia, Thiago Sebastiano de Melo e Márcia Pelá, do “Grupo Espaço, Sujeito e Existência – CNPQ”, que se deve estar atento aos marcadores sociais num jogo de interseccionalidade. Com efeito, não se pode desprezar as ações da emancipação digital das mulheres.

IHU – Em suas pesquisas, o senhor tem chamado a atenção para a organização da vida nas periferias proletárias, caracterizada pela sazonalidade do trabalho, instabilidade espacial e a expansão do tráfico. O que isso revela sobre o Brasil profundo e também sobre as transformações que ocorreram no país nas últimas décadas?

Eguimar Felício Chaveiro – Há dois documentos espaciais verificados na estrutura espacial do Brasil de PIB rico e de desigualdade social abundante: o adoecimento e a violência. Esses dois documentos espaciais, vistos nas paisagens urbanas e rurais, não são apenas do Brasil, mas da maioria dos países da América Latina e de África. Isso quer dizer que são consequências espaciais do capitalismo financeirizado. Vejam: no Cerrado brasileiro, especificamente a partir da década de 1960, ocorreu uma profunda urbanização. O campo se tornou mais produtivo e promotor de doenças; e as cidades, especialmente as metrópoles e, depois da década de 1990, as cidades do agronegócio, se tornaram segregadas, violentas e desiguais. Ilhas de luxos contrastando com lugares depauperados fundam as paisagens urbanas. Criaram-se, como exemplo do modelo de acumulação, a instabilidade e a vulnerabilidade como signos sociais que encarnaram nos sujeitos.

Diante da vulnerabilidade, da instabilidade, do desamparo, como procurando um lugar para se fazer o grito do desespero, como analisou Theodor Adorno, gerou-se uma alma coletiva carente. Logo, as personalidades autoritárias, na religião, nos negócios, nos tráficos, nas torcidas de futebol, no trânsito, nas boates – e em outros lugares – encontrarem formas de desenvolver projetos com esses sujeitos, numa espécie de inserção alienada.

Periferias proletárias
As pesquisas feitas nas periferias proletárias de Goiânia-GO atestam mais: de um lado há um convite para a juventude, o tempo todo, transformar a vida numa exposição narcísica mediante as redes com promessas de mercadorias impossíveis dessa juventude obter. Nessa contradição, entram os meios de promessa rápida, como a de quimicizar o prazer, indispondo-se contra a dor e o tédio.

Algo visto – e pesquisado – com a ajuda de pesquisadores como Domingo Costa, Eduardo Ferraz, Helaine Barbosa, Aline Marques, John Carlos, Donizette Soares, Rodrigo Emídio, Ana Carolina de O. Marques, Benjamim Pereira Vilela, Daisy Caetano, Damiana de Sousa – integrados à “Rede Espaço, Sujeito e Existência – CNPq” e outros e outras, é que a inserção alienada tende a afastar a consciência da juventude da crença emancipatória da razão e da força do pensar.

O negacionismo científico perdura nas salas de aulas, geralmente mediante atitudes teocráticas como as rezas no começo dos turnos. A ira contra o pensar interrogativo e afeição às figuras míticas se fazem com ideologias do empreendedorismo e com a propaganda do sucesso de influencer. Apesar disso, o sistema voluptuoso de informação e a hipermobilidade de imagens, atravessam as mentes que propõem o conservadorismo moralista. As nudes se juntam ao clamor de Jesus; a violência simbólica e física se impõe apesar das igrejas estarem lotadas de gente bendizendo o amor.

IHU – Como essa realidade das periferias proletárias se manifesta e aparece no discurso político dos brasileiros hoje?

Eguimar Felício Chaveiro – Vou ser objetivo na resposta. Em Goiânia, onde pesquiso, existe uma disputa de setores da política, como vereadores e deputados, muitas vezes ligados aos setores religiosos ou sendo eles próprios agentes, pela transformação das periferias proletárias em seu novo “curral eleitoral”. Em muitos casos, o negócio é pecuniário: compram-se líderes com emendas ou com favores legislativos.

Surgem os donos de tais bairros. Isso é estampado na forma de outdoors e também de visitas de agentes da política oficial às igrejas ou a outras instituições públicas. Sabe-se, contudo, que nenhum sistema tem compactação total. As torcidas de futebol, os grupos de capoeiras, gente da dança ou do teatro geram pequenos grupos com outras vozes.

No caso de Goiânia, a polícia cumpre um papel de ameaça constante. Se a periferia proletária é racialmente constituída, geralmente por pessoas pardas e negras, ela se torna alvo da polícia mirando sujeitos e jovens empobrecidos, não os grandes traficantes. Ser dono dos bairros, numa forma de esquadrinhamento de um poder espacial, é o ditame dos conservadores.

IHU – Como o senhor avalia a onda migratória de brasileiros ditos de direita para o Paraguai? O que esse fenômeno indica e expressa?

Eguimar Felício Chaveiro – Nos estudos de população, detidamente nos de Geografia da População que investiga o processo migratório há uma premissa: não há migração de trabalhadores e trabalhadoras ausente da mobilidade de capitais. Geralmente, a dinâmica do capital ou a sua territorialização é que destina o movimento de afluxo. Hoje, além dessa patente – a mobilidade de capitais e trabalhadores – há que se ver a dimensão simbólica e cultural, incluindo dimensões jurídicas e políticas.

Não é de hoje que gente de posse de capital se aflui para o Paraguai. Mas também trabalhadores e trabalhadoras informais nos mercados de fronteira. Existem tráficos de agrotóxicos, de mounjaro e de objetos tecnológicos do Paraguai para o Brasil desde muitos anos. Houve no passado o que está havendo agora: latifundiários brasileiros investindo em terras do Paraguai.

Isso demonstra outra premissa dos estudos de população: o capital não respeita fronteiras, mas o trabalho possui muros. A libertação das fronteiras para o capital e o cativeiro para o trabalho é uma forma – antiga e recente – de sobrepor o interesse acumulativo sobre o interesse pela vida. É isso que ocorre com a migração de sujeitos da direita para o Paraguai. O processo específico, o modo como tem ocorrido, eu não sei dizer por falta de ausência de pesquisa nesse campo.

IHU – As obras e ideias de quais geógrafos poderiam inspirar projetos/perspectivas de futuro para o Brasil no atual quadro geopolítico global?

Eguimar Felício Chaveiro – De forma pontual, vou expor algumas ideias de alguns geógrafos:

Ariovaldo Umbelino de Oliveira: não haverá mudanças estruturais no Brasil sem acabar com o latifúndio. Disso, nasce a necessidade de uma reforma agrária estruturante que mexa forma de apropriação da terra. A questão não é, assim, o agronegócio em si, mas o latifúndio atrelado ao agronegócio (A mundialização da agricultura brasileira).

Ruy Moreira: é necessário sair da crítica oficial, ou do fetiche da crítica para, com a interpretação crítica do Brasil, operar-se para devolver um projeto nacional a partir da perspectiva dos trabalhadores e trabalhadores; de povos indígenas e camponeses; de quilombolas e de uma série de identidades sociais, como veredeiros, vazanteiros, pescadores, coletivos negros, femininos (Pensar e Ser em Geografia).

Milton Santos: os geógrafos devem participar mais das decisões políticas do Estado, por exemplo, da reforma tributária; das leis ambientais; dos marcos regulatórios de minerais; das políticas contra o tráfico (A natureza do Espaço).

Horieste Gomes e João Alves de Castro: A Associação dos Geógrafos Brasileiros (AGB) é o lugar em que a formação dos geógrafos e geógrafos podem sair dos esquemas acadêmicos para se discutir o sentido da geografia. Saltar da crítica acadêmica aos sentidos do que é feito ajuda a sair do fetiche da crítica como moeda de negociação. Ajuda a constituir uma geografia da práxis (O espaço goiano).

José Gilberto de Souza: A dimensão epistemológica não pode se afastar da dimensão ontológica. Ler a fractologia como situação territorial e enxergar as determinações territoriais da vida solicitam enxergar os conflitos como resultados ativos e dinâmicos de um processo de totalização constante (Geografia e conhecimentos cartográficos: A cartografia no movimento de renovação da Geografia).

Marcelo Lopes de Souza: Direito ao planeta acima do urbanofilia e da rurafobia. Ligação teórica, crítica e praxeológica entre ambientes e territórios (Ambientes e Territórios).

Lana Cavalcanti de Souza: Resultado de longa pesquisa, livros, trabalhos e redes envolvendo o ensino de geografia, o pensamento e o raciocínio geográficos (Pensar pela Geografia: ensino e relevância social).

Maria Adélia de Souza: Os lugares são onde a vida acontece. Nos lugares é que os direitos e as submissões se cruzam e se embatem. A geografia que versa o lugar versa a existência ativa (Geografia e Razão Prática: diálogos disciplinares).

Everado Batista da Costa: Uma longa pesquisa em temas da América Latina. Pensar o patrimônio conectado ao território, às práticas e à existência (Cidades da Patrimonialização Global. Simultaneidade, Totalidade Urbana).

José Rossevelt do Santos: A análise do território feita no Brasil muitas vezes não observa o que ocorre nos lugares. Os lugares são cheios de tensões, vitalidades, criatividades, adaptações, negociações, resistências. Nos lugares as comunidades, os sujeitos do campo, as mulheres, as crianças efetivam as suas experiências sociais e culturais no trabalho, no afeto, na criação de soluções para os seus problemas; criam resiliências. Os lugares são pulsões; é ali que se produzem os projetos de vida (Tantos Cerrados).

Azib Ab’Sáber: Textos em formas de crônicas e entrevista que demonstram a trajetória do geógrafo e da pessoa. Nos textos contém diálogos, eventos e descobertas e, inclusive, invenção de teorias que se desdobraram nas últimas cinco décadas da geografia brasileiro (Ser Geógrafo).

IHU – Há projetos de futuro em disputa nas eleições presidenciais deste ano?

Eguimar Felício Chaveiro – Há projetos ideológicos conectados à geopolítica mundial. Estão presentes a defesa do chamado novo imperialismo de guerras e a tentativa de criar dinâmicas no interior da sociedade mundializada. A direita brasileira, como demonstrou em governos interiores, quer se beneficiar com o contrato submisso com as potências capitalistas que devoram o ambiente, geram o desemprego estrutural e dilapidam o território e os lugares. Noutra vertente, há propostas, num aro diverso, de proposições ligadas à democracia e ao enfrentamento de desigualdade social.

Agentes externos, como as bigs techs, mídia virtual e mass mídia e as corporações mineradoras, estão presentes nos embates internos do país e agem no processo eleitoral mediante fake news, estímulos financeiros para as campanhas e adoção de líderes religiosos a partir da teocracia, do moralismo religioso e da promessa de vida além da terra.

IHU – Deseja acrescentar algo?

Eguimar Felício Chaveiro – Machado de Assis, num livro de crônicas publicadas em jornais no fim do século XIX, diz algo assim: “Os escritores (as) não podem se ausentarem das grandes questões de seu tempo”. Isso pode ser parodiado: jamais os geógrafos e as geógrafas podem se ausentarem dos grandes problemas de seu tempo. Milton Santos, na véspera de sua morte em 2001, bradando contra a empolgação de geógrafos pela metodologia mais que pelo método, sacramentou que o geógrafo deve se ocupar de ler o mundo. Próximo a isso, anterior a Milton Santos, João Alves de Castro, criador da AGB-Seção Goiânia, dizia com ênfase: “A geografia nasceu, vive e morrerá geopolítica”.

Parece-me que estamos passando por uma incisão histórica com vários rebatimentos territoriais, isso a partir da mutação ou da convergência de um mundo analógico para um mundo digital. Esse mundo é complexo e tenso. Difícil de ser compreendido. As variáveis se juntam e se repelem com rapidez como se tivessem num grande caldeirão turbinado. É aí que surgem os sujeitos e a vida que se pratica.

Tudo parece instável e perigoso, como tem sido a prática de escrever com empréstimo do infinito arquivo da IA. A mesma coisa procede com a leitura e com os valores. Estou certo de que este mundo pede ultrapassar as críticas prontas e mecânicas. A crítica pronta e fossilizada engessa dois mecanismos centrais da intepretação: a curiosidade e a imaginação. Faz o sujeito do discurso ser refém do que fala. Quase sempre ocorre a reificação, por exemplo, das classes sociais ou de outro marcador de timbre crítico. Em muitos causos, a fala – etérea – age na ausência da experiência humana que é histórica e espacialmente constituída. Por isso, a importância da transversalidade epistêmica e também da literatura e da arte. Não sei se a ciência precisa sorrir. Sei que os intelectuais necessitam de coragem para pensar. Pensar com autonomia.

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