Em seu 6º Encontro, Rede dos Povos e Comunidades Tradicionais de Rondônia se fortalece com a ancestralidade nas águas do Guaporé (Parte 1)

Por Carlos Henrique Silva (Comunicação CPT Nacional), com edição e colaboração da CPT Rondônia

“Nessa terra eu nasci, e por ela eu vou lutar
Esse território bem aqui, não é seu, é meu
O rio que tem aqui, não é seu, é meu
Os ancestrais daqui, não é seu, é meu
Sai, invasores, do que não é seu…”

Em dias marcados pelo tempo frio e úmido, que marca o final do período de chuvas amazônicas, a centenária Comunidade Quilombola de Santo Antônio do Guaporé, no município de São Francisco do Guaporé (RO), recebeu, entre os dias 03 e 07 de junho, uma movimentação que não era vista há muitos anos, desde quando as mais velhas e os mais velhos se lembram das festas que animavam esse chão.

6º Encontro da Rede dos Povos e Comunidades Tradicionais de Rondônia ajuntou cerca de 150 pessoas, em sua maioria mulheres, vindas de comunidades indígenas, quilombolas, seringueiras, extrativistas, agricultoras, ribeirinhas, de terreiro, brasileiras e bolivianas. No lugar onde só se chega pelas águas, os grupos chegavam de barco, voadeira, rabeta ou chata. Embarcações adequadas para as águas tranquilas do Guaporé, o rio que definiu parte dos limites do território brasileiro com a Bolívia.

Um lugar ancestral para muitas das pessoas participantes, que mesmo vivendo em outras partes do estado, reconhecem o pertencimento ao Quilombo Santo Antônio, através de seus antepassados e da própria vivência, nascimento e infância.

A ancestralidade brota não apenas do rio, mas da própria terra, repleta de sinais da presença de povos anteriores à colonização, plantados em urnas de cerâmica e vestígios de ferramentas, ao alcance de quem bastasse procurar em seu entorno. Uma demonstração de que “a mãe do Brasil é uma mulher indígena.”

“Eu olho essas árvores aqui, e é como se eu visse minha mãe, minhas avós vivendo aqui. Eu comparo essa nossa família com a de Abraão, porque é muito grande, está em muitos municípios e acredito que até fora do Brasil”, afirmou Claucide Lopes Calazans (a popular Pretinha), que se deslocou desde Porto Velho para revisitar o local onde nasceu e para onde não voltava há mais de 50 anos. Ela relembrou das antepassadas mulheres, orantes, perseverantes, parteiras, e do saudoso antepassado, seu Romão Calazans, do qual descendem boa parte das famílias que resistem no local, além da importância da valorização dos saberes das ancestralidades, que vão passando de mães para filhas, de pais para filhos.

Atual presidente da associação da comunidade, seu Cidão demonstrou muita emoção a cada momento que falava do encontro: “Fico muito alegre, feliz, satisfeito, pela comunidade do Santo Antônio receber pela primeira vez este encontro. É com muito carinho e de braços abertos que a gente recebe vocês. Estes são dias que vão ficar na história. Essa rede é importante para dar o braço e a mão amiga a todas as comunidades tradicionais do Vale do Guaporé, e de todo o estado de Rondônia, que estão em busca dos seus direitos.”

Uma das participantes, a cacica Hosana Puruborá destacou a satisfação de poder  pisar este chão sagrado. “Olhar para a terra é olhar para as nossas lutas desde os nossos parentes antepassados, e isso é muito gratificante. É a nossa afirmação enquanto comunidades tradicionais.”

Representando o povo Chiquitano, que povoa a região do Vale do Guaporé e também o estado de Mato Grosso, Magnória Gonçalves Marques retorna à comunidade depois de quase 30 anos distante. “Antes da reserva existir, a comunidade Santo Antônio já existia. Viemos de Vila Bela, Pimenteiras, Santo Antônio, Costa Marques. Estamos no Brasil e na Bolívia. Nossa antepassada era Protásia Evangelista Dias, indígena Chiquitana. Nós permanecemos vivos e não precisamos provar para as instituições que nós somos indígenas. Antes das divisões do Brasil, Bolívia, Amazonas, Mato Grosso, e ainda sem nem existir Rondônia, nós já estávamos aqui. Não está escrito em livros, mas está na nossa memória. Na escola, sempre falo para os estudantes que não se envergonhem das suas origens, porque temos ancestrais que lutaram e sofreram sendo tirados das comunidades para trabalhar nos seringais, em condições que hoje sabemos que se tratava de trabalho escravo.”

A chegada também contou com a invocação do Divino Espírito Santo, através do canto “Divino Companheiro”, um louvor de origem latina que ultrapassou fronteiras e confissões de fé, e guia os festejos e romarias no Vale do Guaporé. Ao centro da plenária, uma canoa cheia da produção de frutas, legumes, ferramentas e sementes, representando o elemento fundamental na vida dos povos amazônicos, que a utilizam para se deslocar em busca do alimento, da saúde, da subsistência, da educação, do transporte, da busca por políticas públicas.

A presença nos encontros tanto serve para aprender, ensinar, conhecer novas pessoas e reencontrar outras. Agente da CPT em Rondônia, Josep Plans (Zezinho) relembrou os tempos em que foi pároco em São Francisco do Guaporé, no final dos anos 1990 e início dos anos 2000, passando pelas diversas comunidades ribeirinhas para ministrar celebrações religiosas, por meio das quais também se identificou com suas lutas pela permanência na terra:

“Na época, o Ibama queria retirar todo mundo, por se tratar de uma Reserva Ecológica, mas a comunidade insistiu, procurou os órgãos públicos, demonstrou suas origens desde a época do seringalista Balbino Maciel. Tivemos uma semana para apresentar as provas. Somente anos depois, no governo Lula, através do deputado Eduardo Valverde, as comunidades e territórios quilombolas de Rondônia foram reconhecidas.”

“O caminho é longe
Ah! Eu não sei aonde é
É lá no meio da mata, onde os povos se escondem
Eu sou guerreira no meio das aldeias”

Após a chegança com a alegria dos cocares, maracás, tambores e saias, o primeiro momento do encontro serviu como resgate da história da Rede em Rondônia, que surge como fruto de movimentos como a Teia dos Povos e Comunidades Tradicionais no Maranhão e na Bahia, exemplos de resistência que se constrói em conjunto, tendo em comum a luta pelo território.

Em Rondônia, a Rede nasceu em 2018, a partir do encontro realizado no Quilombo Jesus, localizado no Vale do rio São Miguel, nos municípios de São Miguel do Guaporé e Seringueiras. A cada ano, a caminhada foi crescendo e trazendo novas comunidades e povos representados. “É como se as organizações fossem os nós da rede, e as comunidades e povos fossem as linhas. E é necessário estarmos sempre juntos nos articulando”, afirmou Luciomar Costa, da coordenação colegiada da CPT Rondônia.

Dona Vera, da Resex Rio Ouro Preto, em Guajará-Mirim, evangélica, não esquece das palavras do pai, sempre lembrando que “a coroa do Divino Espírito Santo veio para o Guaporé pela mão dos nossos ancestrais”. Essa consciência a faz estar sempre participando dos encontros, valorizando a luta dos povos e das comunidades. Uma resistência que ultrapassa limites religiosos.

“A gente conseguiu mobilizar nossos jovens, que já foram para o Maranhão, para o Pará, é uma troca de experiências. Vamos nos unir cada vez mais e não largar o braço de ninguém, porque nós somos uma família”, relembrou.

Um dos jovens, Gabriel Felipe, destacou que a Jornada de Educomunicação aconteceu dentro do Encontro da Rede: “A juventude se aproximou mais desse movimento, por entender os projetos de morte que atingem as nossas comunidades. A gente participou em presença corporal e espiritual.”

“A sombra da noite se aproxima
E nela o tentador vai chegar
Não me deixes só no caminho
Ajuda-me, ajuda-me até chegar”

Este ano, a perspectiva da seca é mais forte do que nos anos anteriores, devido aos efeitos mais intensos do El Niño. Além dos desafios da escassez de chuva e altas temperaturas, certamente irão aumentar as demandas por alimentos, devido à insegurança alimentar. De acordo com o representante da Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB), Rosemberg Alves Pereira, as comunidades devem repassar para o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) as demandas de quantidades de cestas de alimentos para as famílias.

Presente no lema do encontro, a convivência com as mudanças climáticas é uma realidade vivenciada pelas comunidades tradicionais, em um cenário de espera e adaptação, porque não há dúvidas de que os efeitos vão chegar e serão sentidos diariamente.

“Eu conheço uma música assim: Na minha aldeia tem beleza sem plantar / Eu tenho água, eu tenho terra / Tenho as raízes para me curar / Viva Jesus, viva Jesus, viva Jesus / Que nos veio trazer a luz”Hoje nós cantamos diferente: “Lá tinha água, lá tinha terra, tinha raízes pra me curar””, lamentou Hosana Puruborá.

“Tenho sempre conversado com as mulheres da reserva, e o meu sonho é ter todas elas empoderadas, atuando e lutando pelos direitos e pelo território. Levo sempre minhas filhas e agora minhas netas para todos os encontros. Se nós, mulheres, desistimos da luta, a luta não segue,” afirmou uma das lideranças. A presença das crianças também foi marcante, com uma plenária de atividades para elas.

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