Pochmann: Os clãs políticos sobreviverão à Era Digital?

Pela primeira vez na história brasileira, parcela significativa da comunicação e formação de opinião é mediada por empresas estrangeiras. Os algoritmos definem a visibilidade. Como evitar que a revolução digital atualize o poder das antigas dinastias, e renove lideranças?

Por Marcio Pochmann, em Outras Palavras

Há uma pergunta incômoda que atravessa toda a história política nacional. Os clãs políticos brasileiros que superaram as transformações econômicas, sociais e tecnológicas do Brasil desde a independência nacional serão capazes de sobreviver na era digital?

A dúvida é relevante porque o Brasil mudou profundamente desde o fim da colonização. O país deixou de ser uma economia agrária baseada originalmente no trabalho escravo para se tornar, posteriormente, numa sociedade urbana e industrial e, mais recentemente, uma economia dominada pelos serviços, pelas finanças, pelos dados e pelas plataformas digitais.

Mudaram as formas de produção, os meios de comunicação, as relações de trabalho e até os mecanismos de participação política. Mas teria mudado a estrutura do poder? Uma hipótese que merece atenção, uma vez que os clãs políticos não tenham desaparecido.

Talvez tenham apenas se metamorfoseado. Se essa hipótese estiver correta, a história política brasileira pode ser interpretada como uma sucessão de adaptações de um mesmo fenômeno estrutural. A capacidade de determinadas famílias e grupos de interesses em transformar as mudanças econômicas e tecnológicas em mecanismos de reprodução de poder.

A origem dessa trajetória encontra-se na própria formação colonial. As capitanias hereditárias, instituídas em 1534, não representavam apenas uma forma de ocupação territorial. Elas estabeleceram um princípio organizador da vida política com a associação entre patrimônio, autoridade e herança familiar.

O poder nascia ligado à terra e transmitia-se por laços de sangue. A Colônia terminou por consolidar esse padrão, uma vez que grandes proprietários rurais não exerciam apenas funções econômicas. Controlavam a vida social, religiosa, militar e política dos territórios sob sua influência. A família transformava-se na principal instituição de organização do poder.

A Independência nacional, contudo, não rompeu com essa lógica. A ruptura com Portugal preservou a estrutura fundiária, a escravidão e boa parte das elites que dominavam a sociedade colonial. O Estado nacional surgiu sem que houvesse a promoção transformação profunda das bases sociais do poder. Ao longo do século XIX, o coronelismo emergiu como uma adaptação dessa herança.

A criação da Guarda Nacional, em 1831, fortaleceu os grandes proprietários locais que passaram a atuar como intermediários entre um Estado distante e a população dispersa pelo território. O coronel tornou-se uma espécie de gestor local da ordem política. O poder, assim, continuava associado à terra, mas agora estava articulado cada vez mais às instituições do Estado nacional.

A Primeira República, por exemplo, não eliminou também a estrutura herdada. Ao contrário, em muitas regiões ela a consolidou. Os clãs familiares transformaram-se em máquinas eleitorais locais, controlando prefeituras, cartórios, delegacias, associações econômicas e redes de clientela política. Em diversas localidades, a disputa eleitoral ocorria menos entre projetos políticos distintos do que entre famílias tradicionais.

Pela modernização industrial que avançou em parte do século XX tampouco produziu o desaparecimento desses grupos. O que ocorreu foi uma mudança na base material de sustentação do poder. Se antes a terra era o principal ativo estratégico, o processo de urbanização e industrialização ampliou a importância da máquina pública, dos contratos governamentais, das empresas estatais e das estruturas partidárias.

Neste novo contexto, os clãs políticos adaptaram-se ao novo ambiente.  A reprodução familiar do poder deixou de depender exclusivamente da propriedade rural e passou a incorporar o controle de cargos, recursos públicos e instituições estatais. Em sequência, o aparecimento e avanço dos meios de comunicação abriu uma nova etapa. Rádios, jornais e emissoras de televisão transformaram-se em instrumentos fundamentais de construção de influência política.

Surgiu uma nova fase de coronelismo eletrônico. O controle da opinião pública passou a complementar o controle do território. A autoridade política já não dependia apenas da presença física do chefe local, mas também da capacidade de moldar percepções, construir reputações e influenciar comportamentos coletivos.

E na contemporaneidade da era digital, os clãs políticos sobreviverão? Será que o salto inovativo da tecnologia com redes sociais, algoritmos e poder quase monopolista das big techs estrangeiras terminará por destruiria as estruturas tradicionais de poder no Brasil?

A internet prometia horizontalizar a comunicação, democratizar o acesso à informação e ampliar a participação cidadã. Os resultados até agora se mostram, entretanto, mais complexos. As redes digitais abriram novos espaços de participação, mas também criaram inéditos mecanismos de concentração econômica e informacional. Os antigos clãs políticos encontraram nessas plataformas oportunidades de reinvenção convertendo-se em marcas.

O sobrenome segue um ativo eleitoral precioso. A influência deixou de depender exclusivamente da presença territorial e passou a ser exercida através de redes digitais capazes de conectar municípios, estados e regiões inteiras. O que antes era predominantemente local tornou-se nacional.

Mas a transformação mais profunda talvez não esteja na política convencional. Ela está na emergência das grandes plataformas digitais globais. Pela primeira vez na história brasileira, uma parcela significativa da comunicação pública, da circulação de informações e da formação da opinião coletiva passou a ser mediada por empresas privadas estrangeiras. Não se trata apenas de tecnologia. Trata-se de poder.

Os algoritmos definem visibilidades, ampliam determinados conteúdos, silenciam outros, organizam fluxos de atenção e influenciam comportamentos coletivos. Ao mesmo tempo, os dados produzidos pela sociedade brasileira tornam-se matéria-prima de uma economia digital cuja apropriação da riqueza vaza frequentemente para fora do território nacional.

Surge, assim, uma nova questão histórica. Se os clãs políticos foram capazes de adaptar-se à passagem da sociedade agrária para urbana e industrial e desta para a de serviços e informação hiperconectada, qual será a forma do poder político no capitalismo digital? Estaria em curso o nascimento de uma nova etapa dos clãs políticos? Ou ao surgimento de uma estrutura ainda mais complexa, na qual dinastias locais passam a operar conectadas a plataformas globais capazes de organizar simultaneamente economia, comunicação e política?

A pergunta permanece em aberto. Mas uma conclusão parece inevitável. A história brasileira não pode ser compreendida apenas pelas rupturas que proclama. Ela precisa ser analisada também pelas continuidades que preserva. Das capitanias hereditárias ao coronelismo, do coronelismo ao poder midiático e deste ao universo dos algoritmos, observa-se uma impressionante capacidade de adaptação das estruturas de poder.

A modernização brasileira transformou a economia, urbanizou a sociedade, industrializou a produção e digitalizou a comunicação. Mas não eliminou completamente a tendência histórica à concentração do poder. O desafio do século XXI talvez seja justamente o de impedir que a revolução digital produza apenas uma atualização tecnológica de velhas formas de dominação.

Afinal, uma democracia não se mede apenas pela realização de eleições. Ela se mede pela capacidade de renovar lideranças, democratizar oportunidades e impedir que o poder se transforme em patrimônio hereditário. Essa é uma tarefa que continua inacabada na República brasileira.

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