Entre as ruínas, a Copa do Mundo vista em Gaza

Num café, uma pequena multidão reúne-se em torno da tela, alimentada por “gato”. Um ex-jogador profissional, afastado dos campos pela guerra, reúne os amigos para torcer. Ouvem-se os drones israelenses, todo o tempo. Mas o futebol atrai: “Seguimos em frente, apesar de tudo”

Por Dawoud Abu Alkas, Haseeb Al-Wazeer e Nidal Al-Mughrabi, em Outras Palavras

Fadi al-Arawi, jogador de futebol da Primeira Divisão da Faixa de Gaza, não consegue mais voltar a entrar em campo desde que as competições esportivas profissionais foram suspensas há mais de dois anos, por conta do genocídio que Israel comete no enclave.

Assim como a maioria dos habitantes de Gaza, ele já não tem sequer um lar para assistir à Copa pela televisão. Quando o jogo de sábado entre Catar e Suíça estava prestes a começar, vestiu seu velho uniforme profissional do Gaza Sports Club e as medalhas que conquistou em competições internacionais. Inclinou-se na penumbra sobre um notebook de tela trêmula, tentando captar sinal de internet para ver a partida com um grupo de amigos, em uma sala de uma escola transformada em abrigo para os deslocados pelos ataques israelenses.

“Olha, esta é a internet, já está falhando e o jogo nem começou”, disse Al-Arawi, de 38 anos, à Reuters em Khan Younis, enquanto zumbidos de drones israelenses ouviam-se sobre suas cabeças. “Está ouvindo os drones? Podemos viver ou morrer, podemos ser bombardeados a qualquer momento.”

Grande parte de Gaza foi destruída e sua infraestrutura sofreu danos severos durante a ofensiva militar de dois anos de Israel no território. “Apesar de tudo, vamos assistir aos jogos.”

Quase toda a população de mais de dois milhões de palestinos vive em uma estreita faixa de território controlado pelo Hamas ao longo da costa, a maioria em barracas e edifícios danificados.

Alaa Babli, que administra o Royal Café na cidade de Gaza, instalou duas linhas elétricas alternativas e uma bateria reserva para garantir que os jogos noturnos possam continuar sendo transmitidos depois do desligamento os geradores a combustível, à meia-noite.

Hani Abu Rizq, que foi assistir a uma partida sob as bandeiras do Egito e de Marrocos penduradas na parede do café, disse que os moradores de Gaza nunca estão livres do medo quando saem às ruas.

“O café pode ser um alvo”, afirmou. “Algo ao meu lado pode ser um alvo, e eu posso perder a vida, mas, apesar de todo o sofrimento, seguimos em frente e vamos assistir aos jogos.”

A Associação Palestina de Futebol informa que, entre os 73 mil palestinos mortos por Israel desde 2023, estavam cerca de mil atletas, incluindo crianças, amadores de todas as modalidades e até árbitros e profissionais.

Israel também destruiu cerca de 285 instalações esportivas – algumas completamente arrasadas, outras bombardeadas. As forças israelenses transformaram estádios em campos de detenção, alguns dos quais se tornaram tristemente conhecidos por denúncias de tortura aos prisioneiros ali mantidos.

O emblemático estádio Al-Yarmouk, na cidade de Gaza, onde Al-Arawi e outros profissionais jogavam diante de milhares de espectadores, é agora um acampamento de barracas para famílias deslocadas. “Desde o extermínio israelense de 2023, o esporte palestino tem sido um dos principais alvos da máquina de guerra israelense”, disse Mustafa Siam, da Associação Palestina de Futebol.

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