As críticas a esta edição da Copa do Mundo “sugerem a existência de movimentos políticos e pessoas preocupadas com outras questões que não só o futebol ou o lucro da copa, como é o caso da FIFA”, avalia o antropólogo
Por: Patricia Fachin, em IHU
O drama dos migrantes é um dos problemas civilizatórios centrais do século XXI. Associado a ele estão conflitos e instabilidades políticas e sociais, desigualdades econômicas, novos processos de colonização e mudanças demográficas e climáticas. Na Copa do Mundo, maior evento esportivo do planeta, a questão migratória é um dos dilemas sociais e antropológicos que chama atenção. “Trata-se da copa da diáspora, com 23% dos atletas representando países outros que não aqueles onde nasceram”, afirma Arlei Damo nesta entrevista concedida ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU por e-mail.
O antropólogo comenta também as diversas críticas que estão sendo feitas ao campeonato deste ano. Entre os pontos positivos, ele destaca que não houve a construção de novos elefantes brancos, como em competições anteriores. “O fato desta Copa ser realizada em três países permitiu fazer melhor uso da infraestruturas pré-existente, sem edificar nenhum dos 16 estádios utilizados, muito diferente do que foram as quatro edições anteriores que, somadas, edificaram 75% das praças utilizadas – nada menos do que 30 estádios construídos do zero! – e reformaram as demais 25%, sendo que uma parte expressiva nem sequer tem sido utilizada”.
A seguir, Arlei Damo reflete sobre o apelo popular e transcendente das copas, os engajamentos coletivos e lutas sociais que emergem no contexto esportivo. Essas manifestações, contudo, não são suficientes para fortalecer os intercâmbios culturais e laços de fraternidade. “Esses encontros são fugazes, seja porque ficam circunscritos os jogos, que são eventos bem pontuais, seja porque os torcedores-turistas que partilham as arquibancadas com estranhos nos jogos, no restante do tempo seguem os roteiros de agências de viagem e se deslocam por lugares evitando interagir com a diferença”, sublinha.
Arlei Damo é mestre e doutor em Antropologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e leciona no Departamento de Antropologia da mesma instituição. É autor de Do dom à profissão: a formação de futebolistas no Brasil e na França (Hucitec), que ganhou o Prêmio Capes e Anpocs de melhor tese em 2005, Futebol e identidade social: uma leitura antropológica das rivalidades entre torcedores e clubes (UFRGS, 2002) e Megaeventos Esportivos no Brasil (Autores Associados, 2014), em coautoria com Ruben Oliven.
Confira a entrevista.
IHU – Numa entrevista concedida ao IHU em 2010, o senhor disse que “a FIFA visa o lucro”. Cresceu essa consciência entre os torcedores a tal ponto de o futebol ser motivo de desencanto para muitas pessoas?
Arlei Damo – Em 2023, quando eleito para seu segundo mandato, o presidente da FIFA Gianni Infantino disse que sua missão era realizar eventos e arrecadar dinheiro. Nenhum outro mandatário havia, até então, falado tão abertamente a respeito. Desde sua criação, em 1904, até 1970, quando João Havelange desbancou Stanley Rous da presidência da FIFA, a instituição se orientara por questões políticas, ainda que restritas ao futebol, e em defesas dos interesses europeus. Sob muitos aspectos, a Internacional Board, que cuidava das regras do jogo, era mais relevante do que a FIFA, pois conseguira manter o jogo intacto, um feito extraordinário se pensarmos na extensa difusão do futebol. Em todo o caso, ambas as agências se orientavam por um discurso universalista, colonialista e de fraternidade nacional que lembrava o século XIX.
As gestões de Havelange (1974-1998) e Joseph Blatter (1998-2015), irmãos siameses, realizaram a transição para o mundo dos negócios, beneficiando-se das regras terem sido preservadas. De olho nas tendências da produção e do consumo de bens simbólicos no espectro do capitalismo – pensemos no cinema, no rádio, na televisão e nos conteúdos associados –, Havelange se deu conta que o futebol poderia se tornar uma mercadoria valiosíssima, beneficiando-se, sobremaneira, das inovações tecnológicas que permitiram a difusão de imagens em tempo real. Todavia, durante este período de transição, a FIFA seguiu com um discurso que tentava encobrir as ambições comerciais, fazendo-se representar como uma entidade equivalente à Organização das Nações Unidas (ONU).
As últimas copas, sobretudo aquela realizada no Brasil, com manifestações de repúdio ao empenho de recursos públicos do país sede para a promoção do megaevento, exigiram um reposicionamento. A questão para Infantino não é esconder que a FIFA visa o lucro, como qualquer empreendimento capitalista, mas entregar uma mercadoria de qualidade, certo de que ela possui consumidores fiéis. Não é pelo fato de admitir que faz negócios e visa lucro que a FIFA vai perder público; isso não parece ser um problema caso ela entregue o que promete: um megaevento reunindo as celebridades futebolísticas no formato de uma disputa entre nações, dando às disputas dentro de campo uma aura de drama coletivo.
IHU – A presidente mexicana, Cláudia Sheinbaum, não foi à abertura da Copa. Além de sortear seu ingresso e o dar a uma jovem mexicana que gosta de futebol, questionou: “Quem pode pagar isso?”, fazendo referência ao preço do ingresso: 120 mil pesos. Prática e simbolicamente, como o senhor interpreta a reação dela?
Arlei Damo – Do ponto de vista prático, posso dizer que ela foi politicamente bem orientada; ter ido ao estádio poderia ter resultado em vaias tais como as que recebeu Dilma Rousseff quando compareceu na abertura da Copa das Confederações em 2013, evento que está na origem da transformação das manifestações contra o aumento das passagens urbanas nas Jornadas de Junho. O público que vai a jogos de copas ou a outros megaeventos esportivos não tem perfil de esquerda e, considerando que havia uma greve nacional dos professores no México, que ameaçava intrometer-se nos eventos da Copa, não ir ao estádio foi uma decisão sábia. Quem foi à abertura da Copa provavelmente estava pouco se importando para as reivindicações dos professores – se o perfil corresponder ao que acorreu aos estádios brasileiros em 2014, pode-se ter convicção –, mas poderia pegar uma carona nas críticas ao governo de Cláudia Sheinbaum.
O fato de ter dado o ingresso para uma pessoa que não teria como adquiri-lo é um tanto populista, mas faz parte do jogo político. Os jogos de copas, assim como as corridas de Fórmula I, o Lollapalooza, o Rock in Rio e mesmo shows de Chico, Caetano e Gil não são acessíveis aos pobres. Impedi-los de serem realizados seria injustificável, mas deve-se evitar o dispêndio de dinheiro público na medida que atendem ao gosto de um público restrito, pouco importando o perfil político dos organizadores e artistas. O gesto da presidente do México faz lembrar que o acesso aos bens culturais é muito desigual, como dizia um slogan que se destacou nos protestos de 2013: “Copa para quem?”
IHU – A Copa deste ano está sendo criticada por muitas razões, entre elas, os impactos climáticos gerados, o financiamento de grandes petrolíferas na competição, os casos de racismo contra jogadores, árbitros e jornalistas, o valor dos ingressos etc. O que essas críticas sugerem?
Arlei Damo – Sugerem a existência de movimentos políticos e pessoas preocupadas com outras questões que não só o futebol ou o lucro da copa, como é o caso da FIFA. Pode ser que os impactos dos megaeventos esportivos – eu incluiria aqui eventos que mobilizam multidões, incluindo-se os de natureza política e religiosa – não estejam no topo do ranking dos mais insustentáveis, mas não estão fora de contexto e, portanto, precisam se adequar a protocolos que são exigidos de outros empreendimentos. As copas, assim como os jogos olímpicos, têm uma forte interface com a indústria do turismo e, na medida em que conseguem se adaptar a tais circuitos, já contribuem para a redução dos impactos, mas se demandam obras, com investimentos sem retorno e com deslocamentos forçados, piora muito.
O fato desta Copa ser realizada em três países permitiu fazer melhor uso da infraestruturas pré-existente, sem edificar nenhum dos 16 estádios utilizados, muito diferente do que foram as quatro edições anteriores que, somadas, edificaram 75% das praças utilizadas – nada menos do que 30 estádios construídos do zero! – e reformaram as demais 25%, sendo que uma parte expressiva nem sequer tem sido utilizada. Isso é desperdício de dinheiro público, de energia, de matéria-prima, de mão de obra, algo completamente inaceitável em alguns países onde existe mais sensibilidade para as questões climáticas e onde os movimentos da sociedade civil são mais atuantes.
Quanto ao preço dos ingressos, nenhuma novidade; a copa no estádio é para turista endinheirado, já tínhamos visto isso no Brasil. E não vai mudar, porque todos os ingressos foram vendidos. E quanto ao racismo e perrengues com vistos, tenho a impressão de que tem mais a ver com as políticas dos EUA dos que com as da FIFA – voltarei à questão.
IHU – Alguma causa coletiva está sendo estimulada nesta Copa?
Arlei Damo – As copas podem ser vistas de múltiplos pontos. Tem a lógica das agências que as promovem (FIFA, Estados nacionais, grandes multinacionais, a indústria da publicidade e do turismo, companhias aéreas, mídia esportiva etc.) e tem a das pessoas que a consomem, sendo que a esmagadora maioria o faz à distância, assistindo aos jogos da seleção que representa seu país pela televisão, reunindo familiares e amigos para confraternizar.
Da turma que promove a Copa não dá para esperar grande coisa; são corporações que raramente estão na vanguarda de causas que não as suas próprias. Quando muito são forçadas a se adequarem às legislações e às pressões políticas exercidas pela sociedade civil, em circunstância e temas pontuais. No que concerne à luta antirracista, que é pauta em diversos países, incluindo o Brasil, a FIFA pode não ser uma instituição de vanguarda, mas comparativamente ao mundo corporativo pode-se dizer que está engajada. Se pensarmos no universo do futebol exclusivamente, a FIFA faz mais do que muitas confederações, federações e clubes.
Combate ao racismo
A expulsão do jogador Almirón, do Paraguai, por proteger a boca com a mão enquanto insultava um adversário, tentando evitar a leitura labial, é um exemplo positivo. Foi uma punição incorporada nesta Copa, que passará a valer para todas as competições oficiais. Os jogadores da Turquia estavam conscientes – muitos deles foram formados na Alemanha e, provavelmente, já foram sujeitos a insultos racistas –, tanto é que denunciaram o gesto ao árbitro, que foi socorrido pelo VAR.
Os jogadores do Paraguai pareceriam ignorar a nova regra e depois a consideraram uma punição demasiada. O gesto recebeu, inclusive, o codinome de “Lei Vini Jr.”, em homenagem à luta incansável do atleta brasileiro contra o racismo, pois são nessas falas ocultadas que as injúrias são proferidas – os racistas não vão aos estádios com uma camiseta dizendo o que são!
Até bem pouco tempo atrás essas falas injuriosas eram consideradas “coisas do jogo”, uns e outros dizendo barbaridades para tentar desestabilizar o adversário, atacando a honra pessoal, um valor masculino por excelência. A FIFA disse “não mais”; nem violência física, nem verbal. Poderia fazer mais, sem dúvida, mas tem feito algo. Considerando a visibilidade que tem o futebol, pequenas contribuições como esta podem ter enorme repercussão.
Manifestações coletivas
Já do ponto de vista dos torcedores o espectro de manifestações coletivas é mais vasto, quiçá alentador. A acolhida que seleções menos prestigiadas tiveram do público em geral é algo notável, sobretudo em torno de Haiti e Cabo Verde. A CazéTV, que transmitiu o empate heroico de Cabo Verde contra a Espanha, puxou um mutirão de seguidores no Instagram do goleiro Vozinha no fim do jogo e ele saltou de 50 mil para mais de um milhão em fração de minutos, passando dos 10 milhões nos dias subsequentes. Vozinha é um jogador semiprofissional, defende uma seleção que nunca havia participado de uma copa e representa um país cuja população tem menos de 500 mil habitantes. Ao celebrar a atuação de Vozinha as pessoas estavam fazendo algo mais do que reconhecer os méritos individuais desse atleta e outra coisa que pensar em lucro.
A festa da delegação egípcia depois da vitória contra a Nova Zelândia, a primeira do país na história das copas, segue na mesma direção. Os jogadores se reuniram no meio do campo e fizeram juntos a saudação para Allah – a FIFA teria coragem de punir a todos? – e a comissão técnica deu uma volta olímpica exibindo a bandeira do Egito, tudo isso num jogo da segunda rodada da primeira fase.
Já os torcedores noruegueses prepararam uma coreografia nunca antes vista em copas, simulando uma embarcação de remadores vikings. Há um enorme investimento de preparação, não só para a execução da coreografia em si, mas para garantir todos os lugares no estádio a fim de simular uma embarcação coletiva. Quando da classificação à segunda fase, os atletas se posicionaram no centro do campo e remaram com os torcedores, performando uma conexão que vai além do campo às arquibancadas, de representantes e representados, pois sincroniza o presente ao passado ancestral. Por essas e outras as copas têm forte apelo popular e transcendem o fato de serem mercantilizadas.
IHU – O futebol sempre foi considerado uma paixão nacional no Brasil. No entanto, segundo o estudo Copa do Mundo, realizado pelos institutos Ipsos e Ipec, 46% dos brasileiros estão desanimados com o evento esportivo. A que atribui esse sentimento? Simbolicamente, como podemos interpretar essa reação?
Arlei Damo – A pesquisa foi feita antes da Copa, em primeiro lugar. A depender da performance da seleção brasileira a adesão pode mudar. Nos anos 80 e 90, havia muitos brasileiros que se diziam apaixonados por Fórmula I, mas depois da morte de Senna este público foi se esvaindo. Há um segmento de torcedores interessado na Copa (em geral, o público que acompanha futebol ordinariamente) e um público mais amplo de olho na participação da seleção brasileira, pelo que o resultado da pesquisa não é definitivo e pode até mesmo diminuir.
Uma segunda questão tem a ver com a fragmentação das mídias. Havia um tempo em que a Globo transmitia toda a Copa com exclusividade e tinha índices muito elevados de audiência, bem superiores aos atuais. Então a Globo promovia a Copa, como qualquer mídia promove sua programação, e isso ajudava a despertar o interesse naquele público menos aficionado pelo futebol que seguia a programação da emissora. Nesta Copa só a CazéTV está transmitindo todos os jogos, mas ela se comunica com um público restrito ao nicho esportivo.
A terceira questão tem a ver com a apropriação política da direita dos símbolos nacionais, incluindo as camisetas da CBF. Tradicionalmente, as escolas usavam as copas para estimular os estudantes a pensarem em questões geopolíticas, e isso era promovido por professores de História e Geografia, que são majoritariamente refratários aos usos que a direita faz dos símbolos nacionais.
Por fim, creio que há uma fragmentação de conteúdos midiáticos e isso possibilita que uma pessoa, alheia ao futebol, não se sinta uma extraterrestre por não estar acompanhando a Copa, algo impossível noutra época.
IHU – Recentemente veio à tona a notícia sobre a relação entre jogos de apostas digitais e o endividamento das famílias brasileiras. Como o senhor vê a mistura entre futebol, jogos de apostas e a falta de uma legislação mais rígida em relação às bets?
Arlei Damo – As apostas online vão bem além do futebol. Ainda que no Brasil ele seja o alvo principal da publicidade, dado o mercado potencial, de resto não há nada que o diferencie de outros esportes – mas há uma notável diferença em relação aos cassinos online, que não convém discutir aqui.
O Brasil tem uma longa tradição de hesitação em relação ao tema das apostas/jogos de azar, com muitas idas e vindas. Já tivemos cassinos, fechados na década de 1940; o jogo do bicho nunca deixou de ser praticado, mas nunca se discutiu seriamente a possibilidade de legalizá-lo; o governo federal criou suas próprias loterias, na época da ditadura, e nem parece que elas fazem parte do repertório de apostas, tal qual os bingos de quermesse, rifas e assemelhados; os jóqueis-clubes nunca foram proibidos e não se sabe bem o motivo, em que pese atendam um público restrito realizam apostas desde o século XIX; na década de 1990 liberaram-se os bingos, fechados na década seguinte; enfim, o país parece confuso em relação ao tema e eu atribuo isso à falta de um debate público consistente.
As apostas online – chamadas “apostas de cota fixa” – foram autorizadas por medida provisória no ocaso do governo Temer e Bolsonaro tapou os olhos para o tema: nem discutiu a legalização, como previsto, com receio de desagradar a base evangélica, nem revogou a MP de Temer. O governo Lula optou pelo caminho da legalização e creio que tenha feito a escolha certa, tributando as empresas legalizadas e interditando as demais. O governo mostrou-se suscetível a ajustes na legislação, aprovada em fins de 2023, policiando a publicidade e restringindo o acesso de menores, como funciona em outros países onde as apostas são legalizadas.
Recentemente, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, comparou as apostas ao cigarro; poderia ter comparado à bebida alcoólica ou a outras práticas que oferecem riscos à saúde, mas cuja proibição cria tantos problemas que é preferível trabalhar com políticas de redução de danos. Legalização, tributação, fiscalização, transparência, educação para o consumo responsável é o que outros países têm feito com razoável sucesso.
“Tigrinho” e endividamento
Houve muita propaganda enganosa no período recente; pessoas humildes acreditando que poderiam ganhar dinheiro extra com a jogatina, o que é totalmente ilusório. Propaganda enganosa tem que ser punida e já existe, legislação para isso. Muita gente já se deu conta que o “Tigrinho” é um engodo e parou de apostar contra o algoritmo por conta própria; outras nem tentaram, sabendo de relatos de pessoas malsucedidas; e há um número crescente de pessoas buscando a autoexclusão numa plataforma centralizada disponibilizada pelo governo federal.
As pessoas precisam se educar e isso vale para bebida alcoólica, para o trânsito e até para desfrutar de banho de mar. Exposição ao risco sem proteção pode matar e o Estado pode ajudar com políticas de restrição e educação, mas a proibição generalizada só contribui para asfixiar o debate e promover as práticas clandestinas.
IHU – Em sua avaliação, que problemas sociais e antropológicos saltam aos olhos nesta Copa?
Arlei Damo – O tema da imigração, sem dúvida. Trata-se da copa da diáspora, com 23% dos atletas representando países outros que não aqueles onde nasceram. A tendência sempre foi haver jogadores atuando pelo país de destino da imigração, nesta predomina o inverso. A França, por exemplo, faz algumas décadas que se notabiliza pela presença marcante de jogadores cujas famílias são emigradas das ex-colônias; nesta Copa, contudo, em torno de 32% desses atletas que atuam pela pátria de origem da família são franceses. Países como o Haiti, Curaçao e Cabo Verde não estariam na Copa sem a possibilidade de recrutar esses filhos e netos da diáspora.
Em 2022 a FIFA afrouxou alguns critérios de participação – antes quem tivesse disputado competições de base por uma seleção não poderia atuar por nenhuma outra – e ampliou a possibilidade de recrutamento de atletas. A nova configuração das representações nacionais sugere questões interessantes para se pensar as identificações coletivas, a experiência da e na diáspora, o pós-colonialismo, a ancestralidade e outros temas afins. Paradoxalmente, isso acontece numa Copa em cuja sede principal, os Estados Unidos, estão implementando políticas ortodoxas de restrição à imigração, com aumento do controle de acesso, deportações e violações de direitos fundamentais.
IHU – Há algo de positivo em eventos esportivos como a Copa do Mundo? O ideal da fraternidade, da amizade, do encontro entre diferentes povos e culturas ainda pode ser fomentado por meio dessas competições?
Arlei Damo – Sou um pouco cético em relação aos efeitos de um megaevento esportivo para além do próprio esporte e do seu tempo de realização. Eles se assemelham muito a rituais; reforçam crenças e disseminam experiências, mas geram pouco impacto fora do grupo de convertidos. Aquele discurso sobre legados que circulou quando da realização da copa de 2014 no Brasil e das Olimpíadas de 2026 era marketing e nada mais. De uns tempos para cá se falou muito em soft power, no âmbito da ciência política e das relações internacionais, mas sempre fui comedido quanto a isso.
Interação com a diferença
A mídia em geral e a esportiva em particular, na esteira das instituições esportivas, falam de fraternidade, de encontros culturais e coisas do gênero. Como antropólogo cumpre a árdua missão de desmentir parte disso, pois esses encontros são fugazes, seja porque ficam circunscritos aos jogos, que são eventos bem pontuais, seja porque os torcedores-turistas, que partilham as arquibancadas com estranhos nos jogos, no restante do tempo seguem os roteiros de agências de viagem e se deslocam por lugares evitando interagir com a diferença.
O essencial do consumo das copas, incluindo-se os jogos e tudo o mais, é realizado de forma remota, da poltrona de casa, interagindo com amigos e familiares. Bem, algumas pessoas gostam de ir a bares, fan fest e outros locais de assistência pública, mas são uma exceção. Em todo o caso, há um consumo da diversidade, da fraternidade, da tolerância, da festa e de outras questões apresentadas pelas mídias; um consumo tipicamente midiático, que já vem cifrado.
O sucesso das copas tem muito a ver com o fato de reunir quase todos os principais atletas mundiais em um único evento; um festival em forma de disputa. Imagine-se o que seria de um festival de rock com a presença de todas as bandas famosas do momento? E o futebol é muito mais popular do que o rock, é um dos gostos mais populares e universais. Em todo o caso, essas celebridades se vestem para a ocasião com as cores nacionais e assim suscitam o pertencimento coletivo, o culto a algo que transcende o individualismo, promovendo um tipo de experiência efervescente que considero muito próxima àquela dos grandes ritos/celebrações religiosas, pois estimula, simultaneamente, o pertencimento (coletivo) e o despertencimento (de si).
Vivemos bombardeados por cultos a personalidades, pela necessidade de performar o próprio eu. Isso não é completamente apagado na copa – Neymar, Mbappé, Cristiano Ronaldo e outros são bons exemplos –, mas sobressai também o coletivo. Para se divertir com a copa é preciso se deixar envolver por certos romantismos que resistem no tempo, como é o caso da entrega de si, pela conexão com uma comunidade ampliada e mesmo com as ancestralidades – como no exemplo da Noruega.
Sob certo aspecto, a copa é uma competição que fala sobre transcendência, embora não o faça à maneira de uma reflexão kantiana. Isso é uma ilusão? Sem dúvidas que é, e com prazo de validade. Mas por que lemos romances, assistimos filmes ou frequentamos cultos? Se alguém disser que a copa é uma droga eu tenderia a concordar, pela mesma razão que sigo o antropólogo Marshall Sahlins, quando para explicar a globalização afirmou que a humanidade não suportaria a própria existência se não pudesse transpor a própria realidade, para o que contribuem o chá, o café, o cacau, o açúcar e tantas outras substâncias.




