Capacidade de recuperação da Amazônia é limitada: centro do mundo encontra-se ameaçado por práticas predatórias e ilegais. Entrevista especial com Bernardo Flores

“Dados indicam que a Amazônia se aproxima cada vez mais de um ponto de não retorno, principalmente como resultado da combinação entre o desmatamento acumulado no sistema, as mudanças climáticas causadas pelo aquecimento global e os vários fatores de degradação florestal”, afirma o pesquisador

Por: Luana de Oliveira, em IHU

A Amazônia abriga múltiplas vidas, trazendo consigo a maior biodiversidade do planeta. Na floresta habitam diferentes espécies de árvores como a Sumaúma, a Castanheira-do-pará e o Angelim-vermelho. Sendo um lar para muitos povos isolados, cerca de 46% de sua casa é protegida por terras indígenas e unidades de conservação. O centro do mundo é berço de lutas e resistência pela preservação da natureza, algo fundamental para contermos o colapso climático em prol de todas as vidas humanas e mais-que-humanas, desenhando um futuro possível e não hostil.

Apesar da sabedoria ancestral seguir protegendo a floresta amazônica, a exploração predatória pelas mãos do agronegócio, de madeireiras e da mineração, impulsionada pelo sistema neoliberal, tem destruído parte da vida que existe neste chão. De acordo com um estudo da Nature Climate Change, algumas partes da floresta estão se recuperando mais lentamente após serem derrubadas por vento, secas severas ou extremas.

Em entrevista concedida por e-mail ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU, o ecólogo Bernardo Flores comenta que essas áreas são normalmente “as florestas mais degradadas, perto de estradas e expostas a extração ilegal de madeira e queimadas”. Segundo o pesquisador, são pontos da floresta que “estariam em princípio perdendo resiliência e se aproximando de um ponto de não retorno”.

Para evitar o ponto de não retorno, Flores afirma que é necessário “eliminar globalmente o uso de combustíveis fósseis, porque a Amazônia provavelmente não resistiria a um aquecimento global acima de 3ºC, mesmo que façamos a nossa parte restaurando as florestas. Também é preciso fortalecer a resiliência socioecológica do sistema, investindo na ciência e nas instituições locais dedicadas a esse tema”.

Bernardo Flores é doutor com dupla titulação em ecologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e pela Universidade de Wageningen (WUR, Holanda). Possui mestrado em ecologia pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e graduação em Ciências Biológicas pela Universidade Federal Fluminense (UFF). É pesquisador de pós-doutorado no PPG Ecologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) junto ao Laboratório Interdisciplinary Environmental Studies (IpES).

Confira a entrevista.

IHU – Se a Amazônia demonstra altos níveis de regeneração, por que sua capacidade de recuperação é considerada limitada?

Bernardo Flores – Em geral, as florestas da Amazônia ainda possuem alta capacidade de recuperação. Um estudo (Boulton et al., 2022, Nature Climate Change) usando sensoriamento remoto (dados de satélite) mostrou que quando se olha para toda a Amazônia, há algumas partes que parecem estar se recuperando mais lentamente após microdistúrbios, ou seja, pequenas derrubadas por vento e secas severas ou extremas. Essas áreas, normalmente as florestas mais degradadas, perto de estradas e expostas a extração ilegal de madeira e queimadas, por exemplo, estariam em princípio perdendo resiliência e se aproximando de um ponto de não retorno.

Porém, as evidências mais robustas se originam de dados de campo, mas geralmente são mais restritas a algumas partes da Amazônia. Essas evidências têm mostrado que florestas abandonadas após o corte e uso para pasto, por exemplo, ou florestas que queimaram uma ou mais vezes conseguem se recuperar bem. Alguns dos estudos de campo, no entanto, têm mostrado que, apesar das florestas conseguirem se recuperar, elas podem mudar para outra composição de espécies de árvores, sendo, portanto, florestas diferentes em termos de funcionamento e, por exemplo, da capacidade de armazenar biodiversidade, carbono ou reciclar chuvas.

IHU – Por que as áreas de transição entre a Amazônia e o Cerrado são consideradas mais vulneráveis à crise climática?

Bernardo Flores – Florestas na periferia do bioma Amazônia tendem a ser menos resilientes simplesmente por estarem mais expostas a condições mais áridas e maiores probabilidades de incêndios. No passado, dados de pólen e carvão indicam que foram nessas áreas que savanas se expandiram sobre florestas em períodos mais secos. É verdade que essas florestas de transição podem ter espécies mais resistentes à seca, o que possibilita que elas existam ali.

Mas, quando se analisam grandes quantidades de dados, há uma forte indicação de que existem limiares na quantidade de chuva que, se cruzados, as espécies florestais não mais conseguirão sobreviver e darão lugar a espécies de savana (por exemplo, árvores tolerantes ao fogo típicas do cerrado e as gramíneas). Como gramíneas não nativas invasoras são muito comuns nessas áreas, elas têm grande probabilidade de dominar o ecossistema, impedindo o avanço de savanas nativas e deixando as paisagens aprisionadas em um estado degradado.

IHU – Como a perda de biodiversidade afeta a estabilidade climática, a disponibilidade de água e o armazenamento de carbono na floresta?

Bernardo Flores – A biodiversidade aumenta a complementaridade entre as espécies e suas funções, permitindo o ecossistema realizar mais serviços de forma mais estável e resiliente, como a regulação do clima, controle de erosão e armazenamento de carbono. Além disso, a biodiversidade também aumenta a redundância, com espécies diferentes, mas que realizam funções semelhantes coocorrendo. Quando uma dessas espécies sai do sistema, ainda há as outras para garantir a manutenção daquela função, dando resiliência.

IHU – O que os resultados de sua pesquisa têm revelado sobre a Amazônia estar chegando a seu ponto de não retorno? O que precisa ser feito para reverter este quadro?

Bernardo Flores – Os dados indicam que a Amazônia se aproxima cada vez mais de um ponto de não retorno, principalmente como resultado da combinação entre o desmatamento acumulado no sistema (atualmente em cerca de 17% do bioma), as mudanças climáticas causadas pelo aquecimento global (atualmente em cerca de 1.3-1.4ºC acima dos níveis pré-industriais) e os vários fatores de degradação florestal, como incêndios e extração ilegal de madeira. Todos esses estressores reduzem a cobertura florestal, enfraquecendo os fluxos de umidade e reduzindo as chuvas na região.

Esses fatores reduzem também a biodiversidade e a diversidade cultural, enfraquecendo ainda mais a capacidade adaptativa do sistema frente aos distúrbios, como as secas extremas durante anos de El Niño. Conforme as florestas vão morrendo, menos chuva flui pelo sistema amazônico, levando a mais mortes de florestas. Esse mecanismo de retroalimentação é o que implica no risco de um ponto de não retorno de todo o sistema. Essa possibilidade está presente nas análises de dados empíricos de imagens de satélite e em modelos matemáticos.

Reverter esse quadro depende de reverter os estressores, portanto, recuperar a cobertura florestal em grande escala e reduzir drasticamente a frequência de grandes incêndios, desmatamento e outros fatores de degradação. Depende também de eliminar globalmente o uso de combustíveis fósseis, porque a Amazônia provavelmente não resistiria a um aquecimento global acima de 3ºC, mesmo que façamos a nossa parte restaurando as florestas. Também é preciso fortalecer a resiliência socioecológica do sistema, investindo na ciência e nas instituições locais dedicadas a esse tema.

IHU – Como a Amazônia poderá ser afetada pelo super El Niño previsto para este ano? Que efeitos socioambientais vislumbra para a região em decorrência do fenômeno? A Amazônia está preparada para eventos extremos que podem ser causados pela chegada do El Niño?

Bernardo Flores – A probabilidade está acima dos 80% indicando que teremos um El Niño forte, o que significa que parte da Amazônia vivenciará uma seca extrema prolongada. Essas condições permitem que qualquer fonte de ignição se espalhe pela vegetação, resultando em incêndios florestais de enormes proporções, impossíveis de controlar.

Também podemos esperar que nessas partes da Amazônia as populações urbanas, ribeirinhas e indígenas sofram danos significativos resultantes de isolamento, pois os rios ficam interditados para a navegação, causando o desabastecimento de comida e água potável. Por isso, é preciso investir em prevenção agora. O governo federal e alguns governos estaduais estão se preparando.

IHU – Por que o fogo continua sendo um dos principais fatores de degradação da Amazônia, mesmo com a redução do desmatamento? De que forma os incêndios criminosos continuam se intensificando na floresta?

Bernardo Flores – As mudanças climáticas estão gerando condições cada vez mais favoráveis aos grandes incêndios. Mesmo que haja uma redução das fontes de ignição, elas continuam existindo. Basta uma fonte para gerar um incêndio de milhares de hectares quando as condições meteorológicas permitem. Os incêndios criminosos estão associados à expansão do crime organizado pela Amazônia e aos territórios ocupados.

IHU – As ações de proteção da Amazônia e das comunidades indígenas que vivem em seu entorno têm sido eficientes no governo atual? Como a sabedoria indígena contribui para manter a floresta viva?

Bernardo Flores – O governo atual tem contribuído significativamente para fortalecer as políticas voltadas aos povos indígenas. Hoje, o maior desafio é conter a expansão do crime organizado, que gera conflitos graves, violência e degradação dos territórios indígenas. O conhecimento ancestral ecológico desses povos é fundamental para aumentar nossa capacidade de adaptação às mudanças climáticas e para indicar soluções para a crise que vivemos, por exemplo, orientando o planejamento da restauração florestal em grande escala e a criação de uma nova economia sustentável amazônica. Porém, qualquer uso do conhecimento indígena precisa de consentimento prévio e esclarecido dos detentores do conhecimento e dos direitos à propriedade intelectual, e precisam receber papel de liderança nesses processos.

IHU – De que forma a degradação da floresta amazônica ameaça a sobrevivência dos povos indígenas isolados?

Bernardo Flores – A degradação florestal reduz a sociobiodiversidade e, portanto, os recursos fundamentais para o bem viver desses povos, que dependem quase inteiramente da floresta para obtenção de água, alimento, moradia e medicina.

IHU – Quais são os principais desafios no combate à mineração ilegal em uma região tão extensa como a Amazônia?

Bernardo Flores – É preciso combater o avanço do crime organizado em geral, o que demanda uma ação integrada com instituições internacionais, nacionais, estaduais e municipais. O garimpo ilegal é apenas uma das atividades econômicas desses grupos que incluem atividades lícitas (por exemplo, produção de gado) e ilícitas (por exemplo, garimpo, tráfico de drogas e madeira), com participação de empresas e lideranças políticas.

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