O racismo em código

A Copa do Mundo de 2026 revelou que a supremacia branca substituiu os discursos explícitos por uma gramática de símbolos, gestos e códigos que naturaliza o preconceito e desafia as democracias contemporâneas

Por Marcio Ferreira, Le Monde Diplomatique Brasil

“O fascismo eterno ainda está ao nosso redor, às vezes em trajes civis.” A advertência de Umberto Eco, escrita há quase trinta anos, parece ter encontrado uma imagem definitiva no vagão de um metrô em Washington. Durante as comemorações dos 250 anos da independência dos Estados Unidos, uma mulher negra permaneceu sentada enquanto dezenas de homens mascarados, integrantes da organização supremacista Patriot Front, ocupavam o mesmo espaço. A fotografia, registrada pela Reuters, viralizou porque condensava, em um único enquadramento, um dos maiores paradoxos do nosso tempo: aqueles que defendem a superioridade branca escondem o próprio rosto, enquanto a vítima potencial da violência é a única plenamente identificável.

A imagem não retrata apenas um episódio isolado. Ela sintetiza uma transformação profunda na forma como a extrema direita contemporânea comunica suas ideias. Diferentemente do século XX, quando movimentos fascistas e nazistas exibiam seus símbolos de maneira ostensiva, a supremacia branca do século XXI compreendeu que sobreviver politicamente exige mudar de linguagem. O objetivo permanece o mesmo. O método, porém, tornou-se mais sofisticado.

Stuart Hall ensinou que o racismo nunca foi apenas um conjunto de crenças biológicas. Trata-se de um sistema de produção de significados que acompanha as transformações históricas das sociedades. Quando determinados discursos deixam de ser socialmente aceitáveis, eles não desaparecem; reorganizam-se. Mudam as palavras, preservam-se as hierarquias. A linguagem adapta-se aos limites morais de cada época sem abandonar sua função política.

É exatamente esse movimento que observamos na expansão contemporânea dos grupos supremacistas. Em entrevista recente, o historiador Odilon Caldeira Neto, disse que o supremacismo branco contemporâneo deve ser compreendido como um “amálgama” de organizações com referências ideológicas variadas, que compartilham uma linguagem comum, ainda que possuam diferenças entre si. Nesse campo encontram-se nacionalistas brancos, grupos identitários, setores da direita alternativa e organizações neonazistas.

Essa mudança não significa que o racismo tenha diminuído. Significa que ele aprendeu a operar por meio de códigos.

Os chamados dog whistles, expressão utilizada para designar mensagens compreendidas apenas por determinados grupos, tornaram-se parte importante dessa estratégia. Funcionam como um apito inaudível para a maioria das pessoas, mas perfeitamente reconhecível por aqueles que compartilham o mesmo repertório ideológico. O pesquisador explicou que esses símbolos cumprem exatamente essa função: permitem o reconhecimento entre extremistas ao mesmo tempo em que dificultam sua responsabilização pública.

Não por acaso, Roland Barthes lembrava que os signos nunca são inocentes. Em Mitologias, mostrou que objetos, imagens e gestos cotidianos podem ser apropriados pela ideologia e passar a carregar significados muito além de sua aparência imediata. Um gesto deixa de ser apenas um gesto quando passa a funcionar como linguagem política.

Foi exatamente isso que a Copa do Mundo de 2026 colocou em evidência.

A Copa do Mundo e a nova linguagem do racismo

Antes da partida entre Alemanha e Curaçao, o árbitro de vídeo australiano Shaun Evans foi acusado de realizar um gesto associado ao White Power. A FIFA abriu investigação, concluiu que o movimento havia sido involuntário e encerrou o caso sem qualquer punição. A decisão, do ponto de vista disciplinar, encerrou o processo. Do ponto de vista sociológico, entretanto, inaugurou um debate muito mais relevante.

O problema nunca esteve apenas na intenção individual do árbitro.

O episódio tornou visível algo maior: determinados símbolos passaram a ocupar uma zona cinzenta na comunicação contemporânea. São suficientemente conhecidos para despertar suspeitas e suficientemente ambíguos para impedir conclusões definitivas. Essa ambiguidade constitui precisamente sua força política.

O Brasil conheceu uma situação semelhante em março de 2021, quando Filipe Martins, então assessor especial para Assuntos Internacionais do então presidente da república Jair Bolsonaro, realizou gesto idêntico durante uma sessão do Senado Federal. O caso provocou intensa repercussão política e jurídica, culminando em condenação pela Justiça Federal por racismo e incitação ao preconceito racial. Não foi apenas o desenho formado pelos dedos que esteve em julgamento, mas o contexto político em que o gesto foi realizado.

Pierre Bourdieu ajuda a compreender esse fenômeno. Os símbolos não possuem eficácia por si mesmos. Seu poder decorre da posição social de quem os emite, das instituições que os legitimam e do universo cultural em que circulam. O mesmo gesto pode significar aprovação em uma situação e representar adesão a uma ideologia extremista em outra. É o contexto que produz o sentido.

Também por isso seria um equívoco interpretar qualquer gesto semelhante como manifestação automática de supremacismo branco. Mas seria igualmente ingênuo ignorar que movimentos extremistas se apropriam deliberadamente de símbolos cotidianos para dificultar sua identificação.

A Copa do Mundo revelou outro aspecto igualmente inquietante.

Dentro dos gramados, o protocolo oficial da FIFA contra o racismo foi acionado apenas uma vez, durante a partida entre Argentina e Egito. Fora deles, entretanto, o cenário foi completamente distinto. O sistema de monitoramento digital da entidade registrou aumento de aproximadamente 1.200% nas mensagens de ódio em relação ao Mundial anterior. Das cerca de 89 mil publicações abusivas identificadas durante a fase de grupos, aproximadamente 11% continham conteúdo explicitamente racista. Mais de uma centena de postagens atingiu os critérios necessários para subsidiar medidas judiciais.

Essa discrepância revela uma transformação decisiva.

O racismo contemporâneo nem sempre se manifesta diante das câmeras. Muitas vezes ele migra para o ambiente digital, onde encontra anonimato, velocidade de circulação e comunidades dispostas a compartilhar a mesma gramática simbólica.

Achille Mbembe observa que a raça permanece como uma das principais tecnologias de organização do poder moderno, mesmo quando deixa de aparecer de maneira explícita. Em outras palavras, o desaparecimento do vocabulário biológico não implica o desaparecimento das estruturas de exclusão. Elas apenas assumem novas formas discursivas.

O futebol oferece um exemplo eloquente dessa transformação. As seleções nacionais tornaram-se, talvez como nunca antes, retratos da diversidade étnica de seus países. Atletas negros, descendentes de imigrantes e integrantes de diferentes grupos culturais passaram a representar as cores nacionais. É justamente essa diversidade que movimentos supremacistas procuram combater ao defender uma identidade nacional homogênea, branca e excludente.

Não por acaso, episódios de racismo envolvendo jogadores, torcedores e dirigentes continuam a surgir em diferentes países, inclusive na América do Sul. A recorrência desses casos demonstra que a disputa não acontece apenas em torno de um resultado esportivo. O que está em jogo é a própria definição de pertencimento nacional.

Norbert Elias mostrou que sociedades constroem continuamente fronteiras simbólicas entre “estabelecidos” e “outsiders”. O racismo constitui uma das formas mais eficientes de produzir essa separação. Ao definir quem pertence e quem deve permanecer à margem, reforça relações de poder que ultrapassam muito o campo esportivo.

É nesse ponto que a reflexão de Odilon Caldeira Neto ganha dimensão internacional. Segundo o pesquisador, seria um erro tratar a supremacia branca como um problema exclusivamente norte-americano. A extrema direita contemporânea desenvolveu uma intensa capacidade transnacional de circulação de símbolos, discursos e estratégias. As redes sociais reduziram fronteiras, aceleraram o compartilhamento de códigos e ampliaram extraordinariamente a capacidade de recrutamento desses movimentos.

Hannah Arendt advertia que os regimes totalitários não surgem apenas da violência organizada. Eles dependem, antes de tudo, da naturalização de categorias que distinguem quem merece pertencer plenamente à comunidade política e quem passa a ser visto como ameaça permanente. Antes da exclusão jurídica, instala-se a exclusão simbólica.

Talvez seja exatamente isso que a fotografia do metrô em Washington nos obrigue a enxergar.

Ela não mostra apenas homens mascarados.

Mostra uma ideologia que aprendeu a esconder o rosto sem abandonar o preconceito.

Mostra uma linguagem que já não necessita repetir abertamente a superioridade racial para continuar produzindo seus efeitos.

Mostra que, na sociedade das plataformas digitais, a supremacia branca compreendeu que símbolos podem ser mais eficazes do que discursos, gestos podem circular mais rapidamente do que manifestos e códigos podem recrutar com maior eficiência do que palavras de ordem.

O racismo não desapareceu.

Ele apenas aprendeu uma nova gramática.

E reconhecê-la talvez seja uma das tarefas mais urgentes das democracias contemporâneas.

Marcio Ferreira é jornalista, sociólogo e doutorando em Sociologia Política no IUPERJ/UCAM.

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