Escrevendo do cárcere a que o fascismo o condenara, por volta de 1930, Antonio Gramsci fixou em poucas linhas a definição de crise que o século seguinte não conseguiu aposentar: “a crise consiste precisamente no fato de que o velho morre e o novo não pode nascer; neste interregno verificam-se os fenômenos mórbidos mais variados”. Raras épocas ofereceram à observação tanta matéria quanto esta. É no interior de um interregno assim, entre uma hegemonia que já não organiza o mundo e uma ordem que ainda não tem nome, que se situa a entrevista a seguir.
A moldura teórica que Eden Pereira mobiliza para ler esse interregno tem genealogia precisa. Da análise dos sistemas-mundo, fundada pelo sociólogo Immanuel Wallerstein, Giovanni Arrighi extraiu duas noções que atravessam esta conversa: os ciclos sistêmicos de acumulação, desenvolvidos em O Longo Século XX (1994), e o caos sistêmico, examinado em Caos e Governabilidade no Moderno Sistema Mundial (1999, em coautoria com Beverly Silver). O caos sistêmico nomeia o momento em que uma hegemonia se desfaz sem que nenhuma potência consiga ainda impor um ordenamento sucessor.
Formado em História pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), mestre em História Comparada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e doutorando em fase de conclusão no mesmo Programa de Pós-Graduação, Eden Pereira integra desde a graduação o NIEAAS, coordenado pela professora doutora Beatriz Bissio, historiadora e jornalista que dirigiu por três décadas os Cadernos do Terceiro Mundo e entrevistou, ao longo de sua trajetória, figuras como Nelson Mandela, Yasser Arafat, Julius Nyerere e Fidel Castro. Professora associada do Departamento de Ciência Política do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ (IFCS), do qual foi vice-diretora entre 2022 e 2024, Bissio pertence à linhagem rara dos que estudaram o século XX depois de tê-lo atravessado com um gravador na mão. É desse convívio que Pereira herdou seu método: a atenção simultânea às estruturas de longa duração e ao acontecimento imediato, sem permitir que uma dissolva a outra.
Essa formação explica por que sua voz circula hoje para além do ambiente estritamente acadêmico. Pereira tornou-se analista requisitado em dois circuitos distintos de comunicação: a Agência Brasil, da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), empresa pública federal, e a Sputnik Brasil, serviço em língua portuguesa da agência estatal russa de notícias. Essa dupla inserção, na comunicação pública brasileira e na mídia estatal russa, explica tanto o seu acesso a leituras que circulam em Moscou quanto o ângulo de parte de suas análises, e o leitor a terá presente ao longo da conversa.
Nesse duplo circuito, publicou análises que precedem o agravamento aqui descrito: “Líder anti-imperialista em Burkina Faso, Traoré se destaca na África” (Agência Brasil, maio de 2025), sobre o realinhamento do Sahel à luz do pan-africanismo de Thomas Sankara e Patrice Lumumba; “Do grão à engrenagem: como os países podem aproveitar a experiência dentro do BRICS” e “BRICS e parceria com o Brasil impulsionam a modernização agrícola na Indonésia” (ambas Sputnik Brasil, junho de 2026), sobre a cooperação agroindustrial Sul-Sul como vetor concreto da multipolaridade; “Movimento afro-eurasiático tem sido mais forte com Rússia e China na África” (Sputnik Brasil, maio de 2026); e “EUA e Europa querem ‘performar’ diplomacia, em vez de chegar à paz na Ucrânia” (Sputnik Brasil, fevereiro de 2026).
No plano acadêmico, assina capítulos da obra coletiva O Caminho da Vitória: de Moscou a Berlim, organizada por Francisco Carlos Teixeira da Silva e João Claudio Platenik Pitillo, colaborou em livro anterior dedicado à Grande Guerra Patriótica e assina verbetes do Dicionário Crítico dos Fascismos. Para o fim deste ano, tem contratado um livro derivado de sua dissertação de mestrado, que compara a reforma e abertura chinesa com a perestroika soviética.
O peso específico desta entrevista, porém, não vem apenas do currículo de quem responde. Vem do calendário. Desde 3 de janeiro de 2026, quando forças norte-americanas capturaram em Caracas o presidente venezuelano Nicolás Maduro (seis anos, dia por dia, depois do assassinato do general iraniano Qasem Soleimani em Bagdá), e desde 28 de fevereiro, quando ataques aéreos conjuntos dos Estados Unidos e de Israel mataram o líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, sucedido em 8 de março por seu filho Mojtaba Khamenei, o mundo deixou de discutir se uma ordem está se rompendo. Discute em que direção se movem os seus fragmentos. O fechamento do Estreito de Ormuz, decretado por Teerã em resposta aos bombardeios e sustentado, entre escaladas sucessivas, até os primeiros dias de julho, transformou essa pergunta em variável da economia global. E a tarifa de 25% imposta a produtos brasileiros com base na Seção 301 do Trade Act norte-americano de 1974 trouxe a mesma pergunta para dentro da economia doméstica, sobretudo porque veio acompanhada de uma exigência revelada em carta de janeiro: a de que o Brasil restrinja investimentos chineses em seu setor mineral.
Há uma imagem que ilumina este instante melhor do que qualquer categoria de gabinete, e ela pertence a um morto. Em 13 de setembro de 2014, no Sacrário Militar de Redipuglia, no nordeste da Itália, diante dos túmulos da Primeira Guerra Mundial, o papa Francisco declarou que o mundo já vivia uma “terceira guerra mundial em pedaços”, fórmula que esboçara semanas antes, em conversa com jornalistas no voo de retorno da Coreia do Sul. Repetiu-a por quase uma década, a propósito da Síria, do Iêmen, da Ucrânia, até corrigi-la em junho de 2022, em conversa publicada pela revista La Civiltà Cattolica: “para mim, hoje, a Terceira Guerra Mundial foi declarada”. Francisco morreu em abril de 2025. A imagem sobreviveu ao seu autor. E os pedaços, que em 2014 pareciam recortes dispersos de um mosaico distante, têm agora nome e coordenadas: Caracas, Teerã, o Estreito de Ormuz, a fronteira tarifária entre Brasília e Washington. Na leitura que Eden Pereira desenvolve nesta entrevista, são frentes de um mesmo processo de recomposição hegemônica, cujo desfecho, ele é o primeiro a reconhecer, permanece radicalmente em aberto.
O leitor encontrará aqui, entre outras contribuições, uma distinção jurídica que reorganiza o debate brasileiro sobre o tarifaço: a diferença de natureza entre as tarifas fundadas em declaração presidencial de emergência (a via da IEEPA, já parcialmente derrubada pela Justiça norte-americana) e as fundadas na Seção 301, de reversão muito mais difícil. Encontrará uma crítica frontal à tese, defendida por setores do governo, de adiar a aplicação da Lei de Reciprocidade Econômica para depois das eleições. E encontrará uma leitura de prognóstico sobre a discussão, em curso em Moscou, de ataques preventivos contra países europeus que armam a Ucrânia, com o risco de escalada nuclear que essa discussão carrega. O próprio entrevistado a apresenta como hipótese em avaliação, não como fato consumado.
Eden Pereira é historiador comparativista do tempo presente, doutorando do Programa de Pós-Graduação em História Comparada da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGHC/UFRJ) e pesquisador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre África, Ásia e as Relações Sul-Sul (NIEAAS/UFRJ).
A entrevista foi concedida por teleconferência a Thiago Gama, mestre e doutorando do Programa de Pós-Graduação em História Comparada da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Eis a entrevista.
Poderia apresentar a sua trajetória acadêmica a partir do desenvolvimento das suas pesquisas de mestrado e doutorado, detalhando as contribuições da sua dissertação, o panorama de suas publicações científicas e a relevância da sua inserção no NIEAAS/UFRJ, bem como o impacto de suas experiências de intercâmbio na China e na Rússia para a sua consolidação intelectual?
Eden Pereira – Quanto à minha formação acadêmica, sou bacharel e licenciado em História pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Sou mestre em História Comparada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e atualmente curso o último ano do doutorado no mesmo Programa de Pós-Graduação em História Comparada da UFRJ.
Entre as atividades acadêmicas extracurriculares, participei, no ano passado, como aluno visitante da Universidade Tsinghua, de um curso híbrido com duração de seis meses, voltado a estudantes tanto residentes na China quanto no exterior, dedicado ao tema da China e do mundo em desenvolvimento. Participei de forma remota, a partir do Brasil, com o objetivo de promover trocas de conhecimento entre os participantes.
Em termos de publicações, integrei, ao lado de outros autores, a obra coletiva O Caminho da Vitória: de Moscou a Berlim, organizada pelos professores Francisco Carlos Teixeira da Silva e João Claudio Platenik Pitillo, na qual assino capítulos sobre a Segunda Guerra Mundial e a participação soviética no conflito. Participei também de um livro anterior sobre a Grande Guerra Patriótica, dedicado à atuação da União Soviética naquele conflito. Colaborei, ainda, com o Dicionário Crítico dos Fascismos, organizado pelo professor Francisco Carlos Teixeira da Silva e outros pesquisadores, assinando alguns verbetes sobre o tema.
Além dessas produções, tenho um livro programado para o final deste ano, já com editora confirmada, derivado da minha dissertação de mestrado, que compara a reforma e abertura na China com a perestroika na União Soviética. Pretendo desdobrar essa dissertação em diferentes publicações; a primeira delas, prevista para sair ainda neste ano, tratará especificamente da perestroika soviética. Prefiro, por ora, não divulgar o título, mas posso adiantar que o tema é o das reformas soviéticas e da perestroika.
Essas são as contribuições acadêmicas mais recentes; há outras, mais antigas, que também compõem meu currículo. Atualmente, atuo também como uma espécie de analista internacional, concedendo entrevistas regulares à Agência Brasil e à Sputnik Brasil sobre temas de política internacional contemporânea.
A carta que o governo americano enviou ao Brasil em janeiro, revelada há poucos dias, condiciona qualquer alívio na tarifa a algo bastante específico: que o Brasil imponha restrições a investimentos chineses considerados “não orientados pelo mercado” no setor mineral e favoreça empresas americanas nas operações. Ou seja, o desconto não é vendido como resposta a uma prática comercial desleal, mas como recompensa pelo rompimento de um vínculo com um terceiro país. Esse tipo de exigência, historicamente, não costuma aparecer no início de uma disputa entre grandes potências, quando ainda é possível fingir neutralidade; aparece quando essa neutralidade deixa de ser tolerada como opção por qualquer um dos lados. Na sua leitura, o Brasil já cruzou essa fronteira invisível, mesmo sem nenhum comunicado formal anunciando isso, ou ainda existe espaço real de manobra entre os dois lados?
Eden Pereira – Penso que não existe mais, hoje, espaço de manobra nas negociações com os Estados Unidos, sobretudo depois da decisão que tomaram, na semana passada, de encerrar unilateralmente as negociações. Considero isso uma tragédia anunciada, em razão de uma série de sinais que já vínhamos observando ao longo do último ano.
É importante notar que as tarifas impostas pelos Estados Unidos ao Brasil têm naturezas distintas dentro do direito americano. Algumas decorrem de prerrogativas do presidente e podem ser barradas por outras instituições do país; foi o que ocorreu, por exemplo, quando a Suprema Corte dos Estados Unidos derrubou parte das tarifas aplicadas contra o Brasil. Outras, porém, como a recente tarifa de 25% sobre diversos produtos brasileiros, que encerrou as negociações, foram estabelecidas por um mecanismo diferente: a chamada Seção 301, instituída nos anos 1970.
Isso se relaciona diretamente com a carta que você mencionou e com as acusações de práticas contrárias ao livre mercado, principal argumento utilizado pelos Estados Unidos nesse processo. A Seção 301 permite ao presidente norte-americano aplicar tarifas ou medidas de sanção contra países que, na avaliação de Washington, não praticam uma economia de mercado.
Esse instrumento foi utilizado, nos anos 1970, sobretudo contra países de economia planificada que compunham o antigo bloco socialista, ainda que nem todos os países de economia planificada pertencessem a esse bloco. Muitos deles receberam sanções que funcionavam como estímulo para que, no futuro, viessem a integrar instituições como o GATT, hoje Organização Mundial do Comércio (OMC), obrigando-os a abandonar suas economias planificadas para se inserir no sistema de mercado construído pelos Estados Unidos desde o fim da Segunda Guerra Mundial.
A Seção 301 é conduzida por representantes da presidência dos Estados Unidos, da Secretaria de Comércio, da Secretaria do Tesouro e do Escritório do Representante Comercial (USTR), instituições ligadas ao poder político eleito no país. Foi a partir desse instrumento que o Brasil recebeu as sanções em questão. No ano passado, chegou a circular a informação de que as tarifas contra o Brasil poderiam cair, com base no argumento de que, tendo a Suprema Corte derrubado parte das sanções, as demais também poderiam ser revistas. Isso abriu uma janela de negociação com os Estados Unidos, mas a investigação vinculada à Seção 301, iniciada no ano anterior, jamais foi encerrada. Uma das exigências do governo brasileiro era justamente o encerramento dessa investigação como condição para avançar nas negociações tarifárias, o que não ocorreu.
O Brasil não avançou nas demandas apresentadas pelos Estados Unidos, que, como você mencionou, estão diretamente relacionadas às atividades permitidas no país, sobretudo no setor mineral e extrativo, em sua relação com a economia chinesa, hoje de importância crucial para a economia brasileira e para muitas empresas nacionais, cujos vínculos econômicos são, por vezes, mais próximos da China do que dos Estados Unidos. A economia mundial mudou completamente, e o Brasil acompanhou esse deslocamento da centralidade dinâmica do Atlântico Norte para a região da Ásia-Pacífico em diversos setores.
Desacoplamento: a NATO 2030 e a desdolarização em curso
Entendo que essas demandas dos Estados Unidos partem de uma estratégia mais ampla, voltada ao desacoplamento entre os sistemas produtivos controlados por Washington e a cadeia produtiva chinesa. Esse objetivo remonta, pelo menos, ao período da pandemia, quando foi aprovado um documento estratégico entre os países da OTAN, conhecido como NATO 2030, cujo propósito era reorganizar as cadeias produtivas globais em razão das falhas expostas pela pandemia de covid-19, capacitando os países do bloco ocidental a controlar as principais cadeias de suprimento consideradas estratégicas para a segurança nacional.
O Brasil, por deter grande parte desses recursos, é considerado um ativo essencial para essa estratégia, tanto do ponto de vista mineral quanto agrícola, já que o país é um dos maiores produtores e exportadores de alimentos do mundo, com participação decisiva na formação dos preços internacionais de grãos e de carnes. A questão que se coloca é como reorganizar, ou recentralizar, essas cadeias produtivas sob o controle do Atlântico Norte sem a presença brasileira, ou, alternativamente, como reincorporar o Brasil a esse arranjo.
É importante frisar que o tarifaço não atinge apenas o Brasil, mas diversos outros países, e tem por objetivo reorganizar de maneira extremamente agressiva essas cadeias produtivas em nível global. A administração Biden já havia adotado medidas para restringir a presença de capitais chineses em setores considerados estratégicos, como o mineral, o alimentício e o de bens de consumo, mas com efeitos limitados. A administração Trump avança nesse processo, sobretudo no campo financeiro, em razão do processo de desdolarização da economia global, que já vem ocorrendo há vários anos.
Esse avanço se expressa no tarifaço, que atinge boa parte dos blocos da economia mundial, e o Brasil é um ator-chave nesse cenário, tanto por sua participação nos Brics quanto por sua relevância política e econômica. A relação do Brasil com a China é considerada de importância crucial para os Estados Unidos, porque o Brasil acaba se tornando também uma porta de entrada da China na América Latina, região que Washington considera parte de sua esfera de influência. Os Estados Unidos acreditam que, por meio dessas restrições e desse protecionismo, conseguirão retomar a centralidade do comércio com o Brasil, além de utilizar essas medidas como forma de pressão política, na tentativa de alinhar os grupos e as classes dominantes do país aos seus interesses.
Essa estratégia está, inclusive, consolidada na Estratégia de Segurança Nacional aprovada pelos Estados Unidos no ano passado, que estabelece a necessidade de redirecionar os interesses das economias latino-americanas, e não apenas da economia brasileira, em relação à China e aos demais países dos Brics, oferecendo uma alternativa a Pequim. Ocorre que os Estados Unidos não possuem hoje a mesma capacidade produtiva para oferecer essa alternativa; o que têm a oferecer está relacionado principalmente à financeirização decorrente do sistema dolarizado vigente. Isso é reconhecido pelos próprios líderes do capital financeiro norte-americano, quando afirmam que o problema central relacionado ao tarifaço não está exatamente no comércio em si, mas no fato de que, no sistema dolarizado, os países adquirem dólares nos Estados Unidos, lucram em dólar e retornam esse valor às suas economias de origem, sem que ele circule na economia norte-americana. Isso é visto como extremamente prejudicial pelos Estados Unidos, que desejam que esse valor permaneça dentro de sua própria economia, à semelhança do que ocorre com o fluxo migratório, em que trabalhadores latino-americanos e de outras regiões ganham seus salários em dólar nos Estados Unidos e os enviam a seus familiares no exterior, sem que esse dinheiro retorne à economia americana.
As tarifas também são uma forma de impedir essa conversão, inicialmente estabelecida pelo próprio sistema de Bretton Woods. Trata-se, portanto, do estabelecimento de um novo sistema de relações de troca que os Estados Unidos tentam impor em nível internacional sob a atual administração, e as tarifas são um instrumento para implementar, de forma agressiva, essa série de doutrinas aprovadas desde o início desta década, voltadas ao controle das cadeias produtivas. A divulgação da carta relacionada ao desligamento entre a economia brasileira e a chinesa é, nesse sentido, mais um elemento dessa estratégia norte-americana de hegemonia sobre as cadeias produtivas em nível global.
Houve certo otimismo por parte do governo brasileiro quando Lula esteve na Casa Branca. Não houve entrevista coletiva conjunta dos dois líderes, mas, pelo que vimos e pelo que os brasileiros em geral perceberam, pareceu haver certa sintonia entre Lula e Trump. Você pode nos explicar aquele momento: foi otimismo? Foi vazio? O que representou aquele encontro na Casa Branca, em que os dois apertaram as mãos e sorriram para fotógrafos, e que pareceu sinalizar um destravamento das tarifas, mas que, ao final, não resultou em nada, voltando os países a um cenário de afastamento?
Eden Pereira – Desde que foram levantadas as primeiras possibilidades de tarifas contra o Brasil, no ano passado, o governo brasileiro se esforçou para tentar reduzir, e mesmo reverter, essas medidas. Considero importante essa tentativa de negociação: o Brasil evidentemente tinha de buscar um caminho para diminuir, ou até eliminar, a possibilidade de tarifação sobre a economia brasileira.
Lula já havia tido uma reunião com o governo americano anterior e, posteriormente, foi pessoalmente aos Estados Unidos. Essa viagem ocorreu por dois motivos: primeiro, porque, naquele momento, havia tensões relacionadas ao Irã; segundo, porque as negociações sobre as tarifas não estavam avançando. Lembro que, naquela semana, criou-se a expectativa de que o Brasil acertaria as contas com os Estados Unidos, com comentários de que as tarifas cairiam e de que Trump considerava Lula “um cara legal”. Mas existe uma distinção entre a imagem construída pela política e a prática política em si. Os Estados Unidos, como conversamos, não encerraram a investigação da Seção 301 relacionada às práticas comerciais atribuídas ao Brasil. Lula foi à Casa Branca, entre outros motivos, para tentar avaliar como estava essa relação e se seria possível encerrar aquela investigação.
Posteriormente, ficou claro que o governo Trump adotou uma espécie de “enrolação”, na minha avaliação. Evidentemente, ele não iria expulsar Lula da Casa Branca ou ignorá-lo publicamente, porque Lula é uma das grandes lideranças do Sul Global e da América Latina; não haveria como simplesmente desconsiderar essa visita, até porque foi o próprio Lula quem foi negociar em solo americano. Avalio essa iniciativa como importante, mas, a partir do momento em que ficou claro que as coisas não avançariam, o governo brasileiro precisaria adotar medidas para se preparar para o pior cenário, o que, a meu ver, até agora não aconteceu.
O que ficou daquele encontro foi a impressão, internamente, de que Lula saiu fortalecido, de que havia negociado, de que Trump prometera analisar a situação e de que as coisas pareciam caminhar bem. Isso criou a sensação de que a questão das tarifas poderia ser revertida ou ao menos reduzida. Só que a decisão dos Estados Unidos de tarifar o Brasil, e isso precisa ser avaliado com cuidado, não decorre apenas de motivações ideológicas ou eleitorais ligadas a Bolsonaro, nem exclusivamente de questões econômicas específicas, como os minerais críticos. Esses elementos ajudam a explicar o processo, mas não constituem sua natureza central.
O que estamos observando é uma reorientação estratégica nas relações entre Estados Unidos e Brasil, na qual Washington demanda do Brasil uma posição clara diante da disputa entre os Estados Unidos e a China, e o Brasil vem se recusando a tomar partido, a despeito das pressões existentes. Essa recusa em assumir um lado é, ela própria, interpretada pelos Estados Unidos como uma posição política, o que os leva a adotar uma estratégia de médio e longo prazo voltada a subordinar politicamente o Brasil dentro da sua esfera de influência. É isso que explica a ausência de uma resposta brasileira à altura: temos instrumentos, como a Lei de Reciprocidade Econômica, para responder no curto prazo, mas falta uma resposta estratégica de médio e longo prazo.
Os Estados Unidos passaram a tratar o Brasil como adversário estratégico dentro do seu próprio hemisfério, o que, com a devida vênia às palavras do próprio Lula, caracteriza uma guerra comercial. A relação entre os dois países mudou completamente de figura em comparação ao período posterior à Segunda Guerra Mundial: tornou-se uma relação de confronto. Isso precisa ser pensado estrategicamente, e não adianta apostarmos em uma eventual mudança na conjuntura política americana, ou em mecanismos como a Organização Mundial do Comércio, hoje em crise profunda, para reverter esse quadro. É possível reverter algumas tarifas específicas e reduzir certos impactos, mas isso não mudará o fato de que o Brasil foi definido como adversário estratégico dos Estados Unidos no continente, e que seremos pressionados por diversos meios, quaisquer que sejam.
Digo isso sem medo de errar, porque os Estados Unidos necessitam dessa composição com o Brasil, dentro do bloco que está sendo reorganizado hoje em nível global, para sua estratégia de médio prazo de confronto com o eixo multipolar emergente, centrado sobretudo na Ásia, mas que já conta também com potências em ascensão no continente africano, compondo essa nova ordem internacional ainda em formação, sem contornos claros. Vivemos um momento que diversos autores, a partir das teorias do sistema-mundo, sobretudo de Immanuel Wallerstein, chamam de caos sistêmico: uma quebra de hegemonia, em que não há um ordenamento claro liderado por um país, bloco ou grupo de países, mas sim um desordenamento e o início de disputas de diferentes naturezas, militares e econômicas, que tendem, ao final do processo, a uma nova estabilização e reorganização. Foi o que ocorreu no início do século XX, com as guerras mundiais que geraram caos generalizado, seguido, ao final da Segunda Guerra Mundial, pelo estabelecimento de um sistema baseado nos acordos de Bretton Woods, que criou as Nações Unidas, o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial e outras instituições que fundamentam, ainda hoje, embora já bastante desgastadas, a atual ordem internacional, a qual passa justamente por esse processo de caos sistêmico.
Diante disso, os Estados Unidos fazem um esforço considerável para forçar o Brasil a se integrar a esse bloco liderado por eles e pelos demais países do eixo euro-atlântico, algo necessário para sua estratégia de médio e longo prazo. Nesse contexto, o Brasil, sobretudo o governo brasileiro, precisa desenvolver um pensamento estratégico voltado a esse cenário, que deverá prevalecer nos próximos anos. Manter uma posição de neutralidade nesse momento de fragmentação do sistema internacional pode gerar alívios pontuais, mas também riscos políticos e econômicos, considerando que o Brasil está inserido em um continente cuja principal potência são os próprios Estados Unidos, com quem mantemos vínculos históricos, ideológicos e culturais profundos. A partir do momento em que esses vínculos passam a ser rompidos, não por iniciativa brasileira, mas pelos Estados Unidos, torna-se necessário elaborar uma estratégia de médio e longo prazo que vá além de administrar pontualmente questões como as tarifas ou a ingerência norte-americana no processo eleitoral brasileiro, com o apoio explícito a determinado candidato à Presidência da República.
Essas são questões pontuais de curto e médio prazo. A questão estratégica central, que abrange a definição do Brasil como adversário estratégico, precisa orientar não apenas nossa relação com os Estados Unidos, mas também com a China, com a Rússia e com os demais países nesse momento de caos sistêmico. Hoje, mantemos uma estratégia baseada em relações comerciais, parcerias diplomáticas e culturais pontuais, sem uma abordagem mais ampla envolvendo determinados países e blocos, e talvez seja necessária uma abordagem mais abrangente para enfrentar esse desafio de médio e longo prazo que se coloca para nós nas Américas, sobretudo considerando o processo de isolamento político por que passa o Brasil na região, em razão das recentes mudanças eleitorais no continente, especialmente na Argentina, que nos últimos anos passou a integrar não apenas a arquitetura econômica liderada pelos Estados Unidos e pela Europa Ocidental, mas também uma arquitetura militar que coloca o Brasil em situação de vulnerabilidade estratégica.
Você já afirmou que o vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, defende que a Lei de Reciprocidade, isto é, as tarifas aplicadas a produtos americanos, seja aplicada apenas após a eleição, ou mesmo apenas se Lula for reeleito para um quarto mandato. Você foi incisivo ao afirmar que a Lei de Reciprocidade deveria ser aplicada imediatamente. Poderia nos explicar por que defende a aplicação imediata das tarifas e por que considera equivocada a posição do vice-presidente?
Eden Pereira – Considero que a opção de adiar o estabelecimento da reciprocidade, avaliação presente em parte do governo, e da qual o vice-presidente Geraldo Alckmin é um dos representantes, parte da expectativa de que ainda existirá espaço para negociação, o que permitiria não apenas adiar, mas reverter as tarifas. Alckmin, outros membros do governo e alguns setores do empresariado acreditam que, entre agora e novembro, ocorrerão dois eventos relevantes: as eleições no Brasil, em outubro, e as eleições para a Câmara dos Representantes nos Estados Unidos, em novembro.
Esses eventos são considerados importantes porque, no Brasil, ainda está em curso todo um processo eleitoral do qual Lula deve participar, e a aplicação da reciprocidade nesse momento, segundo essa leitura, poderia atrapalhar a estratégia eleitoral do governo, embora eu não veja essa relação como certa, já que não há pesquisas que comprovem esse efeito. Existe também a expectativa de que os democratas conquistem a maioria na Câmara dos Representantes e de que, a partir disso, seja possível negociar a reversão do tarifaço junto ao governo americano.
Considero esses dois pressupostos equivocados. Primeiro, não está garantido que os democratas vençam as eleições americanas: faltam ainda três meses, e o cenário político nos Estados Unidos permanece extremamente polarizado, como mostram os índices de aprovação e desaprovação de Trump, mesmo diante de toda a crise relacionada à guerra no Irã. Segundo, mesmo que os democratas vençam, não está claro que aceitariam reverter as medidas tarifárias contra o Brasil, pois isso depende de variáveis que não se confirmam automaticamente na política americana.
A história recente dos Estados Unidos mostra poucos casos de reversão de tarifas e sanções depois de aplicadas. Os exemplos que conheço são os da Rússia e da China. A Rússia sofreu sanções nos anos 1990, relacionadas ao período soviético, que foram parcialmente revertidas com a entrada do país na Organização Mundial do Comércio, mas algumas ex-repúblicas soviéticas ainda hoje sofrem sanções derivadas daquele período. A China, por sua vez, passou por um longo processo de idas e vindas até sua entrada na OMC, ao longo dos anos 1990. Portanto, considero pouco provável que, uma vez sofridas as sanções, o Brasil consiga revertê-las com facilidade, até porque não temos o mesmo poder político, militar e econômico que a Rússia e a China possuem.
Mesmo que ocorra alguma mudança na conjuntura política americana, isso não garante a reversão do quadro atual. Há, inclusive, dentro do próprio governo brasileiro, pessoas que defendem que o Brasil deveria aplicar a reciprocidade de forma seletiva, o que constitui uma discussão paralela sobre se a resposta deve incidir seletivamente ou nos mesmos setores atingidos pelas tarifas americanas. Seja como for, apostar na possibilidade de reversão desconsidera que os Estados Unidos já estão, na prática, mudando sua relação comercial com o Brasil. No último ano, segundo pesquisas publicadas, os Estados Unidos já reduziram a compra de determinados produtos industrializados e minerais brasileiros, adquirindo-os de outras partes do mundo. O impacto econômico direto dessa redução pode ser substituído por outros mercados, mas o gesto revela uma estratégia deliberada de reorganização das relações econômicas do Brasil, baseada na reprimarização de nossa economia.
Ao longo dos últimos trinta anos, o Brasil comercializou com os Estados Unidos exportando também muitos produtos industriais, tendo a Argentina e os Estados Unidos como seus dois principais mercados nesse segmento. Hoje, a Argentina enfrenta problemas graves em sua relação com o Mercosul, o que já intensifica o processo de desindustrialização brasileira. Se o nosso principal mercado de produtos industrializados também passa a comprar menos desses produtos, o processo de desindustrialização tende a se aprofundar. Trata-se, portanto, também de uma estratégia política dos Estados Unidos em relação à nossa economia, na medida em que os setores industriais não estão necessariamente tão alinhados aos interesses americanos quanto o agronegócio, cujo financiamento é, em grande medida, controlado por empresas e fundos financeiros estadunidenses, apesar de o Brasil exportar boa parte de sua produção agrícola para a China e outros países asiáticos.
Diante disso, considero equivocada a posição dos que defendem aplicar a Lei de Reciprocidade apenas no “momento adequado”, na expectativa de reverter as negociações, porque isso significa tratar como um problema estritamente comercial algo que, no meu entendimento, é essencialmente um problema político de médio e longo prazo. Há, inclusive, figuras dentro da política brasileira, como o presidente da Câmara dos Deputados, e diversos outros parlamentares na Câmara e no Senado, que já defendem a aplicação imediata da reciprocidade, justamente por seus impactos diretos sobre setores relevantes da economia.
Alguns argumentam que o número de produtos atingidos pelas tarifas americanas já diminuiu significativamente desde o tarifaço original. Ainda assim, considerando que os Estados Unidos já reduziram a compra de certos produtos brasileiros ao longo do último ano, e que a aplicação das tarifas gera impactos concretos em setores que empregam quantidade considerável de trabalhadores, entendo que esse processo tende a se ampliar. As tarifas e sanções costumam seguir uma lógica de escalonamento, iniciando-se em determinados setores e avançando gradualmente para outros. Foi o que ocorreu com a Rússia, cujas primeiras medidas coercitivas começaram em 2014 e foram sendo ampliadas até o início da guerra na Ucrânia, em 2022. Um processo semelhante pode começar a se desenvolver silenciosamente no Brasil, iniciando-se em alguns setores e avançando até atingir aqueles que os Estados Unidos consideram estratégicos para ampliar sua influência sobre a economia brasileira.
Por isso, considero que a questão exige uma abordagem política, e não puramente comercial. A aplicação da reciprocidade é importante para oferecer uma resposta política: se o Brasil possui esse instrumento e não o utiliza, corre dois riscos principais. Primeiro, o de ser afetado diretamente pelas tarifas sem qualquer plano de contingência que garanta apoio aos setores afetados, algo que, felizmente, começou a ser discutido em reunião do governo em Brasília na última semana. Segundo, e mais importante, ao adiar a resposta na expectativa de que as negociações avancem, o país também adia a reorganização estratégica de sua própria economia e de suas cadeias produtivas, processo que não se realiza da noite para o dia, especialmente diante de uma guerra comercial que, no meu entendimento, já está em curso.
A aplicação imediata da Lei de Reciprocidade contribuiria para essa reorganização política e econômica do Brasil e de suas cadeias produtivas, dando-lhe mais autonomia em relação aos Estados Unidos e a outras potências, inclusive à própria União Europeia, que, nas últimas semanas, também adotou medidas restritivas contra produtos brasileiros. Se o Brasil não responder, transmitirá aos Estados Unidos uma mensagem de fraqueza e de vulnerabilidade, como se estivéssemos blefando ao ameaçar aplicar a reciprocidade, o que considero extremamente perigoso, tanto do ponto de vista simbólico quanto prático. Nesse momento em que estamos sendo agredidos por outro país, é preciso agir com firmeza para defender nossa soberania e demonstrar que o Brasil tem capacidade de resposta, ainda que isso gere, lamentavelmente, algum dano econômico recíproco. Trata-se de demonstrar que o Brasil não é um país sem capacidade de reação, que precisa ser respeitado e que possui poder de dissuasão em nível internacional.
Na eleição de 1989, Ronaldo Caiado, à época presidente da União Democrática Ruralista, logo, um defensor do agro; e Leonel Brizola, seguindo a mesma linha de raciocínio que você acaba de apresentar, já dizia o seguinte: o Brasil nunca poderia ser um grande país por causa das trocas desiguais no comércio internacional. Na comparação entre exportar milhões e toneladas de soja ou de trigo e exportar iPhones, cuja tecnologia embarcada tem um valor muito mais alto no sistema internacional de trocas, o Brasil precisa se esforçar imensamente para alcançar o mesmo patamar de valor agregado de seus produtos primários. Pelo que entendi do seu raciocínio, o que os Estados Unidos pretendem é desidratar ainda mais a nossa economia industrial. Você corrobora essa leitura? E, complementando: o Sudeste Asiático e a China poderiam absorver essa sobra de capacidade industrial que os Estados Unidos pretendem sufocar, ou eles não podem, ou não querem fazê-lo?
Eden Pereira – Considero que sim, podem absorver, e o governo brasileiro, inclusive o próprio presidente Lula, tem realizado uma espécie de guinada nesse sentido, buscando direcionar nossas capacidades industriais para outras partes do mundo. Foi importante, por exemplo, a visita de Lula à cúpula da Asean, ocorrida na Malásia no ano passado, além do diálogo cada vez mais estreito com a Indonésia. Temos capacidade científica, tecnológica e industrial avançada em diversos setores, como a aviônica, com a Embraer, além de setores relacionados à produção de equipamentos aeroespaciais e à agricultura. Apesar do processo de desindustrialização, o Brasil ainda é, por mais surpreendente que pareça, um dos países mais industrializados do mundo.
Dito isso, temos caminhos possíveis para reduzir nossa dependência do mercado americano, mas o grande obstáculo é que esse mercado é muito mais consolidado, com relações históricas já estabelecidas, o que torna mais difícil criar cadeias de circulação do que simplesmente aproveitar as já existentes. É compreensível, portanto, certa resistência de setores da economia brasileira, mas essa é uma decisão que precisa partir do Estado brasileiro, e não apenas dos setores empresariais.
A desindustrialização brasileira não se refere apenas à perda direta de fábricas e indústrias, embora esse efeito já seja, por si, considerável; refere-se também à nossa capacidade científica e tecnológica de inovação e de agregação de valor à cadeia produtiva. Esse processo se aprofundou muito ao longo dos últimos dez anos, sobretudo depois de 2016, em razão de uma série de medidas neoliberais adotadas às custas do povo brasileiro, que atingiram não apenas as universidades, mas também políticas de estímulo às indústrias existentes no país. Existem iniciativas em curso, articuladas pelo próprio Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, sob a liderança de Alckmin, e por outras áreas do governo, no sentido de reverter esse quadro, mas uma iniciativa que parta apenas do setor privado não é suficiente para resolver o problema. É preciso que o Estado atue, direcionando e orientando a construção da cadeia produtiva, e não apenas por meio de medidas isoladas.
Existem oportunidades concretas nesse sentido, por exemplo no Sudeste Asiático. O Brasil conta com empresas como a Embraer, que poderiam atuar na venda de aeronaves e na construção de fábricas e de bens acabados nessa região. O continente africano também carece de infraestrutura, sobretudo no setor de construção naval, em países como Namíbia e Angola, e o Brasil possui capacidade tecnológica para atuar nesse campo, ainda que comparativamente defasada. Para isso, no entanto, precisamos de uma estratégia de Estado, algo que, historicamente, tem faltado à política externa brasileira, que costuma falar da necessidade de diversificar as relações comerciais com a África e com a Ásia sem, contudo, apresentar um direcionamento setorial claro.
Quando falamos apenas em aumentar o superávit comercial brasileiro, sem especificar setores estratégicos, a estratégia se torna vazia. Retomando o exemplo da construção naval, existem países costeiros, como Namíbia e Angola, que precisam desenvolver essa indústria por razões de segurança e de comércio, e o Brasil tem empresas com capacidade de compartilhar essa tecnologia, mas, quando a abordagem se limita a apresentar um mercado consumidor, sem propor uma estratégia política de parceria, ela simplesmente não funciona. O Estado precisa definir quais são os setores estratégicos de parceria que o país pretende desenvolver com cada região, fortalecendo determinados setores de nossa economia, tanto no plano interno quanto no externo. A Embraer, por exemplo, tem forte relação com o setor agrícola; poderia haver uma estratégia voltada a estreitar parcerias com potências agrícolas em ascensão no continente africano e no continente asiático.
Falta, portanto, um direcionamento estratégico mais claro na política externa brasileira em matéria de comércio, que hoje se limita, com frequência, ao comércio pelo comércio, o que não conduz a lugar algum. O Brasil pode ter um superávit de duzentos bilhões de dólares exportando soja e outros produtos primários, mas isso não leva à complexificação de nossa cadeia produtiva, nem ao fortalecimento de nossa capacidade científica e tecnológica. O Brasil forma milhares de cientistas, mestres e doutores em diversas áreas, muitas vezes ociosos, que poderiam ser mobilizados em parcerias estratégicas de educação e saúde com outros países. A Fiocruz, por exemplo, já faz isso, ao estabelecer parcerias com países como Moçambique, mas trata-se de uma iniciativa da própria Fiocruz, e não do Estado brasileiro como um todo.
Falta, portanto, definir quais são os setores estratégicos em que o Brasil deve atuar, de modo a orientar nossa economia nesse momento de tensões políticas globais, de fragmentação das cadeias produtivas e de reorganização do comércio internacional, processo que se intensificou desde o início da pandemia. É importante destacar que, hoje, os economistas discutem amplamente essa questão, porque, durante o período da globalização neoliberal, vivido desde os anos 1990 até aproximadamente 2008 e 2009, quando teve início a crise econômica da qual o mundo ainda não se recuperou plenamente, e que se aprofundou durante a pandemia de 2020, tivemos um modelo baseado no toyotismo, em que a produção era organizada em torno da demanda: a partir dela, extraíam-se recursos naturais e produzia-se o produto a ser colocado no mercado.
Esse modelo revelou uma série de limitações, porque, com a pandemia e o fechamento dos países, a circulação global de energia, matérias-primas e outros produtos foi paralisada, obrigando os países a trabalhar com uma economia de estoque, diante da descoberta de que insumos essenciais, como máscaras e medicamentos, eram produzidos majoritariamente na Índia e na China. Isso levou à necessidade de reorganizar as cadeias produtivas também do ponto de vista geopolítico, algo que países como Estados Unidos e os da Europa perceberam e passaram a buscar, centralizando essas cadeias a partir das estratégias que já mencionei.
O Brasil precisa começar a pensar nesses termos. Há, individualmente, no governo atual, pessoas que já refletem sobre isso, mas ainda não existe uma estratégia delineada. É importante considerar, do ponto de vista da segurança nacional, que uma disrupção na cadeia de fertilizantes, por exemplo, pode gerar uma crise agrícola e, consequentemente, uma crise econômica, já que não conseguiríamos produzir os insumos necessários nem para exportação, nem para o mercado interno. Países como a Indonésia já avançam nesse tipo de planejamento; a Rússia já reorganizou sua economia agrícola; e a China é um dos países que obteve maior sucesso nesse processo. Considero que o Brasil precisa começar a pensar nesses termos antes que surja um novo choque de oferta, como os que temos vivido com a pandemia, com a guerra na Ucrânia e, agora, com o fechamento do Estreito de Ormuz, em razão da guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã.
Você tocou em um ponto fundamental, a crise de 2008. Você acredita que ela representa uma crise estrutural do capitalismo, ou que se trata de uma crise conjuntural, da qual o sistema se recupera por meio de uma reinvenção contínua, como alguns defendem? Qual é a sua análise sobre a crise de 2008?
Eden Pereira – Entendo que a crise de 2008 encerra um ciclo de expansão da economia, iniciado com a virada neoliberal dos anos 1970 e prolongado até aproximadamente a década de 2000. Há um teórico, Nikolai Kondratiev, que descreve o capitalismo como um sistema que se desenvolve em ciclos, alternando fases de crescimento e de crise. Entre os anos 1970 e 2008, vivemos um ciclo de crescimento que se encerrou justamente naquele ano, em razão de diversas mudanças estruturais na economia global e da abertura de um novo ciclo tecnológico, hoje conhecido como a chamada Revolução 4.0, que envolve inteligência artificial e outras transformações que alteram completamente as cadeias produtivas.
A partir da crise de 2008, vivemos um período de depressão da economia mundial que coincide com o caos sistêmico já mencionado, conduzindo a uma crise estrutural profunda do capitalismo, cujo desfecho ainda não está claramente definido. Eu diria que não sabemos se haverá, no médio prazo, uma superação do capitalismo, nem se o próprio sistema tem capacidade de se reinventar, sobretudo porque, dentro do atual quadro de crise de segurança global, existe a possibilidade real de uma conflagração nuclear em questão de horas ou semanas. Digo isso com toda a seriedade, porque vivemos um momento de extrema tensão na realidade global, em que as principais normas e instituições internacionais atravessam uma crise profunda, e não temos garantia de que, amanhã ou depois de amanhã, alguém não decida apertar o botão que inicie uma guerra nuclear em escala global.
Se isso ocorrer, não haverá capitalismo nem superação do capitalismo. A isso se somam outros riscos, como o colapso ambiental, decorrente de grandes tempestades e secas, entre outras ameaças, que convergem nessa sucessão de crises originadas a partir da crise estrutural de 2008. Arrisco dizer que, a partir da década de 2020, entramos no ciclo mais profundo dessa crise, com a pandemia de covid-19, o início da guerra na Ucrânia e diversos outros conflitos que passaram a emergir em nível internacional nesta que poderíamos chamar de década das guerras. Uma década que se inicia, inclusive, com um assassinato: o do general Qasem Soleimani, no dia 3 de janeiro de 2020, em uma operação conduzida pelo atual presidente dos Estados Unidos, em um momento em que o próprio general estava em missão de paz no Iraque.
Vivemos, portanto, um momento extremamente volátil da história da humanidade, e considero que o futuro está completamente em aberto quanto à possibilidade de o capitalismo se reestruturar, ou de descambarmos para um colapso mais profundo. Não tenho, portanto, uma resposta definitiva a essa pergunta; apenas posso afirmar que estamos no momento mais grave da atual crise de caos sistêmico em que nos encontramos.
Encerrarei esta entrevista com três perguntas, e deixo à sua vontade porque são temas importantes. A primeira é sobre Putin e a Ucrânia. A segunda é sobre o sequestro de Nicolás Maduro na Venezuela: o quanto isso foi deletério e o quanto isso é importante para a reorganização da América Latina. Por último, quero instá-lo a abordar a guerra que os Estados Unidos travam contra o Irã e suas consequências para o mundo.
Eden Pereira – Vou começar pela Venezuela e pelo Irã, e terminarei naquilo que considero mais grave neste momento, que é a Ucrânia.
O sequestro de um chefe de Estado: precedente e ruptura no direito internacional
Quanto ao sequestro de Nicolás Maduro, qualifico-o como o episódio mais grave da história recente da América Latina, porque se trata do sequestro de um chefe de Estado, algo que não ocorria desde a Guerra Fria, com a exceção recente da deposição do líder do Panamá, Manuel Noriega, em 1989. O sequestro de Maduro é particularmente grave porque ocorreu em um momento em que a América Latina não conseguiu articular nenhuma reação conjunta de resistência. Durante a Guerra Fria, era compreensível certa indiferença da região em relação ao caso do Panamá, dado o caráter autoritário do governo de Noriega e as questões específicas envolvidas. Em 2004, com a saída forçada do presidente haitiano Jean-Bertrand Aristide, houve oposição por parte do governo brasileiro e de outros governos latino-americanos.
Mas, no caso do sequestro de Maduro, praticamente toda a América Latina permaneceu em posição de isolamento em relação à Venezuela, país que já vinha sendo agredido pelos Estados Unidos havia quase uma década e meia, com pouquíssimos governos mobilizados em defesa de sua soberania. Trata-se de um momento em que os Estados Unidos declaram abertamente que combatem o narcotráfico, associando esse combate aos governos de esquerda da América Latina, como Cuba, Nicarágua e Venezuela, o que também representa um cenário de risco para o Brasil. Considero esse episódio um sinal de grande perigo, porque o sequestro de Maduro dificilmente será o único; é provável que novas iniciativas semelhantes ocorram no continente. Isso já se manifestava em declarações antigas de autoridades norte-americanas: o então secretário de Estado Rex Tillerson chegou a insinuar, em 2018, que o governo venezuelano poderia ser deposto, e, anos depois, tivemos, de fato, a deposição de Maduro por meio de ação militar dos Estados Unidos.
Isso sinaliza a outros governos da América Latina que ações semelhantes são possíveis, considerando que, do ponto de vista militar, os países da região, com exceção parcial do Brasil, não são grandes potências. O Brasil, embora seja uma potência regional relevante, ainda está distante das grandes potências militares em nível global, como Estados Unidos, Rússia, China e Índia. Diante disso, temos um cenário de grave risco para a soberania de diversos países latino-americanos, considerando que a política dos Estados Unidos não se limita à deposição de Maduro, mas também busca intervir em outros Estados da região, como Cuba e Nicarágua, sinalizando que Washington não renunciará ao uso ostensivo da força militar para intervir nesses países, tanto no plano militar quanto no político, apoiando diretamente candidatos alinhados aos interesses da Casa Branca.
Esse cenário é muito preocupante, porque estabelece uma relação extremamente agressiva dos Estados Unidos com o continente, para a qual nossos países não estão preparados. Diria que nem mesmo o Brasil está preparado para uma situação como essa, considerando as vulnerabilidades internas que enfrentamos, no atual cenário de extrema polarização política, com a possibilidade, ou melhor, com a prática já concreta, de ingerência sobre nosso sistema político, que não se limitará ao processo eleitoral, mas se estenderá a outros instrumentos e medidas, como já vemos por meio do próprio tarifaço, que busca alinhar os interesses de determinadas classes econômicas brasileiras aos interesses econômicos dos Estados Unidos.
O sequestro de Maduro é grave também por outra razão: nem mesmo durante o período do imperialismo, no século XX, chefes de Estado capturados foram tratados dessa forma. Os Estados Unidos, ao concluir essa operação, eliminaram, na prática, um chefe de Estado sul-americano, algo que sequer ocorreu, na maior parte dos casos, durante a Segunda Guerra Mundial, quando chefes de Estado capturados eram, em geral, mantidos em campos de concentração e, por vezes, julgados por instâncias internacionais, mas não executados sumariamente. Ao agir assim, os Estados Unidos subvertem completamente o direito internacional, inclusive os instrumentos que eles próprios ajudaram a criar e a defender, como o Tribunal Penal Internacional, cuja existência apoiam retoricamente sem, contudo, terem ratificado seu estatuto, o que constitui evidente contradição: recorrem ao Tribunal para julgar crimes de guerra cometidos, por exemplo, no continente africano, mas o Tribunal não possui jurisdição sobre o próprio território americano.
Essa extraterritorialidade das leis americanas, que já vigora desde o início da década, ganha agora, com a captura de Maduro, um significado ainda mais grave para o mundo, porque uma coisa é capturar o chefe de Estado do Panamá, país cuja existência esteve historicamente ligada ao controle militar dos Estados Unidos em razão do Canal do Panamá; outra, bastante diferente, é sequestrar o presidente de um Estado com forças armadas próprias, que controla parte relevante do mercado internacional de petróleo e que faz fronteira com o Brasil, o que representa também um risco direto para nós. Considero, aliás, que o Brasil tem parcela de responsabilidade nesse desfecho, porque, em determinado momento, poderia ter adotado posições mais construtivas em relação ao conflito entre Venezuela e Estados Unidos. O Brasil se alinhou aos Estados Unidos, ainda sob a administração Biden, ao não reconhecer o resultado das eleições venezuelanas de 2024, o que abriu espaço para a ingerência e a interferência norte-americana sobre o processo político venezuelano, processo que já existia, mas que se intensificou também em razão dessa postura brasileira. Isso, a meu ver, foi um erro grave, porque, a partir desse momento, o Brasil deixou a Venezuela desprotegida, considerando que, como potência regional, poderia ter desempenhado um papel muito mais relevante do que efetivamente desempenhou.
Irã: ascensão regional sob o fogo da guerra
Quanto ao Irã, já mencionei o assassinato do aiatolá Ali Khamenei. Trata-se de uma situação grave em diferentes escalas. A primeira é a escala regional, considerando que as agressões dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã ocorreram com a conivência de determinados setores políticos de países árabes em relação à política de Washington e de Israel em relação a Teerã, já que bases americanas instaladas em países como Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Catar e Arábia Saudita serviram de apoio para os ataques contra o Irã. Por isso, o Irã passou a demandar o fim dessas bases militares como condição para negociações rumo a uma paz duradoura com os Estados Unidos. Essa conivência, por parte desses países, traz um cenário que considero extremamente grave para a região, porque essa guerra expõe uma divisão de interesses entre o Irã e esses países, hoje em processo de reorganização, na medida em que eles próprios começam a avaliar se devem manter as bases americanas em seus territórios.
Isso não é publicamente discutido nem divulgado, mas creio que, internamente, alguns desses países já reavaliam se vale a pena manter essa segurança apoiada nos Estados Unidos. Tanto que se formou um quarteto composto por Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Turquia e Catar, na tentativa de reorganizar a segurança regional, ainda que esse arranjo não tenha avançado o suficiente para efetivamente substituir a presença americana na região. Essa escalada de crise regional demonstra a ascensão do Irã como uma grande potência no Sudoeste Asiático e reflete também um novo estatuto político do país em nível regional e global, porque, apesar de décadas de sanções e de isolamento por parte dos Estados Unidos, o Irã conseguiu ampliar sua presença política internacional. Hoje, possui grande prestígio no continente africano, presença crescente na América Latina, e é um ator relevante na Ásia como um todo, por participar de espaços como a Organização de Cooperação de Xangai, os Brics e a Organização para a Cooperação Islâmica, instituições nas quais o Irã se posiciona sempre entre os países mais influentes.
Considero, portanto, que o Irã conseguiu, por meio de suas políticas diplomáticas, driblar esse isolamento histórico. É por isso que qualifico como grave essa agressão contra o país, porque ela paralisa também esses instrumentos multilaterais, já que boa parte dos países que os integram divergem entre si diante do conflito, o que os torna incapazes de reagir de forma coordenada.
Nos Brics, por exemplo, houve uma reunião de chanceleres em Nova Délhi, no mês de abril, que não conseguiu emitir uma nota conjunta em razão da divergência entre Emirados Árabes Unidos e Índia sobre como descrever a guerra travada pelos Estados Unidos contra o Irã, já que os Emirados haviam sido atacados e se consideravam parte do conflito. Essa relação entre os Emirados Árabes Unidos e o Irã ainda não foi devidamente pacificada.
Essa crise regional gera, portanto, um segundo nível de problema, em escala multilateral, atingindo as próprias organizações internacionais, que passam, assim como as normas e leis internacionais, por um processo de crise. Isso se conecta diretamente também com uma terceira escala, a econômica: o fechamento do Estreito de Ormuz e a paralisação da exportação de petróleo e de outros produtos abrem a possibilidade de uma crise catastrófica na economia global, já que os países europeus e os Estados Unidos mantêm hoje reservas de petróleo em níveis mínimos, favorecendo apenas os países produtores e exportadores.
No caso do Brasil, que passou a exportar petróleo, o efeito foi mais indireto, e o país evidentemente não participou da agressão contra o Irã, nem contribuiu para a possibilidade de bloqueio do Estreito. Essa escala de crise multilateral e econômica abre espaço para uma possível onda de convulsão social e econômica generalizada em diversas partes do mundo, como já ocorreu durante a pandemia e durante a crise inflacionária que se seguiu ao início da guerra na Ucrânia, entre 2022 e 2023.
Ucrânia: a frente que globaliza o conflito
Por fim, à situação da Ucrânia, que considero o cenário mais grave entre todas essas guerras, e que já não é mais uma possibilidade, mas sim um processo em curso de globalização do conflito hoje concentrado no Sudoeste Asiático, o chamado Oriente Médio. Inicialmente, apenas Estados Unidos e Israel estavam diretamente envolvidos na guerra contra o Irã; em seguida, os países árabes passaram a se envolver por conta das bases militares cedidas aos Estados Unidos. Os efeitos econômicos gerados por essa crise fazem com que outros países, e outros blocos militares, se mobilizem para interferir no processo, como ocorre com os países da Otan, pressionados pelos Estados Unidos a honrar os compromissos da aliança e a apoiar Washington na guerra, sobretudo porque as bases desses países também podem vir a ser atacadas: a base britânica no arquipélago de Diego Garcia já foi atacada em determinado momento pelos houthis, assim como bases americanas na Grã-Bretanha, dentro do Atlântico Norte, e bases francesas. Esses países acabam, assim, progressivamente absorvidos por essa guerra, o que confere a ela um escopo de globalização que considero, hoje, praticamente irreversível, já que se veem obrigados, por compromissos militares e políticos, a se envolver na disputa dos demais.
Essa conexão com a guerra na Ucrânia se dá por dois motivos. Primeiro, porque a Otan está diretamente vinculada à guerra ucraniana e passa também a se envolver, cada vez mais, na guerra contra o Irã. Segundo, porque a Rússia e o Irã são aliados e parceiros estratégicos em diversas áreas, militar, comercial e diplomática, além de trocarem tecnologia e conhecimento. Ambos os países percebem que essas duas guerras, travadas no Sudoeste Asiático e no leste europeu, estão diretamente conectadas ao esforço dos Estados Unidos de reafirmar sua dominação sobre o sistema internacional, e de tentar conter esse momento de emergência da multipolaridade e de caos sistêmico em que nos encontramos, por meio de uma imposição, unilateral e por vezes violenta, de um novo ordenamento sobre o sistema internacional. Rússia e Irã, percebendo isso, tendem a coordenar cada vez mais seus passos, de modo que a guerra no Sudoeste Asiático e a guerra na Ucrânia se tornem, na prática, duas frentes de um único conflito, envolvendo, de um lado, Rússia e Irã e, de outro, os países da Otan e seus aliados. Esse processo de globalização nos coloca na iminência de uma guerra mundial, possibilidade já admitida abertamente pelo próprio ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, e mencionada por diversas outras autoridades internacionais, inclusive pelo Papa, que, em ocasiões anteriores, alertou para a possibilidade de uma terceira guerra mundial.
Encontramo-nos, portanto, em um momento de escalada visível, em que se desenha, praticamente à vista, a possibilidade de globalização total dessas guerras regionais que emergem em diferentes partes do mundo. Considero a guerra da Ucrânia o cenário mais grave entre todos, porque, no Sudoeste Asiático, o Irã não possui armas atômicas e não pode utilizá-las, já que renunciou, ao menos até o momento, ao uso da tecnologia nuclear para fins militares. Não sabemos, porém, como será a condução dessa questão sob a nova liderança estabelecida após a morte do aiatolá Khamenei, assumida por seu filho, Mojtaba Khamenei, considerando que boa parte da liderança iraniana anterior foi eliminada, algo que também considero extremamente impactante, já que nem mesmo durante a Segunda Guerra Mundial episódios desse nível de radicalidade foram registrados.
Diante desse cenário, as novas lideranças iranianas tendem a se radicalizar ainda mais, e uma eventual recusa em negociar uma saída da guerra com os Estados Unidos pode levar à escalada e à globalização do conflito, que considero o maior risco atual. É importante destacar que, entre as lideranças que hoje dirigem a condução da guerra por parte do Irã, a única figura moderada é o presidente Masoud Pezeshkian, eleito em 2024 com um perfil reformista, ao lado do chanceler iraniano. Todas as demais lideranças defendem a continuidade da guerra e o desgaste máximo possível dos Estados Unidos, rejeitando a negociação.
Leituras de prognóstico: a hipótese de escalada Rússia-Europa
Quanto à Rússia, hoje a situação da guerra da Ucrânia se encontra em uma nova fase. Inicialmente, a Rússia acreditava que poderia, por meio da Operação Militar Especial iniciada em 2022, forçar as autoridades ucranianas a aceitar um estatuto de neutralidade, impedindo a adesão da Ucrânia à Otan e abrindo espaço para uma renegociação mais ampla da arquitetura de segurança europeia. Nada disso ocorreu; ao contrário, Europa, Estados Unidos e Ucrânia se uniram e ampliaram o confronto com a Rússia, intensificando as ações militares. Diante disso, a Rússia passou a travar uma guerra de desgaste contra o governo de Volodymyr Zelensky, na expectativa de que o Estado ucraniano colapsasse, dando lugar a novas autoridades dispostas a negociar o fim do conflito, ou de que uma mudança no quadro político americano, com a eleição de Trump em lugar de Biden, permitisse à Rússia negociar diretamente com os Estados Unidos a estabilidade estratégica na Europa, novos acordos de controle de armas e o fim da expansão da Otan, resolvendo, assim, a questão ucraniana.
Também isso não ocorreu. No ano passado, em um encontro entre Putin e Trump, foi discutida, embora não publicamente confirmada, uma proposta de acordo para a Rússia, que se pode deduzir a partir das declarações de ambos os países: o reconhecimento russo das áreas anexadas, incluindo as quatro províncias de Donetsk, Lugansk, Zaporíjia e Kherson, além do reconhecimento da anexação da Crimeia, em troca de uma arquitetura de segurança envolvendo Europa e Estados Unidos. Isso, porém, não resolve o problema da indivisibilidade da segurança na Europa, nem a questão da estabilidade estratégica para a Rússia, que também demandava garantias nesse sentido, ponto no qual os Estados Unidos não tinham interesse em avançar; interessava-lhes, sobretudo, um cessar-fogo inicial que permitisse anunciar um acordo e fortalecer politicamente a administração Trump.
Chegamos, assim, a uma nova fase da guerra na Ucrânia, marcada pela intensificação do uso de drones ucranianos e por ataques cada vez mais frequentes contra o território russo nos últimos meses, atingindo inclusive a população civil. Isso reforça, dentro do governo russo, a percepção de que Estados Unidos e Europa não pretendem negociar de fato, e de que a guerra continuará até um eventual colapso da Rússia, o que seria, segundo essa leitura, a estratégia de longo prazo de europeus e americanos. Diante disso, cresce, na Rússia, sobretudo no âmbito do Conselho de Segurança que se reúne com Putin, a defesa de que o país deveria ampliar suas operações militares para o continente europeu, atacando diretamente alvos específicos em países que participam efetivamente da guerra, como Polônia e os países bálticos, e possivelmente também Alemanha e França. Putin tem sofrido pressão crescente para adotar ataques preventivos contra países europeus, diante do apoio político e militar que a Europa oferece à Ucrânia.
A proposta em discussão prevê, inicialmente, ataques com armas convencionais, incluindo drones, contra esses países. Uma eventual resposta desses países poderia gerar uma nova escalada, envolvendo o uso ou o ensaio de equipamentos capazes de carregar armas nucleares, e, em caso de nova resposta, uma escalada final rumo ao uso efetivo de armas nucleares estratégicas. Trata-se, portanto, de um passo extremamente perigoso rumo àquilo que poderíamos chamar de uma terceira guerra mundial nuclear, e é esse o cenário que considero mais preocupante neste momento, porque já existe, na Rússia, o entendimento de que não haverá negociação nem avanço no confronto militar na Ucrânia sem que a Rússia endureça sua retórica, e começa a se consolidar, inclusive, o entendimento de que, caso a Rússia realize ataques contra países europeus, os Estados Unidos poderiam não responder, nem se juntar aos europeus na defesa.
Essa hipótese ganha força a partir do precedente estabelecido pela própria guerra no Sudoeste Asiático: o Irã atacou países árabes que sediavam bases americanas com fundamento no artigo 51 da Carta das Nações Unidas, que assegura o direito de legítima defesa a um país que se considere ameaçado militarmente. Do mesmo modo, a Rússia poderia recorrer ao mesmo argumento em relação aos países europeus que fornecem armamento à Ucrânia, produzido em países como Polônia e Alemanha, bem como em relação a ataques lançados contra o território russo a partir do espaço aéreo de países como Estônia, Letônia, Lituânia, Finlândia e Polônia. Com base nesse mesmo argumento jurídico e político, a Rússia teria, em tese, prerrogativa para realizar ataques preventivos contra esses países.
Considerando esse quadro jurídico e a situação político-militar atual, entendo que a Rússia pode estar avaliando a possibilidade de um ataque direto, não necessariamente iminente nos próximos dias, mas dentro de um horizonte de médio prazo, contra países europeus, sobretudo se perceber que os Estados Unidos foram capazes de honrar seus compromissos com os países do Sudoeste Asiático, sem uma resposta efetiva da parte europeia. Essa demonstração de força colocaria os europeus em posição de terem de negociar, efetivamente, novos termos com a Rússia, primeiro por meio de ataques convencionais, depois eventualmente por meio de armas nucleares, caso não aceitassem negociar. Esse é o cenário que está sendo hoje avaliado, no meu entendimento, para os próximos meses, talvez até para os próximos anos, mas primordialmente para os próximos meses, considerando a escalada em que já nos encontramos.
Por isso, considero que vivemos um momento extremamente perigoso, no qual a humanidade pode, literalmente, deixar de existir de uma hora para outra, porque não há nenhuma garantia de que, se a Rússia acionar esses instrumentos de escalada, não haverá resposta por parte dos europeus, ou de que os Estados Unidos não se envolverão diretamente no conflito, ainda que também tenham compromissos ligados à Aliança do Atlântico Norte.
Encerro, portanto, colocando essa questão, porque considero esse o maior perigo e a situação mais grave que atualmente enfrentamos, e por isso reafirmo que, dentro desse ciclo de crises de Kondratiev de que falamos, estamos no ponto mais baixo dessa crise e desse caos sistêmico em nível global, com potencial para gerar uma globalização da guerra que já está em curso, e que pode se tornar, cada vez mais, um conflito convencional e nuclear.
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Chaves de leitura
Seção 301 e IEEPA. São dois instrumentos jurídicos distintos usados pelos Estados Unidos para tarifar outros países. A IEEPA depende de uma declaração presidencial de emergência econômica e pode ser derrubada pela Justiça, como ocorreu com parte das sanções ao Brasil em fevereiro. A Seção 301, criada em 1974, exige um processo administrativo formal conduzido pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) e é muito mais difícil de reverter judicialmente. É essa segunda base jurídica que sustenta a tarifa de 25% mencionada nesta entrevista.
NATO 2030. Documento estratégico aprovado pelos países da Aliança Atlântica durante a pandemia de covid-19, voltado a reorganizar cadeias produtivas globais consideradas essenciais à segurança nacional dos países ocidentais, reduzindo a dependência de fornecedores como a China.
Artigo 51 da Carta das Nações Unidas. Dispositivo que assegura a qualquer país o direito de legítima defesa em caso de ataque armado. É o fundamento jurídico invocado pelo Irã para atacar bases americanas em território árabe, e o mesmo raciocínio, segundo Eden Pereira, poderia ser usado pela Rússia para justificar ataques preventivos contra países europeus que armam a Ucrânia.
Ciclos de Kondratiev. Teoria formulada pelo economista soviético Nikolai Kondratiev, segundo a qual o capitalismo se desenvolve em ondas longas de aproximadamente cinquenta anos, alternando fases de expansão e de crise estrutural.
Caos sistêmico. Conceito associado ao historiador Immanuel Wallerstein e à teoria do sistema-mundo, que descreve momentos de ruptura de uma hegemonia global, quando nenhuma potência ainda consegue impor um novo ordenamento e o sistema internacional atravessa um período de desordem e disputa aberta.
Reprimarização. Processo pelo qual uma economia volta a depender majoritariamente da exportação de produtos primários, como grãos e minérios, em detrimento de bens industrializados de maior valor agregado.




