Resposta a um artigo que expressa lapsos de uma elite intelectual que se enclausurou em seu próprio mundo. Com anacronismo eurocêntrico, reproduz a exclusão e o apagamento dos saberes tradicionais. E a própria Ciência que diz defender derruba sua tese
I. O FÍSICO DO ALTO DA MONTANHA
Há na mecânica quântica um princípio fundamental: o ato de observar altera o sistema observado. O professor Marcelo Yamashita, do Instituto de Física Teórica da UNESP, parece ter esquecido essa lição elementar ao sentar-se diante de seu computador e produzir, para a Questão de Ciência, um texto que merece menos o título de “artigo” e mais o de colapso da função de onda argumentativa.
O alvo de sua cotovelada, desferida de lado, quase às escondidas, é a Universidade Federal Indígena (Unind), criada pela Lei nº 15.418/2026. Qual objetivo? No fundo, a gente sabe. Uma universidade concebida para promover ensino, pesquisa e extensão com base nos saberes e nas culturas dos povos originários. O diagnóstico de Yamashita? Que isso seria uma “distorção do conceito de universidade”. A prova? Bem, a prova é o que ele chama de “identitarismo”, palavra que, em seu vocabulário, parece funcionar como um xingamento elegante para qualquer coisa que não se encaixe em seu modelo de mundo.
O problema, caro leitor, é que Yamashita comete o pecado capital da ciência. Em outras palavras, ele confunde seu modelo com a realidade. O Senado – que como se sabe, não dá para esperar muito dessa casa, ao discutir a Unind, falou em “reparação histórica”. Mas reparação histórica, para Yamashita, parece ser um conceito tão estranho quanto a ideia de que um elétron possa estar em dois lugares ao mesmo tempo.
II. O OBSERVADOR QUE CRIA A PRÓPRIA REALIDADE (E ACREDITA NISSO)
Peço licença para invocar o físico César Lenzi, professor do ITA, que anda às turras com certas interpretações da mecânica quântica. Lenzi, com a paciência de quem já viu esse filme centenas de vezes, tem alertado que o famoso “ato de observar altera o sistema observado” não significa que você, caro observador, cria a realidade com seu olhar.
Pois bem, o professor Yamashita parece ter entendido exatamente o oposto. Ele criou uma realidade inteira com direito a paredes, teto e um belo espantalho no centro da sala e agora vive dentro dela, convencido de que é o mundo real. Nessa realidade particular, a Universidade Federal Indígena é uma “distorção”, os saberes tradicionais são “planos incomensuráveis”, e a greve dos estudantes é algo a ser desprezado e talvez isso revele mais sobre o autor do que sobre a greve.
O problema, professor, é que a física quântica não funciona assim. O observador não cria a realidade com sua mera presença – o que importa é se há ou não um detector registrando a passagem do fóton. O senhor, ao escrever aquele texto, não estava detectando nada. Estava projetando. Estava vendo no outro aquilo que só existe dentro do seu próprio poço de potencial, um poço que, pelo visto, tem paredes bem mais altas do que as do IFT.
O que Lenzi critica com propriedade é exatamente essa confusão entre interação e criação. A física não diz que sua consciência molda o universo, mas diz que o ato de medir envolve uma interação que afeta o sistema. O senhor, Yamashita, não mediu nada. O senhor inventou um sistema, uma universidade indígena que não existe fora de seus medos e depois mediu ele. O resultado? O mesmo de sempre – você encontrou exatamente o que estava procurando. Chamamos isso, em física, de viés de confirmação. Em psicanálise, de projeção. Em bom português – viagem.
III. O PRINCÍPIO DA INCERTEZA APLICADO ÀS OPINIÕES
O argumento central de Yamashita é tão frágil quanto uma função de onda não normalizada: se a universidade existe para produzir ciência, e ciência é um método universal, então não haveria razão para uma universidade “indígena”. Erro crasso, digno de um calouro no primeiro dia de aula de mecânica quântica.
Vamos por partes. A ciência, em especial, a Física, a Química e a Biologia podem ter pretensões de universalidade em seu método. Mas a universidade? Essa invenção medieval europeia [?] é profundamente particular em sua história, em suas hierarquias, em seus mecanismos de exclusão, silenciamento e apagamento. Yamashita parece acreditar que a universidade brasileira é um espaço neutro, asséptico, onde o conhecimento flui livremente, independente de quem o produz ou de onde vem. Essa é a fantasia do cientista que nunca precisou olhar para o próprio chão.
É aqui que a metáfora quântica se torna irresistível. O professor parece operar como se o conhecimento fosse um gás ideal, partículas idênticas, indistinguíveis, movendo-se em um recipiente homogêneo. Mas a universidade brasileira não é um gás ideal. É um sistema fortemente interagente, com correlações de longo alcance, com potenciais que privilegiam certas trajetórias em detrimento de outras. A Unind não é uma distorção desse sistema. Pelo contrário, é uma transição de fase, e toda transição de fase, como sabemos, é acompanhada de ruídos, de resistências, de medos. O ruído, no caso, chama-se Marcelo Yamashita.
Mas a coleção de equívocos de Yamashita não se encerra aí. Há ainda o argumento – se é que dá para chamar de argumento, mas que, em termos retóricos, funciona como um decaimento beta sem conservação de energia – a comparação espúria com o caso Henry Borel. Sim, caro leitor: o físico teórico, em sua canelada argumentativa, achou pertinente associar a criação da Unind a um julgamento criminal. É o tipo de salto lógico que faria qualquer calouro ser interrompido no meio de uma apresentação: o que um processo judicial tem a ver com uma lei que cria uma universidade? Absolutamente nada. A não ser que se queira, de forma desonesta, plantar o espectro de um ‘ativismo judiciário temerário’ onde ele não existe. É o argumento do desespero, aquele que revela não a fragilidade do objeto criticado, mas a penúria intelectual de quem critica.
IV. O QUE LEITE LOPES, LATTES, FROTA PESSOA E ASHAUER TERIAM A DIZER
Aqui cabe uma pausa para invocar a memória de físicos e físicas que, ao contrário de Yamashita, compreenderam que a ciência não flutua no vácuo, metáfora aliás apropriada para quem estuda átomos ultrafrios.
José Leite Lopes (1918-2006), teórico de campos e partículas de renome internacional, não se limitou a fazer física de ponta. Dedicou-se ao desenvolvimento nacional e combateu a ditadura com a mesma convicção com que enfrentava os problemas da teoria quântica. Leite Lopes sabia que não adianta desvendar os mistérios dos bósons se não se está atento às misérias do Brasil. Sabia que a física, para ser verdadeiramente universal, precisava primeiro ser profundamente local.
César Lattes (1924-2005), o único cientista inscrito no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria, mostrou ao mundo que era possível um jovem brasileiro fazer uma descoberta importante na física universal. Mas Lattes não se contentou com o reconhecimento internacional: montou laboratórios, fundou o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF) e dedicou sua vida a construir uma ciência que fosse, acima de tudo, brasileira. Lattes sabia que a descoberta do méson pi não valeria de nada se não houvesse jovens brasileiros, de todas as origens, tendo a oportunidade de repetir o feito.
A história da física brasileira não se faz apenas com homens brancos. É aqui que a visão de Yamashita revela sua segunda camada de cegueira. Elisa Frota Pessoa (1921-2018) foi uma das primeiras mulheres a se formar em física no Brasil, em 1942. Pioneira da ciência no país, também foi uma das fundadoras do CBPF, ao lado de Lattes, Leite Lopes e Mario Schenberg. Enfrentou a resistência familiar, seu pai acreditava que o destino feminino deveria restringir-se ao casamento. Trabalhou sem remuneração até ser contratada, e, após a separação do primeiro marido, enfrentou forte preconceito social por sua condição de mulher, cientista e separada em um período anterior à legalização do divórcio no Brasil. Em 1950, publicou o primeiro artigo científico do CBPF, fornecendo evidências experimentais em apoio à teoria “V-A” das interações fracas. Em 1969, foi aposentada compulsoriamente pelo AI-5, mas não parou, trabalhou no exílio na Europa e nos Estados Unidos, colaborou com a formação de jovens físicos brasileiros e, com a anistia, retornou ao CBPF.
Sonja Ashauer (1923-1948) foi a primeira brasileira a concluir um doutorado em física, feito que, por si só, já a colocaria na história. Mas não para por aí, foi aluna de Gleb Wataghin na USP e, em 1945, seguiu para a Universidade de Cambridge sob recomendação de Wataghin para fazer seu doutorado com ninguém menos que Paul Dirac, Nobel de Física em 1933. Sua tese, “Problems on electrons and electromagnetic radiation”, explorava a fronteira da eletrodinâmica quântica. Foi a primeira mulher brasileira eleita membro da Cambridge Philosophical Society. Retornou ao Brasil em 1948, mas faleceu poucos dias depois, aos 25 anos, vítima de uma pneumonia. Sua carreira foi interrompida quando começava a brilhar.
O que Leite Lopes, Lattes, Frota Pessoa e Ashauer tinham, e Yamashita parece não ter, é a compreensão de que a física e a universidade não existem para si mesmas. Existem para um país, para um povo, para uma história concreta. Elisa Frota Pessoa não esperou o mundo se tornar “neutro” para fazer ciência, ela enfrentou o mundo como ele era – machista, autoritário e excludente – e construiu instituições. Sonja Ashauer não esperou que a física a acolhesse, ela foi a Cambridge, estudou com Dirac e mostrou que uma mulher brasileira podia estar na fronteira do conhecimento.
Yamashita, ao criticar a Unind, parece acreditar que a universidade é um espaço onde o conhecimento flui livremente, independente de quem o produz ou de onde vem. Mas a história de Frota Pessoa, Ashauer e de tantas outras, mostra exatamente o oposto, isto é, a universidade brasileira foi, por décadas, um espaço de exclusão. E é preciso luta para abri-la e transformá-la.
Nesse sentido, a Unind é profundamente lattesiana, frota-pessoana e ashaueriana, é a aposta de que o conhecimento floresce onde há diversidade, onde há diálogo, onde há reconhecimento de que outros saberes também são saberes. É a aposta de que a próxima Sonja Ashauer pode vir de uma das 391 etnias indígenas e que, desta vez, o país estará pronto para acolhê-la.
Todo sistema em equilíbrio instável, quando perturbado, revela suas fraturas. A fala de Yamashita é essa perturbação, mas as fraturas não estão na Unind, e sim nos currículos de Física da própria UNESP. Na minha dissertação de mestrado, analisei os Projetos Político-Pedagógicos e os planos de ensino dos seis cursos de Licenciatura em Física da UNESP, entre eles, aquele onde Yamashita atua. O diagnóstico foi inequívoco: a circulação da história e da cultura afro-brasileira e indígena nesses documentos é diminuta, quando não inexistente. Os processos formativos ali desenhados são marcados pela hegemonia do conhecimento euro-norte-americano, pela tecnificação, pelo individualismo, pela racialização e pelo que chamo de ‘sonambulismo intelectual’, isto é, uma formação que adormece futuros professores para a realidade concreta do país onde atuarão. Se Yamashita quer criticar a Unind, que comece por olhar para o currículo que ele próprio ajuda a perpetuar. Porque não é na aldeia que a física está sendo apagada, é na salas de aula da UNESP.
V. KRENAK, KOPENAWA E O DIÁLOGO DE MUNDOS
E que mundos são esses que Yamashita se recusa a enxergar? São os mundos de Ailton Krenak, filósofo e pensador indígena imortal da Academia Brasileira de Letras, que nos lembra que a universidade precisa aprender a ouvir aqueles que por séculos foram silenciados. São os mundos de Davi Kopenawa, xamã yanomami, que nos ensina que há outras formas de conhecer, formas que não envolvem “fixar os olhos em peles de papel”, mas que nem por isso são menos rigorosas.
Kopenawa nos desafia a reconhecer que o xamanismo não é o oposto da ciência, mas uma outra maneira de habitar o mundo, de estabelecer relações com os seres e com a floresta. A Unind é, precisamente, o espaço onde esse encontro, esse diálogo entre mundos pode acontecer e florescer. Não para substituir a física de pósitrons por rituais de pajelança, que é o espantalho que Yamashita insiste em queimar, mas para alargar o horizonte do que entendemos por conhecimento.
Porque a história da ciência nos ensina que todo conhecimento ganha quando se abre a novas janelas. A física não se fechou quando incorporou a relatividade ou a mecânica quântica, pelo contrário, expandiu-se. A Unind é exatamente isso – uma nova janela. Não a destruição da física, mas a ampliação de seu campo de visão. Não o fim da ciência, mas o começo de uma ciência mais situada, mais generosa, mais aberta, mais capaz de enxergar o que antes ficava fora do enquadramento.
VI. PARA ALÉM DA CRÍTICA: O HORIZONTE QUE YAMASHITA NÃO ENXERGA
Rebater o argumento de Yamashita é necessário, mas não é suficiente. Porque, no fim das contas, a pergunta que fica no ar não é se a Unind deve existir, ela já existe, e é lei. A pergunta que fica é: para quê? E, mais importante: como garantir que essa e outras universidades não formem profissionais para o desemprego, para a subocupação ou para a fuga de cérebros?
Porque aqui está o ponto que Yamashita, na pressa de fazer seu diagnóstico, convenientemente esqueceu, de nada adianta formar físicos, engenheiros, antropólogos ou professores se o país não oferece a eles condições concretas de trabalho, pesquisa e desenvolvimento. De nada adianta expandir o acesso à universidade se o mercado de trabalho segue sendo um funil que engole quem tem QI (Quem Indica) e cospe o resto.
O que está em jogo, portanto, é muito maior do que uma universidade indígena. Está em jogo um projeto de nação. Um projeto que não se contenta com migalhas orçamentárias para a educação, que não trata a ciência como gasto, que não vê o conhecimento como um luxo para poucos. Um projeto que entende que universidade e desenvolvimento nacional são duas faces da mesma moeda.
Leite Lopes, Frota Pessoa e Lattes sabiam disso. Por isso, não se limitaram a fazer física de ponta. Dedicaram-se a construir instituições como o CBPF, o CNPq, a própria ideia de que a ciência brasileira poderia ser protagonista. Eles sabiam que não bastava formar pesquisadores, era preciso que o país tivesse indústria, tecnologia, políticas públicas e empregos para absorvê-los.
A Unind, nesse sentido, é um sintoma – um bom sintoma. Ela escancara que a universidade brasileira, em sua maioria, continua sendo um espaço de reprodução de elites, onde o saber tradicional é folclore e o saber científico é monopólio. Mas também escancara que é possível fazer diferente.
O que falta? Falta investimento real. Falta plano de desenvolvimento nacional que conecte o que se aprende nas universidades ao que o país precisa produzir. Falta política de empregabilidade que garanta a quem estuda, especialmente a quem vem de histórias de exclusão, que o esforço de anos não terminará em subemprego ou em êxodo para o exterior.
Não se trata de “instrumentalizar” a universidade, transformando-a em braço do mercado. Trata-se de reconhecer que a universidade não é uma bolha. Ela forma pessoas que vão atuar em hospitais, escolas, indústrias, laboratórios, aldeias e periferias. Se o país não oferece a essas pessoas um chão onde pisar, a universidade vira uma máquina de produzir frustração.
Yamashita, com sua visão de gás ideal, parece acreditar que a universidade existe para produzir papers e nada mais. Ledo engano. A universidade existe, ou deveria existir para transformar o país. E transformar o país exige que o conhecimento produzido dentro dela encontre eco fora dela. O contrário também vale. Exige que o estudante indígena que entra na Unind saiba que, ao se formar, haverá um lugar para ele, não como “cotista” ou “representante”, mas como profissional qualificado em um país que finalmente aprendeu a valorizar sua diversidade.
É isso que está em disputa. Não é “identitarismo”. É desenvolvimento com justiça social. É a aposta de que o Brasil pode ser mais do que uma colônia de exportação de matéria-prima e importação de conhecimento. É a recusa em aceitar que a ciência seja um privilégio de poucos enquanto a maioria sobrevive com o que sobra.
A Unind é um passo. Não o primeiro, mas o próximo – dado no presente, e aqui dirijo essa provocação não apenas a Yamashita, mas a todos que pensam como ele e destroem as pontes entre o que se aprende e o que se vive. Entre o laboratório e a fábrica. Entre a sala de aula e a aldeia. Entre a pesquisa e a política pública.
Se Yamashita quer realmente defender a universidade, que comece a defender investimentos sólidos nela. Que defenda salários dignos para professores e técnicos. Que defenda bolsas de pesquisa que não sejam esmolas. Que defenda um plano nacional de ciência e tecnologia que não seja descontinuado a cada troca de governo.
Porque, no fim das contas, a maior ameaça à universidade não é a Unind. É o descaso. É o orçamento que encolhe em nome do arcabouço fiscal. É a pesquisa que falta verba. É o pesquisador que precisa emigrar para ter condições de trabalhar. É o aluno que se forma e não encontra emprego.
Contra isso, o texto de Yamashita não diz uma palavra. Prefere atacar um espantalho. Enquanto isso, o fogo – o fogo real que corrói a educação pública – continua queimando. E ele, com sua caneta, continua achando que o problema é o outro.
VII. A LIÇÃO DE CASA
Já que o professor Yamashita é físico teórico e parece gostar de analogias, proponho um exercício, isto é, mais uma lição de casa,pois como nos lembra Freire (2001), “o aprendizado do ensinante ao ensinar se verifica à medida em que o ensinante, humilde, aberto, se ache permanentemente disponível a repensar o pensado, rever-se em suas posições”.
- Lição 1: Pegue a equação de Schrödinger para uma partícula em um poço de potencial infinito. O poço é a universidade que o senhor conhece, com suas paredes bem definidas, seus níveis de energia discretos, suas funções de onda bem comportadas. Agora, imagine que esse poço é subitamente expandido para incluir novos estados, novas configurações, novas possibilidades que antes estavam excluídas por uma barreira de potencial que o senhor sequer enxergava. Calcule a nova função de onda. O que o senhor encontra?
- Lição 2: O senhor argumenta que saberes tradicionais e científicos ocupam “planos” distintos e incomensuráveis. Pois bem, na mecânica quântica, partículas podem estar em superposição de estados. O senhor, que estuda átomos ultrafrios, deveria saber disso. Por que não aplicar o princípio da superposição ao conhecimento? Por que insistir em uma visão binária, excludente, quando a própria física que o senhor pratica nos ensina que a realidade é muito mais complexa e multifacetada?
- Lição 3: Leia, com atenção, as Diretrizes Curriculares Nacionais para os cursos de Física. Elas falam em formar um profissional “capaz de abordar e tratar problemas novos e tradicionais” e “sempre preocupado em buscar novas formas do saber”. Onde está essa preocupação em seu artigo? Onde está a abertura ao novo, ao diferente, ao que desafia suas categorias prévias?
VIII. O ESPECTRO ELETROMAGNÉTICO DA IGNORÂNCIA
Termino com uma provocação – se Yamashita realmente acredita que a universidade deve ser um espaço exclusivo de um tipo de saber, que ele mesmo se pergunte por que passa tanto tempo tentando demonstrar a superioridade de um sobre o outro. Quem está seguro de sua posição não precisa passar o tempo todo provando que o outro é inferior ou está errado. A insegurança do professor é o que há de mais científico em seu artigo e, também o que há de mais patético.
A Unind não é uma ameaça à ciência. É uma ameaça, sim, à ciência como ela é praticada – branca, masculina, europeia em sua forma, embora tropical em sua geografia. E essa ameaça é salutar. Porque a universidade que não se questiona, que não se abre, que não se reinventa, está condenada à irrelevância. A física de poucos corpos que Yamashita estuda com tanto afinco é fascinante. Mas de que adianta compreender as forças efetivas entre três corpos se não se compreende as forças que atuam entre corpos sociais? De que adianta desvendar estados de Efimov se se é cego aos estados de exclusão que operam diante de seus olhos?
Como físico formado pela mesma UNESP que hoje abriga o professor Yamashita, sinto uma vergonha particular. Não apenas pela qualidade do texto, que faria qualquer orientando de iniciação científica corar, mas pelo que ele revela sobre o estado de nossa formação. A física que não se pergunta sobre sua própria história, sobre seus próprios silenciamentos, sobre seus próprios privilégios, é uma física que se conformou em ser cega e surda para o mundo. E uma física surda para o mundo é uma física que, mais cedo ou mais tarde, deixará de ser ouvida. Yamashita deu sua cotovelada. Mas, como todo golpe desferido de lado, ele esqueceu de olhar para o próprio flanco. O flanco, professor, é o mundo que o senhor escolheu não ver.
REFERÊNCIAS
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OLIVEIRA, Rafael Gonçalves. Entre silenciamentos e apagamentos: ecos do estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena nos cursos de Física da UNESP. 2024. Dissertação (Mestrado em Educação para a Ciência) – Faculdade de Ciências, Universidade Estadual Paulista, Bauru, 2024.
SENADO FEDERAL. Reparação histórica e inclusão: entenda a criação da Universidade Federal Indígena. Infomaterias, Brasília, jun. 2026. Disponível em: https://www12.senado.leg.br/noticias/infomaterias/2026/06/entenda-a-criacao-da-universidade-federal-indigena. Acesso em: 16 jul. 2026.
YAMASHITA, Marcelo Takeshi. A distorção do conceito de universidade. Revista Questão de Ciência, 15 jun. 2026. Disponível em: https://www.revistaquestaodeciencia.com.br/artigo/2026/06/15/distorcao-do-conecito-de-universidade. Acesso em: 16 jul. 2026.




