Uma análise das intervenções com uso de “bombas midiáticas” em processos eleitorais, a partir de 2019. As evidências de um vultoso investimento em contrainformação contra governos progressistas da América Latina. E os ricos de uma ingerência de Trump no Brasil
Por Ronaldo Queiroz de Morais, em Outras Palavras
(…) É impossível distinguir claramente a guerra econômica da guerra informática, uma vez que se trata de uma mesma ambição hegemônica.
Paul Virilio
É imperativo pensar e agir em termos de Defesa Nacional quando a ameaça militar invade o território político dos países, interferindo na liberdade de opinião dos eleitores, por meio de guerra cognitiva contra os interesses fundamentais da Pátria. É sob esse prisma que faço a descrição de acontecimentos imediatos que registram, antes, a existência da intervenção do complexo internético-militar nos processos eleitorais do que, propriamente, um fato crível no universo nebuloso da Guerra de Informação.
Em abril de 2019, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos divulgou parte do relatório produzido pelo procurador Robert Mueller acerca da interferência da Rússia no processo eleitoral norte-americano. Depois de dois anos de investigação, o documento de 400 páginas demonstrou, detalhadamente, contatos entre agentes russos e integrantes da campanha eleitoral de Trump. O crescente ataque de bombas virais de contrainformação nas eleições presidenciais dos EUA e a vitória de Donald Trump, além de corroborarem os fatos constantes no relatório, desvelam que as eleições, desde então, estão sob o labirinto das tecnologias da Guerra Virtual.
Alguns anos depois, no mês de dezembro de 2024, o Tribunal Constitucional da Romênia anulou o resultado da eleição presidencial por considerar a existência de interferência russa. A decisão foi levada a cabo após a divulgação de documentos de inteligência sugerindo que o candidato vitorioso no primeiro turno se beneficiou dos seguidos ataques de contrainformação para influenciar a massa do eleitorado do país.
Instrutivamente, ambos os acontecimentos manifestam a existência de estruturas tecnológicas belicosas com o propósito de interferir na decisão final dos amplos e complexos processos eleitorais do tempo presente.
No corrente ano, abril de 2026, uma plataforma suíça, em parceria com veículos de mídia espanhóis, baseada em 37 gravações de áudio (extraídas de WhatsApp, Signal e Telegram), expôs uma operação transnacional de Guerra Virtual na América Latina a partir do artigo “Hondurasgate”. Os áudios documentam um esquema que envolve o presidente hondurenho Nasry Asfura, o ex-presidente Juan Orlando Hernández, o presidente argentino Javier Milei e os governos dos Estados Unidos e de Israel, que organicamente atuam, por meio de financiamento e cooperação de informações, com o objetivo de interferir no livre fluxo da opinião pública de países na região. As conversas gravadas expõem a existência de um investimento financeiro vultoso destinado à produção de bombas virais de contrainformação para inviabilizar governos progressistas latino-americanos.
Trata-se da produção viral de contrainformação, que busca impor a vontade da nação hegemônica sobre os países inimigos e até mesmo aliados tradicionais. É uma guerra que visa destruir a vontade nacional do país-alvo sem o disparo militar das armas convencionais.
Não é tudo. Nas redes sociais, o historiador brasilianista norte-americano James N. Green fez um importante informe sobre a perspectiva de manobra de Trump nas eleições brasileiras de 2026. O ex-presidente norte-americano visa impulsionar a extrema-direita e derrotar Lula nas urnas. Realmente, há um enorme perigo de guerra cognitiva no Brasil por meio das agências especializadas em bombas de contrainformação. São armas tirânicas com poder inimaginável de capturar a emoção pública dos eleitores. Segundo suas próprias palavras: (…) fica evidente que o governo de Trump vai tentar interferir nos resultados, apoiando a candidatura de Flávio Bolsonaro e tentando influenciar o público brasileiro (…). Eu acho que vão fazer esse tipo de ação clandestinamente (…), mas também publicamente o governo de Trump vai se posicionar claramente a favor da extrema-direita no Brasil.” Além disso, o recente discurso de Flávio Bolsonaro nos Estados Unidos deixa evidente que ele será o candidato a serviço dos interesses norte-americanos na eleição presidencial de 2026 no Brasil. Também deixa evidente que estamos diante de um contexto eleitoral sob fogo contínuo da máquina de guerra cognitiva de Trump.
Do labirinto das tecnologias informacionais advém a guerra cognitiva, que registra um combate silencioso sobre as estruturas de informação dos acontecimentos. É uma descarga cotidiana de bombas virais de contrainformação a fim de agenciar a emoção pública para a adesão antipatriótica, produzindo afinidade de massa na direção da vontade política da Nação-império agressora. Hoje é possível destruir a realidade política nacional com o auxílio decorrente de uma bomba viral de contrainformação, que contamina a emoção pública, produzindo guerra por outros meios.
São tempos de guerra, de uma hiperguerra obscena que opera para interferir no fluxo da opinião pública nacional. Logo, é improdutivo e limitante erguer qualquer análise crítica das eleições nacionais sem a necessária contabilização da existência sombria da Guerra Virtual. Por isso, a Guerra Cognitiva deve ser incorporada como realidade possível tanto na esfera da Defesa Nacional como na luta político-partidária, visto que o campo cognitivo é, também, um campo de percepção política e de identidade nacional.
A modernidade dos séculos anteriores desencadeou a tecnociência da aparição do real e da verdade factual. Mas, diferentemente, nossa modernidade tardia produz a cibertecnologia do desaparecimento da realidade e das bases deontológicas da verdade. De forma que as bombas virais de contrainformação acionam o fenômeno pânico, que engaja as massas no delírio político que devora a comunicação. A Guerra Virtual produz um estado de convicção delirante. Ela fabrica a certeza como reflexo — a consciência falsa, inacessível à crítica e à evidência básica, que altera o destino político das nações.
No limite do perigo — no campo minado da desinformação —, é impreterível mobilizar a imaginação estratégica de Defesa Nacional para criar uma política de resistência da sociedade em face do perigo tirânico das bombas virais de contrainformação. Digo, imaginação que consiste em superar o estado de coisas gravíssimo que destrói o local e o nacional em benefício dos super-ricos e das Nações-império.
Sabemos que é absurdo desinventar as redes informacionais, mas é necessário superar a paralisação política, a inércia cognitiva de sujeitos sujeitados pelas máquinas de visão. Temos que inventar novas formas de existência política para resistir à crescente militarização da informação. Nesses termos, resistir também é regular as redes informacionais e inventar novas infovias que permitam a livre navegação e a Soberania Nacional.




