A partir de pesquisa realizada no Japão, propõe-se compreender a resiliência climática como construção ética, educativa e cultural, e não apenas tecnológica. Em diálogo com a hermenêutica, é preciso cultivar a memória, a educação permanente e a participação comunitária
Por: Márcia Junges, em IHU
Durante décadas, a Modernidade alimentou a convicção de que seria possível dominar a natureza por meio da técnica, da engenharia e do planejamento. Mas as enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul sobretudo em 2024, os terremotos e tsunamis que periodicamente atingem o Japão e a intensificação dos eventos climáticos extremos em diferentes partes do planeta parecem anunciar o esgotamento dessa promessa. Se o mundo já não pode ser plenamente controlado, talvez a questão decisiva deixe de ser como vencer a natureza para se tornar outra, muito mais radical: como aprender a habitar um planeta cuja vulnerabilidade constitui, cada vez mais, a condição ordinária da existência? É justamente nesse deslocamento de perspectiva que a pesquisa desenvolvida durante seis meses por Leonardo Marques Kussler na Takachiho University, no Japão, encontra seu ponto de partida. Em vez de buscar respostas exclusivamente tecnológicas para a crise climática, sua investigação aproxima filosofia, educação, planejamento urbano e gestão de riscos para compreender como diferentes sociedades aprendem a conviver com a incerteza e transformam a experiência dos desastres em cultura de prevenção.
A partir de uma extensa pesquisa de campo realizada no Japão, em diálogo com experiências nos Países Baixos e na Itália, Kussler propõe compreender a resiliência para além da infraestrutura. O conceito de “arquiteturas da resiliência”, desenvolvido em sua pesquisa, reúne memória coletiva, educação permanente, participação comunitária, ética do cuidado e planejamento de longo prazo como dimensões inseparáveis da adaptação climática. Inspirado por autores como Hans–Georg Gadamer, Martin Heidegger, Tetsurō Watsuji, Arturo Escobar, Tony Fry e Yuk Hui, o pesquisador sustenta que enfrentar a emergência climática implica transformar também a maneira como interpretamos nossa relação com a natureza, com o risco e com o futuro.
Nesta entrevista concedida ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU por e-mail, em seu período final de estudos na Terra do Sol Nascente, ele reflete sobre as lições que o diálogo intercultural entre Brasil e Japão oferece para a construção de sociedades mais preparadas diante dos desafios do século XXI e defende que a memória dos desastres pode deixar de ser apenas lembrança da tragédia para tornar-se fundamento ético de uma nova forma de habitar o mundo. “As catástrofes rompem nossas certezas e nos obrigam a reinterpretar o mundo. A memória, nesse contexto, deixa de olhar apenas para o passado e passa a orientar decisões futuras”, pondera.
Leonardo Marques Kussler é graduado (2012), mestre (2014) e doutor (2018) em Filosofia pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS), instituição onde também realizou estágio pós-doutoral (2019-2020) e atualmente desenvolve pesquisa de pós-doutorado como bolsista PIPD/CAPES. Foi pesquisador visitante no Programa de Pós-graduação em Filosofia da Universidade Federal do Piauí (UFPI), com bolsa DCR/FAPEPI/CNPq (2019-2021), e pesquisador de pós-doutorado e professor na Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS), onde atuou na interface entre filosofia, educação, artes e processos de investigação científica. Integra a Red Iberoamericana de Hermenéutica, a Hans-Georg Gadamer Research Society of Japan e o Grupo de Trabalho Filosofia Hermenêutica da ANPOF, desenvolvendo pesquisas em hermenêutica filosófica, fenomenologia, filosofia japonesa, filosofia do design, educação e mudanças climáticas, com especial atenção às relações entre ética, cultura, tecnologia e modos de habitar o mundo. Recentemente, sua agenda de pesquisa passou a concentrar-se na adaptação climática, na filosofia do habitar e nas relações interculturais entre Brasil e Japão, articulando filosofia, educação e gestão de riscos, em um pós-doutorado na Takachiho University.
Entre suas publicações recentes, destacam-se o capítulo de livro internacional Designing Disobedient Forms of Life (Bloomsbury, 2026), no qual propõe uma discussão sobre o modo de projetar vidas e comportamentos desobedientes e críticos a partir da filosofia do design; o artigo Designing Cosmic Inhabiting: Amerindian Cosmologies, Flat Ontology, and Alternative Futures in the Anthropocene (no prelo, 2026), em que desenvolve uma crítica ao antropocentrismo e apresenta uma proposta de ontologia planificada a partir dos povos ameríndios para pensar outros futuros possíveis no Antropoceno; e o artigo “Habitando cenários de uma paisagem inabitável: uma reflexão a partir de fotografias de desastres ambientais no Brasil” (2025), que aproxima filosofia, imagem e crise climática para refletir sobre novas formas de compreender a experiência dos desastres ambientais.
Confira a entrevista.
IHU – Depois das enchentes históricas no Rio Grande do Sul, por que você decidiu realizar uma pesquisa justamente no Japão sobre resiliência climática?
Leonardo Marques Kussler – As enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em maio de 2024 evidenciaram que a crise climática não pode ser compreendida apenas como um problema de infraestrutura. Elas revelaram a fragilidade das formas como organizamos nossas cidades, educamos nossas comunidades e construímos coletivamente a percepção do risco. A partir daquele momento, minha pesquisa sobre filosofia do habitar e o Antropoceno assumiu um novo rumo: tornou-se necessário investigar não apenas como reconstruir espaços destruídos, mas também como fortalecer nossa capacidade de conviver com um mundo marcado por eventos extremos cada vez mais frequentes.
Em 2025, durante uma missão de estudos na TU Delft, nos Países Baixos, dialoguei com pesquisadores da área de Design for Transitions, proferi uma palestra sobre cosmologias ameríndias no Antropoceno e conheci o tema da ética da água (water ethics), especialmente a proposta da professora Neelke Doorn. Também conheci iniciativas como o programa Room for the River, que propõe devolver espaço aos rios em vez de simplesmente contê-los. Essa experiência mostrou que a adaptação climática não se resume a controlar a água, mas também a reorganizar nossas formas de habitar. Quanto ao Japão, trata-se de um campo privilegiado de pesquisa por ter desenvolvido, ao longo de séculos, uma cultura de convivência com terremotos, tsunamis e tufões. Meu interesse não era encontrar um modelo pronto, mas compreender como uma sociedade incorpora a vulnerabilidade à educação, às instituições e ao planejamento cotidiano.
Ao longo desse percurso, percebi um fio condutor entre experiências distintas. Nos Países Baixos, discutia-se como devolver espaço aos rios; no Japão, encontrei uma cultura que transforma a memória, a educação e a participação em pilares da prevenção; em Veneza, onde fiz uma missão de estudos este ano, observava-se uma cidade historicamente moldada pela convivência com a água. Essas experiências me levaram à convicção de que um dos grandes desafios do século XXI talvez não seja vencer a água, mas aprender novamente a habitar um mundo em que ela recupera um protagonismo que imaginávamos ter domesticado.
Por isso, minha pesquisa não busca importar um “modelo japonês” para o Brasil. Meu objetivo é promover um diálogo intercultural capaz de identificar princípios – como memória, educação permanente e participação comunitária – que possam inspirar caminhos próprios para fortalecer a resiliência climática brasileira e, em especial, no Rio Grande do Sul.
IHU – Durante sua permanência no Japão, quais experiências ou visitas mais transformaram sua compreensão sobre a prevenção de desastres e a adaptação às mudanças climáticas?
Leonardo Marques Kussler – O que mais transformou minha compreensão foi perceber que, no Japão, a prevenção de desastres não constitui uma política especializada, mas uma prática incorporada ao cotidiano. Em escolas, museus, centros de prevenção e espaços públicos, a preparação para situações de risco aparece como uma responsabilidade compartilhada, construída continuamente por meio da educação e da participação social.
Os centros de educação para prevenção que visitei foram particularmente marcantes. No Honjo Life Safety Learning Center e no Tokyo Rinkai Disaster Prevention Park (Sona Area), participei de treinamentos voltados a terremotos, incêndios, enchentes e evacuação. Na visita ao Metropolitan Area Outer Underground Discharge Channel, pude ver de perto como é o maior sistema de controle de enchentes do mundo e como ele opera para mitigar cheias e enchentes. Essas atividades mostraram que a preparação depende menos da transmissão de informações e mais da experiência prática, da repetição e da formação de hábitos capazes de orientar decisões em situações reais.
Outro momento importante ocorreu na Província de Shiga, especialmente nas iniciativas vinculadas aos Mother Lake Goals. A preservação do Lago Biwa é tratada como um compromisso entre diferentes gerações, envolvendo escolas, universidades, governos locais, empresas e moradores. Também participei de reuniões com representantes das secretarias de meio ambiente, educação e prevenção de desastres, que evidenciaram como essas áreas atuam de forma integrada no planejamento territorial e na adaptação climática.
Outro aspecto marcante foi perceber como a memória dos desastres permanece viva na sociedade japonesa. Museus, memoriais e práticas educativas não apenas recordam tragédias passadas, mas também transformam essas experiências em aprendizagem permanente. Aos poucos compreendi que a resiliência japonesa se sustenta na articulação entre memória, educação, planejamento e participação comunitária – justamente o que passei a denominar de arquiteturas da resiliência.
IHU – Sua pesquisa aproxima filosofia, educação e gestão de riscos. Como autores da filosofia ajudam a pensar problemas tão concretos quanto enchentes, terremotos e eventos climáticos extremos?
Leonardo Marques Kussler – À primeira vista, pode parecer que autores como Hans-Georg Gadamer [1] e Martin Heidegger [2] estejam distantes de problemas concretos como enchentes ou terremotos. No entanto, acredito que a filosofia oferece algo indispensável ao debate climático: uma reflexão sobre os pressupostos que orientam nossa forma de compreender e agir no mundo. Obras de engenharia, sistemas de alerta e infraestrutura são fundamentais, mas tornam-se insuficientes quando desconsideram as dimensões culturais, educativas e éticas da resiliência.
Gadamer mostra que toda compreensão nasce do diálogo entre experiências passadas e novos desafios. Aplicada à crise climática, essa perspectiva indica que nenhuma sociedade dispõe de respostas definitivas. A adaptação exige interpretar continuamente situações inéditas, aprender com a experiência e revisar práticas consolidadas. Heidegger, por sua vez, convida-nos a repensar o que é habitar. Em vez de imaginar a natureza como algo inteiramente controlável, ele propõe compreender a existência humana como uma relação permanente de cuidado com a terra, com os outros e com o tempo. A vulnerabilidade, nesse sentido, deixa de ser um fracasso e passa a constituir uma condição da própria existência.
Essa perspectiva também dialoga com Tetsuro Watsuji [3], que já na primeira metade do século XX compreendia o clima não como um simples dado natural, mas como elemento constitutivo das formas de vida e da organização das sociedades. Essa tradição filosófica japonesa ajuda a compreender por que questões ambientais e climáticas ocupam há décadas um lugar importante no pensamento e nas políticas do país. Ao mesmo tempo, autores contemporâneos com quem minha pesquisa dialoga, como Tony Fry [4], Arturo Escobar [5] e Ailton Krenak [6], ampliam essa discussão ao defender que enfrentar a crise climática exige transformar nossas formas de habitar, imaginar o desenvolvimento e construir futuros mais sustentáveis.
Ao relacionar essas reflexões às experiências observadas no Japão, procuro mostrar que a resiliência não depende apenas de tecnologia ou reconstrução material. Ela também exige cidadãos capazes de interpretar riscos, aprender com a memória coletiva, cooperar em suas comunidades e assumir responsabilidades diante de um futuro incerto. Essa é, talvez, a principal contribuição que a filosofia pode oferecer às discussões contemporâneas sobre adaptação climática.
IHU – Quais diferenças mais chamaram sua atenção entre o Brasil e o Japão na forma como a sociedade se prepara para enfrentar desastres naturais? Há práticas japonesas que poderiam inspirar políticas públicas brasileiras?
Leonardo Marques Kussler – A diferença mais evidente entre Brasil e Japão não está na quantidade de recursos tecnológicos, mas na forma como a prevenção está integrada ao cotidiano. No Brasil, ainda predominam políticas voltadas à resposta emergencial: concentramos esforços no resgate, na reconstrução e na assistência às pessoas afetadas. Embora indispensáveis, essas ações revelam uma cultura de reação, na qual o risco costuma ser percebido apenas depois da tragédia.
No Japão, a lógica é diferente: a preparação para desastres faz parte da vida diária. Desde a infância, as pessoas participam de atividades educativas, exercícios de evacuação e práticas comunitárias que tornam a prevenção um hábito coletivo. A resiliência, portanto, não depende apenas de respostas extraordinárias, mas de uma cultura construída continuamente. Também me impressionou a centralidade da memória. Museus, memoriais e narrativas sobre terremotos, tsunamis e tufões não servem apenas para recordar o passado; eles mantêm viva a consciência da vulnerabilidade e transformam experiências traumáticas em aprendizado permanente. Outro ponto importante é a memória constante na identificação visual nas cidades, com placas que mostram a altura a que a água pode chegar em algumas áreas, indicando prédios altos para abrigo ou a altura de uma determinada rua em relação ao nível da água.
Respostas adequadas à nossa realidade
Outro aspecto marcante foi a continuidade das políticas públicas. Nas reuniões realizadas com gestores da Província de Shiga, ficou evidente que projetos considerados importantes para a comunidade tendem a ser preservados mesmo quando há mudanças de governo. Evidentemente existem diferenças políticas, mas prevalece uma cultura administrativa que prioriza o interesse coletivo e a continuidade de ações de longo prazo. Em um tema como adaptação climática, cujos resultados aparecem ao longo de décadas, essa estabilidade institucional faz enorme diferença.
Isso não significa que o modelo japonês deva ser transplantado para o Brasil. Os dois países possuem histórias, geografias e desafios muito distintos. A principal contribuição da pesquisa é identificar princípios capazes de inspirar políticas brasileiras, como educação permanente para riscos, integração entre universidades, escolas e governos locais, fortalecimento da memória dos desastres, participação comunitária e planejamento urbano orientado pelos riscos climáticos. Mais do que copiar soluções, trata-se de construir respostas adequadas à nossa realidade.
IHU – Você utiliza a expressão “arquiteturas da resiliência”. O que esse conceito significa e por que ele amplia a compreensão tradicional de resiliência, normalmente associada apenas à infraestrutura ou à engenharia?
Leonardo Marques Kussler – A expressão arquiteturas da resiliência surgiu da constatação de que a adaptação climática não pode ser reduzida à infraestrutura. Barragens, diques, sistemas de drenagem e tecnologias de monitoramento são indispensáveis, mas representam apenas uma parte daquilo que torna uma sociedade efetivamente resiliente. Ao falar em arquiteturas, minha proposta é destacar a articulação entre diferentes dimensões da vida coletiva: instituições, educação, planejamento urbano, participação social, memória e formas culturais de compreender nossa relação com a natureza. A resiliência não é apenas uma obra física; trata-se de uma construção social e cultural.
Esse conceito também dialoga com Tony Fry, ao compreender que o desafio contemporâneo não consiste apenas em reconstruir infraestruturas, mas em redirecionar instituições e modos de vida para futuros mais resilientes. Da mesma forma, aproxima-se das reflexões de Ian McHarg [7] sobre planejamento ecológico, ao reconhecer, ainda nos anos 50, que cidades precisam ser concebidas em diálogo com as características ambientais de seus territórios.
Essa compreensão foi fortemente influenciada pelas experiências no Japão. O sucesso das políticas de prevenção não depende exclusivamente de investimentos tecnológicos, mas da maneira como escolas, famílias, universidades, governos e comunidades compartilham responsabilidades. Existe uma rede de relações que sustenta a preparação cotidiana para os desastres, e é essa rede que denomino arquitetura da resiliência. O conceito também dialoga com a hermenêutica. Gadamer mostra que as sociedades constroem sentidos por meio da tradição e da experiência histórica, enquanto Heidegger lembra que habitar significa estabelecer uma relação ética com o mundo. Assim, as arquiteturas da resiliência dizem respeito tanto à maneira como organizamos nossas cidades quanto à forma como organizamos nossa convivência e coabitamos o mundo.
Essa perspectiva desloca o foco da simples reconstrução para a construção permanente de capacidades sociais. Uma cidade resiliente é aquela em que cidadãos, instituições e comunidades aprendem continuamente, preservam a memória dos eventos extremos e desenvolvem formas de adaptação capazes de proteger tanto a infraestrutura quanto a dignidade humana.
IHU – Depois desses meses de pesquisa de campo, qual é a principal mensagem que você gostaria de transmitir a pesquisadores, gestores públicos e cidadãos diante da intensificação da crise climática global?
Leonardo Marques Kussler – A principal mensagem da pesquisa é que a crise climática não será enfrentada apenas com tecnologias mais sofisticadas ou grandes obras de infraestrutura. Esses investimentos são fundamentais, mas precisam estar articulados à educação, à cultura, à participação social e à construção de uma ética do cuidado. Em outras palavras, precisamos aprender a habitar um mundo marcado pela incerteza.
Durante muito tempo acreditamos que o desenvolvimento consistia em ampliar nossa capacidade de controlar a natureza. Os eventos extremos mostram os limites dessa visão e indicam a necessidade de uma relação mais responsável com o ambiente. A resiliência nasce justamente do diálogo entre conhecimento científico, experiência social e compromisso coletivo.
Enquanto desenvolvia a pesquisa no Japão, eu acompanhei novas enchentes atingindo o Rio Grande do Sul em julho de 2026. Embora menos devastadoras do que a tragédia de maio de 2024, elas confirmaram que eventos extremos deixaram de ser exceções. Sua repetição reforça uma das principais conclusões do estudo: reconstruir aquilo que foi destruído já não basta; precisamos desenvolver uma cultura permanente de prevenção, aprendizagem e adaptação. Aprender a conviver com a água, não a temê-la, talvez seja uma das tarefas civilizatórias mais importantes do nosso tempo. As universidades têm um papel decisivo nesse processo. Além de produzir conhecimento, precisam fortalecer o diálogo com escolas, gestores públicos e comunidades, contribuindo para transformar pesquisas em práticas sociais.
Por fim, falar em resiliência não significa aceitar passivamente os desastres, mas reconhecer nossa vulnerabilidade para agir de forma mais responsável, cooperativa e solidária. Se conseguirmos compreender essa dimensão ética, a adaptação climática poderá deixar de ser apenas uma estratégia de sobrevivência para se tornar uma oportunidade de construir sociedades mais justas, preparadas e capazes de enfrentar os desafios do século XXI.
IHU – Em sua pesquisa, a memória dos desastres aparece como um elemento formador da cultura da prevenção. O que essa centralidade da memória revela sobre a relação entre experiência, aprendizado coletivo e responsabilidade diante das mudanças climáticas?
Leonardo Marques Kussler – Uma das descobertas mais significativas da pesquisa foi perceber que, no Japão, a memória dos desastres não ocupa apenas um lugar de homenagem às vítimas. Ela possui uma função pedagógica. Como afirmado anteriormente, museus, memoriais, narrativas locais e práticas educativas transformam acontecimentos traumáticos em oportunidades permanentes de aprendizagem, preparando novas gerações para lidar com situações de risco.
Essa percepção aproxima-se da hermenêutica de Hans-Georg Gadamer. Para ele, a experiência (Erfahrung) não consiste apenas em acumular informações, mas em deixar-se transformar pelos acontecimentos. As catástrofes rompem nossas certezas e nos obrigam a reinterpretar o mundo. A memória, nesse contexto, deixa de olhar apenas para o passado e passa a orientar decisões futuras. Essa reflexão começou antes mesmo da pesquisa no Japão. Durante uma missão de estudos na Universidade de Pádua, visitar Veneza despertou uma pergunta que me acompanhou posteriormente também na Holanda e no Japão: será que, diante das mudanças climáticas, cidades como as do Sul do Brasil também precisarão aprender a reorganizar seu modo de vida para conviver mais permanentemente com a água? Talvez o desafio não seja apenas proteger-nos das enchentes, mas desenvolver novas formas de habitar territórios marcados por sua presença.
No Japão, essa aprendizagem torna-se patrimônio coletivo. Mesmo quem nunca vivenciou um grande desastre participa de uma cultura que preserva a memória por meio da educação e dos exercícios de preparação. No Brasil, ao contrário, muitas vezes tentamos reconstruir aquilo que foi destruído, apagar as marcas da destruição, mas esquecemos as lições deixadas pelas tragédias. Assim, fortalecer a memória pública dos eventos climáticos significa assumir uma responsabilidade ética diante do futuro. Uma sociedade resiliente transforma o sofrimento em conhecimento compartilhado e faz da memória um compromisso permanente com as próximas gerações.
IHU – Ao propor uma hermenêutica da resiliência, seu trabalho sugere que enfrentar a crise climática também exige transformar a maneira como interpretamos nossa relação com o mundo. Em que medida essa perspectiva desafia as abordagens predominantemente técnicas ou econômicas da adaptação climática?
Leonardo Marques Kussler – A ideia de uma hermenêutica da resiliência parte do princípio de que a adaptação climática não depende apenas de novas tecnologias ou investimentos em infraestrutura. Esses elementos são essenciais, mas tornam-se insuficientes quando permanecem desvinculados da maneira como interpretamos nossa relação com a natureza, o risco e o futuro. Toda ação humana é orientada por uma determinada compreensão do mundo. Antes de construir cidades ou elaborar políticas públicas, interpretamos o sentido da vulnerabilidade e da convivência com o ambiente. Durante muito tempo predominou a ideia de que o progresso consistia em ampliar continuamente nossa capacidade de controlar a natureza. As mudanças climáticas revelam os limites dessa interpretação.
Nesse ponto, Heidegger oferece uma contribuição importante ao compreender o habitar como uma relação de cuidado com o mundo, e não de domínio absoluto sobre ele. A vulnerabilidade deixa de ser um fracasso e passa a constituir uma condição permanente da existência humana. Essa perspectiva também dialoga com Yuk Hui [8], para quem diferentes culturas desenvolvem distintas relações entre tecnologia e natureza. A adaptação climática, portanto, não deve buscar soluções universalizadas, mas respostas capazes de dialogar com contextos históricos e culturais específicos. Essa ideia aproxima-se igualmente de Arturo Escobar, ao defender que existem múltiplas formas legítimas de habitar e cuidar do mundo.
Essa perspectiva desloca a pergunta central. Em vez de perguntar apenas como controlar os riscos, precisamos perguntar como queremos viver em um mundo inevitavelmente vulnerável. A adaptação climática deixa, assim, de ser apenas um problema técnico para tornar-se também um desafio educativo, cultural e ético.
IHU – A crise climática costuma ser apresentada como um desafio global, mas suas respostas estão profundamente enraizadas em contextos culturais específicos. Que contribuições o diálogo intercultural entre Brasil e Japão oferece para repensarmos a construção de políticas ambientais sem desconsiderar as singularidades históricas e sociais de cada país?
Leonardo Marques Kussler – Talvez a principal lição da pesquisa tenha sido compreender que o diálogo intercultural não consiste em buscar modelos universais, mas em aprender com diferentes experiências sem perder de vista as especificidades de cada sociedade. Brasil e Japão possuem histórias, geografias e desafios muito distintos, e qualquer tentativa de simples transplante de políticas públicas estaria fadada ao fracasso.
A hermenêutica de Gadamer ajuda a compreender esse processo por meio da ideia de fusão de horizontes: compreender o outro não significa eliminar diferenças, mas permitir que elas ampliem nossa própria maneira de interpretar o mundo. Minha trajetória recente acabou formando um percurso intercultural sobre adaptação climática. Nos Países Baixos, conheci iniciativas como o Room for the River e os debates sobre ética da água. Na Itália, a experiência de Veneza mostrou como uma cidade pode organizar sua vida em convivência permanente com a água. No Japão, encontrei uma cultura que articula prevenção, memória, educação e participação comunitária. Cada uma dessas experiências revelou uma dimensão distinta da adaptação climática e reforçou que não existe uma solução única para enfrentar a crise ambiental.
Esse diálogo também pode ocorrer em sentido inverso. O Brasil possui experiências comunitárias, práticas de solidariedade e conhecimentos tradicionais – especialmente de povos indígenas – que oferecem contribuições fundamentais para repensar nossa relação com o território e com a natureza. Aliás, não por acaso, quando estive na TU Delft, nos Países Baixos, minha palestra foi sobre como cosmologias ameríndias podem nos ensinar a lidar com os desastres ambientais, especialmente por tratarem do tema a partir de uma perspectiva não antropocêntrica, que considera e acolhe seres humanos e não humanos.
Essa compreensão aproxima-se da ideia de pluriverso proposta por Arturo Escobar e também da noção de tecnodiversidade desenvolvida por Yuk Hui. Em vez de pressupor uma única trajetória de desenvolvimento, essas perspectivas sugerem que diferentes sociedades podem construir respostas igualmente legítimas para enfrentar a crise climática, desde que respeitem suas histórias, seus territórios e seus modos de vida.
Por fim, acredito que a cooperação internacional precisa abandonar a lógica da simples transferência de soluções e assumir uma ética do aprendizado mútuo. Talvez a maior contribuição da filosofia seja justamente esta: mostrar que compreender o outro é também transformar nossa própria maneira de habitar o mundo.
Notas
[1] Hans-Georg Gadamer (1900-2002): um dos mais importantes filósofos alemães do século XX e o principal representante da hermenêutica filosófica contemporânea. Discípulo de Martin Heidegger, tornou-se internacionalmente reconhecido com a publicação de Verdade e método (Wahrheit und Methode), em 1960, obra na qual sustenta que a compreensão não é um procedimento técnico de interpretação, mas uma dimensão constitutiva da existência humana. Para Gadamer, todo conhecimento é historicamente situado e resulta do diálogo entre diferentes horizontes de sentido – processo que denominou “fusão de horizontes” (Horizontverschmelzung). Suas reflexões influenciaram decisivamente áreas como filosofia, teologia, direito, educação, ciências humanas e estudos da linguagem, consolidando a hermenêutica como uma filosofia do diálogo, da tradição e da abertura ao outro.
[2] Martin Heidegger (1889-1976): filósofo, escritor, professor e reitor universitário alemão. É amplamente reconhecido como um dos filósofos mais importantes de todos os tempos. Pertenceu à fenomenologia iniciada pelo seu professor Edmund Husserl e ampliou seus horizontes a partir de pensamentos diversos, como a filosofia da vida de Wilhelm Dilthey e a interpretação da existência de Søren Kierkegaard, a qual Heidegger buscou superar com a ideia de uma nova ideia de ontologia. Os principais objetivos de Heidegger foram criticar a metafísica característica da filosofia ocidental e fornecer uma base intelectual para uma nova compreensão do mundo. Sobre seu pensamento confira a Revista IHU On-Line Edição 185, de 19-06-2006, O século de Heidegger, disponível aqui, bem como a Edição 187, 03-07-2006, Ser e tempo. A desconstrução da metafísica, disponível aqui.
[3] Tetsurō Watsuji (1889-1960): um dos mais influentes filósofos japoneses do século XX, reconhecido por desenvolver uma reflexão original sobre a relação entre ser humano, ética e ambiente. Dialogando criticamente com a fenomenologia europeia – especialmente com Martin Heidegger –, sustentou que a existência humana é essencialmente relacional e não pode ser compreendida de forma isolada. Em sua obra mais conhecida, Fūdo (Clima e cultura, 1935), argumenta que o clima e o meio geográfico não constituem apenas condições naturais da vida, mas também são elementos que participam da formação das culturas, das instituições e dos modos de habitar o mundo. Já em Rinrigaku (Ética), desenvolve uma filosofia ética centrada na noção de aidagara (entrelaçamento ou “inter-relação”), segundo a qual a vida humana se realiza sempre na coexistência com os outros. Seu pensamento tornou-se uma referência para os debates contemporâneos sobre filosofia ambiental, interculturalidade, ética e relações entre sociedade, natureza e território.
[4] Tony Fry: filósofo, teórico do design e pesquisador australiano, reconhecido internacionalmente por suas contribuições aos estudos sobre sustentabilidade, filosofia do design e futuro. Professor emérito da University of Technology Sydney, tornou-se uma das principais referências no campo do design futures e da teoria do defuturing, conceito por meio do qual critica os modelos de desenvolvimento que comprometem as condições ecológicas e sociais de existência das gerações futuras. Em obras como Design Futuring: Sustainability, Ethics and New Practice (2009) e Becoming Human by Design (2012), defende que o design deve deixar de responder apenas às demandas do mercado para assumir uma responsabilidade ética na construção de modos de vida sustentáveis. Seu pensamento exerce ampla influência nos debates contemporâneos sobre crise climática, transição ecológica, planejamento urbano e políticas de adaptação, ao propor que o desafio central do século XXI consiste em redesenhar instituições, culturas e formas de habitar o mundo em direção a futuros mais resilientes.
[5] Arturo Escobar (1951-): antropólogo colombiano e um dos principais pensadores contemporâneos da ecologia política, dos estudos decoloniais e das alternativas ao desenvolvimento. Professor emérito da University of North Carolina at Chapel Hill, suas pesquisas articulam antropologia, filosofia, ecologia e movimentos sociais para questionar os pressupostos universalizantes da modernidade ocidental. Em obras como Sentipensar com a Terra e Designs para o Pluriverso, Escobar defende que a crise ecológica e civilizatória exige reconhecer a existência de múltiplas formas legítimas de habitar o mundo – o que denomina pluriverso –, valorizando os saberes de povos indígenas, comunidades tradicionais e movimentos territoriais. Sua reflexão tornou-se referência internacional para os debates sobre transição ecológica, justiça ambiental, ontologias relacionais e alternativas ao paradigma desenvolvimentista, propondo que a construção de futuros sustentáveis depende do diálogo entre diferentes modos de existência e de cuidado com a Terra.
[6] Ailton Alves Lacerda Krenak (1953): líder indígena, ambientalista, filósofo, poeta, escritor brasileiro da etnia indígena crenaque. É o primeiro indígena eleito para a Academia Brasileira de Letras. É também professor honoris causa pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e é considerado uma das maiores lideranças do movimento indígena brasileiro, possuindo reconhecimento internacional.
[7] Ian McHarg (1920-2001): arquiteto paisagista, urbanista e teórico escocês, considerado um dos pioneiros do planejamento ecológico e um dos principais precursores do urbanismo ambiental contemporâneo. Professor da University of Pennsylvania, tornou-se internacionalmente conhecido com a publicação de Design with Nature (1969), obra que revolucionou o planejamento territorial ao defender que cidades, infraestruturas e ocupações humanas devem ser concebidas em diálogo com as características ecológicas de cada território. Em oposição aos modelos de desenvolvimento que subordinam a natureza às necessidades imediatas da expansão urbana, McHarg propôs métodos de análise ambiental que integram fatores geológicos, hidrológicos, climáticos e biológicos aos processos de planejamento. Seu pensamento exerceu profunda influência sobre o paisagismo, o urbanismo sustentável, a conservação ambiental e as atuais discussões sobre adaptação às mudanças climáticas, ao sustentar que habitar um território implica compreender e respeitar sua dinâmica ecológica.
[8] Yuk Hui (1982-): filósofo e teórico da tecnologia nascido em Hong Kong, reconhecido internacionalmente por suas contribuições à filosofia da técnica, aos estudos sobre tecnologia e às relações entre cultura e modernidade. Professor da Erasmus University Rotterdam, desenvolveu o conceito de cosmotécnica, segundo o qual toda tecnologia está enraizada em cosmologias, tradições e modos específicos de compreender o mundo, razão pela qual não existe uma única trajetória universal para o desenvolvimento técnico. Em obras como The Question Concerning Technology in China (2016), Recursivity and Contingency (2019) e Art and Cosmotechnics (2021), critica a homogeneização tecnológica promovida pela modernidade e propõe a valorização da tecnodiversidade, isto é, da coexistência de diferentes formas culturais de produzir, utilizar e pensar as tecnologias. Seu pensamento tornou-se uma referência nos debates contemporâneos sobre filosofia da tecnologia, inteligência artificial, crise ecológica e antropoceno, ao defender que enfrentar os desafios globais exige reconhecer a pluralidade das relações entre técnica, natureza e cultura.




