Jornalismo e saúde: a quem serve a (in)formação?

Internet causou grande impacto na circulação de notícias. O mercado, contudo, segue interessado em disseminar suas ideias: basta observar formações oferecidas por parcerias entre mídia empresarial e corporações de saúde. Qual o lugar do SUS nessa engrenagem?

Por Bruno Cesar Dias*, em Outra Saúde

Assim como não só de curiosidade se faz um cientista, gostar de escrever nunca foi regra única para se fazer jornalismo. Quando se pensa, então, em jornalismo e saúde, é necessário ainda mais: construção de pautas que articulem evidências científicas com a realidade dos territórios e que debatam redes de cuidado, economia setorial, inovação e tecnologia diretamente ligadas aos cenários epidemiológicos e serviços de saúde; conhecimento do timing e dos sentidos do que é e do que não é notícia; capacidade de trânsito entre diversos mundos e, principalmente, formação crítica e sólida para se ler um mundo cada vez mais povoado por vieses e disputado por interesses.

Essa disputa, que antes se dava no cotidiano do início da vida profissional, agora acontece no plano da formação: é cada vez maior a presença da saúde em treinamentos e cursos de jornalismo. Contudo, não estamos falando das grades curriculares das faculdades de comunicação, mas sim das formações dentro de empresas jornalísticas, com as oferecidas pelos jornais Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo, pela startup Galápagos e novos arranjos comunicacionais.

O bom jornalismo ensina que se deve desconfiar até das boas notícias. Se a ampliação do tema da saúde nos espaços privados de formação é um movimento aparentemente positivo, cabe questionar quais interesses fazem a saúde ganhar esse tanto de espaço.

Responder essa questão com a profundidade necessária exige passos atrás. Dentro da complexa arquitetura de formatos, processos e conhecimentos erigida pelo universo da comunicação, o jornalismo é uma das construções mais antigas, cotidianas e complexas. Tipógrafos e rotativas possibilitaram a difusão de uma mesma informação para muitas pessoas. Informação é dinheiro. Não à toa, os primeiros jornais surgiram no século XVII para noticiar as rotas comerciais entre a Europa e suas possessões na Ásia e na América e as variações de câmbio decorrentes dessas trocas coloniais.

Informação é política. Mais e mais tipógrafos, rotativas e bobinas de papel possibilitaram o surgimento das gazetas políticas na Europa do século XIX. Perspectivas mundialistas impulsionaram as revistas, os almanaques e a instauração dos grandes veículos nacionais no início do século XX. O desenvolvimento tecnológico da radiodifusão entre 1920 e 1950 trouxe a essa equação as emissoras de rádio e televisão.

Junto à disseminação dessas tecnologias, a capacidade normativa do jornalismo comercial impôs-se como padrão e tornou-se hegemônica: uma produção de conhecimento alicerçada em técnicas discursivas que, a partir de contextos espaciais, históricos, sociais, econômicos e políticos, objetivam e recortam a realidade por critérios de ineditismo, impessoalidade, oposição, objetividade e singularidade, constituindo, assim a forma/valor notícia.

O jornalismo na era das redes

Com a crise representacional do pensamento moderno, amplificada pela consolidação da rede mundial de computadores – a internet –, juntamente com novas tecnologias de informação e comunicação (TIC), fez-se a sociedade em rede, expressão cunhada pelo intelectual espanhol Manuel Castells. No seu esteio, profundas mudanças de paradigma em todos os modos de se produzir e viver, especialmente no campo da comunicação.

Segundo Castells, mais do que um mundo conectado, a internet e as TIC e possibilitaram o autotrabalho, ou seja, um mesmo profissional cuidar de todo o processo produtivo com bases tecnológicas e informacionais. Se ficarmos apenas no âmbito do jornalismo, o mesmo trabalhador checa, entrevista, grava, decupa, edita, monta o link e faz a transmissão. A mesma lógica envolve programadores, editores, cineastas, pesquisadores, professores, artistas e toda e qualquer atividade que pode ser realizada unicamente no ambiente digital, em maior ou menor grau.

No âmbito do jornalismo, o autotrabalho deslocou a ideia de notícia para a noção de conteúdo. Sem a limitação do espaço físico do jornal, sem a necessidade de toda uma infraestrutura para a produção e transmissão audiovisual e somado o aumento exponencial de indivíduos com acesso barateado aos meios de produção digital, todo e qualquer assunto passou a ser discutido e produzido das mais variadas formas e por toda e qualquer pessoa com as mais diversas formações, interesses e interseções. A emergência das mídias sociais catapultou e estreitou ao mesmo tempo as estradas digitais, tornando o blogueiro dos primeiros tempos da internet no agora influenciador digital.

Os resultados dessas novas formas são sensíveis no mercado de trabalho. Dados do Dieese, elaborados a partir da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) e divulgados pela Associação Brasileira de Imprensa (ABI), mostram que o número de trabalhadores formais em funções do jornalismo no segmento de jornais e revistas caiu de 9.870, em 2015, para 4.709 em 2025 – retração de 52,3%. A perda foi de 5.161 postos de trabalho em dez anos – os números não incluem os cenários das redações de rádio, TV e da própria internet.

Quem financia o jornalismo de saúde

No atual ecossistema midiático, o jornalismo comercial e hegemônico precisou ganhar novas dimensões e referenciais para enfrentar a concorrência com uma variada gama de especialistas e leigos que não compõem e/ou recusam o discurso e a prática jornalística. A mesmo tempo, tais empresas precisam também se mostrarem conectadas e em conformidade ao mundo em transformação.

Para isso, os laboratórios de formação e treinamento in company têm sido reformulados. As grandes empresas de comunicação começaram a investir na capacitação de mão de obra para suas próprias redações a partir da década de 1980, em meio aos movimentos de desregulamentação da profissão de jornalista. No Brasil, são exemplos o Curso Abril de Jornalismo, criado em 1984; o Programa de Treinamento em Jornalismo Diário da Folha de S. Paulo, de 1988; e o Curso Estadão de Jornalismo, de O Estado de S. Paulo, de 1990.

A força do mundo digital e o enxugamento das redações forçaram mudanças a esse modelo de capacitação. O treinamento generalista foi abrindo espaço para uma formação de nicho hiperespecializada, A valorização do setor saúde serviu como uma luva: atende à crescente demanda por coberturas complexas e – acima de tudo – possibilita uma maior proximidade dos agentes econômicos do setor, garantindo a viabilidade financeira dos programas de formação por meio de patrocínios e apoios de institutos privadas de ensino e pesquisa, hospitais, empresas farmacêuticas e fundações filantrópicas.

Eis a velha fórmula do capitalismo ganha-ganha. Para as empresas jornalísticas, os patrocinadores são uma fonte de renda e, com os programas, mais uma forma de mantê-los como anunciantes próximos, além de apresentá-los como um ativo publicitário de seus projetos.

Já para as empresas do setor saúde, os cursos possibilitam outras formas de modular seus discursos para o mercado jornalístico, ganhar credibilidade com futuros profissionais e se mostrarem socialmente responsáveis.

Não à toa o curso da Folha destaca na sua divulgação oferecer “uma imersão focada em políticas públicas, medicina e bem-estar” com o apoio e patrocínio do Instituto Serrapilheira, do Hospital Israelita Albert Einstein e de laboratórios de medicina diagnóstica. Já o Curso Jornalismo de Bem-Estar e Saúde do Estadão, voltado para abastecer uma nova plataforma da empresa focada em qualidade de vida, saúde e ciência, tem o patrocínio da Afya, marca da fusão entre a NRE Educacional, maior grupo privado de faculdades de Medicina do país, com a Medcel, empresa de cursos preparatórios para provas de residência médica, e Rede Américas, a gigante joint venture criada pela união de 50% dos laboratórios Dasa e 50% do grupo Amil.

O modelo de formações em jornalismo, contudo, já ultrapassa as grandes redações. A Jornada Galápagos de Jornalismo de Saúde foi criada em 2024 pela startup de mídia Galápagos Newsmaking — empresa fundada pela jornalista Alecsandra Zapparoli, ex-publisher da Editora Abril. A iniciativa já se encontra na sua terceira edição e conta com a Bayer Brasil e a CNN Brasil entre patrocinadores e apoiadores.

Empresas ligadas à perspectiva do jornalismo independente e investigativo, como a Agência Pública, e associações da sociedade civil, como a ACT Promoção da Saúde, também têm feito ações de treinamento, formação e mobilização em comunicação, saúde e/ou direitos humanos. Formatos à parte, as parcerias como grandes investidores se mantêm, como no caso da Pública, cujo novo programa lançado neste ano têm patrocínio da Fundação Itaú e da ONG gringa Imaginable Futures.

Fundamental também destacar que as formações são importantes para os profissionais que as cursam. Em boa parte, são jovens recém-formados (habilitados em jornalismo ou não) que têm nesses programas a porta de ingresso numa carreira cada vez mais disputada e rarefeita. Os cursos e treinamentos abrem possibilidades de se conhecer por dentro os processos produtivos do jornalismo comercial, vivenciar o cotidiano das redações, estabelecer redes de contatos e relacionamentos e, em muitos casos, serem aproveitados pelo quadro das empresas, seja por produção (o precário freela), seja por vínculo trabalhista.

Digo e afirmo pois pude vivenciar todos os passos acima listados em 2006, quando fui selecionado para a 17ª edição do curso de Jornalismo do Estadão. Aos 26 anos, ter feito parte daquela formação respondeu a anseios profissionais e pessoais e possibilitou a inserção de um jovem do subúrbio carioca no mercado de jornalismo em São Paulo, com todas as alegrias, frustrações, conquistas e os perrengues decorrentes desse movimento.

Qual o lugar do SUS nessa engrenagem?

Assim como Heráclito e o rio não são os mesmos após a travessia, nem eu, nem o jornalismo e nem o Brasil são mais os mesmos passados 20 anos. Contudo, o que não mudou foi o posicionamento ideológico dos agentes econômicos frente ao direito à saúde e à plena potência do maior sistema público de saúde do mundo, o SUS.

Em que pese todo o reconhecimento internacional da capilaridade do sistema e sua ampla inserção na vida do povo brasileiro, das práticas do cuidado à vigilância em saúde; sua capacidade de inovação e oferta de serviços, e toda a produção de conhecimento, insumos e produtos de alto valor econômico agregado engendrada pelo e a partir do SUS, a lógica normativa do jornalismo segue dando maior visibilidade às falhas, às limitações e às corrupções – na maioria das vezes apoiadas em fontes e percepções superficiais e limitadas, que não relacionam as carências apontadas às questões estruturais dos modelos econômicos, políticos, trabalhistas e sociais vigentes e à lógica neoliberal e privatizante, que valoriza e disputa sentidos com o SUS, reafirmando a saúde como mercadoria.

Como aponta Izamara Bastos Machado, pesquisadora do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (ICICT/Fiocruz) em sua tese de doutorado, há um SUS midiático que circula nas páginas, sites e transmissões das empresas jornalísticas que reflete o modo como a sociedade se relaciona com as questões que envolvem a saúde do país. Muitas vezes, quando a notícia tem viés positivo, o que aparece não é o SUS, mas sim a instituição hospital, um indivíduo – comumente profissional da medicina, uma parceria público-privada. Quando o viés é negativo, o sistema costuma ser nomeado com suas três letras, evidenciado seus gargalos e a tibieza da gestão pública.

O jornalismo crítico que fazemos aqui no Outra Saúde não nos autoriza a trilhar os caminhos fáceis do maniqueísmo e de julgamentos ex ante. Contudo, são sabidos os interesses que movem os agentes econômicos e como muitos deles atuam, se comportam e posicionam, sejam por meio de suas associações ou de maneira individual. A ligação das pautas de saúde com as editorias de “Bem-estar” já denota a força mercadológica que costuma orientar tais abordagens. Será que tais cursos orientados e patrocinados por esses agentes têm o SUS nas suas agendas? Quem são as pessoas convidadas para debater o sistema público de saúde? Quais são os recortes e a vozes autorizadas e estimuladas nessas formações a falar sobre o “outro lado” da notícia quando o que está em jogo é o aprofundamento insidioso das relações público-privado no cotidiano das unidades de saúde e na definição das políticas e normativas?

Para nós, do campo do jornalismo analítico e crítico e da Comunicação Pública, não há o “outro lado” que não seja estar ao lado do SUS. Suas limitações e gargalos não são entendidos como um problema inerente ao caráter universal e público, mas sim como processos de disputas de conjunto de forças que justamente enfraquece as bases de um projeto coletivo, formado pela expressão do desejo e da luta política e popular dos movimentos sociais e sanitário.

Nossa perspectiva e diálogo junto aos trabalhadoras e trabalhadores das mais diversas unidades e gestões, a pesquisadores e ativistas nos dá a certeza de que a sociedade brasileira ganha muito mais com um jornalismo de saúde que se oriente pelo SUS, seus princípios e desafios.

*Jornalista e pesquisador na área da Comunicação e Saúde, com ampla atuação em veículos de imprensa, movimentos sociais e passagens pela gestão. É especialista em Comunicação e Saúde pelo ICICT/Fiocruz e mestre em Saúde Pública pela ENSP/Fiocruz. Doutorando em Saúde Pública também pela ENSP/Fiocruz, pesquisador e coordenador da equipe de Comunicação do Dicionário de Favelas Marielle Franco e integrante do Grupo Temático Comunicação e Saúde da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (GTCom/Abrasco).

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