Ato de memória às vítimas marca os 31 anos do Massacre de Corumbiara (RO)

Por Carlos Henrique, em CPT

No próximo dia 08 de agosto (sábado), um ato ecumênico no Assentamento Alzira Augusto Monteiro (Linha 02), no município de Corumbiara (RO), marcará os 31 anos do Massacre de Corumbiara, ocorrido em 09 de agosto de 1995.

A programação inicia às 9h, no monumento erguido em memória às vítimas, e segue durante todo o dia com cantos, procissão com cruz e velas, texto bíblico e falas, encerrando com uma missa na Igreja Matriz Perpétuo Socorro às 19h30.

A data serve como uma forma de honrar a memória é manter viva a luta por justiça e dignidade no acesso à terra, para que nunca se esqueça e jamais aconteça novamente. O ato será realizado um dia antes da memória do ocorrido, em virtude da comemoração do Dia dos Pais no domingo.

Histórico do Massacre de Corumbiara

Em agosto de 1995, cerca de 700 famílias Sem Terra ocuparam a fazenda Santa Elina, em Corumbiara (RO). A área estava envolvida em uma disputa judicial, pois não cumpria sua função social e, portanto, deveria ser destinada à Reforma Agrária.

A situação se agravou quando o governo estadual decidiu realizar o despejo dos ocupantes por meio de uma ação policial. Na madrugada do dia 9 de agosto de 1995, a Polícia Militar foi mobilizada para remover os trabalhadores. O acampamento foi brutalmente atacado com bombas de gás, sufocando a todos, especialmente as crianças.

No total, 355 pessoas foram presas e torturadas por mais de vinte e quatro horas seguidas. O tiroteio era ensurdecedor. A operação culminou em um confronto violento, marcado pelo uso excessivo de força pelas autoridades, que resultou no assassinato dos camponeses:

  1. Nelci Ferreira
  2. Ênio Rocha Borges
  3. José Marcondes da Silva
  4. Ercílio Oliveira Campos
  5. Odilon Feliciano
  6. Ari Pinheiro Santos
  7. Alcino Correia da Silva
  8. Sérgio Rodrigues Gomes
  9. Vanessa dos Santos
  10. Darli Martins (desaparecido, tendo a morte presumida declarada em 2020 pela Justiça de Rondônia)

Órfãos, familiares e demais pessoas envolvidas continuam muito abaladas, e sobrevivem com traumas físicos e psicológicos até hoje. É o caso de Genadir Ribeiro (Dirinho), ex-conselheiro da CPT/RO que vivenciou o massacre de perto, e continua em Corumbiara. Além de dois irmãos que estavam presentes no local da violência, ele perdeu um irmão que era vereador na época, morto quatro meses depois, como desdobramento do caso, por dar apoio às vítimas.

“Nós começamos a organizar este ato ecumênico praticamente logo depois do massacre. Na programação, temos mística, cânticos e encenações sobre o acontecimento”, afirma Dirinho.

João Damásio, diácono na Paróquia Nossa Senhora Aparecida, de Colorado Do Oeste, município vizinho a Corumbiara, estava presente no dia 09 de agosto, na época estagiando como seminarista palotino, acolhendo na paróquia as pessoas que sofreram com o massacres, a pedido do então bispo de Guajará-Mirim, Dom Geraldo Verdier.

“Fazer memória deste dia tão sofrido, sangrento, é necessário pra que não caia no esquecimento, pois até hoje, temos gente que sofre com aquela barbárie. Precisamos fazer memória pelos nossos mortos que lutaram em defesa de um pedaço de terra tão necessário. 31 anos se passaram, mas a história continua viva em nossos corações, por isso queremos continuar lembrando a morte dos nossos mártires e a conquista da terra para produzir alimento para toda a nação. Viva a conquista! Viva a resistência! Corumbiara, nunca mais!”, declara João.

Denise Monteiro, presidenta do Sindicato de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais (STTR) de Cerejeiras e Pimenteiras D’Oeste, destaca que a cerimônia tem como objetivo honrar a memória dos que se foram, refletir sobre os fatos e reafirmar o compromisso coletivo com a justiça, a paz e a dignidade humana. “A luta segue pelo acesso e a permanência na terra, e na busca pelas políticas públicas de habitação rural, crédito etc, para que dê dignidade às famílias assentadas”, afirma Denise.

“O ato de memória às vítimas de Corumbiara é um momento de reflexão e denúncia. Reflexão sobre a vida e a necessidade de seguir a luta por justiça. É denúncia das proporções de injustiças e impunidades contra os perpetradores deste massacre, que estão em altos postos de comando do poder em Rondônia.  Denúncia da violência que segue sendo cometida contra territórios ancestrais e tradicionais nestas terras amazônicas. É momento de reafirmar nosso compromisso de lutar para que não ocorram novos Corumbiaras, Eldorados e tantos outros episódios tristes na luta pela terra, trabalho e moradia”, alerta Wellington Lamburgini, da coordenação colegiada da CPT Regional Rondônia.

Relato do Massacre

Texto: João Ribeiro de Amorim, assistente administrativo e irmão do ex-vereador Nelinho

O cruel e sangrento Massacre de Santa Elina, também chamado de Massacre de Corumbiara, completa 31 anos no próximo dia 09 de agosto. O município era recém emancipado, tinha apenas 03 anos de criação. Deixou cicatrizes profundas e tristes lembranças em toda a região do Cone Sul de Rondônia. Esse triste episódio é mais um subproduto da desigualdade social no Brasil, e que tem raízes históricas que remontam desde o colonialismo europeu, que consistia em invadir territórios alheios, escravizar pessoas e distribuir imensas áreas de terras aos chamados senhores feudais. No Brasil, implantaram-se as Capitanias Hereditárias, que eram grandes extensões de terras tomadas dos índios originários e distribuídas aos nobres de confiança do rei de Portugal.

De lá pra cá, ao longo dos séculos, pouca coisa mudou com a ocupação. A desigualdade na distribuição de terras continuou repetindo a mesma gênese de tantos outros massacres acontecidos contra os índios, camponeses e posseiros.

A distribuição desigual de terras e a grilagem na região de Corumbiara remonta ao período da ditadura militar nas décadas de 1960/70/80, quando Rondônia ainda era Território Federal, através de Contrato de Alienação de Terras Públicas (CATPs), onde, primeiro, a tomada de terra dos índios originários, dizimando suas aldeias, roubando suas madeiras e suas riquezas, como foram registrados os casos dos índios Omerê, Akuntsu e o Índio do Buraco, em Corumbiara, que tiveram seus povos exterminados. As melhores terras foram entregues ao grande latifúndio. Aos pobres, restou somente a ocupação que avançou palmo a palmo resultando nos assentamentos Verde Seringal, Vitória da União, Roncauto e Adriana, onde a maioria das vezes resultando em conflitos violentos. 

O Massacre de Corumbiara foi um dia de tristeza e de agonia, que parecia uma eternidade para quem vivenciou aquele triste momento. A tragédia ficou gravada negativamente na história de Rondônia, e a notícia correu o mundo. O conflito envolvendo policiais militares, jagunços e centenas de famílias de sem-terra, resultou na morte e tortura de inúmeras pessoas. Notou-se o despreparo das forças de segurança no trato com a situação, pois, a função seria proteger e salvar vidas. 

Nos relatos consta que, por volta de 3h30 da madrugada, policiais militares e jagunços avançaram e cercaram o acampamento, grande parte deles usando máscaras ou com rostos pintados. O ataque iniciou na escuridão da madrugada com holofotes ligados, arremesso de bombas de gás lacrimogênio e rajadas de tiros que avançou até ao alvorecer do dia, e seguiu pela manhã. Depois de dominados, vários detidos passaram por sessões de espancamento e tortura. Na fuga pela mata, a pequenina e inocente Vanessa dos Santos, de apenas seis anos, quando fugia desesperadamente junto com sua família, teve o corpo transpassado nas costas por uma bala, jorrou seu sangue inocente pelo chão da Santa Elina.  

Consta também nos relatos que as mulheres e crianças que não conseguiram fugir, foram usadas como escudo humano pelos policiais e jagunços, e na sequência, várias execuções, e muitos posseiros fuzilados a queima roupa. Tombaram por terra os mártires: Nelci Ferreira, Enio Rocha Borges, José Marcondes da Silva, Ercílio Oliveira Campos, Odilon Feliciano, Ari Pinheiro Santos, Alcino Correia da Silva e Sérgio Rodrigues Gomes, que foi retirado vivo do local, executado depois, e seu corpo jogado no rio Tanaru, a 70 Km do local. Além disso, vários desaparecidos jamais foram encontrados. É o caso do jovem Darli Martins, morador da linha 05, filho de pioneiros de Corumbiara, e seu corpo nunca mais foi localizado para um enterro digno. 

Em janeiro de 2020, a Justiça de Rondônia finalmente declarou a morte presumida do jovem Darli. No confronto, também morreram 02 policiais: Tenente Rubens Fidélis Miranda e Soldado Ronaldo de Souza. Em tratamento desumano, típico de campo de concentração, foram confinados no campinho de futebol do assentamento Adriana, depois de muitos espancamentos e hematomas pelo corpo, foram jogados em caminhões de carroceria. Cerca de 355 pessoas foram aprisionadas e levadas para o ginásio poliesportivo e delegacia de polícia de Colorado do Oeste, onde, sem se alimentar, sofreram as piores humilhações, fisicamente, moralmente e psicologicamente, quando tiveram que ficar somente de roupas íntimas.  

Em 21 de agosto de 1998, proposto pelo então vereador Valdemar, popular Sapo (in memoriam) foi criado a Lei Municipal nº 137, que estabeleceu o dia 9 de agosto como feriado municipal em Corumbiara, onde o município rememora as vítimas do Massacre de Corumbiara. 

A luta e o sangue derramado não foram em vão. Às custas de muito sangue derramado por esses mártires, resultaram vários assentamentos, sendo em Corumbiara criado o Assentamento Guarajus, também denominado de Nova Vanessa, em memória a pequena Vanessa, e no município de Theobroma sendo criados os assentamentos Santa Catarina, Rio Branco e Lagoa Nova, e a consequente criação da Vila Palmares do Oeste.   

Em função do conflito, alguns dias após, a região de Corumbiara voltou ao palco dos noticiários. Em dezembro daquele ano, foi assassinado covardemente o vereador Manoel Ribeiro, o Nelinho, que era muito querido por todos na região, e que apoiou moralmente os camponeses de Santa Elina. O massacre de Corumbiara levou Rondônia e o Brasil a responderem na Comissão Interamericana dos Direitos Humanos (CIDH), da Organização dos Estados Americanos (OEA) por violação do direito à vida e dos direitos humanos. 

Quinze anos após o massacre, houve novas ocupações, e com a tensão eminente, foi desapropriada parte da Fazenda Santa Elina, que compreende Água Viva e Maranatá, subdivididas em denominações de vários assentamentos que levam o nome de Zé Bentão, Renato Natan, Alzira, etc, onde mais de 700 famílias de assentados produzem e alimentam seus filhos.

“Meu Senhor, pelos Santos Inocentes, quero Vos rogar hoje por todos aqueles que são injustiçados, sofrem ameaças, são marginalizados e incompreendidos. Olhai pelos pequeninos, abandonados e assassinados pela estrutura de morte de nossa sociedade. Que convosco eles alcancem dignidade e paz. Amém.”

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

17 − 1 =