O sonho de Marco Rubio. Por Christian Lynch*

Secretário de Estado dos EUA busca a submissão sem disfarces de toda a América Latina a Washington

No Meio

Marco Rubio se deita em Washington depois de um dia de telefonemas com Caracas e de sanções assinadas contra Havana, e adormece com a facilidade de quem tem a consciência tranquila. Como todo homem público de vocação missionária, ele sonha, e o sonho tem enredo fixo: uma república imensa, ordeira e armada, cercada de nações agradecidas que lhe devem a segurança e o pouco de prosperidade que lhes toca. No centro da cena está o filho de imigrantes cubanos, explicando ao continente inteiro, em espanhol fluente, o que o continente deve fazer.

Marco Rubio também tem um sonho, e esse sonho guarda pouca semelhança com o de Martin Luther King.

O que King anunciou em 1963 era a promessa jeffersoniana levada ao limite: a América como nova república romana, terra da liberdade e de braços abertos, obrigada a estender a todos os homens os direitos que declarara evidentes por si mesmos. Rubio sonha com a outra Roma, aquela que organizou o mundo conhecido em províncias, protetorados e cidades aliadas, todas gravitando em torno da capital e dos patrícios reunidos no Senado, que os americanos instalaram num edifício batizado de Capitólio.

Os Estados Unidos sempre tiveram essas duas faces, e a segunda costumou vestir-se com as roupas da primeira. Polk anexou metade do México em nome do Destino Manifesto. McKinley entrou em Cuba para libertá-la do jugo espanhol e saiu de lá com Guantánamo, a Emenda Platt e o direito de intervir na ilha sempre que lhe conviesse; ficou ainda com Porto Rico e com as Filipinas, cuja anexação foi justificada como tutela civilizatória sobre povos julgados incapazes de se governar. Theodore Roosevelt separou o Panamá da Colômbia para abrir um canal e converteu a doutrina Monroe em título de polícia hemisférica. A série prosseguiria pelas ocupações do Haiti, da Nicarágua e da República Dominicana. Para cada Jefferson houve muitos Polk e muitos McKinley, e a contabilidade nunca favoreceu os primeiros.

Os Estados Unidos sempre puseram o próprio interesse nacional em primeiro lugar, à maneira de qualquer potência que se preze, e nisso se distinguem da maioria dos países da América Latina. O mal da relação hemisférica esteve menos no zelo americano pelos próprios interesses do que na dificuldade dos vizinhos em cuidar dos seus, e na disposição de tomar a tutela estrangeira por benefício e a subordinação por destino. A novidade do momento está no desaparecimento do disfarce. O império costumava oferecer alguma coisa em troca da obediência: a Boa Vizinhança de Franklin Roosevelt, o Ponto IV, a Aliança para o Progresso, os empréstimos, a promessa de industrialização, o argumento de que a segurança hemisférica e o desenvolvimento da região formavam uma causa só. Havia hipocrisia em tudo isso, e a hipocrisia é o tributo que o vício paga à virtude, o que supõe ao menos que a virtude valha alguma coisa. Agora nada se oferece em troca. Restam tarifas, sanções pessoais, interferência eleitoral aberta e, no limite, a invasão. O lado escuro da lua virou breu justamente quando os Estados Unidos passaram a se sentir decadentes.

Os termos são do próprio Rubio e de seus assessores, e a Venezuela mostra o que eles significam na prática. A operação de janeiro removeu Maduro do poder e o levou a responder a processo em Nova York, sem tocar no resto do regime. Sua vice-presidente assumiu o governo interino, os quadros do chavismo permaneceram nos seus postos, a máquina repressiva continuou de pé, e Washington passou a decidir quem manda em Caracas. O que mudou foi o destino da renda, com o petróleo e os minerais do país submetidos a um arranjo administrado pela Casa Branca, celebrado como bom negócio para os Estados Unidos. A ditadura foi conservada inteira e apenas trocou de patrão. Rubio administra o conjunto como vice-rei, diante de uma presidente encarregada que obedece com presteza.

Cuba é o capítulo seguinte, e para Rubio é também pessoal. A ilha está sob asfixia econômica calculada para produzir mudança de regime antes do fim do mandato de Trump, agora que perdeu o patrocinador venezuelano e não encontrará outro. Rubio avisou que qualquer válvula de escape ao cerco será fechada assim que aparecer. O que se desenha para depois é a restauração da relação de protetorado interrompida em 1959, que Miami nunca deixou de tomar por horizonte natural.

A eleição brasileira foi incorporada à agenda externa americana como assunto doméstico de Washington

O Brasil recebeu a sua parte: tarifas aplicadas sob justificativa explicitamente política, sanções pessoais contra autoridades do Judiciário, intervenção no processo eleitoral e proximidade ostensiva com a família Bolsonaro. A eleição brasileira foi incorporada à agenda externa americana como assunto doméstico de Washington.

A legitimação vem das urnas, e é aí que o arranjo alcança sua forma acabada. Na prática, limpa e livre é a eleição que produz o resultado desejado, e a Venezuela forneceu a contradição exemplar: a intervenção foi justificada pela fraude de 2024 e terminou no reconhecimento da número dois do fraudador, enquanto os vencedores daquele pleito ficavam de fora do acordo. O Brasil mostra a outra face do método, com emissários do Departamento de Estado enviados para questionar a confiabilidade das urnas meses antes da votação, de sorte que a suspeita esteja pronta antes da apuração. O certificado de lisura é expedido por quem indultou os invasores do Capitólio e sancionou o ministro que julgou os invasores do Planalto. Compõe-se assim a fantasia de uma unanimidade continental: uma fileira de governos amigos com selo americano de qualidade democrática, todos empenhados na tarefa de fazer os Estados Unidos grandes de novo.

Fazer a América grande de novo significa submeter o continente, por razão de Estado, às necessidades vitais da política americana

A invasão é recurso extremo e permanecerá excepcional, mas o programa que ela inaugura dispensa tropas para valer no continente inteiro: guerra às drogas segundo prioridades americanas, cooperação policial em matéria de imigração, hostilidade a juízes e jornalistas e abertura legislada em favor de empresas americanas. Cada país deve produzir a sua réplica subordinada do governo Trump, e cada réplica dependerá do reconhecimento de Washington para se sustentar, na condição de província oficiosa, sem o ônus da anexação e sem o direito de divergir. Fazer a América grande de novo significa submeter o continente, por razão de Estado, às necessidades vitais da política americana, e subordinar as economias da região às exigências da competição geopolítica com a China.

Filho de cubanos chegados a Miami em 1956, antes da Revolução, Rubio construiu retrospectivamente para a família uma identidade de exílio. Apresenta-se como o latino mais americano que qualquer americano branco e o católico mais devoto que qualquer protestante, com um catolicismo militante atravessado pela passagem mórmon da infância e pela frequência evangélica da vida adulta. São credenciais de fé que nenhum episcopaliano de Boston precisaria apresentar. É o zelo do converso, e o império romano conheceu bem esse tipo. Trajano e Adriano vieram da Bética (atual Andaluzia), Septímio Severo veio de Leptis Magna, na Líbia. Os administradores mais empenhados das províncias saíam com frequência das próprias províncias, porque o provinciano que chega ao centro precisa provar que é mais romano que os romanos. Rubio carrega um sobrenome que a base eleitoral do partido associa a quem deve ser barrado na fronteira. Cabe-lhe, por isso, mostrar-se mais radical que o vice-presidente Vance, que não carrega nenhum.

O cálculo de Miami já foi descrito por gente do próprio partido: quem derrubar Havana depois de Caracas vira herói eterno na Flórida e chega a 2028 com credencial de libertador. Vice-rei da Venezuela desde janeiro, ele é desde já aspirante a imperador das Américas.

A comunidade que se anuncia ao continente tem a forma do protetorado, e o modelo está à vista desde 1898. Chama-se Porto Rico. Os porto-riquenhos têm cidadania sem voto presidencial, mercado e moeda americanos e um representante no Congresso sem direito a votar no plenário, numa condição que não é a de estado nem a de nação. Ninguém entra nos Estados Unidos. Gravita-se em torno deles, e gravitar é descrito como privilégio: acesso ao mercado, ao dólar, ao modo de vida, à proteção militar contra a China. Uma parte da direita latino-americana já adotou essa descrição e a repete sem constrangimento, o que poupa Washington do trabalho de sustentá-la sozinha e transfere para as capitais da região a maior parte da responsabilidade pelo que vier depois.

Rubio acorda satisfeito. A cidade ainda está quieta, e da janela se vê o Capitólio, com a cúpula branca, as colunas e a estátua armada no alto. O edifício foi erguido por arquitetos que copiaram Roma com aplicação de provincianos e terminaram por construir algo mais romano que Roma. A latinidade imperial saiu do Mediterrâneo e se mudou para as Américas, e o homem que a encarna nasceu em Miami, filho de um barman e de uma arrumadeira de hotel. Ele toma o café, veste o terno e vai trabalhar no sonho.

*Cientista político, editor da revista Insight Inteligência e professor do IESP-UERJ.

Enviada para Combate Racismo Ambiental por Zelik Trajber.

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