Brasil se prepara para uma campanha eleitoral difícil, marcada pela interferência liderada por Trump e pela extrema-direita global

O presidente Lula da Silva concorre à reeleição em outubro contra Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente de extrema-direita condenado por tentativa de golpe e apoiado pelo governo de Donald Trump.

por Bernardo Gutiérrez, em elDiario.es, IHU

O presidente Lula da Silva inaugurou a campanha eleitoral no último domingo em São Bernardo do Campo, a cidade industrial onde forjou sua lenda de sindicalista, envolto na bandeira brasileira e apelando à soberania nacional. Simone Tebet, ministra do Planejamento e Orçamento durante o atual mandato de Lula, foi um pouco mais longe: “Enquanto falam de pátria, quem defende as cores verde e amarela somos nós, porque eles desfilam com bandeira estrangeira. São traidores da pátria”. Quase simultaneamente, Flávio Bolsonaro, candidato do Partido Liberal (PL), se gabava na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, de ser o único que pode negociar com os Estados Unidos.

Brasil, que no próximo dia 4 de outubro elege presidente, governadores, deputados e senadores, vive sua campanha eleitoral mais atípica. Nas últimas semanas, a ingerência de Donald Trump e dos Estados Unidos na política brasileira fez soar todos os alarmes em Brasília. Em maio, após sua visita à Casa Branca, o presidente brasileiro, Lula da Silva, declarou de forma taxativa que Trump “não vai ter nenhuma influência nas eleições brasileiras, porque quem vota é o povo brasileiro”. No entanto, a reconciliação entre os dois mandatários ruiu em poucas semanas. E a sombra da intervenção trumpista nas eleições foi se abatendo sobre Brasília a passos largos. O desencontro político provocou uma situação inédita no plano diplomático: os Estados Unidos não têm embaixador no Brasil desde janeiro de 2025, e o governo Trump acaba de revogar o visto de Maria Luiza Ribeiro Viotti, embaixadora brasileira em Washington.

O primeiro alerta chegou a Brasília após a viagem de Flávio Bolsonaro a Washington, no final de maio. Sua reunião com o chefe do Departamento de Estado, Marco Rubio, e o vice-presidente, JD Vance, forçou os Estados Unidos a declarar os grupos de traficantes brasileiros como organizações terroristas. Desde então, o intervencionismo estadunidense no clima político brasileiro foi in crescendo, com ações inéditas: o instituto estadunidense McLaughlin & Associates, vinculado a Trump, realizou pesquisas sobre as eleições do Brasil; Washington impôs uma nova sobretaxa de 25% ao país sul-americano; aumentou a pressão contra o Pix (sistema público de pagamentos eletrônico); organizou um encontro com influenciadores bolsonaristas no consulado estadunidense em São Paulo; renovou por um ano a emergência nacional dos Estados Unidos contra o Brasil, por considerar o país uma “ameaça extraordinária”… Como se não bastasse, o The Wall Street Journal revelou que Trump enviou ao Brasil dois altos assessores do Departamento de Estado, Riley M. Barnes e Samuel Samson, para questionar o sistema de urnas eletrônicas do país sul-americano. O Brasil evitou a situação negando-lhes o visto.

O caso mais rocambolesco de tentativa de ingerência tem a ver com a nomeação de Daniel Perez, deputado da Flórida da ala mais radical do trumpismo, sem carreira diplomática, como embaixador dos Estados Unidos no Brasil. O Senado dos Estados Unidos ratificou sua indicação sem contar com o agrément (aprovação diplomática) do governo do Brasil, algo que descumpre o artigo 4 da Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas de 1961. O governo Trump, por sua vez, vinculou a revogação do visto da embaixadora brasileira nos Estados Unidos à não aceitação de Daniel Perez. “O bizarro deste caso é que os Estados Unidos não seguiram de forma alguma as convenções internacionais. É um comportamento totalmente contrário às regras internacionais”, afirmou Celso Amorim, assessor especial da Presidência para assuntos internacionais, em uma audiência no Congresso dos deputados. Para a jornalista Natalia Viana, diretora executiva da Agência Pública, o envolvimento direto do Departamento de Estado estadunidense nas eleições brasileiras não está provocando apenas “tensões diplomáticas”, mas já configura “ingerência inaceitável e sem precedentes” desde o golpe militar de 1964.

Um novo tipo de golpe?

Filipe Reis, professor de Relações Internacionais da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), alerta em videochamada com o elDiario.es sobre a imprevisibilidade das ingerências estadunidenses no processo eleitoral brasileiro: “Acredito que as autoridades brasileiras não estão suficientemente atentas para defender a soberania nacional. Não estão se preparando para um tipo de postura dos Estados Unidos mais agressiva contra o Brasil e contra o próprio governo Lula”. Filipe Reis alerta inclusive sobre possíveis ataques de guerra híbrida, que envolvam questões políticas, intervenções na economia e conteúdo em plataformas digitais, dada “a confluência de interesses corporativos das Big Techs e o governo dos Estados Unidos”. Fontes diplomáticas do Brasil consultadas por este meio pedem cautela e defendem respostas proporcionais para cada situação que se apresente, como a recente aplicação da lei de reciprocidade contra os Estados Unidos, que tarifará os produtos estadunidenses com o mesmo percentual do “tarifaço” ao Brasil.

Não obstante, a ingerência internacional não está vindo apenas dos Estados Unidos, mas de vários atores da internacional ultradireitista. Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, após se reunir com Flávio Bolsonaro, enviou um vídeo de apoio à sua campanha, incitando os “evangélicos” a iniciar uma guerra de civilizações. Por outro lado, a entrada em cena do presidente argentino, Javier Milei, que compareceu ao ato de lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro e chamou Lula de presidiário, provocou um atrito diplomático inédito na história. O Brasil rebaixou sua relação diplomática com a Argentina, expulsando seu embaixador em Brasília e retirando o seu de Buenos Aires. Mauro Vieira, ministro das Relações Exteriores, em artigo recente critica com dureza a conivência do bolsonarismo com a internacional ultra: “Agredir, ameaçar, proferir insultos ao anfitrião, seja em casa, seja no país de quem acolhe a visita, ou conspirar contra a própria pátria no exterior, são atitudes equivocadas e condenáveis. (O Brasil) não será governado por controle remoto a partir de uma capital estrangeira”.

Após as intervenções de Trump e Milei em favor de Flávio Bolsonaro, fontes do governo brasileiro reconheceram à Folha de S.Paulo o medo de uma intervenção coordenada com a ajuda das grandes empresas de tecnologia. O maior temor tem a ver com uma avalanche de desinformação e uso de inteligência artificial a poucos dias das eleições. As últimas pesquisas revelam que as eleições, nas quais Lula tem uma ligeira vantagem, não estão decididas. Lula venceria Flávio Bolsonaro no segundo turno por 43% a 40%, estando dentro da margem de erro, segundo a pesquisa Quaest de 14 de agosto.

Em meio à incerteza e aos temores de uma ingerência maior de Donald Trump na campanha, a Polícia Civil do Distrito Federal desmantelou um grupo neonazista de 600 pessoas que planejava explodir o palácio presidencial, com o presidente Lula dentro, antes da realização do segundo turno das eleições.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

dezesseis + 2 =