O verão que incendiou a Europa e mudou a relação do continente com o clima. Por Henrique Cortez

Entre recordes de calor, rios secos e quase 600 mil hectares em chamas, o continente descobriu que o verão dourado da infância de gerações virou coisa do passado

EcoDebate

Enquanto termômetros bateram 42 graus e milhares de pessoas fugiram de casa por causa do fogo, a Europa também enfrenta uma epidemia silenciosa: a ecoansiedade que já afeta milhões e muda para sempre a relação do continente com suas próprias estações.

(Esquerda) Anomalias e extremos na temperatura do ar superficial em junho-julho de 2026. As categorias de cores referem-se aos percentis das distribuições de temperatura para o período de referência de 1991-2020. As categorias “mais frias” e “mais quentes” identificam áreas onde as temperaturas foram as mais baixas ou mais altas para junho-julho durante 1979-2026. (À direita) Anomalias de temperatura média do ar da superfície de junho a julho para a Europa Ocidental (11°W–15°E, 37°–55°N). As anomalias são relativas à média de junho a julho para o período 1991-2020. Fonte de dados: ERA5. Crédito: C3S/ECMWF.

Eu ouvi meus avós contarem sobre os verões europeus, como quem descreve um quadro pintado a óleo. Dias compridos, brisa suave, tardes agradáveis e o som distante de cigarras cantando ao entardecer. Essa imagem romântica, que alimentou gerações de viajantes, poetas e cineastas, parecia eterna, quase intocável pelo tempo. Mas 2026 chegou e rasgou a tela.

Maio ainda não tinha acabado quando as primeiras ondas de calor começaram a assar o continente. E não era aquele calor “gostoso” de praia, o tipo que convida para um mergulho e um sorvete. Era um ar sufocante, dos que grudam a roupa na pele e fazem o asfalto parecer que treme diante dos olhos. Os termômetros dispararam para 40 graus Celsius, e não apenas na Espanha ou na Itália, países já acostumados com altas temperaturas no verão.

Nações que sempre foram sinônimo de frescor e céu nublado, como a Dinamarca, viram os termômetros baterem 37 graus. Já a Eslováquia chegou a impressionantes 42,2 graus. Recordes que ninguém queria comemorar, mas que entraram para a história mesmo assim.

Um verão sem trégua

E o pior é que esse sufoco não dava descanso. Até meados de agosto, a França já tinha vivido 52 dias em condições de onda de calor desde junho. Para se ter uma ideia da gravidade, os dias mais amenos foram tão raros que dava para contar nos dedos de uma mão. Em Paris, onde o ar-condicionado ainda é considerado um luxo em muitos lares antigos, moradores passaram a cobrir as janelas com mantas térmicas de sobrevivência, como se estivessem se preparando para enfrentar um cerco. E, de certa forma, era mesmo uma guerra, só que travada contra a temperatura.

Mas o problema não era apenas o desconforto do dia. O calor noturno, que se recusava a baixar mesmo depois da meia-noite, transformou o verão num pesadelo silencioso para milhões de pessoas. Entre junho e agosto, estima-se que 32 mil mortes em excesso tenham ocorrido na Europa em razão das temperaturas extremas. São números frios no papel, mas que escondem histórias muito humanas: idosos que morreram sozinhos em apartamentos sem ventilação, famílias que não conseguiram proteger os mais frágeis a tempo, vizinhos que só perceberam a ausência dias depois.

As cicatrizes que não aparecem no termômetro

E mesmo quem sobreviveu fisicamente ao calor carregou marcas invisíveis. Um estudo francês revelou que 2,6 milhões de pessoas no país sofrem hoje de “ecoansiedade”, um misto de pessimismo, angústia existencial e isolamento social diante da certeza cada vez mais concreta de que o planeta está mudando para pior.

Não é exagero, é diagnóstico. E é um retrato de como o clima extremo já não afeta só o corpo, mas também a mente e o modo como as pessoas imaginam o próprio futuro.

Quando a terra pega fogo

Quando a natureza já parece estar de mau humor, ela não para por aí. O calor implacável secou rios, rachou o solo e forneceu combustível de sobra para incêndios devastadores. Até 12 de agosto, o fogo já tinha consumido quase 600 mil hectares em todo o continente, uma área maior do que o estado brasileiro de Sergipe inteiro.

Na França e na Espanha, dezenas de milhares de pessoas tiveram que abandonar suas casas às pressas, levando apenas o que conseguiam carregar nos braços. Até países como a Bélgica e a Escócia, conhecidos historicamente pela chuva constante e pelo céu cinza, viram chamas como nunca antes. A Bélgica, inclusive, viveu seu maior incêndio florestal em um século, um recorde triste para um país que raramente associava o verão ao medo do fogo.

A seca que ninguém via chegar

Enquanto colunas de fumaça subiam aos céus como sinistros sinais de alerta, outra catástrofe se espalhava devagar, quase invisível aos olhos de quem não presta atenção: a seca. No fim de julho, metade do continente já estava em estado de alerta hídrico. França, Suíça, Áustria e Eslovênia registraram os níveis mais baixos de umidade no solo já vistos em décadas.

A terra pedia água, e a água, ironicamente, também esquentava. O Mar Mediterrâneo bateu recordes de temperatura superficial em julho, chegando a 27 graus. Em algumas áreas, durante as duas semanas mais quentes do verão, a água ficou até seis graus acima do normal histórico. Quem entrava no mar em busca de um refresco sentia menos um mergulho revigorante e mais um banho morno, quase incômodo.

Cientistas já sabiam, mas muitas pessoas ainda não queriam acreditar

E o que dizer dos cientistas que acompanham tudo isso com a calma de quem já previa o roteiro há tempos? Para eles, não houve surpresa alguma. Os modelos climáticos já desenhavam um verão como esse há anos, quase como um aviso ignorado.

A verdadeira surpresa, talvez, tenha a de quem ainda insistia em acreditar que o verão europeu seria sempre aquela tela dourada e serena, pintada por Van Gogh e reforçada por décadas de cartões-postais.

O que fica depois das cinzas

Agora, enquanto o continente tenta se reerguer entre cinzas e racionamento de água, fica a pergunta que ecoa em cada conversa de bar, em cada olhar perdido no metrô, em cada família que precisou recomeçar longe de casa: o que vem depois do verão que queimou a Europa?

Porque se 2026 nos mostrou alguma coisa, é que o sonho de um verão ameno e romântico chegou ao fim. E a realidade, essa sim, veio para ficar.

*Henrique Cortez, jornalista e ambientalista.

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